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Superdotação e Talento |
Trabalho elaborado em 2004 -- Leonildo Correa
A superdotação é um tema primordial para a sociedade, pois trata de indivíduo com habilidades raras que podem ser utilizadas para o florescimento da sociedade ou para a sua degradação. Esta pesquisa busca desvendar esse universo. Analisar algumas peculiaridades que envolve o seleto grupo de pessoas com altas habilidades, principalmente, no que se refere à sua educação. O estudo foi dividido em três partes principais. A primeira analisa a evolução histórica do tema, assim como os principais conceitos de superdotação. Já a segunda parte aborda a superdotação no âmbito educacional, ou seja, a educação escolar dos superdotados, assim como os principais problemas que enfrentam dentro das instituições educacionais. E a terceira e última parte trata da pedagogia da superdotação, ou seja, as recomendações e as dicas apresentadas pela literatura científica para uma eficiente e produtiva educação de superdotados, inclusive as diretrizes dos programas especializados estabelecidos pelo governo. Enfim, a construção de uma sociedade justa e de uma nação próspera depende do tratamento desigual dos desiguais e do investimento em habilidades, talentos e criatividade.
Palavras-chave: Superdotado, Superdotação, Educação especial.
Os EUA investiram bilhões de dólares na criação de um escudo antimíssil que tornasse inviável qualquer ataque aéreo às cidades americanas. Porém, no dia 11 de setembro de 2001 aconteceu um dos mais surpreendentes ataques ao território dos EUA. Grupos terroristas atacaram um dos símbolos mais importantes da América, bem embaixo das “barbas” do exército mais poderoso do mundo e justamente de onde não esperavam nenhum ataque. Aviões comerciais foram transformados em mísseis balísticos e lançados sobre os alvos. Por mais trágico que tenha sido o fato, a inteligência que o concebeu e planejou é rara e incomum.
Entre os grandes gênios da humanidade - como Einstein, Mozart, etc - e os líderes terroristas do 11 de setembro há um ponto comum: inteligência acima da média. São pessoas superdotadas ou talentosas. Pessoas que carregam consigo o germe da revolução, podendo contribuir tanto para a evolução e crescimento da humanidade quanto para a sua desagregação e degradação.
Esta pesquisa busca desvendar esse universo, ou seja, analisar algumas peculiaridades que envolve o seleto grupo de pessoas superdotadas ou que possuem altas habilidades. Visa também apontar as múltiplas dimensões e determinantes da questão, destacando, paralelamente, o papel da família, escola e sociedade no processo de reconhecimento, desenvolvimento e expressão do potencial criador, do talento e da inteligência desses indivíduos.
É importante assinalar também que esta pesquisa foi dividida em 3 partes principais. A primeira analisa a evolução histórica do tema, assim como os principais conceitos de superdotação. Isso permite a determinação exata do objeto de pesquisa e os principais tratamentos que recebeu ao longo da história. Já a segunda parte aborda a superdotação no âmbito educacional, ou seja, a educação escolar dos superdotados, assim como os principais problemas que enfrentam dentro das instituições educacionais. A finalidade dessa parte é descrever as principais dificuldades enfrentadas pelos portadores de altas habilidades no dia-a-dia da sala de aula, assim como as repercussões de suas habilidades nos demais atores educacionais. E a terceira e última parte trata da pedagogia da superdotação, ou seja, as recomendações e as dicas apresentadas pela literatura científica para uma eficiente e produtiva educação de superdotados, inclusive as diretrizes dos programas especializados estabelecidos pelo governo.
Além disso é importante ressaltar a escassez de bibliografia nacional sobre esta temática. As poucas obras existentes consistem numa infindável repetição de estudos estrangeiros, esquecendo-se de avaliar as características e as peculiaridades da temática na realidade brasileira, ocasionando um vácuo informacional que repercute diretamente nas políticas e programas sobre superdotação.
Por isso, esta pesquisa tomou com base norteadora, o material produzido pelo Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental – Superdotação e Talento – Volume 1 e 2. Material este que foi editado pelo governo com a finalidade de suprir a ausência de literatura científica na área, assim como orientar e unificar as práticas educacionais que envolvem crianças superdotadas.
Enfim, a superdotação é um tema primordial que ocasiona reflexos em todas as áreas da sociedade e do Estado e deve ser tratada com seriedade, cuidado e conhecimento.
O tratamento diferenciado a superdotados, talentosos ou pessoas que possuam indícios de genialidade, tem fundamento no respeito à dignidade do ser humano e no seu direito ao pleno desenvolvimento e é orientada pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, constituindo-se em garantia constitucional no Brasil. Além dos textos legais citados, outras legislações estabelecem as mesmas garantias, como a Declaração de Salamanca de 1994, a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os Direitos da Criança de 1989 e a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) de 1996, etc.
É importante lembrar ainda que, na Grécia Antiga, Platão aconselhava, em sua obra “República”, a atribuição, aos cidadãos, de papéis segundo suas habilidades, aqueles que detinham maiores responsabilidades necessitavam de um longo e cuidadoso treinamento. Em outras palavras, é importante identificar as crianças mais promissoras e iniciar sua educação precocemente.
Além disso, é essencial promover um ajustamento do indivíduo superdotado/talentoso com o ambiente social, como também a conquista de um espaço ou o acesso a um patamar mais amplo de informação e conhecimento. A ótica não é apenas de um ser humano e uma comunidade, mas de um ser humano, cujas potencialidades o colocam como agente mais universal de inovações e transformações.
Contudo, nem todos os alunos com altas habilidades, superdotados ou talentosos, apresentam as mesmas características e habilidades, nem todos têm o mesmo potencial, nem todos materializam plenamente seu potencial. Um são gênios da matemática, outros da literatura e outros das artes. Cada um tem um perfil próprio e uma trajetória singular de realização, mas todos necessitam de atendimento especial. Necessitam de educação própria e individualizada.
Kirk e Gallagher (2002, p.66), estudiosos desta temática, consideram que a sociedade mostra um interesse especial pelas crianças superdotadas e talentosas por julgar que, no futuro, estas contribuirão para o bem-estar social, uma vez que muitos líderes, cientistas e poetas da geração seguinte tendem a sair do atual grupo de crianças superdotadas e talentosas.
