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A sucessão |
Zuenir Ventura -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
O autor de "1968, o Ano que Não Acabou" saúda as duas tribos que fazem as vezes da geração Brasil ano 2000. Uma é dourada, pintou a cara para derrubar Collor e foi em frente. A outra não reluz, atua nas periferias e compõe o Brasil real.
No Brasil, 1968 terminou como começou - nas ruas. Ia completar 25 anos, período que, segundo uma convenção, costumam durar as gerações. Mas 68 parece ter durado mais, talvez devido à memória de seus heróis feitos. Foi-se embora, ainda bem, quando se arriscava a contrair uma síndrome que o tornaria chato como um ex-combatente, aquele que se apega às glórias passadas e não vê o incômodo presente chegar.
As manifestações que o tiraram de cena em 1992 promoveram a mais alegre e colorida troca de gerações da História, um espetáculo ao mesmo tempo de insurreição e celebração - belo como um rito de passagem. Sem ruptura, o que é raro nessas mudanças, os caras-pintadas eclodiram triunfais como o fenômeno mais parecido com uma geração depois dos anos 60.
Resta saber o que farão com a vitória e com o resto de suas vidas. Para começo de história, nada mau porque, ao tomarem o lugar de seus ancestrais dos anos dourados, eles exorcizaram também um fantasma à sombra do qual haviam crescido cheios de fantasias incestuosas.
Foi um amigável acerto de contas, graças ao qual o Brasil talvez não precise mais caminhar para o século XXI empunhando como novidade idéias de uma geração biologicamente concebida meio século antes, na era Vargas. O movimento dos caras-pintadas apareceu providencialmente no momento em que, em vez de lição, 1968 ameaçava virar salvação. O passado inacabado já se estava insinuando no imaginário dos jovens como possibilidade de futuro. As míticas reminiscência recalcadas durante tanto tempo se apresentavam como imagens de um pretérito mais-que-perfeito.
A nova geração cresceu no final da década perdida, quando a inapetência política da juventude era atribuída à morte das utopias e ao fim das ideologias, aqui e em todo o mundo. A ciclotimia cívica dos anos 80 no Brasil, alternando surtos de euforia e crises de depressão, desestabilizou as esperanças. Não era um país, era a imagem de um maníaco-depressivo. Cada episódio vinha carregado de promessas e, em seguida, de frustrações: diretas já, eleição de Tancredo Neves, Plano Cruzado.
Ainda de cara limpa, a garotada conviveu com essas várias crises do fim do governo Sarney. A degradação moral competia com a corrupção política e esta com a corrosão econômica. Diante de uma taxa de impunidade mais elevada que os 80% mensais dos índices de inflação, recorreu-se à psicanálise e à ficção para explicar o país da razão cínica e do vale-tudo. O compositor Cazuza, portador do vírus da Aids e de uma revolta terminal, cantava que o Brasil era "droga que já vinha malhada".
A era Collor, que chegou prometendo redenção e acenando com modernidade, produziu um hiperbólico repeteco do processo de dissolução anterior. A reedição tomou ares de irremediável recaída. Uma visão de apocalipse moral - o desmoronamento das certezas, a confusão de valores, o mal-estar social - espalhara a idéia de que uma apagada e vil tristeza havia abolido a indignação e cancelado a revolta da alma nacional.
Portanto, nada mais natural que em meio àquele presente de futuro incerto se procurasse construir uma utopia não com o porvir, mas com o que foi. 1968 se transformava na própria utopia.
Quando os caras-pintadas surgiram, a primeira preocupação dos observadores foi procurar semelhanças entre as duas gerações, assim como quem espera encontrar no filho os traços do pai longo tempo ausente. Como não havia antagonismo entre as duas, deixou-se de ver a diferença só porque não havia oposição. A conquista foi tida como herança, o adquirido como legado. Tropeçou-se no que era parecido, pensando ser igual, e viu-se muita coisa de cabeça para baixo. Lia-se 60 onde já estava escrito 90.
