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Em busca do ócio |
Domenico de Masi -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
Inventamos e progredimos, mas continuamos espelhando um mundo atrasado em relação aos avanços da tecnologia. Professor de Sociologia na Universidade de Roma, o autor prevê que o próximo salto do homem pós-industrial é a conquista de um novo bem-estar.
No entender do escritor argentino Jorge Luis Borges, todos os poemas e romances escritos ao longo dos tempos não fizeram outra coisa a não ser repetir, em versões infinitas, sempre e apenas quatro histórias: a de uma cidade sitiada, a de uma viagem, a de uma busca, a do sacrifício de um deus. Creio que, nessa lista, pode-se somar uma quinta história perene: a de um homem que inventa ferramentas sempre mais sofisticadas para se livrar da escravidão do cansaço e reconquistar o éden do ócio prazeroso.
Para entrever o futuro é preciso não perder de vista o passado, repercorrendo a marcha do progresso tecnológico, longa, acidentada, interrompida em vários pontos porque, como observava o filósofo inglês Francis Bacon no século XIV, "o tempo, como o espaço, tem os seus desertos e as suas solidões".
Milhares de anos foram necessários para domesticar o cão que puxa o trenó e para dominar o fogo necessário para cozinhar os alimentos e se defender do frio. Outros milênios foram necessários para lançar a flecha com um arco, concentrando o máximo empuxo num só ponto e num só momento. Há 10.000 anos a mulher pela primeira vez trabalhou na agricultura e o homem experimentou o pastoreio. Na Mesopotâmia de 5.000 anos atrás, nasceram o eixo da roda, a astronomia, a matemática e a escritura.
Esses progressos pareciam tão desconcertantes que Aristóteles, no primeiro livro da metafísica, sentenciou que tudo o que se podia imaginar para tornar mais cômoda a vida cotidiana do homem e satisfazer as suas necessidades práticas já tinha sido descoberto. Portanto, nada restava senão se dedicar de corpo e alma à elevação do espírito.
Com essa convicção e dotados de uma enorme quantidade de escravos, os gregos e os romanos, durante os oito séculos da sua História, não fizeram progressos substanciais na ciência e na tecnologia. Na Atenas de Péricles, 50.000 cidadãos livres eram servidos por 300.000 escravos. Quando Roma estava no ápice do seu fulgor imperial, a Itália contava com 10 milhões de escravos numa população de 50 milhões. A cada ano, o aprovisionamento de gado humano, como o definiu o historiador Marc Bloch, atingia 500.000 unidades. Só na Gália, Júlio César conseguiu fazer 1 milhão de prisioneiros.
Mas, quando na Idade Média os escravos começaram a rarear, os nossos antepassados se lembraram das oportunidades oferecidas pela tecnologia e desfrutaram rapidamente das inovações. O moinho de água e de vento, o estribo e os arreios dos cavalos, a roca de fiar, a rotação das culturas agrícolas, os óculos, a pólvora, o relógio mecânico, a bússola e a imprensa permitiram substituir a força humana pela inorgânica e anteciparam a grande arrancada do pensamento que levaria ao iluminismo e à revolução industrial.
Foi no final do século XIV que Bacon, prevendo o salto tecnológico que a humanidade estava para efetuar, inverteu o pensamento de Aristóteles e no seu tratado "Instauratio Magna" afirma que tudo o que se podia fazer pela elevação do espírito já tinha sido feito pelos gregos e romanos: nada restava senão se dedicar à filosofia das obras, à aplicação do intelecto às coisas concretas, ao progresso da indústria para melhorar finalmente a vida prática do dia-a-dia.
Esse grande programa inovador, ainda no início do século passado, demorava em se concretizar. Se Júlio César e Napoleão, com dezoito séculos de distância, desejassem percorrer a estrada entre Roma e Paris, teriam ambos gasto muitas semanas. Se hoje quiséssemos percorrer o mesmo trajeto, mesmo sem gozar dos privilégios dos imperadores, empregaríamos um tempo infinitamente mais curto.
O que determinou tanto progresso ? Entre Napoleão e nós realizou-se a revolução industrial - ou seja, aquele conjunto de inovações tecnológicas que, substituindo a habilidade humana com máquinas e o esforço de homens e animais com energia inanimada, torna possível a passagem do artesanato à manufatura, dando vida, assim, a uma economia moderna.