Contudo, para que os superdotados se tornem os esteios da sociedade ou desempenhem o papel que deles se espera, faz-se necessário dispensar-lhes cuidados especiais. O problema deste grupo é de tal importância que só esforços conjugados da sociedade e dos governos poderão resolvê-los eficientemente.
A direção que os dotes e talentos de um indivíduo superdotado tomarão depende de muitos fatores, como por exemplo a experiência, a motivação, o interesse, a estabilidade emocional, a veneração de heróis, a insistência paterna, e até mesmo as possibilidades. Muitos indivíduos intelectualmente superdotados também poderiam ter sido bem-sucedidos em outras áreas se os seus interesses e o treinamento tivessem sido concentrados naquela direção. Contudo, pessoas com potenciais não plenamente desenvolvidos e desperdiçados, acabam canalizados e sugados para esferas sociais não aceitáveis, ou ainda, subrealizados e desviados para a marginalidade - crime organizado e terrorismo.
A educação, neste referencial, entra como uma barreira de contenção, inibindo o desenvolvimento de germes nocivos à moralidade e a integridade do indivíduo, mantendo-o firme na legalidade e como um esteio sadio da sociedade.
Por isso nos EUA, conforme análise apresentada no Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental, o superdotado é considerado um cidadão especial que leva consigo o germe do futuro e, por isso, as coordenadas principais da educação dos cientistas do futuro, naquele país, tendem a “desespecializar” a formação profissional, propiciando maior abertura e desenvolvendo o que denominam de pensamento futuro-sistemático, ou seja, a capacidade de pensar em perspectiva futura com os demais, a capacidade imaginativa e o espírito especulativo, sempre em uma direção transdisciplinar.
Enfim, os parágrafos anteriores resumem as idéias típicas dos principais autores que abordaram esta temática, incluindo Kirk e Gallagher (2002), Alencar (1986), Souza (2002) e o material apresentado pelo Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental – Superdotação e Talento, vol.1 e 2 (BRASIL, 1999); que são unânimes na afirmação da importância da identificação de superdotados/talentosos ainda na infância, pois isso irá direcionar a formação vindoura e o cuidado na educação e no aproveitamento do potencial destas pessoas especiais.
De acordo com Souza (2002) os primeiros registros históricos sobre superdotação vem da Grécia, uma vez que a cultura grega foi a que deu mais atenção à inteligência superior, justificando assim o enorme número de filósofos, matemáticos e astrônomos que deixaram várias contribuições para a humanidade. Platão defendia a idéia de que tais pessoas deveriam ser identificadas na tenra infância e preparadas para serem líderes, num grupo ao qual chamou de: "Crianças de Ouro".
No século XV e XVI as pessoas proeminentes eram interpretadas como bruxos, demônios e nocivas à sociedade e durante o Renascimento, todo tipo de desvio, tanto a insanidade como a genialidade, era considerada uma instabilidade ou doença mental.
Em 1869 Galton publicou, na Inglaterra, o Gênio Hereditário, no qual associa a inteligência aos sentidos e considera que o fenômeno da superdotação é transmitido através das gerações.
Em 1905, na França, Alfred Binet e Theodore Simon utilizam os primeiros testes de inteligência com aplicação prática em crianças com dificuldade de aprendizagem - A Escala Binet de Inteligência.
O Termo QI surge em 1911, quando o alemão William Stern desenvolveu o Quociente Mental, equação resultante da Idade Mental dividida pela Idade Cronológica multiplicada por 100.
Levis Terman, em 1916, propõe a revisão da escala Standford-Binet. No ano de 1921 Terman deu início a mais longa pesquisa longitudinal de que se tem notícia. Investigou crianças com QI acima de 140 tendo concluido que o QI continuava a aumentar ao longo da vida.
Os estudos de Terman contribuiram, também, para desmistificar as idéias equivocadas sobre o desenvolvimento sócio-afetivo dos superdotados. Seu estudo longitudinal foi realizado num grupo de 1528 crianças de aproximadamente 12 anos, sendo metade do sexo masculino e metade do feminino. No decorrer de seis décadas de pesquisa, descobriu-se que a incidência de mortalidade, enfermidade, delinquência, insanidade e alcoolismo eram inferiores às registradas no grupo da população em geral. (SOUZA, 2002).
Helena Antipoff, entre 1930 a 1940 chama a atenção, no Brasil, para a importância de desenvolver estratégias que atendessem os superdotados.
Leta Hollingworth, na década de 40 sublinha a necessidade da escola de educar e treinar crianças com potencial superior com ênfase no seu desenvolvimento afetivo e sócio - emocional.
Em 1962 na Fazenda Rosário (MG) sobre a direção de Helena Antipoff foi criado um Programa de Atendimento ao aluno superdotado no meio rural e da periferia urbana.
Em 1975 foi realizada em lsrael a primeira Conferência Mundial sobre Superdotação.
Em 1976 a Fundação Educacional do Distrito Federal implantou o Programa para Atendimento ao Superdotado.
Em 1978 foi criada a Associação Brasileira para Superdotados.
Em 1983 Gardner revoluciona o meio científico com seu novo conceito de inteligência apresentada no livro "A teoria das inteligências múltiplas".
De acordo com Souza (2002)
A visão multidimensional da inteligência de Gardner coloca os testes psicométricos numa posição coadjuvante no processo de identificação dos indivíduos superdotados. Ele ampliou a noção do spectrum de talentos, considerando que o tempo para classificar e rotular indivíduos deveria ser menor do que o destinado a ajudar e estimular suas competências e habilidades naturais.
O primeiro ponto que deve ser assinalado é que não existe uma definição exata de superdotação, um conceito aceito universalmente ou um método preciso que identifique um superdotado. O que existe são diretrizes gerais e análise de evidências e manifestações de genialidade.
