|
A pulverização da classe dominante |
Leonildo Correa -- Faculdade de Direito -- USP
Existe uma classe ou apenas grupos dominantes ? Suspeito que tenha acontecido uma pulverização da classe dominante em milhares de pequenos grupos hegemônicos, cada um controlando e ditando as regras de uma área, de uma temática. Por exemplo, na questão agrária a classe dominante são os ruralistas e os oprimidos são os sem-terra.
A classe dominante sempre foi relacionada à propriedade privada e definida como a dona dos meios de produção, que utilizava o Estado como instrumento de sua dominação sobre toda a sociedade. Contudo hoje esta definição é pouco eficaz e já não traduz mais a realidade, pois a propriedade dos meios de produção mais importantes (grandes indústrias, bancos, etc) foram pulverizados em milhares, às vezes, milhões de pequenos pedaços (ações) ou entre grupos excessivamente amplos e meramente gestores de interesses (fundos de pensão).
Certamente, existe uma parcela de indivíduos que continuam como detentores de grandes empresas, mas estas já não possuem mais a força de outrora. Nesta mesma condição se enquadram os pequenos empresários que também não possuem força suficiente para interferir e determinar a direção do poder hegemônico.
Portanto, definir a classe dominante como a detentora de meios de produção, na atualidade, não identifica mais a classe que oprime a coletividade. Os pequenos empresários são tão oprimidos quanto os indivíduos, assim como grandes empresas são massacradas pelos bancos, etc. Logo, a identificação da classe dominante exige algo mais do que o mero fato de ser detentora de meios de produção, ou seja, a definição tem quer deslocada para outro fundamento, para outra base.
Neste contexto e considerando a característica fundamental da velha classe dominante: opressão e exploração da coletividade, a melhor definição é aquela que relaciona e identifica a classe dominante com o domínio e controle do Estado contra os interesses da coletividade, ou seja, contra os interesses da maioria dos cidadãos. Em outras palavras, a classe dominante não é aquela que tem os meios de produção, mas sim aquela que manipula e maneja o Estado em benefício de seus interesses e contra a coletividade. É a classe que usa o Estado para explorar e oprimir a sociedade e obter vantagens particulares.
Assim, este novo conceito comporta não só os donos dos meios de produção, mas também a burocracia estatal e os grupos gestores de interesses (fundos de pensão, cooperativas, Associações, Sindicatos, Ongs, etc). Grupos que interferem e determinam as decisões do Estado em benefício de seus interesses e contra a vontade da coletividade, prejudicando a maioria dos cidadãos, principalmente os mais fracos: pobres, negros, etc.
Neste sentido há uma diversidade de classes dominantes, ou seja, cada tema e cada área tem a sua classe dominante. Contudo, se o grupo defende os interesses da maioria, interesses da coletividade, não pode ser identificado como classe dominante, mas sim como uma organização social ou organização da coletividade. Mas, se é um pequeno grupo ditando regras e orientando o assunto, influenciando e determinado as decisões do Estado naquela área, pode-se dizer que ali há uma classe dominante.
Por exemplo, se o assunto é propriedade rural a classe dominante é constituída pelos ruralistas e os dominados/oprimidos são os sem-terra, excluindo-se desta relação dominante/dominado os trabalhadores urbanos. Se o tema é proteção ambiental são as madeireiras, ou algumas Ongs, contra as comunidades indígenas. Se a questão é Administração Pública, a classe dominante é a burocracia estatal, ou seja, os burocratas são os opressores e os cidadãos ou usuários do serviço público, são os oprimidos. Assim, o INSS é o opressor, enquanto os aposentados são os oprimidos; as Secretarias de Segurança Públicas formam uma classe dominante, enquanto que os Presidiários e seus familiares são os oprimidos, etc).
É importante focalizar um pouco mais a questão da Administração Pública, pois os funcionários públicos, em sua maioria, não tem poder para emitir uma decisão, mas podem interferir no surgimento, no cumprimento ou na execução dessa decisão. É importante lembrar que a burocracia movimenta a máquina estatal e tem poder para ditar a velocidade desse movimento, podendo, inclusive, pará-la. Basta ver as greves nos serviços públicos.
