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Aprender a Raça |
João José Reis -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
Enquanto o negro brasileiro não tiver acesso ao conhecimento da história de si próprio, a escravidão cultural se manterá no país, sustenta o professor da Universidade Federal da Bahia. Um aviso para acadêmicos: samba-reggae e pesquisa negra combinam.
Já está fartamente demonstrado com dados do censo e pesquisas de opinião que negra é a cor da negação no Brasil. Mas nada como um mergulho no que está sendo produzido na área de estudos afro-brasileiros para sentir a temperatura racial do país. Um catálogo de obras intitulado Escravidão e Relações Sociais no Brasil, do Centro de Estudos Afro-Asiáticos do Rio de Janeiro, fornece uma lista de 2500 artigos, livros e teses de história, antropologia, sociologia e ciência política sobre o assunto.
O período contemplado corresponde aos vinte anos de maior crescimento de cursos de pós-graduação no país (1970-1990). Dos títulos citados, 47% tratam de escravidão e abolição, enquanto temas como relações e desigualdades raciais na atualidade aparecem em penúltimo lugar (11%), quase lanterninha, pouco acima das bibliografias (7%). O segundo lugar coube ao que poderíamos chamar de questões emergentes, sugeridas pelo renascimento negro na década de 70, que recolocou a questão do racismo e da identidade étnica para um país que se acreditava um só povo sob regime de democracia racial.
No campo das desigualdades raciais, os trabalhos listados no catálogo desafiam a tese, comum nos anos 60, de que o desenvolvimento capitalista tenderia a minimizar a cor como fator de estratificação em favor de outros fatores como renda e educação. As pesquisas mostram um desempenho negativo sistemático do negro no mercado de trabalho, na escola, nas condições de moradia, nas taxas de mortalidade infantil dos últimos vinte anos.
E o racismo atinge não só os que o censo convencionou chamar de pretos, mas também os pardos. Contestando a crença de que os pardos estariam a meio caminho da ascensão social, fica claro que eles se encontram muito mais próximos dos pretos do que dos brancos no critério que conta: a distribuição de renda.
Outra conclusão inequívoca dos estudos mostra que não basta ao negro a mesma escolaridade e treinamento profissional que o branco para alcançá-lo na corrida da ascensão social ou da mera sobrevivência. na hora de definir quem vai ganhar o emprego ou quem vai progredir na empresa, a cor volta a contar. Neste último caso, pesquisas recentes demonstram que o setor privado é mais racista que o setor público, aqui incluídas as estatais. Diante do que, privatizar pode piorar a condição dos negros.
Para ser eficaz, o chicote não precisa bater sobre as costas de todos os escravos. Cada negro assassinado na Candelária, no Carandiru ou na esquina de casa serve de exemplo para milhões espalhados pelo Brasil.
Mas a lei do chicote também não funciona 100%. Os negros não estão parados: com seus movimentos político-culturais, tomaram de assalto um bom pedaço da agenda dos pesquisadores, totalizando quase 20% dos estudos catalogados. Embora as pesquisas comprovem o fraco desempenho na política partidária - haja vista que, com raras exceções, continua branca a cor do Congresso Nacional, das assembléias estaduais e câmaras municipais, para não falar dos cargos executivos -, o negro já se tornou um fator na vida pública. Pelo menos nas grandes cidades.
E pelo menos em época de eleição. Já vemos candidatos com plataformas raciais, ou que acentuam sua origem racial, candidatos brancos buscando o voto étnico. Um pouco disso existiu na década de 30, no âmbito da Frente Negra Brasileira, mas sem dimensão nacional.
Em alguns lugares, dentro e fora da eleição, os negros inovaram na maneira de fazer política. O exemplo mais visível está na Bahia dos afoxés e blocos afros, já objeto de livros, teses acadêmicas, dezenas de artigos e vídeos. As ricas tradições da cultura negra local foram reinventadas para exaltar publicamente a beleza da cor, para celebrar os heróis afro-brasileiros e africanos, para contar a História dos países da África e das lutas negras no Brasil, para denunciar a discriminação, a pobreza, a violência no dia-a-dia negro.
A origem desses grupos, suas relações com comunidades de bairro, seus instrumentos de intervenção cultural e econômica, a ideologia que veiculam, as influências poético-musicais de sua arte, as ligações com a política local têm sido estudados. Um assunto pouco discutido é como essa explosão cultural negra, de grande repercussão na mídia, estaria ecoando na cabeça da minoria branca baiana e mesmo da grande maioria negra no Estado, para além da farra ao som de samba-reggae.