A Secretaria de Educação Especial do MEC adota por base a mesma definição de superdotado que foi apresentada no relatório de Marland, em 1972, do Departamento de Saúde, Educação e Bem-Estar dos Estados Unidos, onde são consideradas crianças portadoras de altas habilidades (superdotadas) as que apresentam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isoladamente ou combinados (BRASIL, 1995):
Capacidade intelectual;
Aptidão acadêmica ou específica;
Pensamento criador ou produtivo;
Capacidade de liderança;
Talento especial para artes visuais, artes dramáticas e música;
Capacidade psicomotora.
Para compreender cada um dos aspectos apresentados é importantes fazer um paralelo entre a visão predominante na literatura científica (ALENCAR, 1986) e a visão oficial do governo (BRASIL, 1995) sobre as características mais típicas da superdotação:
QUADRO SEQ QUADRO \* ARABIC 1 – CARACTERÍSTICAS DA SUPERDOTAÇÃO
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Característica |
Alencar (1986) |
Mec (1995) |
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Habilidade intelectual geral |
inclui indivíduos que demonstram características tais como: curiosidade intelectual, poder excepcional de observação, habilidade de abstrair e desenvolver atitudes de questionamentos. |
aquele que apresenta flexibilidade e fluência do pensamento, capacidade de pensamento abstrato para fazer associações, produção ideativa, rapidez do pensamento, julgamento crítico, independência do pensamento, elevada compreensão e memória, capacidade de resolver e lidar com problemas. |
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Talento acadêmico |
inclui aqueles que apresentam um desempenho excepcional na escola, que se saem muito bem em testes de conhecimento e que demonstram alta habilidade paras as tarefas acadêmicas. |
Aquele que apresenta aptidão acadêmica específica, atenção, concentração, rapidez de aprendizagem, boa memória, interesse e motivação pelas disciplinas acadêmicas, habilidade para avaliar, capacidade de produção acadêmica. |
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Habilidade de pensamento criativo |
inclui alunos que apresentam idéias originais e divergentes, que demonstram uma habilidade para elaborar e desenvolver suas idéias originais e que são capazes de perceber de muitas formas diferentes um determinado tópico. |
Aquele que apresenta originalidade, imaginação, capacidade para resolver problemas de forma diferente e inovadora, reações e produções diferentes, às vezes extravagantes, facilidade de auto-expressão, fluência e flexibilidade. |
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Liderança |
inclui os estudantes que emergem como os líderes sociais ou acadêmicos de um grupo, e que se destacam pelo uso do poder, autocontrole e habilidade de desenvolver uma interação produtiva com os demais. |
apresenta capacidade de liderança, sensibilidade interpessoal, atitude cooperativa, sociabilidade expressiva, habilidade de trato com pessoas diversas e grupos para estabelecer relações sociais, percepção acurada das situações de grupo, capacidade de resolver situações sociais complexas, alto poder de persuasão e de influência no grupo. |
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Artes visuais e cênicas |
engloba indivíduos que apresentam habilidades superiores para pintura, escultura, desenho, filmagem, dança, canto, teatro e para tocar instrumentos musicais. |
Aquele que se destaca tanto na área das artes plásticas, musicais, como dramáticas e literárias, ou técnicas, evidenciando capacidades especiais para essas atividades e alto desempenho. |
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Habilidades psicomotoras |
indivíduos que apresentam proezas atléticas, incluindo também o uso superior de habilidades motoras refinadas e habilidades mecânicas. |
Aquele que apresenta habilidade e interesse pelas atividades psicomotoras, relativos à velocidade, agilidade de movimentos, força e resistência, controle e coordenação motora. |
Portanto, observando a tabela anterior, percebe-se que ambos as abordagens aceitam a mesma base, ou seja, os mesmos tipos de manifestações da superdotação. O que diferencia são os conteúdos de cada tipo, pois enquanto a literatura é mais rigorosa e restritiva, a visão do governo é mais ampla e abrangente. Além disso, é importante assinalar que ambas as perspectivas reconhecem que as categorias apresentadas podem ser encontrados combinados entre si, além de haver a possibilidade de aparecimento de outros tipos de talentos e características.
Não se pressupõe, portanto, que todos os alunos superdotados apresentem todas essas características, assim como , quando as têm, não a apresentam necessariamente em simultaneidade, nem no mesmo nível.
Outra definição de superdotação foi criada por Ogilvie (1973, p.6 apud SOUZA, 2002):
O termo "superdotado" é usado para indicar qualquer criança que se destaque das demais, numa habilidade geral ou específica, dentro de um campo de atuação relativamente largo ou estreito. Quando existirem testes reconhecidos como (por exemplo) no caso da "inteligência", então a superdotação poderia ser definida a partir de escores em testes. Onde não exista teste reconhecido, pode-se presumir que as opiniões subjetivas de "peritos" nas diversas áreas acerca das qualidades criativas de originalidade e imaginação demonstradas seriam o critério que temos em mente.
Isto significa que toda a criança ou, tomando no caso mais geral, toda pessoa que se destaque significativamente das demais em termos de uma dada atividade humana relevante pode ser considerada um superdotado. Também significa que o critério a ser usado para a verificação do "destaque" deve ser um teste padronizado que resulte num valor numérico, quando possível; senão, devem ser usadas as opiniões subjetivas de peritos na atividade humana em questão.
A definição apresentada, de acordo com Souza (2002), apresenta pelo menos três grandes vantagens com relação às outras definições. A primeira vantagem é o fato de não apenas caracteriza o superdotado mas também estabelece, em linhas gerais, os métodos a serem usados para se medir a superdotação.
A segunda vantagem é a definição do superdotado por comparação com o seu meio e não através de escalas absolutas, assegurando, com isso, a relevância do processo de identificação independente de onde ele ocorre. E a terceira e última vantagem é lidar somente com o fato de certas pessoas se destacarem das demais em alguma atividade relevante, independente da causa de tal superioridade, evitando uma conceituação excessivamente comprometida com uma linha teórica específica.
Com isso, tem-se um conceito a partir do qual é possível classificar as pessoas quanto às suas habilidades de uma forma sistemática e relevante, ao mesmo tempo em que se evita que discussões teóricas tornem-se um obstáculo ao desenvolvimento prático.
