Poemas românticos do Leonildo

Estes poemas foram escritos entre 1996 e 2000. Época na qual eu era graduando de Física Computacional na USP de São Carlos. Nesta época eu vivia uma fase de amores, paixão e pessimismo intenso.

Não, eu não gosto de escrever.
Eu odeio escrever.
Porque quando escrevo,
escrevo com grande paixão,
com grande sentimento.
Porque sofro demais quando escrevo.

Deixo o papel impregnado de mim.
Cheio de minhas impressões, do meu ser.
Grudado nele fica um pedaço da minha alma,
do meu espírito, do meu coração.

Mas sou membro da raça humana.
Estou imbuído de paixão.
E mesmo não gostando de escrever,
tenho necessidade de escrever;
necessidade de deixar o papel impregnado
de mim.
Definitivamente, eu tenho que escrever.

Uma vez

Houve um tempo em que amava.
Amava uma pequena.
Mulher que tinha nos olhos a inocência e

 a pureza de uma criança.
Que era singela e suave como uma flor.
Seu perfume natural tinha um cheiro silvestre,
diria até selvagem.
Eu a amava.
Mulher ideal.
Ideal para muitos.
Um dia esta pequena soube que era ideal.
Era uma vez uma pequena.
Uma pequena que se tornou grande.
Grande demais nos meus sonhos.
Grande demais no seu orgulho.
Tornou-se comum entre as mulheres.
Um dia eu conheci uma pequena.
Como eu amava aquela pequena.
A minha pequena cresceu,
mudou sua forma,
mudou o seu jeito e perdeu sua graça.
Perdeu também o meu amor.

A mais bela mulher

A mais bela mulher não demonstra
a beleza que possui.
Não se acha dona do mundo
e nem tem a soberba estampada no rosto.
A mais bela mulher é aquela que sabe que é,
mas não tira proveito de ser.
É aquela que se pudesse escolher,
não gostaria de ter o que tem.
É aquela que o manto sempre cobre.
Que a primeira vista conseguiu
camuflar a beleza que possui.
É aquela que com sua astúcia e inteligência,

conseguiu projetar nos seus feitos,
mesmo estando com o rosto encoberto,
a sua beleza.
A mais bela mulher é aquela que te
surpreende a cada instante por ser bela
e não querer ser bela.

Ao teu lado

Quando estou a teu lado
meu coração dispara,
minha voz estremece,
e a forte fala morre ao sair.
Quando estou a teu lado
quero sorrir, chorar e gritar
ao mesmo tempo.
Ao teu lado o amor é confusão.
As idéias se misturam
e a utopia torna-se real.
Ao teu lado quero somente olhar
para você, só ver você,
só falar com você.
Sentir a tua voz tocar os meus ouvidos.
Sentir cada milímetro
do ar que te envolve.
Quando estou a teu lado eu
quero cada vez mais estar a teu lado.

Saudades

Tenho saudades daqueles dias.
Daqueles dias em que te buscava e te encontrava.
Em que podia sentir o perfume quente do teu sorriso,

a meiguice e a ingenuidade da tua voz,
o aroma que emanava do teu corpo.
Tenho saudades do néctar do teu olhar,
das discussões e conversas que provinham de ti;

daquela sua cara de radical,
daquele ar de misteriosa
e nervosa que tanto te caracterizava.
Tenho saudades de tudo o que aconteceu.
E me arrependo de não ter vivido mais profundamente

todos os instantes que passei próximo de ti.
Mas tudo se esvaiu no tempo
E só restaram lembranças.
Saudades, eis tudo o que restou de algo que não existiu,
mas que eu vivi intensamente
enquanto durou.


Eu tenho uma paixão

Eu tenho uma paixão ardente.
Paixão de homem dominado corpo,
alma e mente.
Paixão de um início sem fim,
de liberdade aprisionada.

Eu tenho uma paixão desesperada.
Loucura que pernoitam em uma mente.
Paixão de atingi-la como um raio,
em uma realidade utópica,
em um deserto sem solidão.

