O Estado paralelo

۩. Traficantes controlam serviços públicos em favelas

 

Violência no Rio de Janeiro -

Domingo, 15 de janeiro de 2006, 11h34

http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI834063-EI316,00.html

 

Traficantes de favelas cariocas controlam a rotina dos funcionários de prestadoras de serviços públicos. A ação atinge os empregados de empresas telefônicas, de correspondência, coleta de lixo, saneamento básico, companhias elétricas e até atendimento médico.

Os chefões do tráfico determinam o horário das atividades, quais funcionários devem executá-las e ainda cobram pedágio para permitir que as empresas atuem na região controlada. Em caso de tiroteio ou ameaça de invasão, os serviços são suspensos.

Há relatos de trabalhadores ameaçados, seqüestrados e mantidos sob a mira de armas, revela o jornal Folha de S.Paulo.

A entrada de ambulâncias é proibida nas favelas e técnicos da Light não atendem problema ligados a "gatos" - ligações clandestinas - na fiação elétrica. O serviço dos Correios só pode ser feito por um carteiro. Caso ele falte, os moradores devem buscar as cartas no centro de distribuição mais próximo. Se for substituído, o novo empregado deve ser apresentado à comunidade.

Funcionários de uma empresa de telefonia não podem entrar nas favelas depois das 17h, o horário de pico das atividades do tráfico. Eles também não podem fazer ajustes nos postes e são obrigados a instalar linhas de graça para os traficantes.

A coleta de lixo não pode ser realizada à noite, por causa dos tiroteios. Na maioria das favelas está proibida a entrada da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb); o serviço é feito garis comunitários, indicados pelos comandantes do tráfico.

 

Redação Terra

۩. Tráfico impõe regras para ação de empresas
 

MARIO HUGO MONKEN - 15/01/2006 - 09h19

da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro

http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u104261.shtml

 

Em favelas do Rio de Janeiro, empresas que prestam serviços públicos essenciais como instalação ou conserto de telefones, entrega de correspondências, coleta de lixo, atendimento médico, saneamento básico ou reparo na rede elétrica só conseguem trabalhar sob condição de regras impostas por traficantes de drogas, segundo relataram alguns funcionários à Folha.

De acordo com os depoimentos, os traficantes costumam decidir o horário em que os serviços podem ser realizados em seus domínios. Cobram pedágio para deixar a empresa trabalhar e chegam a determinar qual funcionário pode entrar ou não.

Há relatos de trabalhadores ameaçados, seqüestrados e mantidos sob mira de armas. Em casos de tiroteios ou de ameaças de invasões, os serviços são suspensos.

A Telemar é a empresa que mais enfrenta restrições. Depois das 17h, não é permitida a entrada ou permanência de técnicos da companhia em comunidades carentes mesmo que exista a necessidade de serviços.

Isso porque, a partir dessa hora, cresce o movimento de venda de drogas e aumenta o número de pessoas circulando armadas. O tráfico teme que os técnicos passem informação para a polícia.

Segundo funcionários, os traficantes não deixam que os profissionais façam reparos de poste em poste sob alegação de que eles poderiam estar instalando câmeras para vigiá-los.

Um técnico da empresa ouvido pela Folha disse que, em uma ocasião, estava na favela Vila Cruzeiro (Penha, zona norte) mexendo em um poste quando chegou um traficante armado e o mandou descer.

"Ele disse: "Não está espalhando câmera por aí, não. Vê lá, quer virar Tim Lopes [jornalista da TV Globo, assassinado por traficantes de drogas ao fazer uma reportagem com câmera escondida em 2002]?"."

Os traficantes cobram pedágios das empresas. No ano passado, por exemplo, uma delas foi obrigada a fornecer cestas básicas para moradores para poder atuar no morro do São João, no Engenho Novo (zona norte).

O "acordo" também ocorre no complexo de favelas da Maré (zona norte).

Há poucos meses, a Telemar forneceu aos seus funcionários telefones celulares com câmeras fotográficas. Os técnicos, no entanto, foram "proibidos" pelos traficantes de entrarem com os aparelhos. Por causa disso, muitos acabam sendo revistados antes de iniciarem o trabalho.