Atualmente, a legislação brasileira posiciona-se pelo atendimento dos alunos com necessidades educacionais especiais em classes comuns das escolas, em todos os níveis, etapas e modalidades de educação e ensino. Vive-se na chamada era das inclusões.
Contudo, a inclusão de alunos superdotados, que são considerados portadores de necessidades especiais pela legislação, nem sempre é benéfica para o educando, uma vez que os superdotados quando inseridos em classes comuns podem apresentar rendimento escolar muito superior (fazem as tarefas rapidamente e gastam o resto do tempo com bagunça) ou inferior (mostram desinteresse pelos estudos e de motivação para os estudos acadêmicos e para a rotina escolar), de uma forma ou de outra, podem comprometer todo o desenvolvimento da turma, sem contar a dificuldade de socialização em classe, o que sempre desencadeia problemas de aprendizagem e de adaptação escolar.
De acordo com o Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental – Superdotação e Talento – (BRASIL, 1999, v.1, p.25):
A criança superdotada caracteriza-se por ser mais rápida do que as outras, com ou sem o professor; por questionar informações e conceitos, discordando do que foi passado e do nivel da informação recebida e sempre tendo uma postura crítica e de julgamento, não aceitando e nem reconhecendo a função da escola e do professor, uma vez que se coloca no mesmo nivel que ele. Revela extensão de informações nas diversas áreas. Apresenta independência no trabalho e no estudo. Enfrenta situações conflituosas em trabalhos de grupo, pois seu conhecimento e visão se encontram acima dos colegas e isto não é aceito por eles. Provavelmente continuará opondo-se a ordens, normas, disciplina e diretrizes.
Por isso os alunos superdotados carecem de educação especial, uma vez que a escola, para eles, é a área da vida que pode apresentar o melhor ajuste ou o pior desajuste. Tanto sua capacidade superior pode ajudar-lhe nos estudos e contribuir para um desempenho excepcionalmente bom, como a mesma capacidade pode levar ao tédio, aborrecimento ou rebeldia, capazes de provocar desempenho insatisfatório. Essas dificuldades tendem a surgir devido ao fato do superdotado ser um indivíduo excepcionalmente inteligente mergulhado num mundo de pessoas com intelecto mediano; fato este que pode gerar uma série de dificuldades de adaptação.
São pertinentes as considerações, publicadas em um artigo sobre o tema, da Revista Época:
O superdotado precisa de atenção especial. É, na maior parte das vezes, uma pessoa com dificuldades no convívio social, carente emocionalmente e, se não der vazão a suas possibilidades, pode até, no limite, tornar-se um criminoso, afirma a especialista Marsyl Mettrau, presidente da ABSD. Para ela, pelo menos dois personagens bastante conhecidos e dotados com tais poderes são tristemente famosos: os bandidos Lúcio Flávio e, mais recentemente, Leonardo Pareja. Por outro lado, superdotados pobres que poderiam se perder na multidão acabaram descobertos. É o caso do ator mirim Vinicius de Oliveira, protagonista do filme Central do Brasil, de Walter Salles. (Revista Época, n. 14 de 24-08-98).
É essencial, portanto, aplicar tratamento diferenciado a superdotados, talentosos ou pessoas que possuam indícios de genialidade, pautando-se no respeito à dignidade do ser humano e no seu direito ao pleno desenvolvimento. Tal diferenciação faz parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que se constitui em garantia constitucional no Brasil.
Além dos textos legais citados, outras legislações estabelecem as mesmas garantias, como a Declaração de Salamanca de 1994, a Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os Direitos da Criança de 1989 e a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) de 1996, etc.
Einstein teve uma infância difícil, não gostava da escola e entrou na lista dos repetentes. Outro gênio, o pintor holandês Van Gogh padeceu de desajustes psicológicos, assim como o matemático francês Pascal, que aos sete anos já fazia cálculos. Os exemplos são extremos, mas servem de alerta aos pais de crianças com talentos ou aproveitamento escolar excepcionais para sua idade e dificuldades de adaptação social. Essa combinação de sinais pode esconder a face de um superdotado, que requer atenção e cuidados especiais, talvez até eventual acompanhamento terapêutico.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que 1% da população escolar, ou 380 mil crianças, são superdotadas. Para identificar evidências de esperteza basta reparar nos talentos precoces. Em geral são dons específicos para a matemática, a música ou os idiomas estrangeiros. A criança aprende rápido a ler, exibe habilidade para determinado instrumento musical, ou expressão verbal mais elaborada do que a normal para sua faixa etária. É o garoto que chama a atenção pela capacidade de argumentação, pela memória excepcional, a atenção e a curiosidade incomuns, o raciocínio ágil e a extrema curiosidade. (Revista Época, n. 14 de 24-08-98).
O programa de atendimento ao aluno superdotado da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (BRASIL, 2002), arrola as características mais típicas dos superdotados e talentosos:
Vocabulário avançado e incomum para a idade ou nível escolar, possui riqueza de expressão, elaboração e fluência verbal.
Grande depósito de informações sobre variados tópicos.
Rápido domínio e recordação de informações factuais.
Raciocínio rápido sobre causa e efeitos, tenta descobrir o como e o porque das coisas, faz perguntas provocativas, "sugam" as pessoas.
É um observador entusiasmado e alerta, geralmente vê demais e quer demais dos outros.
Pronto entendimento de princípios implícitos, gerando rapidamente generalizações sobre eventos, pessoas e coisas.
Tem paixão por leitura, preferindo, geralmente, livros de nível adulto, biografias, autobiografias, enciclopédias e Atlas.
Tentam entender materiais complicados, separando-os em suas respectivas partes.
Gosta de resolver as coisas por si mesmo e vê lógica e senso comum nas respostas.
Torrance (1971, apud SOUZA, 2002), citado no documento base do programa de atendimento ao aluno superdotado da secretaria de estado de educação do distrito federal (BRASILIA, 2002), propôs a seguinte lista de características das pessoas superdotadas:
Reagem positivamente a elementos novos, estranhos e misteriosos de seu ambiente.
Persistem em examinar e explorar estímulos com o objetivo de conhecer melhor a respeito deles.