Apesar da ressonância engajada dos tambores, nenhum candidato saído do movimento negro baiano logrou sucesso eleitoral, talvez porque nenhum tenha conseguido uni-lo na urna. O interregno político de Gilberto Gil, que teve grande valor simbólico, deveu-se mais a forças alheias ao movimento. Há inclusive quem se queixe, entre os negros, de que os blocos afros esgotaram seu potencial político. Mas deve ser bom fazer política dançando. Há também quem se queixe, na academia, do interesse que desperta o estudo da cultura negra. Mas deve ser bom fazer pesquisa dançando.
A construção da atual identidade negra muito se inspirou nas religiões afro-brasileiras. Na safra das duas últimas décadas, além dos aspectos simbólicos e litúrgicos, nota-se uma maior preocupação por aspectos sociais, políticos e econômicos. Exemplo disso são diversos estudos que investigam a trajetória da umbanda no Rio de Janeiro, sua difusão entre a classe média, os centros e tendas enquanto território de disputa eleitoral, as relações ambíguas, ora de repressão, ora de acomodação, com o Estado.
As pesquisas não confirmam projeções dos anos 50 e 60 de que as religiões afro-brasileiras declinariam com o desenvolvimento capitalista no país. Elas se expandiram. Em alguns casos mudaram os vetores da expansão, como em São Paulo, onde o candomblé nordestino avançou sobre terreno antes dominado pela umbanda.
Ainda no capítulo religião, há o tema do negro nas igrejas cristãs. À sua presença no catolicismo popular, em especial nas festas e irmandades religiosas, se somam temas emergentes como a participação nas comunidades eclesiais de base e pastorais negras. Um assunto que desponta forte e certamente crescerá no rol dos interesses dos pesquisadores é a migração dos negros para igrejas evangélicas e a relação conflituosa entre estas e a religiosidade tradicional afro-brasileira.
Finalmente chegamos ao domínio da escravidão, que representa quase metade da população intelectual sobre a experiência negra no Brasil. Além de uma revisão profunda do papel social e até político do escravo reavaliou-se a importância do negro e do mestiço livre, redimensionando uma sociedade que antes se interpretava apenas através da matriz escravo/senhor.
Está demonstrado que havia senhores grandes e pequenos, entre os quais pessoas pobres, ex-escravos e até... escravos. A resistência escrava sempre foi objeto de muito interesse. Os levantes e quilombos continuam a ser descobertos e os já conhecidos a ser revisitados a partir de documentação inédita, inclusive arqueológica, e perspectivas novas. Dos velhos papéis emergiram movimentos reivindicatórios coletivos surpreendentes, na cidade e no campo, envolvendo petições e greves contra abusos senhoriais e por melhores condições de trabalho e vida.
As pesquisas recentes também evidenciam uma resistência mais sutil, miúda, cotidiana, envolvendo a fuga, pequenos crimes, a formação de grupos de trabalho, crédito, lazer e religião, redes de solidariedade e interesses que incluíam não apenas escravos, mas negros livres, brancos pobres e até pequenos comerciantes. O escravo nesses estudos não é vítima passiva da História.
Costuma-se colocar Gilberto Freyre, talvez o principal divulgador da tese da democracia racial no Brasil, em contraste com a "escola paulista" de sociologia, que no início dos anos 60 teria desmascarado o mito dessa democracia. Mas nem tudo era discordância. Se Freyre escrevera que os escravos teriam sido vítimas de um "sistema social e econômico em que funcionavam passiva e mecanicamente", Fernando Henrique Cardoso (da "escola paulista") também escreveria que os escravos existiam como "uma espécie de instrumento passivo sobre o qual operam as forças transformadoras da História."
A nova historiografia sugere um escravo mais ativo, apesar da escravidão, da mesma forma que a sociologia recente descobre um negro mais ativo, apesar da opressão racial. Em quase todas as frentes, os estudos afro-brasileiros cresceram em quantidade e, no conjunto, em qualidade. Passou-se de uma tradição ensaística para outra fundamentada em pesquisas empíricas.
A informática permitiu a manipulação de grandes bancos de dados e um aprimoramento da análise quantitativa. A teoria e o método evoluíram, superando visões esquemáticas. Os centros de pesquisa, as universidades, as revistas especializadas se abriram e, sobretudo, embora em ritmo lento, cresce o número de negros estudando negros. Mas o Brasil não sairá do atoleiro da monocultura racial na educação enquanto não difundir os estudos afro-brasileiros (ou o nome que se queira dar) em escolas e universidades. Mais que tudo, enquanto continuar isolando o negro da produção do conhecimento sobre si próprio.