Eu tenho uma paixão por ti pequena,
eternidade e felicidade a teu lado.
Paixão de querer tê-la a cada momento,
de sentir o teu corpo colado ao meu,
de vida insana, de vida pura,
de fim eterno.

Talvez

Talvez se dissesse baixinho,
o mundo não iria te escutar.
E eu que estaria ali mui perto de ti,
somente para te ouvir,
sentiria o perfume dos teus lábios,
a tua voz meiga e suave.
Veria o brilho dos teus olhos
e me achegaria mais,
para te sentir ainda mais.
Seriam duas almas a se enlaçarem,
dois espíritos a se atraírem.
Ali naquele instante,
os meus olhos entrariam em ti.
Os sentidos e noções se perderiam.
Minhas mãos te agarrariam
para te sentir ainda mais.
Mais próximo estaria o que perto já estava.
Rosto contra rosto.
Olhos contra olhos.
Lábios a se tocarem.
Pálpebras que cerram num reflexo inesperado.
Um prelúdio que finda.
Os aplausos vem de dois corações que palpitam,
que se debatem numa fúria louca.
Um soluço na escuridão.
Um beijo quente e apaixonado
que ilumina toda a noite.

Lágrimas de poeta

Não deixes cair esta lágrima, poeta,
o mundo pode ouvi-la cair e dizer:
“O poeta está em pranto”.
Retenhas em teus olhos úmidos
essa última lágrima.
Guardai-a como o último cântaro
de água no deserto da vida.
Segura essas lágrimas, poeta.
Senão elas não te deixarão enxergar,
e assim irão alterar o teu caminho.
Uma lágrima pode definir uma vida.
Dissimula essa emoção.
Lembrai da grande lição.
Poeta não é normal.
Ele não chora por seus olhos.
Ele não ama só no coração.
Ele faz tudo isso pelas mãos.
Chorai sim, poeta.
Chorai letras, palavras
e versos por tuas mãos.
Deixe registrado para sempre
o teu pranto tão dolorido,
os pedaços do teu coração.
Deixe escorrer por entre os seus dedos
toda a sua emoção.

O poema

O poema é a dor do poeta.
Ele não sai com facilidade e nem tem,
o poeta, satisfação em fazê-lo.
Escrever um poema é sentir a maior das dores:
a dor de ser poeta.
Um poema é a tradução de uma emoção,
de um sentimento inexplicável e profundo.
Ele não é para ser compreendido racionalmente.
Nem tampouco ser obra de estudo de intelectuais.
Um poema não busca alterar conceitos,
ideais, fazer a revolução.
Ele não quer persuadir ninguém.
Ele é feito apenas para emocionar.
O mérito desta emoção não pertence ao poeta,
mas a sua amada imortal.
É ela quem escreve o poema.
Ela o escreve com o seu jeito,
com a sua forma de ser.
Ela os fixa no coração e a alma do poeta.
Tirar um poema lá do fundo é
arrancar um pedaço do poeta.
É expor aquilo que ele tem de
mais íntimo à profanação.
Um poema é dor, é vexame,
é humilhação.
Um poema é tudo isso.
Viver é necessário.

Quando

Quando eu passo por ti eu penso
em parar e te dizer algo,
mas eu hesito e não paro.
Quando eu te vejo,
quero olhar em teus olhos.
Olhar bem lá no fundo dos teus olhos
e lhe dizer... mas quando eu te vejo
eu não tenho coragem de olhar
para os teus olhos.
Quando eu, em um relance,
capto o teu sorriso no ar.
Não para mim dirigido,
mas para um outro qualquer;
eu quero sentir o perfume que dele,
deste teu sorriso, emana.
Eu quero sugá-lo em toda a sua essência,
mas ao me ver,
o teu sorriso se desfaz no ar.
Quando eu vejo o teu rosto.
Eu quero parar e reverenciá-lo pela sua beleza,
pela sua ternura e pela sua singeleza.
Mas de repente o teu rosto se transforma.
Um olhar de ódio, de destruição,

transparece no ar. Um rosto maquiavélico.
Um rosto que não combina com o teu ser.
Um rosto que não quer ser olhado.
Um rosto que nega a sua beleza.
Um rosto que eu quero esquecer,
mas não consigo.
 