Os traficantes também obrigam os técnicos da Telemar a instalar linhas de graça para eles, segundo os relatos ouvidos pela Folha.

Na favela do Sapo (zona oeste), os criminosos criam centrais telefônicas usando linhas de assinantes e não permitem que haja conserto em caso de reclamação.

Na favela do Batan, em Realengo (zona oeste), a rotina de ameaças aos profissionais fez com que a Telemar decidisse só ir ao local se houver uma demanda de dez atendimentos ou mais.

Um outro profissional contou à Folha que uma vez foi seqüestrado por traficantes do morro Dona Marta, em Botafogo (zona sul), e obrigado a consertar um orelhão que estava quebrado.

 

Escolha

 

Os Correios também são obrigados a se sujeitar ao poder do tráfico. Segundo funcionários, os traficantes só permitem que correspondências sejam entregues por um mesmo carteiro, para que este fique conhecido por membros comunidade.

Caso este profissional esteja de férias, seu substituto tem que ser apresentado na associação de moradores antes de começar a trabalhar.

Em caso de uma falta inesperada do profissional ao serviço, a entrega não é feita ou o novo carteiro é barrado e os moradores têm que buscar suas correspondências no centro de distribuição mais próximo.

A principal queixa dos funcionários, no entanto, é quanto aos assaltos às cargas. Só no ano passado, ocorreram 200 roubos a veículos dos Correios no Estado do Rio de Janeiro.

A situação é mais crítica em Benfica (zona norte), onde a empresa tem o seu principal centro de distribuição. No ano passado, dois funcionários foram rendidos na rua Leopoldo Bulhões e levados para dentro da favela Mandela, onde foram agredidos a coronhadas.

A Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana) é outra empresa que enfrenta problemas. Por causa de tiroteios à noite, foi suspensa a coleta noturna de lixo em favelas.

Durante o dia, os garis também não entram na maioria das favelas que, devido à pressão do tráfico, utilizam garis comunitários. Segundo funcionários ouvidos pela Folha, muitos deles são indicados por traficantes ou trabalham em bocas-de-fumo.

 

Ameaça

 

A Light vive recebendo queixas de ameaças de traficantes a seus funcionários. Os técnicos, por exemplo, não entram em favelas quando detectam problemas na rede em virtude de ligações clandestinas --os chamados "gatos".

"Eles [traficantes] não deixam realizar cortes nas fiações", disse o presidente do sindicato da categoria, Magno dos Santos Filho.

Segundo ele, os traficantes costumam obrigar os técnicos a realizar consertos que, por muitas vezes, não são possíveis em virtude da falta de equipamentos para o serviço específico.

No início do ano passado, por exemplo, em apenas uma semana, em cinco favelas (Mangueira na zona norte, Tijuquinha, Taquaral e Vila Aliança na zona oeste e Caju, zona portuária) equipes da companhia foram seqüestradas e obrigadas a instalar novos transformadores de luz, que os próprios criminosos destruíram a tiros, de acordo com relatos dos funcionários.

O atendimento médico em favelas também é difícil. Em pelo menos 12 favelas do Rio, os traficantes não permitem a entrada de ambulâncias do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e do Emergência em Casa do governo estadual. De acordo com os profissionais, em média, a cada plantão há, pelo menos, de duas a três ocorrências.

 

۩. No front inimigo

Reportagem da Revista Isto É

Francisco Alves Filho e Marcos Pernambuco

14/06/2002

Mais de 600 favelas cariocas vivem sob a égide do crime organizado. Seus líderes ditam regras, colocam-nas em prática como decreto à população e executa seus opositores. A questão é: o Estado democrático terá condições de vencê-lo?