"As gerações nascem umas das outras", dizia o inventor moderno do conceito, o filósofo espanhol Ortega y Gasset, sugerindo a existência de um processo compulsório de transmissão de heranças culturais. Querendo ou não, cada tempo histórico nasceria carregando nas costas um legado não encomendado.
Na sua busca de emancipação, os meninos que estão a caminho do ano 2000 vão ter de administrar essa ambigüidade: o persistente patrimônio que às vezes dificulta a construção da própria identidade. Esse é o preço que pagam por não terem seguido o exemplo de seus pais, que romperam com tudo o que veio antes e até com muito do que veio depois. O passado bate à sua porta, a toda hora. A imagem paterna custa a desaparecer, mas isso não impede a caminhada.
Nada será como antes. A geração de hoje e a de ontem têm tanto a ver entre si quanto o Brasil dos anos 90 tem a ver com o dos 60. A primeira diferença é que a própria idéia de geração pode ter mudado. Assim como não existem mais escolas literárias, para reunir estilos, nem movimentos cinematográficos, teatrais ou musicais, para uniformizar tendências, talvez não se faça mais geração como antigamente. Quem sabe nestes tempos pós-modernos - do culto do fragmentário e do transitório - cada grupo, cada galera, cada tribo não seja o que se chamava antes de geração. Quem sabe a garotada que pintou o rosto para sair às ruas seja não a geração dos anos 90, mas apenas uma delas, a mais visível e fotogênica, a mais ruidosa.
Por ser a mais conspícua, é também a mais observada. Várias pesquisas têm sido feitas sobre o seu comportamento. Já se sabe, por exemplo, que em oposição à anterior, cheia de certezas, ela apresenta muitas ambivalências. É inconformista, mas não radical. Quer mudanças, mas não é revolucionária. À idéia de uma utopia que iria redimir a humanidade, os jovens de hoje preferem o gozo do aqui e agora, o carpe diem. Há pelo menos um consenso: são conservadores. Mas não reacionários.
A socióloga Laura Dantas, do instituto Data Brasil, que vem desenvolvendo uma investigação para estabelecer o perfil do "adulto do século XXI", esclarece: "Ao contrário da geração de 68, atrevida, que trocou valores, os jovens de hoje são prudentes, não querem ruptura". A primeira parte do trabalho é justamente sobre essa faixa entre 14 e 19 anos, de classe A, que a pesquisa chama de Juventude Dourada. "Herdeira do milagre econômico dos anos 70 e íntima da inflação", essa garotada é otimista em relação ao próprio futuro, mas pessimista em relação ao Brasil. Mais de 80% deles acreditam que, até o ano 2000, vão melhorar de vida, mas o país vai piorar.
Sem má consciência por seus privilégios sociais, aceitos numa boa, a maioria não pensa em aventuras existenciais, como a dos hippies, nem em deserções de classe, como a dos guerrilheiros dos anos 60/70. Freqüentam escolas de 500 dólares por mês, falam duas línguas, viajam muito ao exterior (a maioria passa férias fora) e todos, com exceção de 10%, adoram prazeres como a praia, como bons hedonistas.
São diversos e contraditórios, cumulativos e não excludentes. Podem ser narcisistas, mas estão longe do egoísmo quase autista de seus irmãos um pouco mais velhos, os da "me generation" dos anos 80. Podem ser classificados depreciativamente por marca de tênis ou refrigerante - quem quiser ofendê-los que os chame de Geração Nike ou Geração Coca-Cola.
"Nossas atividades juntam a turma do Che Guevara aos fãs do Skid Row e aos malucos por skate", esclarece o porta-bandeira de tudo isso, o líder estudantil Lindbergh Farias Filho. Como um dinossauro, é membro do PC do B e tiete de Cuba; como jovem de seu tempo, é um exibido militante da mídia, quase um pop star. Tudo sem deixar de ser um legítimo nordestino.
São cidadãos do mundo, "teens globais", da mesma forma que os participantes de 68 eram planetários. A diferença é que a globalização de agora não foi operada pela ideologia e sim pela eletrônica - por McLuhan e não por Marx.