Escrever


Escrever é viajar, é se desligar desta realidade
e entrar num mundo que você constrói
a cada linha, a cada palavra.
Escrever é matar o tempo, é sentir-se num momento
onde tudo é estacionário, onde a felicidade
só depende de você e de mais ninguém.
Escrever para se sentir solitário,
mas escrever para se ter companhia na solidão.
É escrevendo que você tornar presente a ausência.
A ausência de quem ama.
Escrever para manter próximo o que está distante.
Escrever para se encontrar ou se perder de vez.
Escrever para dar vida a
momentos e coisas efêmeras.
Escrever para vencer o espaço e o tempo.
Sim, escrever para rompe
a espessa crosta
da individualidade que nos envolve.
Escrever para criar pontes em busca do outro.
Escrever para se ter a marca registrada
de ser pensante.
Escrever para explodir
ou domar a paixão.
Escrever para se firmar,
para fixar entre todos
o seu pensamento,
o seu ideal, o seu ser.
Escrever para aceitar,
negar e transformar
o lugar onde vive e o mundo
que te rodeia.
Escrever,
escrever para se sentir vivo.

Quero beber de ti

Quero beber os beijos da tua boca
como se fosse uma gota de orvalho,
como se fosse uma fonte perdida,
num escaldante deserto e achada por
um forasteiro sedento.
Quero beber de ti, que és uma fonte
de águas límpidas,
um regato a correr em minha vida.
Só você podes saciar esta sede que me mata.
Quero beber cada gota de ti,
mesmo que isto possa me embriagar,
deixar-me sem os sentidos,
fazer-me derrapar em tuas curvas,
sair da estrada e morrer no mar.
Eu quero beber de ti.
Para
te amar com o dobro do amor que possuo.

Poesia

Poesia, única companheira
que me enlaças e me compreendes
nas incontáveis noites em que lágrimas
derrubo num silencioso desespero.
Poesia, minha amada, minha amante,
és cruel nas verdades que diz,
és sacra nas promessas que fazes,
és justa em cada veredicto.
Poesia que me deteriora,
que me devora,
que me faz sofrer.
Única companheira que me ouve
e está comigo nas solidões de cada dia.
Agradecer-te? Não sei como.
Abandonar-te? Jamais.
Sempre estarei contigo e sei
que sempre estarás comigo.
Poesia de cada instante, que faz
do incompreensível e do solitário,
um amigo inseparável.
És a minha vida,
és o único amor que me atende.


Faz parte de mim

Eu aprendi a te odiar,
a não te amar mais.
Em cada expiração eu te lanço para longe de mim,
em golfadas de ar que se desfazem na atmosfera.
Em cada expiração te esqueço.
Você deixa de fazer parte de mim.
Em cada expiração você desaparece.
Mas...Meu Deus! Você retorna.
Você me persegue a cada instante.
Está tão junta de mim que às vezes te misturo com a minha sombra.
Se eu te esqueço, se eu te odeio a cada expiração;
Eu te amo , eu te desejo, eu te busco a cada inspiração.
Em cada inspiração entras dentro de mim,
me revigora, me fortalece.
A inspiração torna possível o meu viver.
Refaz a minha alma.
Dá-me esperanças.

Inspiração

A cada inspiração eu penso em você.
Meu Deus, que desperdício!
A cada inspirar não estou a teu lado,
não posso te amar como devo fazê-lo.
Não aceitas o meu amor,
não aceitas o meu inspirar.
A cada inspiração eu quero te esquecer,
mas não tenho palavras que possam descrever
eu te esquecendo.
A cada inspiração eu me lembro

que não devo mais te amar, m

as o que posso eu fazer com inspiração, senão escrevê-la?
Só me lembro que devo te odiar a cada expiração.
Eu te expiro para longe de mim, mas retornas
charmosa, linda e intocável a cada inspiração.

