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Um aluno subversivo |
Por um fio
Alexandre Calandra
Há algum tempo, fui procurado por um colega que me perguntou se eu estaria disposto a ser árbitro numa disputa com um aluno de física num exame final. Ele queria dar nota zero na prova, enquanto o aluno insistia que deveria receber nota dez se o sistema fosse justo. O professor e o aluno concordaram em submeter a questão a um árbitro isento, e eu fui escolhido.
Fui à sala do meu colega e li a questão: "mostre como é possível determinar a altura de um prédio de vários andares com o auxílio de um barômetro."
O estudante havia respondido: "leve o barômetro ao topo do edifício, amarre um fio e deixe o barômetro descer até o chão. Traga-o para cima medindo o comprimento do fio. O comprimento do fio será igual à altura do edifício".
Eu disse ao meu colega que o aluno tinha razão de exigir a nota máxima, pois tinha respondido a questão correta e completamente. Por outro lado, a nota dez indicaria uma alta competência em física, o que não parecia ser o caso. Sugeri então que fosse dada uma nova oportunidade ao aluno. Meu colega concordou mas, surpreendentemente, o aluno reagiu. Afinal, aceitou, e dei a ele seis minutos para uma nova tentativa, não sem antes alertá-lo de que a resposta deveria demonstrar algum conhecimento de física.
Ao final de cinco minutos o aluno não havia escrito nada. Perguntei-lhe se queria desistir e ele respondeu que não. Disse que tinha várias respostas ao problema e estava pensando qual delas seria a mais adequada. No minuto seguinte, escreveu a resposta: "leve o barômetro ao topo do edifício. Deixe o barômetro cair, cronometrando o tempo que leva para atingir o solo. A altura do edifício é a aceleração da gravidade vezes o quadrado do tempo que o barômetro levou na queda livre."
Perguntei então ao meu colega se ele queria desistir. Concordou e dei ao aluno nota oito.
Saindo da sala, lembrei-me que o aluno havia dito que tinha outras soluções para o problema e quis saber quais eram.
"Bem”, disse ele, “há muitas formas de se conseguir medir a altura de um edifício alto com ajuda de um barômetro. Por exemplo, você poderia pegar o barômetro em um dia ensolarado, colocá-lo de pé, e medir a sua sombra. Depois medir a sombra do edifício e, através de uma simples regra de três, concluir a altura do edifício."
"Muito bem", disse-lhe," e as outras?"
"Sim, tenho uma solução que vai agradá-lo. Comece a subir as escadas marcando na parede o tamanho do barômetro. Quando chegar ao topo conte quantas marcas fez na parede e terá a altura do edifício em unidades de barômetro. Depois é só multiplicar pela altura do barômetro. Um método bastante direto. E se você quiser um método mais sofisticado, é só amarrar o barômetro com um fio, balançando-o como um pêndulo e determinar a aceleração da gravidade ao nível do solo, depois repetir a operação no topo do edifício. Pela diferença de g você pode, em princípio, determinar a altura do edifício. Há muitas maneiras de medir a altura do edifício, talvez a melhor seja ir ao subsolo e procurar a sala do síndico. Bata na porta, e quando o sindíco atender, diga-lhe: Senhor síndico, eu tenho aqui um excelente barômetro. Se o Sr. me disser a altura deste edifício, eu lhe darei o barômetro."
A estas alturas, perguntei ao aluno se ele realmente não conhecia a resposta convencional a este problema. Ele confessou que sabia, mas estava cansado de professores que queriam ensiná-lo a pensar usando o enfoque científico de uma forma padronizada, explorando as soluções de forma previsível, ao invés de ensinar a estrutura dos assuntos abordados.
Alexandre Calandra é membro do Departamento de Física da Universidade Washington, St. Louis, Missouri. Este artigo foi extraído do seu livro "The Teaching of Elementary Science".
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