 

 

Carlo Magno

 

Vai piorar: o traficante D., da velha guarda do Comando Vermelho: “Os jovens são mais violentos e estão fora do controle”

A guerra pode ainda não ter sido declarada, mas a população das grandes cidades brasileiras, especialmente do Rio de Janeiro, vive numa situação de tensão absurda, medo assumido, pavor mal disfarçado. O estúpido assassinato do jornalista Tim Lopes e a descoberta de que outras 60 pessoas, antes dele, também foram presas, torturadas, julgadas, condenadas e cremadas vivas pelo tráfico, só na área dominada por Elias Maluco, acenderam todos os alarmes. O poderio bélico, a movimentação financeira, a quantidade de soldados, a corrupção policial, a degradação social, tudo isso fomenta o Estado paralelo que precisa ser combatido.

Usada a partir dos anos 80 para definir o poderio do narcotráfico no Rio, a expressão Estado paralelo não é mais uma figura de linguagem. É difícil achar termo mais fiel às condições em que vivem os moradores das 600 favelas cariocas, governadas por traficantes com leis bem distintas das vigentes no Brasil. Ao contrário do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), da governadora Benedita da Silva (PT) ou do prefeito César Maia (PFL), os chefões desse outro Estado não receberam votos para se investir da autoridade que têm. Eles a conquistaram a tiros de fuzis e metralhadoras, aproveitando-se da quase total ausência do poder público numa terra de ninguém, que ocupa mais de um terço do território carioca, sem contar a populosa Baixada Fluminense. Foi assim no caso da tortura e morte do jornalista Tim Lopes, da Rede Globo, reconhecido pela quadrilha da favela Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio, quando fazia reportagem sobre um baile funk com sexo explícito e venda de drogas. Os traficantes exerceram o Poder Executivo ao prendê-lo como se fossem policiais, julgaram como magistrados do seu macabro Poder Judiciário e o executaram seguindo as penas criadas por seu Legislativo. “Nesse caso houve realmente uma ação estatal”, admitiu o ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior, na segunda-feira 10. Pelos cálculos da Polícia Civil do Rio, o aparato marginal que há anos domina as favelas do Rio movimenta mensalmente cerca de R$ 30 milhões e expande a cada dia sua área de influência, tomando ainda mais espaço do Estado legal.

Fernando Quevedo/Ag. O Globo - S.Viegas

 

Terceiro Comando: Uê, preso em Bangu I, é comandante da facção responsável por ações ousadas, como instalar um painel com as letras T.C. em neon no alto da favela Casa Branca, na Tijuca

 

O poder paralelo, basicamente dividido pelas facções Comando Vermelho e Terceiro Comando, é tirânico. Sua manifestação mais terrível é a execução das penas às quais são submetidos os condenados pelo tribunal dos traficantes. No episódio de Tim Lopes, um dos carrascos, o motorista levou o repórter ao local da execução, revelou que os bandidos deram uma pancada em sua nuca para fazê-lo desmaiar, deram tiros em suas pernas, que foram depois decepadas com uma espada de samurai. Por fim, teriam colocado seu corpo dentro de um tonel cheio de gasolina e o incineraram. Durante as escavações em busca do corpo de Tim, pelo menos outras seis ossadas foram encontradas, sem que a polícia demonstrasse a menor curiosidade em saber a quem pertenciam, tamanho o conformismo com a existência de cemitérios clandestinos nas favelas. “Nos últimos anos, cerca de 60 pessoas foram executadas da mesma forma nesse local”, estimou o detetive Daniel Gomes, da 22ª Delegacia Policial. É impossível contar o número de anônimos submetidos aos carrascos nos grotões escuros dos morros. O medo impõe o silêncio e são poucos os casos que chegam ao conhecimento da polícia do Estado legal.

 

Jamil Bittar/Reuters

 

Comando Vermelho: Fernandinho Beira-Mar, o principal traficante do País, com conexões diretas com as máfias colombianas, é o atacadista do C.V., que domina as principais favelas do Rio

 