Os dois maiores artífices espirituais e materiais dessa revolução - o engenheiro economista Frederick Taylor na Filadélfia e o industrial Henry Ford em Detroit - definiram seus princípios fundamentais: a especialização dos trabalhadores exasperada até a repetição exaustiva de poucos movimentos elementares; a padronização dos produtos e dos processos de modo a chegar à produção em série, à sincronização; e a coordenação das tarefas até reduzir a fábrica a um imenso relógio no qual os homens e as máquinas desempenham o papel de engrenagens programadas.
A sociedade industrial que daí nasceu utilizou a tecnologia mecânica, a vapor e elétrica, distribuindo progresso capilar em todos os campos do saber teórico e prático, artístico e científico. Entre o fim do século XIX e o início do século XX, Einstein revolucionou a física, Freud revolucionou a psicologia, Picasso revolucionou a pintura, Schoenberg revolucionou a música, Joyce revolucionou a literatura, Le Corbusier revolucionou a arquitetura.
Esse vagalhão de novidades produziu outro vagalhão de novidades. Enquanto a sociedade rural, centrada na produção de bens agrícolas, havia consumido 10.000 anos para gerar do seu seio a sociedade industrial, centrada na produção de bens materiais em série, esta - muito dinâmica - empregou só dois séculos para gerar um terceiro tipo de sistema, a sociedade pós-industrial, centrada na produção de bens imateriais, ou seja, de símbolos, estética e de valores.
Para compreender que novas etapas nos esperam, convém observar que a sociedade pós-industrial tende não apenas a aperfeiçoar o acervo de descobertas anteriores da história humana, mas a abrir novos campos, cada um com um leque próprio de possibilidades de desenvolvimento.
Assim, a biologia molecular, por exemplo, abriu caminho à engenharia genética e à produção farmacológica de moléculas. A informática se desmembrou em telemática, em trabalho por via digital, em uma aventura da conquista do tempo e do espaço.
O impulso é tão forte que em quatro décadas fizemos mais progresso que nos 40.000 anos precedentes. E, diante de uma produção tecnológica tão rica e tumultuada (computadores, fax, laser, satélites, robôs, fibras óticas, novos remédios, máquinas interativas), de novo, como no tempo de Aristóteles, há os que esperam que esse ritmo permaneça uniformemente acelerado e os que, ao contrário, começam a sentir a sensação de que já foi descoberto tudo o que havia a descobrir, e, portanto, só nos resta a missão de difundir as vantagens da nova era e nos dedicar novamente, como no tempo dos gregos e dos romanos, ao progresso intelectual.
Hoje a população mundial é doze vezes maior que na época de Isaac Newton. A nossa vida média (700.000 horas) é seis vezes mais longa que a do homem de Neanderthal e mais que o dobro da dos nossos avós (300.000 horas). Estes trabalhavam 120.000 horas no curso de suas vidas, enquanto nós trabalhamos 80.000. Os nossos filhos, por sua vez, viverão em média 900.000 horas e trabalharão não mais que 5o.000 horas.
Algumas previsões para as próximas décadas estão sendo confirmadas pelos fatos. Continuará a crescer o nível de escolarização (que tende a cobrir pelo menos os vinte primeiros anos de vida de cada cidadão), se consolidará a difusão dos meios de comunicação de massa e da informação em geral, graças à miniaturização dos processadores eletrônicos e ao barateamento da tecnologia digital.
A qualidade física da nossa existência tenderá a melhorar, prolongando não só as horas de vida, mas também as de lucidez mental, destreza do corpo e capacidade profissional. Para isso já contribuem desde já os novos remédios que deram início ao processo de adiamento da morte e de parcial derrota da dor: o éter, a cortisona, a penicilina, a aspirina, a cloropromazina, a vacina antipólio, a morfina, a pílula antoconcepcional e a mecloretamina.
Se, nos próximos anos, o progresso tecnológico continuar no ritmo atual, deverá aumentar a possibilidade de recolher, elaborar e difundir informações através de processadores de quinta e sexta geração, através de sistemas complexos de satélite e de avenidas de fibras óticas. Na mesma velocidade, a engenharia genética permitirá uma melhor seleção das espécies vivas e a biogenética criará moléculas capazes de prover a medicina de remédios bem mais eficazes que os atuais.