São curiosos; gostam de investigar, fazem muitas perguntas.
Apresentam uma forma original de resolver problemas, propondo muitas
vezes soluções inusitadas.
São independentes, individualistas e auto-suficientes.
Tem grande imaginação e fantasia.
Vêem relações entre objetos.
Tem sempre muitas idéias.
Preferem idéias complexas; irritam-se com a rotina.
Podem ocupar seu tempo de forma produtiva, sem ser necessária uma estimulação constante do professor.
Contudo, é importante assinalar que nem todos os alunos com altas habilidades, superdotados ou talentosos, apresentam as mesmas características e habilidades, nem todos têm o mesmo potencial, nem todos materializam plenamente seu potencial. Cada um tem um perfil próprio e uma trajetória singular de realização, mas todos necessitam de atendimento especial.
Analisando os períodos da história universal encontram-se teorias e práticas sociais discriminatórias, inclusive quanto ao acesso ao conhecimento e a forma de sua transmissão. Isso ainda se faz presente em algumas áreas, ou seja, nem todos podem participar dos espaços sociais nos quais se transmitem e se criam conhecimentos com a mesma qualidade e acessando aos mesmos dados, uns são mais do que outros. A pedagogia da exclusão tem origens remotas e raízes profundas na sociedade humana.
A essência da democracia e do Estado de Direito pautam-se na capacidade de percepção das diferenças humanas. Por isso, um dos brocardos jurídicos mais famosos, estabelecido pelo Jurista Rui Barbosa, diz: “Justo não é tratar igualmente os desiguais, mas sim tratar desigualmente os desiguais, na exata medida de sua desigualdade.”
Em outras palavras, as desigualdades, nas questões humanas, não devem ser quantificadas em melhores ou piores, mas qualificadas de diferentes e, portanto, merecedoras de todo respeito. A padronização e a busca de uniformização sempre resultou no florescimento de grandes injustiças. Enfim, as maiores formas de violência referem-se à incapacidade de perceber na pessoa sua identidade, sua história de vida, sua potencialidade, suas dificuldades, tratando-as como reproduções de modelos uniformes e convencionados por alguns.
Neste contexto e sofrendo as conseqüências da uniformidade educacional, inserem-se os superdotados que, dadas as suas particularidades e peculiaridades, carecem de programas definidos e específicos de assistência e educação.
Mas isso não significa caminhar contra a corrente da inclusão educacional ? A resposta deve ser dada com reservas e cuidado, pois nas questões humanas a uniformização e o pensamento único sempre geram reflexos negativos, tanto para o indivíduo, quanto para a sociedade. Mais ainda quando a questão envolve o seleto e sensível grupo de superdotados que, em sua maioria, não conseguem se adaptar à família e nem à escola.
Além disso, os superdotados sempre freqüentaram as escolas regulares, ou seja, não constituem um grupo historicamente afastado do mundo normal. Em outras palavras, as discriminações aos superdotados reside na uniformização educacional e no tratamento igual a desiguais e não na exclusão escolar.
Todas as sociedades, nos mais diferentes contextos históricos, têm ou já tiveram indivíduos excepcionalmente superiores em produções, aos quais sempre coube a realização de pequenos e grandes feitos inovadores. Estas produções são resultantes, usualmente, de alto grau de envolvimento e grande motivação direcionada para idéias, fatos ou produtos. Tais indivíduos diferem-se dos demais, não apenas, por possuírem uma capacidade intelectual superior, mas por conjugarem a esta, dois fatores igualmente importante: uma criatividade mais desenvolvida e uma constante automotivação para executar projetos desafiadores.
A diferença gera inveja e discriminações, principalmente quando envolve características pessoais. Na verdade, não é a inteligência mais desenvolvida deste grupo que propicia as dificuldades adaptativas, mas sim, a resistência natural que toda sociedade demonstra para com o não-convencional ou aquilo que julgam superior.
As diferenças qualitativamente superiores e mais apuradas destoam da harmonia da homogeneidade social, que assegura a manutenção das estruturas estabelecidas, ou seja, alguns indivíduos conseguem enxergar além do horizonte e ultrapassar as barreiras da mediocridade. Eis aí a razão precípua da exclusão social que vitimiza todas as minorias - sobretudo aquelas que são por natureza irreverentes, desafiadoras e criativas tanto em pensamento, ações ou produções.
Segundo Antipoff (1992, p.45):
Na filosofia educacional dos superdotados, regras, regulamentos e programas pré-fabricados não têm vez. É necessário dar-lhes oportunidade para descobertas, experiências e confrontações, e haverá então o inverso daquilo que se faz até hoje: serão eles que mostrarão, através de suas manifestações, aquilo que devemos oferecer-lhes.
Enquanto a maioria das pessoas consegue, num dado momento, reduzir sua necessidade de conhecer (o que até parece ajudá-las na escolha profissional), o portador de altas habilidades é um canal aberto em todas as direções, ávido por apreender o real na sua totalidade, ainda que também exista nele, uma ou mais área de interesses específicos, às quais se faça necessário uma dedicação especial.
A escola, portanto, é a área da vida onde o superdotado pode apresentar o melhor ajuste ou o pior desajuste. Tanto sua capacidade superior pode ajudar-lhe nos estudos e contribuir para um desempenho excepcionalmente bom, como a mesma capacidade pode levar ao tédio, aborrecimento ou rebeldia capazes de provocar desempenho insatisfatório. Além disso, dificuldades tendem a surgir devido ao fato do superdotado ser um indivíduo excepcionalmente inteligente mergulhado num mundo de pessoas com intelecto mediano; fato este que pode gerar uma série de conflitos e dificuldades de adaptação.
Enfim, existem uma diversidade de problemas escolares que podem surgir durante o desenvolvimento educacional de um aluno superdotado.
De acordo com Souza (2002) os problemas mais comuns enfrentados pelos superdotados na escola são:
1. desperdiço de tempo;
2. hostilidade dos colegas;
3. independência rebelde;
4. conflitos com os docentes.