Cala e consente

Silêncio nos lábios. Cala-se sempre.
Diante da gente não age, não faz.
Quem cala consente o mal.
O mal da fala. O bem que cala.
Liberdade vira prisão.
A paz vira guerra.
Justiça injusta. Sem frente de ação.
Sem ação. Um homem que cala.
Uma voz que consente.
Um inocente que morre.
Uma morte sem fim.
Cúmplice de crime. É a vida do crime.
Uma fala é uma ação, é uma bala que
pára antes de sair; um corrupto que
desce antes de subir.
Sabe evitá-lo, sabe falar, prefere calar.
Consente o mal.
Quem cala consente o fim de si mesmo.
O fim do mundo depende da fala.
não cale, fale. Falar é agir, é mudar, é
construir.
É nunca conformar com mundo, com o
ser da forma como eles são.
Nada é preciso ser assim, tão vazio, tão
calado.
Calar é o fim.

Medo de poeta

O medo de um poeta não é
um não aos seus poemas,
um não a sua vida,
um não ao seu amor.
Para um não preparado está o poeta.
Ele está acostumado a ser reprovado.
A ser olhado de lado.
A ser apontado na rua.
Um não jamais o apavora;
jamais o faz hesitar;
jamais o faz voltar atrás.
Um não atrai ,
assim como uma flor atrai a abelha.
Um não é impossibilidade
e impossibilidade é esperança.
O medo de um poeta .
O medo que o angustia
do crepúsculo da manhã
ao raiar do alvorecer;
que o persegue a cada instante.
É o sim. Para um sim nunca está
preparado o poeta.
Um sim a sua vida, ao seu amor,
ao seus poemas.

Eu te amava

Quando por ti me desfazia em amor
fingia que não te amava.
Quando ardia e delirava apaixonado
entorpecido ao te ver dissimulava.
Quando te desejava loucamente
queria te esquecer e te negava.

Quando olhavas para mim com aqueles
olhos demoníacos,
não tinha coragem de fitá-los e te deixava.
Quando se aproximava de mim;
não ousava fala-te, pois a lógica das
palavras não encontrava.

Quando eu achei que podia te comprar,
a mim mesmo enganava.
Quando eu te ignorei e humilhei,
achei que me perdoava.

Quando percebi que errava,
já era tarde demais.
Tentei me corrigir, busquei o teu perdão
mas perdia-te para sempre.

Você me domina

Você é a única dentre todas a qual não venço com argumentos.
Você é a única pessoa a qual não tenho nenhuma força para resistir.
Queres destruir-me?
Você tem esse poder, siga em frente.
Um golpe seu será o meu fim.
Diante de ti tudo em mim torna-se obsoleto.
Você me domina, e por isso me machuca.
Tens minha alma e meus sentimentos nas
mãos e os desmoraliza.
Talvez age assim porque sabe que por
mais que me destituas de ti, por mais que
me iludas e me faça sofrer, em mim sempre terás o perdão.
Eu sempre estarei te esperando mesmo sabendo

que você possa não vir ao meu
encontro.

Levai contigo

Pegai e levai para longe de mim,
esse amor que te pertence.
Levai contigo meu coração,
alma, espírito e mente.
Não apenas leve,
mas também destruas.
Lance ao descaso,
ao esquecimento, ao fim,
tudo o que faço por ti.

Acabe com esse sentimento,
que criaste, que criei;
que fizeste, que fiz;
que você inspirou e eu escrevi.
Destruas tudo isso,
todo pensamento,
todos momentos,
tudo o que não aconteceu.

Só você tem poder para tal.
És a base que o sustenta.
És a base do meu viver.
Mas de alguma maneira eu te perdi.
Levai contigo o que
deveria ter sido amor,
o que deveria ter sido sonho.
 

Principal - Leonildoc - OCW Br@sil - Direito-USP