Agência JB

Mão decepada – Uma das raras execuções que viraram inquérito policial aconteceu na terça-feira 11, quando o agente penitenciário e taxista Iedir Brasileiro, 46 anos, e sua mulher, Aline Santos, 21, foram espancados, torturados e mortos a tiros pelos traficantes do morro do Urubu, em Piedade, na zona norte. Os dois foram apanhados quando entregavam uma cesta de café da manhã para um casal de namorados numa rua de acesso à favela. Antes de alvejarem cada um com dez tiros, os marginais passaram várias vezes com um carro sobre os dois. As penas criadas pelos bandidos variam de morro para morro, mas há alguns códigos comuns. Praticamente todos aqueles considerados delatores ou estupradores são assassinados e em várias favelas os ladrões têm a mão direita decepada. Em muitas execuções os governantes da bandidagem não se contentam em usar as armas pesadas de seu poder bélico, que na avaliação do superintendente da Polícia Federal no Rio, Marcelo Itagiba, chegaria a três mil peças. As mais comuns são os fuzis AR-15, Ak-47, Fal e Rugger, além de granadas, morteiros, lança-rojões e bazucas. Segundo a PF, há pontos de tóxicos de morros cariocas com 300 fuzis, ou seja: um poder de fogo superior ao de duas companhias de fuzileiros de um batalhão de infantaria do Exército. É esse arsenal, sobre o qual as Forças Armadas e a Polícia Federal não têm nenhum controle, que torna o tráfico do Rio peculiar e mais assustador do que o de qualquer outra grande cidade no mundo.

Nem sempre os governantes do narcotráfico se apresentam como facínoras aos moradores das favelas. Armados até os dentes, eles exercem um papel de polícia que coíbe pequenos delitos. “A polícia na favela é sinônimo de truculência e extorsão. Os moradores não apóiam os traficantes, mas se sentem um pouco mais seguros com eles”, acredita André Fernandes, presidente da associação de moradores do morro Dona Marta, na zona sul. Essa segurança informal não é nenhuma dádiva. A estratégia dos bandidos é eliminar os crimes menores para evitar a presença de policiais e deixar o caminho livre para o crime mais rentável, o tráfico de drogas. Impressionante é que essa segurança marginal extrapola os morros e já começa a ser aceita no asfalto.

Wilton Junior/AE - Reprodução/AG. O Globo - Paulo Araújo/Ag. O Dia/AP

 

Barbárie: Elias Maluco (à esq.), o homem mais procurado do Brasil, participou diretamente do assassinato de Tim Lopes: busca pelo corpo do jornalista continua

 

O advogado Luiz Fernando Penna mora numa bela casa na Gávea, zona sul, em uma rua de classe média alta que faz fronteira com a Rocinha, uma das maiores favelas do Brasil. Em 1990, Penna teve sua residência assaltada duas vezes no mesmo dia. Cobrou uma atitude de seu colega Hélio Saboya, então chefe da Polícia Civil, mas nada aconteceu. Acabou recebendo uma oferta de ajuda do traficante Naldo, que governava a Rocinha. Em uma semana, os bens roubados foram recuperados e devolvidos. “Naldo prometeu que resolveria esses crimes por aqui, desde que não chamássemos mais a polícia. Nunca mais tivemos problemas”, afirma Penna. O traficante morreu, mas todos os seus sucessores mantiveram a conduta. “Infelizmente temos de reconhecer que eles têm uma competência e uma continuidade administrativa maiores do que o governo”, lamenta o advogado.

 

Renato Velasco

 

Realidades: o ex-assaltante Samuca (à esq.) trabalha para recuperar soldados do tráfico...

Funk proibidão – Além de atuar como justiceiros, os marginais atraem simpatia com uma eficiente política cultural. A principal atividade nesse campo é a promoção de bailes funk gratuitos, com a dupla função de lazer para os jovens e chamariz para consumidores de droga. Nas raps do funk, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando se vangloriam, se atacam e difundem a banalização da violência. “Cheiro de pneu queimado/Carburador furado/Um X-9 foi queimado” é a letra de um dos raps, paródia da música Carro velho, de Ivete Sangalo. Nas bancas de camelôs de vários bairros do Rio é possível encontrar CDs com músicas desse tipo, os chamados Proibidões, que têm boa vendagem. Cerca de três mil discos contendo apologia ao tráfico foram apreendidos pela Polícia Federal na terça-feira 11 em Madureira, zona norte. Muitos tinham faixas com saudações aos chefes do tráfico, inclusive Elias Maluco e Boizinho, dois dos executores de Tim Lopes.