Correndo por fora, existe uma camada geográfica e socialmente periférica, desvalorizada pela mídia, preocupação apenas de antropólogos e sociólogos e sempre vista com suspeição pela polícia. A pesquisa da Data Brasil a chama de Geração dos Descamisados. Não é comum aceitar como fenômeno geracional - até porque o conceito sempre foi um privilégio de classe - esses milhares de jovens que habitam a periferia das grandes cidades, formando um grupo literalmente marginal.
Só no Rio, por exemplo, são quase 2 milhões reunindo-se todos os fins de semana para, à sua maneira, se manifestar numa furiosa comunhão feita sem palavras, de sons e gestos: os bailes funks. São ,conhecidos como funkeiros por causa da preferência musical, mas possuem características que reforçam um perfil de geração: inconformismo, identidade grupal, capacidade de mobilização e até uma visão particular de mundo.
Admiram como heróis líderes do crime organizado, mais por desapreço a todos os outros e menos por engajamento na violência, que cultuam sobretudo simbolicamente, através das liturgias catárticas e semanais. Vestem-se com griffes caras, gostam de copiar o uniforme dos surfistas, que odeiam, e calçam Nike tipo Air. Não chegam a considerar os caras-pintadas como "alemães" (inimigos), mas têm por eles um grande desprezo. Quando se perguntou a um deles por que o seu grupo não tinha participado das passeatas pelo impeachment do presidente Fernando Collor, a resposta foi que isso era "coisa de mauricinhos".
Não se conhece dessas galeras nenhuma manifestação política do tipo convencional. Nem assembléias, nem passeatas, nem protestos, apenas uma rebeldia vândala e anárquica, sem consciência política ou de classe. Suas demonstrações ainda não foram devidamente codificadas. A mais impressionante delas ocorreu num domingo de outubro de 1992, quando o país se espantou com as imagens que viu na televisão.
Era uma espécie de paródia de mau gosto das manifestações estudantis - uma antipasseata: o arrastão. O grupo de adolescentes que invadiu as praias da Zona Sul, espalhando o pânico, formava um comando de vanguarda com a mensagem da periferia. A expedição, mais lúdica que bélica, não chegou a provocar saques ou vítimas, mas um medo apocalíptico. A paranóia, a visão de uma aguardada invasão bárbara, transformou em ritual selvagem o que ainda era apenas coreografia da violência, diagrama de uma conquista possível, mas não imediata. Era a tomada de um território "inimigo", feita de maneira virtual e provisória, meio simbólica. Como disse um dos participantes, de 16 anos, "nós só queria arrepiar os bacanas, mostrar que a praia não é só deles".
Ao contrário dos jovens de corpo dourado, que querem ser reconhecidos pela diferença, esses de cara naturalmente pintada de preto querem ter direitos iguais. Para eles, o ideal democrático de cidadania passa pela integração, já que o caminho dos anos 60/70 levou a um desvio: o direito à diferença foi perseguido com tanto radicalismo que acabou ajudando, por equívoco, o fortalecimento da exclusão social. Agora, a geração dos excluídos não quer ser um corpo estranho, quer ser tratada com naturalidade. A sua utopia é a igualdade, ou seja, o direito à indiferença.
Os jovens dos anos 60 tinham a crença iluminista de que a marcha da História era fatalmente no sentido das luzes. Bastava apenas um empurrão esclarecido nessa caminhada para o paraíso. O fim do século, do milênio e das ilusões - o pós-fim - mostrou no entanto que as coisas não são bem assim e que nem tudo é progresso. O mal, não só o bem, também move a História - e como ! Quando esteve no Brasil no ano passado, o sociólogo francês Jean Baudrillard foi acusado de fazer o elogio do mal por ter dito: "O mal é uma forma de energia que alimenta a vida social". Ele quis dizer que não se erradica a maldade do mundo apenas com idealismo e boas intenções.
A juventude dourada poderá sempre contar aos netos, e acreditar, a história extraordinária do dia em que, quase menina, derrubou um presidente. O problema é a "outra" geração, que tem pouco a contar e menos a perder. A questão para o Brasil em fase de sucessão geracional é saber se vamos continuar temendo a periferia como filho bastardo. Ela não é dourada. Ela tem a força de ser real.