Esses problemas escolares serão analisados mais detalhadamente nos tópicos seguintes, pois é conhecendo-os que o professor terá elementos e meios para enfrentá-los, assim como informações para encontrar uma saída justa e equânime para ambas as partes.
De acordo com Souza (2002) uma criança que tem QI (Quociente de Inteligência) em torno de 140 aproveita apenas 50% de uma aula comum, ou seja, o resto do tempo é utilizado numa espera tediosa de repetição do óbvio. Já uma criança com QI de 170 praticamente nada aproveita das aulas normais.
Este autor ainda apresenta uma tabela de comparação entre o valor de QI, a fração da aula desperdiçada e o tempo que se perdeu em sala de aula. Esta tabela é importante porque comprova a idéia de que a inserção de superdotados em uma sala comum implica em um claro nivelamento por baixo, ou seja, ou toda a turma acompanha a capacidade de aprendizagem do aluno com altas habilidades ou este caminha na velocidade determinada pela média da turma. Isso, certamente, gera uma série de conflitos e desavenças, pois as diferenças se tornam cristalina para todos.
QUADRO SEQ QUADRO \* ARABIC 2 - Percentual do tempo de aula normal que é desperdiçado para alunos de diversos níveis de QI - Hollingworth (1926)
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Valor de QI |
Fração Desperdiçada |
Tempo de Uma |
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100 |
0% |
0 min |
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110 |
1% |
0.5 min |
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120 |
6% |
3 min |
|
130 |
20% |
10 min |
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140 |
50% |
25 min |
|
150 |
80% |
40 min |
|
160 |
94% |
47 min |
|
170 |
99% |
49.5 min |
Fonte: SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual. Portal Sapiens. 2002.
De acordo com Souza (2002) uma criança superdotada é frequentemente encarada como uma ameaça pelos companheiros, pois ela pode fazer com que os padrões de trabalho da classe passem a ser mais rigorosos e o professor passe a esperar mais de seus alunos. Isso decorre diretamente do item anterior, uma vez que os alunos superdotados possuem atalhos naturais que aumentam sua velocidade de aprendizagem e a qualidade de seu trabalho. Caso o professor faça um nivelamento por cima, tomando o alunos com altas habilidades como padrão, toda a produção do resto da classe será considerada de baixa qualidade.
Além disso, as crianças com QI médio não se sentem confortáveis quando estão próximas de uma criança considerada muito "inteligente", pois o relacionamento de ambas é permeado pela sensação de superioridade/inferioridade. Isso também ocorre com os professores, que se sentem incapazes de enfrentar e responder aos questionamentos desse tipo de aluno, uma vez que o superdotado
[...] não mede esforços para obter o máximo possível de respostas às suas dúvidas mais intrínsecas, as quais suscitarão, mais e mais dúvidas, e nenhuma certeza inquestionável. Por isto dizemos que tal indivíduo possui uma ingenuidade que, filosoficamente pode ser pensada como um desprovimento de convicções e juízos diante do real; ou seja, o portador de altas habilidades consegue estabelecer um diálogo com o próprio objeto do conhecimento, por já estar ele, naturalmente, aberto à total apreensão do mesmo. Enquanto a maioria dos indivíduos não se acha na disponibilidade de imergir naquilo que deseja conhecer, o portador de altas habilidades jamais se contenta com apenas um modo de apreensão do que lhe interessa; antes sente-se impelido a perquirir com intensa voracidade, todos os vieses daquilo que lhe ocupa a mente. Esta atitude natural e necessária transparece, muitas vezes nos grupos, como ironia, exibição, contestação inútil, etc. (METTRAU e ALMEIDA, 1994, p. 5-13)
Um elemento comum entre os superdotados é a independência de aprendizado e a liberdade de ação, ou seja, a criança criativa rebela-se perante a abordagem rígida que busca enquadrá-la em um padrão predeterminado ou que busca uniformizar o seu comportamento, dizendo-lhe o que deve aprender e o que deve considerar como verdadeiro.
Drews (1961, apud SOUZA, 2002) desenvolveu um estudo no qual analisou o comportamento de estudantes divididos em três categorias: líderes sociais, conformistas estudiosos e intelectuais criativos. Este autor observou que os alunos criativos não apresentam preocupação com suas notas, ou seja, enquanto os outros estudantes se preparavam para as provas, os intelectuais criativos poderiam estar lendo um texto científico universitário, um livro de filosofia ou mesmo revistas de ficção científica, ou então trabalhando em atividades que não tivessem qualquer influência no seu rendimento escolar. Como resultado, eles obtiveram as piores notas, mas, graças à sua leitura ampla, variada e automotivada, seu desempenho em testes de conhecimento acadêmico foi melhor do que o dos estudiosos e líderes sociais.
Portanto, o trabalho com educandos superdotados deve ser realizado por docentes conhecedores das peculiaridades do grupo. Por exemplo, no caso citado anteriormente por Drews, um professor leigo pode tomar medidas drásticas contra o aluno, punindo-o por considerá-lo prejudicial para o desenvolvimento da turma, quando na verdade, este educando, está apenas buscando outros meios de informações e dados que são relevantes para a sua formação e que fazem diferença em sua vida. Uma ação errada do professor pode desencadear um conjunto de reações negativas, culminando, inclusive, com a desistência escolar do aluno superdotado.
De acordo com Souza (2002) os professores, em geral, apreciam na criança três características: habilidade acadêmica, alta motivação e conformismo social. Essas características também são apreciadas pelos pais, ou seja, esse modelo de aluno é apreciado por todos e na escola terá maior capacidade de tolerância que os demais educandos. Assim, é de se supor que as crianças que se desviam de tais modelos estabelecidos (como é o caso da esmagadora maioria dos superdotados) tornem-se insatisfeitas e frustradas e desapontem, tanto os pais, quanto os professores.
Além disso, predomina, entre os docentes, a idéia de que o superdotado tem aptidão e talento para desenvolver ao máximo suas potencialidades e habilidades sem o auxílio de terceiros ou submetido aos mesmos tratamento dos demais alunos.