Renato Velasco

 

... enquanto o advogado Penna vive em segurança em sua casa na Gávea graças aos traficantes da Rocinha

 

Não é de hoje que a “ação social” dos traficantes substitui a ausência de investimentos sociais dos governos legais nas favelas do Rio, como em várias comunidades miseráveis do País. Os bandidos financiam a construção de parques esportivos, creches e outras instalações. “O chefe do tráfico construiu uma quadra de esporte na favela e paga os remédios de muita gente que fica doente e não tem dinheiro”, confirma o adolescente A.C.S., 17 anos, um ex-soldado do traficante Waguininho, na Vila Kennedy, zona Oeste. A.C.S. foi preso pela Divisão de Repressão a Entorpecentes na quarta-feira 12 com um possante fuzil Rugger, uma granada de fabricação caseira, 517 papelotes de cocaína e 62 trouxinhas de maconha. Filho de uma empregada doméstica e um gari, ele entrou para o comércio de drogas há três anos, depois de trabalhar como jardineiro e pedreiro, funções pelas quais recebia o salário mínimo. “Vendendo drogas eu ganho de R$ 500 a R$ 1 mil por semana, trabalho seis horas e meia por noite, com três dias de folga. Comprei tênis, roupas, uma motocicleta e um Monza”, relata. O jovem soldado do Estado paralelo contava com um sistema previdenciário bem mais generoso do que o dos trabalhadores brasileiros. “Quem se fere é levado para o hospital e recebe remédio de graça”, conta o adolescente. Nestas batalhas diárias, A.C.S. já perdeu 15 amigos. Os enterros foram pagos pelo dono do tráfico.

Entre os empregados no comércio de drogas, A.C.S. já é considerado experiente. Uma pesquisa patrocinada pela Organização Internacional do Trabalho revela que a média de idade para o ingresso no crime, que era de 15 a 16 anos no início da década de 90, caiu para 12/13 anos. Segundo a pesquisa, o recrutamento de crianças e adolescentes aumentou consideravelmente a partir de 1995 e esses menores em geral morrem antes de um ano na atividade. Uma comparação entre os salários pagos pelo governo e a remuneração do Estado paralelo ajuda a explicar o crescimento vertiginoso desse Exército dos morros. “O jovem começa no tráfico ganhando R$ 600 mensais, o dobro da renda dos adultos trabalhadores das áreas carentes”, destaca o economista André Urani, um dos coordenadores do Instituto de Estudo do Trabalho e Sociedade, que realizou a pesquisa para a OIT. Esses jovens têm um “plano de cargos” que vai de vigia a gerente-geral de uma boca de fumo, com rendimentos que podem chegar a impressionantes R$ 15 mil por mês.

Tasso Marcelo/AE

 

Parceria: no desenho num muro do Rio, PCC e CV juntos: sindicato do crime

 

Vida curta – Nascido na favela Vila Aliança, em Bangu, zona oeste, M., 17 anos, passou fome, foi pai aos 15 e, para sustentar o filho pequeno, entrou para o tráfico. Além do dinheiro, buscava respeito. “Quando a polícia invade o morro, a gente apanha e é tratado como marginal. Resolvi virar bandido para dar o troco”, dispara. Começou como olheiro e em pouco tempo virou soldado. “Tirava mais de R$ 500 por semana.” Ele usou armamentos como granadas, pistola 9mm, fuzis AR-15 e metralhadora Ina 45. Foi preso duas vezes, trocou tiros com traficantes de facções rivais e com policiais, até dar um basta. “Poucos soldados passam dos 20 anos.” Conseguiu ajuda de Samuel Araújo, o Samuca, 33 anos, responsável pelo projeto Soldados Nunca Mais, da ONG Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social, que oferece aulas gratuitas de música, futebol, teatro e grafitagem. Assaltante e sequestrador na década de 80, Samuca cumpriu pena de sete anos e saiu disposto a não voltar para a cadeia. “Passei muita coisa ruim na vida e mostro isso para os garotos. Resolvi fazer a minha parte e ajudá-los.” Foi assim com D., hoje com 22 anos, que aos 15 entrou para o tráfico também fascinado pela remuneração. “Eu voltava para casa magro, cansado, com olheiras e dormia dois dias. Para me manter ligado durante o trabalho, só usando droga.” Depois de ver dois primos mortos no tráfico, D. largou a criminalidade. “Vi que esta vida era uma ilusão, quero ver minhas filhas crescerem”, diz.