Além disso, temos que considerar que classe dominante não é apenas um grupo instalado no poder, ou seja, um grupo que maneja o poder hegemônico em seu benefício e interesse, mas é um pensamento, uma visão de mundo. Resumindo, é quase um comportamento, pois existem indivíduos que não possuem nada, mas se comportam e defendem interesses, projetos e idéias típicas de detentores dos meios de produção, ou seja, pessoas que direcionam suas ações em prol de classes instaladas no poder e contra os interesses da coletividade. São os pelêgos, os traíras, etc.
Além disso, retiro da classe dominante, ou seja, não podem ser caracterizados de classe dominante, aqueles que, mesmo sendo donos de meios de produção, tem um pensamento e uma ação social que só se vê em grandes revolucionários. Gente que pertence à classe hegemônica e luta contra ela, defendendo os mais pobres e os mais fracos. O exemplo mais típico seria o Senador Suplicy e sua luta incansável contra a desigualdade, etc.
Também enquadro na classe dominante algumas correntes religiosas, assim como algumas igrejas protestantes que servem para arrecadar dinheiro e oprimir os mais pobres. Além disso, considero a Opus Dei como classe dominante, pois é sinônimo de opressão e tirania contra os indivíduos, enquanto que as Pastorais são organizações de grande relevância social e de proteção dos mais fracos, logo não são grupos dominantes.
--------------------------------------------------------------------------------------
CLASSES SOCIAIS DO BRASIL
http://www.ai.com.br/pessoal/indices/CLASSES.HTM
( Mobilidade Social 1973/1996 )
|
Classes |
Composição |
% (1973) |
% ( 1996) |
Evolução |
|
Elite |
Profissionais pós-graduados, empresários e altos administradores. |
3,5% |
4,9% |
cresceram 40% |
|
Classe média alta |
Pequenos proprietários, técnicos com especialização e gerentes de grande empresa. |
6,3% |
7,4% |
cresceram 17% |
|
Classe média média |
Pequenos fazendeiros, auxiliares de escritório e profissionais com pouca especialização. |
18,4% |
13,3% |
encolheram 13% |
|
Classe média baixa |
Motoristas, pedreiros, pintores, auxiliares de serviços gerais, mecânicos, etc. |
23,7% |
26,9% |
cresceram 13% |
|
Pobres |
Vigias, serventes de pedreiros, ambulantes e outros trabalhadores sem qualificação. |
16,1% |
23,4% |
cresceram 46% |
|
Muito pobres |
Trabalhadores rurais, bóias-frias, pescadores, peões de fazendas, catadores urbanos,etc. |
32% |
24% |
encolheram 25% |
Fonte: Revista Veja, 13 maio 1999.
OBS: Existem no Brasil (1996) 1.894.000 de domicílios pertencentes à famílias da chamada classe A (menos de 5% da população total) que ganham acima de 20 salários mínimos. No sudeste concentram-se 970 mil desses domicílios, no sul 278 mil, no centro-oeste 333 mil e no norte/nordeste 313 mil (IBGE :1999).
As 7 classes sociais do Brasil em 2000
|
CLASSES |
% |
Renda média mensal (R$) |
|
A1 |
1 |
5.894,00 |
|
A2 |
4 |
3.473,00 |
|
B1 |
7 |
2.444,00 |
|
B2 |
12 |
1.614,00 |
|
C |
31 |
844,00 |
|
D |
33 |
435,00 |
|
E |
12 |
229,00 |
Fonte: Caminhos do III milênio, abr. 2000.
Podemos dividir o Brasil em 3 estratos sociais (Gazeta Mercantil, abr. 2001):
· Com 10% dos habitantes (16,9 milhões) que concentra 47% da renda;
· Com 40% dos habitantes (67,9 milhões) que concentra 39,5% da renda; e
· Com 50% dos habitantes (84,5 milhões) que concentra 13,5% da renda.
Classes Sociais no Brasil em 2000
|
Classes Sociais |
Renda Familiar |
Nº de domicílios |
Consumo |
Consumo |
|
A e B |
Mais de 10 S.M. |
19% |
52% |
R$ 428 bi./ano |
|
C |
De |
30% |
28% |
R$ 226 bi./ano |
|
D e E |
Menos de 4 S.M. |
51% |
20% |
R$ 163 bi./ano |
Fonte: Gazeta Mercantil, fev. 2002.