Não é raro que a criança portadora de altas habilidades seja até hostilizada, direta ou indiretamente, por professores que constatam que ela já sabe tudo quanto lhe pretendem ensinar ou que dominam em poucos dias aquilo que os companheiros de classe levam semanas ou meses.
Em outras ocasiões, os docentes supõe que a criança superdotada sabe mais, aprende demais, então entregam-na a própria sorte. Como consequência, o superdotado muitas vezes acomoda-se, já que os desafios propostos pela escola estão muito abaixo da sua capacidade, produzindo muito menos do que é capaz, simplesmente por estar desestimulado.
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· Os professores, por constatarem que tal aluno é mais inteligente ou talentoso do que os seus colegas de classe, freqüentemente, passam a exibi-lo ou a protegê-lo, distinguindo-o dos demais e prejudicando suas relações com os colegas, os quais passam a rejeitá-lo. |
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· Por vezes, o professor se identifica com o superdotado e projeta nele suas aspirações e desejos, sendo a imagem daquele que gostaria de ter sido, do filho idealizado ou do indivíduo superior. Entretanto, pode também não aceitá-lo, desenvolvendo atitudes de antagonismo e oposição permanentes. |
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· Professores que tiveram alunos brilhantes geralmente tem prazer em contar, mais tarde, sua experiência; embora no ensino tenham tido dúvidas se tais crianças eram realmente superdotadas, ou problemáticas, diferentes, estranhas. |
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· Muito raramente o professor é tão talentoso como seu aluno em sua área específica, e não tem tanta imaginação nem criatividade quanto ele. |
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· O aluno superdotado é curioso, inquisidor, instável e, por vezes, irritado e agressivo, exigindo muito da pessoa do professor. Nem sempre ele (o professor) está psicologicamente preparado para enfrentá-lo e, portanto, sente-se inseguro, inferiorizado e perseguido, porquanto aquele é o aluno que sabe mais, que faz perguntas difíceis e que abala seu status de saber e de autoridade. |
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· Muitos professores competem com seus alunos superdotados e não admitem que estes últimos saibam mais do que eles ou que possam ter idéias mais criativas ou originais. |
QUADRO SEQ QUADRO \* ARABIC 3 - ATITUDES FREQÜENTES DE PROFESSORES DE SUPERDOTADOS QUE PREJUDICAM O SEU DESENVOLVIMENTO - NOVAES (1979)
Fonte: SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual. Portal Sapiens. 2002.
Em meados de 1970, Seagoe, citado por Novaes (1979), elaborou uma lista quase completa dos traços típicos dos superdotados e dos possíveis problemas escolares que podem apresentar.
CARACTERÍSTICAS DOS SUPERDOTADOS E OS PROBLEMAS EDUCACIONAIS CONCOMITANTES SEGUNDO SEAGOE (1976)
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Característica: Poder agudo de observação, pronta receptividade, senso do significativo, capacidade para estabelecer o diferente. Problemas Resultantes: Possibilidade de rejeição grupal, oposição ao meio, defesa do próprio sistema de valores, intolerância. |
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Característica: Poder de abstração, de associação e de síntese, interesse pela aprendizagem indutiva e resolução de problemas, prazer na atividade intelectual. Problemas Resultantes: Resistência ocasional à imposição de tarefas, omissão de detalhes, não aceitação de atividades de rotina. |
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Característica: Interesse nas relações
causa-e-efeito, habilidade para perceber relações,
interesse na aplicação de conceitos. |
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Característica: Gosto pela estrutura e pela
ordem, pela consistência, seja de valores ou números. |
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Característica: Capacidade de retenção, de
reorganização do conhecimento. |
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Característica: Habilidade verbal, amplo
vocabulário, facilidade de expressão, interesse pela
leitura, extensão da informação às diversas áreas do
conhecimento. |
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Característica: Atitude de indagação, curiosidade
intelectual, espírito inquisidor, motivação. |
Fonte: SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual. Portal Sapiens. 2002.
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Característica: Espírito crítico, ceticismo,
avaliação e autocrítica. |
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Característica: Criatividade e capacidade
inventiva, inclinação para novas maneiras de ver as
coisas, interesse pela livre expressão. |
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Característica: Poder de concentração e atenção. |
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Característica: Comportamento persistente e
dirigido para metas. |
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Característica: Sensibilidade, intuição, empatia
pelos outros, necessidade de suporte emocional. |
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Característica: Energia, vivacidade, agilidade,
períodos de intenso e voluntário esforço, precedentes
aos da invenção. |
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Característica: Independência no trabalho e no
estudo, preferência pelo trabalho individualizado,
necessidade de liberdade de movimento e ação,
necessidade de isolamento. |
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Característica: Versatilidade e virtuosidade,
diversidade de interesses e habilidades, muitos
passatempos, competência em diferentes aspectos como
música ou desenho e assim por diante. |
Fonte: SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual. Portal Sapiens. 2002.
Portanto, os alunos superdotados são diferentes dos demais em diversos aspectos. Aprendem com maior facilidade e rapidez, sentem uma necessidade quase compulsiva de fazer as coisas à sua própria maneira, são extremamente exigentes com os seus educadores, tem várias áreas de interesse intelectual e são vistos como diferentes pelos demais alunos. Logo, apresentam características únicas que fazem surgir problemas incomuns.
De acordo com Souza (2002):
Os alunos superdotados apresentam claros indícios de uma superioridade em relação aos normais quanto à eficiência dos seus processos de aprendizagem, sendo tal diferença mais visível no 1° Grau do que no 2° Grau. Entre os mais jovens, essa discrepância parece estar associada à necessidade de estudar o mínimo possível (mas não chegando a ficar completamente sem estudar). No caso dos mais velhos, normais e superdotados precisam ambos de quantidades semelhantes de estudo (cerca de 15 a 21 horas semanais, ou 2-3 horas por dia), porém os últimos apresentam um desempenho melhor.
Souza (2002) afirma ainda que os estudantes superdotados se diferenciam dos normais por serem mais propensos a adotarem uma estratégia de estudo mais holística, ou seja, que engloba uma mistura de leitura, testes, anotações e outras abordagens. Além disso, a estratégia predileta da maior parte dos educandos normais é a resolução de exercícios, enquanto que a dos superdotados é a combinação de estratégias.