Conexão política – A geopolítica que rege o governo paralelo é intrincada. Surgida em 1979, de dentro da cadeia de Ilha Grande, onde presos políticos e criminosos comuns estiveram misturados na época do regime militar, a facção Comando Vermelho se apoderou de algumas técnicas de organização dos guerrilheiros.

O assaltante de bancos William da Silva Lima, o Professor, espécie de ideólogo do CV, criou o slogan “Paz, Justiça e Liberdade”, e traficantes como Rogério Lengruber, Francisco Viriato, Escadinha, Gordo e outros se juntaram num tipo de associação criminosa que o Rio não conhecia. Cerca de dez anos depois, nascia o Terceiro Comando, uma espécie de dissidência do CV, cuja liderança coube a Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê. Mesmo presos, os líderes das duas facções controlam o tráfico de dentro das cadeias e recebem de seus representantes nas comunidades boa parte do dinheiro arrecadado no comércio das drogas. Atualmente, Isaías Costa Rodrigues, o Isaías do Borel, e Marcio Nepomuceno, o Marcinho VP do Complexo do Alemão, são os principais líderes do Comando Vermelho, e Uê é o chefão do Terceiro Comando. Na sustentação econômica do comércio de drogas, Uê e Fernandinho Beira-Mar são considerados pela polícia como os principais atacadistas das duas facções. Segundo a DRE, cada um movimenta mensalmente cerca de 500 quilos de cocaína no mercado interno.

Sem sonhos – Além dos confrontos entre as duas facções desse exército marginal, o Estado paralelo é sacudido por turbulências de outro tipo. O fato de as lideranças dos morros estarem nas mãos de traficantes cada vez mais jovens faz aumentar o nível da violência. “Esses garotos não têm sonhos nem perspectivas. Quando pegam nas armas ficam fora de controle, fazem qualquer coisa”, admite Simone Correa de Menezes, presidente da Associação de Familiares e Amigos de Presos e mulher do Professor, fundador do Comando Vermelho. “Os mais antigos, que estão em Bangu I, andam preocupados.” Na noite de quarta-feira 12, ISTOÉ entrevistou D., 44 anos, traficante que já foi líder de uma favela da zona norte e hoje está arregimentando um grupo de 20 homens, prestes a entrar em guerra para recuperar o morro de onde foi destituído. Ele confirma que os jovens são mais sanguinários. “Esses garotos não pensam em aumentar o lucro com a venda de maconha e cocaína. Querem barbarizar, formar bondes que descem para o asfalto para trocar tiros com PMs”, afirma D. “Os jovens são mais violentos, estão fora do controle dos comandos.”

Renato Velasco  
Crescimento: a Rocinha avança em direção a São Conrado: nada pelo social  

Diante desse quadro, é possível prever que a situação, já dramática nos territórios dominados, vai ficar ainda pior, com uma escalada de violência que a polícia é incapaz de conter. “O sistema policial já foi superado pelo crescimento do narcotráfico no Brasil”, afirma o general Carlos Eduardo Jansen, que participou das investigações sobre as ações dos traficantes durante a Rio-92. Ele defende uma reforma da Constituição que assegure ao Exército a tarefa de policiamento das fronteiras, entre outras medidas. Toda a estrutura marginal é baseada numa coluna central que lhe garante a impunidade: o crescente contrabando de armas de calibres cada vez mais pesados. Nesse item, o superintendente da PF no Rio reconhece a impotência da corporação. “Seria quase impossível impedir a entrada de drogas e de armas pelas extensas fronteiras brasileiras”, afirma. Itagiba, um dos idealizadores da Força Tarefa, sugere que a investigação seja concentrada nas quadrilhas que exploram a cocaína no Rio. Seja essa ou qualquer outra linha de trabalho, o importante é que a polícia entre em ação de forma eficaz o mais rápido possível, para garantir à população das favelas a sua imediata reintegração ao Estado legal e o exercício de direitos básicos que valem em qualquer outro canto do País.