A química e a físico-química produzirão novos materiais, capazes de superar os limites existentes nos que se encontram atualmente à nossa disposição. A cirurgia, valendo-se do conjunto desses aportes científicos, conseguirá multiplicar a capacidade de transplantar órgãos e usar próteses.
E ainda que a tendência crescente do progresso dos últimos decênios fizesse uma pausa, mesmo assim as novas conquistas, já estocadas na bagagem da humanidade, exigirão uma reestruturação dos sistemas políticos, sociais e psicológicos. A estrutura de nossas personalidades, assim como a de nossas comunidades nacionais e internacionais, é expressão de um mundo tecnologicamente primitivo em relação ao atual e espelha o seu atraso. A sociedade pós-industrial é gerenciada com critérios industriais ou até rurais. Talvez seja mais fácil inventar progresso do que administrá-lo, o que exige adequadamente nas leis, na política, na estrutura social.
Em contraponto aos valores da arrancada industrial, todos centrados no empirismo, no racionalismo, no consumismo - traduzidos no imaginário da posse, do poder e da riqueza - emergem valores novos, voltados mais para a criatividade, estética, confiança, subjetividade, feminilização, afetividade, desestruturação do tempo e do espaço, qualidade de vida. O que, por sua vez, exige um novo tipo de bem-estar, a ser inventado.
A conseqüência mais imediata e visível dessa trajetória, que servirá de teste para a administração do nosso futuro, é o desemprego crescente. John Maynard Keynes já ensinava no século passado que o índice tolerável de desemprego numa economia saudável é de 2%. Hoje os Estados Unidos têm 8% de desempregados e os países industrializados da Comunidade Européia superam os 10%.
Tudo leva a crer que o processo tecnológico eliminará cada vez mais trabalho humano, que todo o esforço físico e parte do esforço intelectual poderão ser delegados a máquinas e que ao homem restará só o monopólio das atividades criativas. Mas, a ser necessário apenas o trabalho de uns poucos para alimentar o grosso da população, o que fará a massa ? Como desejarão ser gratificados os trabalhadores que restarão nas fábricas ? Como será possível passar do controle dos trabalhadores - institucionalizados pela organização do trabalho industrial - à sua motivação necessária na organização industrial ?
A humanidade espera com volúpia novas descobertas: substâncias para debelar definitivamente a dor, sistemas para acabar com o lixo radioativo transformado em matérias inócuas, novas fontes de energia, técnicas adequadas para eliminar o barulho e a fome e reabsorver a poluição. Paralelamente, nunca tivemos tantas ferramentas para eliminar as quatro escravidões da escassez, da tradição, do autoritarismo e do cansaço físico.
Aristóteles, citado várias vezes porque é o pai da cultura ocidental, sonhava: se cada ferramenta pudesse, a partir de uma ordem dada, trabalhar por conta própria, se os teares tecessem sozinhos, se o arco tocasse sozinho nas cordas da cítara, então os empreendedores poderiam privar-se dos operários e os proprietários, dos escravos. Nunca, como hoje, estivemos tão perto da realização desse sonho: fábricas inteiramente automatizadas já estão em operação em três dos cinco continentes. O mito de Sísifo pode finalmente ser reescrito.
Como se sabe, o herói grego foi punido pelos deuses por excesso de engenhosidade. Segundo a explicação clássica, tendo ele cometido um pecado intelectual, foi punido em compensação com uma pena material: transportar por toda a eternidade uma rocha até o topo de um monte e, quando ela precipitava até a base, tornar a pegá-la e levá-la outra vez até o alto do monte.
Em plena sociedade industrial, o escritor francês Albert Camus reinterpretou esse mito: sendo Sísifo um intelectual, o seu verdadeiro sofrimento não se consumava na subida, quando a sua mente estava toda ocupada pelo esforço sobre-humano de transportar a rocha até o topo. O seu verdadeiro sofrimento era quando, com a pedra mais uma vez no alto do monte, Sísifo tinha que descer a escarpada e, sem nenhum esforço, tinha toda a trágica consciência de ter sido condenado pela crueldade dos deuses a um trabalho inútil e sem esperança.
Para nós, homens pós-industriais, há uma terceira alternativa. Sísifo vai construir um mecanismo eletrônico ao qual delegará a canseira do transporte inútil e banal e se sentará no alto do morro para contemplar o seu robô em função, saboreando enfim a felicidade do ócio prazeroso.