Renda 22% menor para os ricos
Os brasileiros que têm mais anos de estudo, os melhores empregos e salários mais altos formam o grupo que teve as maiores perdas de rendimento na segunda metade do Plano Real. Entre 1998 e 2001, os trabalhadores que fazem parte dos 10% mais ricos da população amargaram redução real de renda de até 22,4% em seis das sete maiores regiões metropolitanas do país.
A exceção foi Brasília, onde houve crescimento de 9,9%, segundo levantamentos do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) e do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets). Nesses grupos, se acomoda a classe média, que pode ser considerada a grande perdedora do período de crises econômicas, diz Sérgio Mendonça, coordenador do Departamento Econômico do Dieese.
"A imagem que se forma é a do pilão socando gente para baixo, esmagando a renda do trabalhador", afirma Mendonça. "Essa redução está relacionada às perdas mais elevadas nas categorias com carteira assinada, da indústria ou das ex-estatais", diz ele.
Segundo o IBGE, entre 98 e
Com nove ou dez anos de estudo, a retração de renda foi de 16%; com segundo grau completo, de 12%; para quem, no mínimo, entrou na faculdade, foi de 13%. O tipo de ocupação também é revelador. O emprego formal teve a maior redução salarial, de 10%, seguido pelos trabalhadores por conta própria (-8%) e pelos empregadores (-6%). (AG)
Em compensação a faixa de baixa renda
obteve ganhos maiores. Os recortes do comportamento do rendimento do
trabalhador brasileiro nos últimos quatro anos trazem, ao menos, uma
boa notícia: a baixa renda obteve ganhos em quatro das sete regiões
metropolitanas cobertas pelo Departamento Intersindical de
Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese)
e pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets).
Os 10% mais pobres chegaram a ganhar 31% mais entre 1998 e 2001
As 7 classes sociais do Brasil em 2004
|
CLASSES |
Intervalo de renda (R$) |
Renda média mensal domiciliar (R$) |
|
A1 |
acima de 8.961 |
15.303 |
|
A2 |
de 5.461 a 8.960 |
6.899 |
|
B1 |
de 3.361 a 5.460 |
3.923 |
|
B2 |
de 1.891 a 3.360 |
2.108 |
|
C |
de 911 a 1.890 |
1.205 |
|
D |
de 421 a 910 |
682 |
|
E |
até 420 |
353 |
Fonte: ABEP/Gismarket, abr. 2004 (inclui estimativas de renda informal).
As 7 classes sociais do Brasil em 2005
|
CLASSES |
Intervalo de renda (R$) |
Renda média mensal domiciliar (R$) |
|
A1 |
acima de 9.641 |
16.466 |
|
A2 |
de 5.876 a 9.641 |
7.423 |
|
B1 |
de 3.616 a 5.875 |
4.221 |
|
B2 |
de 2.035 a 3.615 |
2.268 |
|
C |
de 980 a 2.034 |
1.297 |
|
D |
de 453 a 979 |
734 |
|
E |
até 452 |
380 |
Fonte: Tabela de 2004 corrigida pelo IPCA de 2004.
As 7 classes sociais do Brasil em 2006
|
CLASSES |
Intervalo de renda (R$) |
Renda média mensal domiciliar (R$) |
|
A1 |
acima de 10.190 |
17.403 |
|
A2 |
de 6.210 a 10.190 |
7.846 |
|
B1 |
de 3.822 a 6.209 |
4.461 |
|
B2 |
de 2.150 a 3.821 |
2.397 |
|
C |
de 1.036 a 2.149 |
1.370 |
|
D |
de 479 a 1.035 |
776 |
|
E |
até 478 |
401 |
Fonte: Tabela de 2005 corrigida pelo IPCA de 2005.
Renda da classe média cai 46% em 6 anos
FERNANDO CANZIAN
da Folha de S.Paulo – 11/12/2006
O saldo da criação de empregos e da evolução da renda da classe média no primeiro mandato do governo Lula é amplamente negativo. Nessa parcela da população que mais paga imposto e consome, deu-se o contrário do verificado entre os mais pobres, em que a renda e o emprego prosperaram. Entre a maioria dos países da América Latina, com exceção da Argentina, é no Brasil onde a classe média mais encolheu sua participação no total da renda nos últimos anos. O fenômeno ocorre desde os anos FHC.
Considerando classe média quem ganha acima de três salários mínimos (mais de R$ 1.050), houve saldo negativo de quase 2 milhões de empregos formais nos últimos seis anos. A renda de quem conseguiu entrar no mercado recebendo mais de R$ 1.050 caiu 46% em termos reais (descontada a inflação) ante o que era pago aos que foram demitidos.