A semana passada terminou com o governo estadual reforçando o esquema de policiamento em toda a região metropolitana. As favelas do Complexo do Alemão ficaram coalhadas de policiais desde que o desaparecimento de Tim Lopes despertou a indignação da opinião pública, com manifestações de jornalistas amplamente divulgadas pelos veículos de comunicação. A presença ostensiva do Estado legal, no entanto, não impediu que o poder paralelo reafirmasse sua ousadia. Às 10h de quinta-feira 13, a direção do Ciep Maestro Francisco Mignone recebeu um telefonema dos traficantes locais com ordens para a suspensão das aulas, uma rotineira forma de o tráfico demonstrar sua autoridade. A escola fica na favela da Grota, o quartel-general do comandante Elias Maluco. As aulas foram suspensas.

Colaboraram: Eliane Lobato, Hélio Contreiras e Vivian Lemos

Bangu I , a elite do tráfico
  M.Soares/Ag. O Globo
  Segurança máxima: à prova de fugas

Há prisões que povoam o imaginário popular pelas histórias de terror atribuídas aos bandidos que as ocupam. Bangu I é uma delas. Os mais temidos traficantes cariocas estão lá, como Fernandinho Beira-Mar, Marcinho VP (os dois, das favelas Alemão e Dona Marta), Isaías do Borel e Celsinho da Vila Vintém. “É a Seleção Brasileira do crime”, diz um funcionário do Departamento Geral do Sistema Penitenciário (Desipe). Pioneiro na organização do Estado paralelo, Escadinha passou boa parte da vida neste presídio. Elias Maluco, se for preso, também vai para lá. Já o pagodeiro Belo, acusado de associação com o tráfico, se for condenado, não terá o mesmo destino – é muito light para a turma. Ninguém conseguiu fugir de Bangu I desde sua inauguração em 1988.

A unidade prisional é pequena. Tem 48 vagas e é de segurança máxima. Pelo menos 85% são traficantes de drogas. O nome correto é Penitenciária Laércio da Costa Pellegrino e fica em Bangu, zona oeste do Rio. Depois, vieram Bangu II (1995), III (1997) e IV (1999). O Bangu V é uma Casa de Custódia. Bangu I possui somente celas individuais de seis metros quadrados cada uma, distribuídas em quatro galerias. Cada cela tem uma cama, banheiro no chão (instalação sanitária sem vaso) e uma televisão de nove polegadas. Oficialmente, sem telefones. Na prática, alguns bandidos mantêm seus celulares e com eles comandam os “negócios”, como Celsinho da Vila Vintém, que, ao ser preso recentemente, declarou em alto e bom som que manteria seu celular.

A cidade do Rio de Janeiro tem 32 unidades prisionais e população carcerária de 17.800 pessoas. Segundo a assessoria de imprensa do Desipe, há, no momento, 19 fugitivos, nenhum deles do complexo de Bangu – cuja capacidade total é de 2.864 criminosos. Todas as unidades estão cheias.

Eliane Lobato

 

Leonildo Correa - OCW Br@sil - Direito USP - Mapa do Site

(...) Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provoca<>r pruridos anais...

As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios.

(...) E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento. (Konstantin Gravos - Texto Completo)

O sistema vigente é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos ? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros, etc. Vemos e interagimos com as mesmas pessoas que queremos salvar. Contudo, antes de salvá-las, essas pessoas fazem parte do sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema que irão lutar ferozmente para protegê-lo. (Adaptado do Filme Matrix)

Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros - Che Guevara

Quando se faz uma boa ação, há sempre quem a ache má e se queixe, e quando se faz bem a uns, faz-se mal a outros!  August Strindberg

Se o conhecimento não tem dono, então a propriedade intelectual é mais um truque do neoliberalismo. Hugo Chaves

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