Enfim, os alunos superdotados apresentam diferenças quantitativas e qualitativas em relação aos normais quanto ao estudo. No primeiro aspecto, há uma eficiência maior na aprendizagem escolar. No segundo, existem peculiaridades quanto às estratégias adotadas e os ambientes de estudo escolhidos. São discrepâncias mais do que significativas que certamente merecem uma atenção especial devido às suas implicações educacionais.
Portanto, a própria escola com suas padronizações e regras regras imutáveis é a origem de diveros problemas enfrentados pelos educandos com altas habilidades e a saída mais comum é tentar mudar o aluno, idiotizando-o, ao invés de mudar a escola.
Maker (1982, apud SOUZA, 2002) apresenta cinco aspectos pedagógicos fundamentais para a educação do superdotado. Aspectos estes que favorecem a motivação, o interesse e a aprendizagem livres de tensão e conflitos.
PRINCÍPIOS PEDAGÓGICOS PARA A EDUCAÇÃO DE SUPERDOTADOS - MAKER (1982)
| A aprendizagem deve estar centrada no aluno e não no professor. |
| Deve ser encorajada a independência, e não a dependência. |
| Deve ser encorajada uma atmosfera de "abertura mental" em sala de aula. |
| Deve ser enfatizada a aceitação de idéias e não o seu julgamento. |
| Deve ser permitida e encorajada a alta mobilidade do aluno dentro da sala. |
Fonte: SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual. Portal Sapiens. 2002.
De um modo geral, trata-se de princípios que deveriam ser aplicados em toda e qualquer sala de aula, esteja ela repleta de superdotados, de pessoas normais ou até mesmo de retardados mentais. O que Maker (1982, apud SOUZA, 2002) ressalta é o fato de que a ausência desses preceitos é muito mais prejudicial ao superdotado do que aos demais educandos. Logo, é preciso salientar e divulgar entre os educadores que o aluno com altas habilidades necessita de uma variedade de experiências de aprendizagem enriquecedoras, que estimulem seu potencial.
Acredita-se que a superdotação é um fenômeno raro e que são poucas as crianças e jovens educandos que poderiam ser considerados superdotados. O que pode ser salientado é que se realmente as condições forem inadequadas, dificilmente o indivíduo com um potencial maior terá condições de desenvolvê-lo. Assim, da mesma forma que uma boa semente necessita de condições adequadas de solo, luz e umidade para desenvolver-se, também o aluno com altas habilidades necessita de um ambiente adequado estimulador e rico em experiências.
No âmbito das políticas educacionais, inicialmente, as diretrizes básicas da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação e do Desporto (BRASIL, 1995) consideravam superdotados (ou portadores de altas habilidades) aqueles alunos que apresentavam notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual, aptidão acadêmica ou específica (por exemplo, aptidão matemática), pensamento criativo e produtivo, capacidade de liderança, talento para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora.
Atualmente, segundo o artigo 5º, parágrafo III, da Resolução CNE/CEB Nº 2, de 2001, que instituiu as Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica (BRASIL, 2001), educandos com altas habilidades/superdotação são aqueles que apresentam grande facilidade de aprendizagem, levando-os a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes. Como conseqüência, estes alunos apresentam condições de aprofundar e enriquecer conteúdos escolares.
Considerando as políticas educacionais inclusivas, o aluno deve ser cada vez mais atendido em seus interesses, necessidades e potencialidades, cabendo à escola ousar, rever suas concepções e paradigmas educacionais, lidando com as evidências que o desenvolvimento humano oferece.
Uma criança pré-escolar que apresente um desenvolvimento cognitivo, socioafetivo e/ou psicomotor diferenciado e avançado para a idade não pode ser desconsiderada e/ou desqualificada no âmbito escolar. Nesse sentido, é importante atender os alunos de altas habilidades/superdotados, considerando seu desenvolvimento real, evitando contemplar níveis de desenvolvimento padronizados, conforme os apresentados em escalas de desenvolvimento.
Cabe, portanto, à escola definir no projeto pedagógico seu compromisso com uma educação de qualidade para todos seus alunos, inclusive o de altas habilidades/superdotados, respeitando e valorizando essa diversidade, e definindo sua responsabilidade na criação de novos espaços inclusivos.
Além disso, é na educação infantil que se aponta para a possibilidade de realização de novas interações sociais por meio dos reagrupamentos escolares, conforme preconizam os artigos 23 e 24 da nova LDB e que buscam, em última instância, não que o aluno se amolde ou se adapte à escola, mas que a escola se coloque à disposição do aluno, como um espaço inclusivo.
Para isso é importante a definição de um projeto pedagógico que inclua a modalidade de ensino educação especial no cotidiano escolar, oferecendo aos alunos de altas habilidades/superdotados alternativas motivadoras e criativas de aprendizagem que possam garantir o seu sucesso escolar.
Freqüentemente a criança superdotada precisa de trabalho educacional fora dos limites da sala de aula, em interação direta com outras crianças bem-dotadas. Contudo, tem que ser integrado ao projeto educacional da escola, e não realizado como algo isolado, ou à parte dele.
Segundo as diretrizes básicas traçadas pelo MEC (BRASIL, 1995), os alunos portadores de altas habilidades, salvo em casos extraordinários, serão atendidos em escolas comuns, onde receberão atendimento especial, e terão a sua disposição orientação e materiais adequados. Esse atendimento deverá ser constituído, conforme o caso e as condições da escola, de uma programação de enriquecimento/aprofundamento curricular, de uma programação de aceleração de estudos, ou de modalidades conjugadas.
Ainda de acordo com o MEC (BRASIL, 1995), não haverá preocupação exclusiva com o atendimento ao(s) talento(s) que o superdotado possua, mas a busca na formação harmoniosa de sua personalidade.
Este documento estabelece ainda que o trabalho com a superdotação deverá ser norteado pelos seguintes critérios:
definir objetivos para a seleção de programas, tanto no que se refere ao desenvolvimento e à expansão das habilidades do educando, quanto à ampliação de seus interesses;