Os trabalhadores com pior remuneração foram na outra direção. Houve
um saldo positivo (admitidos menos demitidos) de quase 6 milhões de
novas vagas para quem ganha entre um e três mínimos de
Os dados são do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho) e foram compilados pela MB Associados. Há outras maneiras de estabelecer quem é classe média no país, como levar em conta uma renda individual um pouco maior do que três salários mínimos e os bens e serviços a que o cidadão tem acesso. Mesmo pelo critério de renda maior do que três mínimos e de consumo de determinados bens, segundo levantamento do Datafolha, foi a classe média quem menos ganhou nos últimos quatro anos.
Enquanto cerca de 7 milhões de eleitores migraram no governo Lula
das classes D e E (maioria com renda até
R$ 700) para a C (de R$
Concentração no Sudeste
Segundo o ''Atlas da Nova Estratificação Social do Brasil - Classe Média - Desenvolvimento e Crise'', concluído neste ano por 11 pesquisadores, 57% das famílias de classe média concentram-se no Sudeste. No Nordeste e no Norte, são 12,5% e 4,7%, respectivamente. No geral, três em cada quatro famílias de classe média vivem no Sudeste ou no Sul. O trabalho considera classe média as famílias com renda entre R$ 2.275 e R$ 25.200. Levando em conta que núcleos familiares no Brasil têm, em média, quatro pessoas e que geralmente os menores de idade da classe média não trabalham, a renda individual se situaria entre R$ 1.137 (próxima a três salários mínimos) e R$ 12.600. Por esses critérios, 32% das famílias são da classe média.
Apesar de ter perdido espaço e renda, foi a classe média quem bancou (com impostos crescentes) boa parte da melhora na distribuição de renda nos últimos anos --principalmente via programas assistenciais e subsidiados, como os da Previdência indexados ao mínimo e o Bolsa Família. Em termos tributários, é considerado de classe média quem ganha entre R$ 3.000 e R$ 10.000 (na prática, quem recebe até R$ 1.562 não paga IR). ''Mais de 60% da carga de IR da pessoa física recai sobre a classe média. Outros 25%, sobre os mais ricos, e só 15% em quem está abaixo dessa faixa'', diz Gilberto do Amaral, presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.
Salários maiores concentram perdas
Rendimento dos
trabalhadores que ganham mais de cinco mínimos recua 6,3% desde
2001, e saldo de empregos, 7,8%
Crescimento econômico baixo dos últimos anos foi o principal
responsável por reduzir poder de negociação de quem tem renda maior
Quanto maior o salário, pior foi a
evolução da renda e do emprego no mercado de trabalho nos últimos
seis anos. Entre 2001 e setembro de 2006, são opostos os desempenhos
dos trabalhadores mais pobres e dos mais ricos no país. Enquanto a
massa de renda subiu 32,5%, e o emprego, 28% para quem ganha até um
salário mínimo (R$ 350), houve um declínio de 6,3% nos rendimentos e
de 7,8% no saldo de empregos de quem recebe acima de cinco salários
(R$ 1.750). Para os trabalhadores mais pobres, foi o comércio quem
mais aumentou salários (50%) e ampliou vagas (45%). Para os mais
ricos, um dos vários vilões foi o setor de serviços: a renda caiu
10% e o emprego, 9%. O único setor entre oito modalidades (veja
quadro) em que os assalariados formais acima de R$ 1.750 ganharam
foi o extrativo mineral, graças à forte demanda por commodities.
Nessa área, o emprego cresceu 24%, e a renda, 26%. "Nos salários
intermediários, entre R$ 2.000 e R$ 5.000, em que está a classe
média, o achatamento salarial chega a 30% nos últimos dez anos", diz
Clemente Ganz Lúcio, diretor técnico do Dieese (Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos). O baixo
crescimento econômico dos últimos anos (abaixo de 2,5%, em média)
foi o principal responsável por reduzir o poder de negociação de
quem ganha mais e por levar as empresas a cortar cargos em níveis
intermediários. Entre os mais pobres, o principal propulsor da renda
foram os aumentos reais para o salário mínimo (acima de 32% reais só
no governo Lula). No emprego, houve um crescimento da atividade
principalmente nas regiões mais pobres e atendidas por programas
sociais ou assistenciais da Previdência. Estima-se que o governo
gaste cerca de R$ 80 bilhões ao ano com 30 milhões de beneficiários
desses programas. No caso do Bolsa Família, metade dos atendidos é
do Nordeste. Segundo o "Atlas da Nova Estratificação Social do
Brasil", o Nordeste é a região com a menor classe média no país.
Pernambuco é o Estado que mais tem famílias de classe média no
Nordeste, com 17,7% do total. Como comparação, São Paulo, com 47%,
só perde para o Distrito Federal (50%), onde há concentração de
funcionários públicos com salários que tendem a ser maiores do que
os do setor privado. O economista Marcio Pochmann, um dos
organizadores do "Atlas", explica que a concentração da classe média
no Sul e Sudeste se acentuou depois das privatizações nos anos 1990,
que convergiram as sedes de empresas para São Paulo e Rio e
enxugaram quadros intermediários em todo o país. Na média, 31,7% das
famílias brasileiras ainda estão na classe média. Em números
absolutos, são 15,4 milhões de famílias. "A classe média ainda é
grande no Brasil, mas sua tendência tem sido de encolhimento e
empobrecimento", afirma o economista Sergio Vale. Outra fonte de
pressão são os impostos. Embora a maior parte da tributação no
Brasil seja indireta (o que leva, por exemplo, o pobre e o rico a
pagar a mesma alíquota sobre um quilo de feijão), a classe média
sofre mais com o peso do IR da pessoa física e não tem uma série de
subsídios dados à população mais pobre -como desoneração para casas
de baixa renda. "Todo o modelo tributário brasileiro foi montado
para subsidiar quem é de baixa renda, o que pode ser justo. Mas,
como o rico tem mecanismos para se defender e o país não cresce, a
conta tem sido paga pela classe média", diz Gilberto do Amaral,
presidente do IBPT. Ganz Lúcio, do Dieese, acredita, porém, que o
"fundo do poço" para a classe média esteja ficando para trás, mas
que uma recuperação mais rápida só virá com taxas de crescimento
mais elevadas. (FERNANDO CANZIAN)
Enfraquecimento da classe média trava crescimento do país
Estrato representa menos de
32% do total de famílias no Brasil, mas responde por 50% de todo o
mercado consumidor
Participação do segmento no total da renda no país cai de 47% em
1990 para 43% em 2002, segundo dados da ONU
Apesar de representar menos de 32% do total das famílias no Brasil,
a classe média responde por 50% de todo o mercado consumidor no
país.
Seu encolhimento e precarização representam um obstáculo a mais ao
crescimento do consumo, do investimento e da atividade econômica.
Na comparação com a maioria dos países da América Latina, a partir
de 1990 foi a classe média brasileira quem mais encolheu -tendo em
conta a participação desse grupo no total da renda de cada país.
Segundo dados das Nações Unidas (até 2002), a participação da classe
média no total da renda no Brasil encolheu de 47% em 1990 para 43%
em 2002. A tendência pode ter se acentuado mais recentemente.
Nos últimos anos, o crescimento do PIB brasileiro tem ficado
sistematicamente atrás do de outros países da América Latina e da
média da região.
A médio prazo, países com maior crescimento e com mercados mais
vigorosos tendem a atrair mais investimento produtivo internacional
em detrimento de quem cresce menos.
"A diminuição do mercado é mais um fator de constrangimento, além do
custo do investimento, que é mais elevado no Brasil por causa dos
juros elevados. Na comparação entre os Bric [Brasil, Rússia, Índia e
China], o Brasil perde terreno sistematicamente na atração de mais
capital produtivo", afirma Edgard Pereira, economista-chefe do Iedi
(Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial).
Proporcionalmente, os maiores gastos da classe média estão
concentrados principalmente em serviços relacionados a educação,
saúde, transportes e recreação e cultura.
Uma das maiores diferenças entre as despesas das famílias mais
pobres e as de classe média está na educação, segundo o "Atlas da
Nova Estratificação Social do Brasil".
Enquanto as primeiras dedicam apenas 0,9% de seus gastos totais ao
ensino, a classe média consome cerca de 4%.
O fato é mais um canal para a perpetuação da desigualdade social, já
que quem entrar no mercado de trabalho com mais educação
possivelmente terá acesso às melhores vagas. (FCZ)