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Ser Mulher |
Ana Miranda -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
De Chica da Silva a Leila Diniz, a romancista, que se consagrou com o livro Boca do Inferno, faz uma viagem através da vida de personagens femininas de nossa História para refletir sobre o desafio do feminino no Brasil de hoje e amanhã.
Recebi a visita de uma jovem - que chamarei ora em diante de Elisa - de aspecto frágil, pequena estatura, olhos serenos. Elisa me presenteou com uma azaléia num vaso e sentou-se na poltrona da minha sala. Seus lábios estavam pintados com um batom rosado e ela usava um par de brincos discretos. A camiseta de malha tinha uma mancha de leite na altura do seio, como se estivesse na hora de amamentar. Apesar da pouca idade era uma mulher plena. Um ser com algo de primitivo, camuflado num mundo moderno. Vestia calças compridas, sentava-se com as pernas afastadas, numa típica atitude masculina - ou não tão típica assim ? -, e, como tantas outras mulheres, estava em busca de trabalho.
Disse que desejava ser escritora de romances e que por isso me procurava, com a intenção de saber se eu a estimularia a seguir tal profissão. Seria possível, sendo casada e com um filho pequeno ? E cravou em mim os olhos, esperando por uma palavra que a ajudasse a decidir sua vida. Todavia, olhava para além de mim, olhava para seu próprio futuro, como se visse numa vitrine um vestido com o qual podia apenas sonhar.
Havia na expressão de seu rosto a tristeza das donzelas coloniais confinadas por seus pais e maridos numa reclusão ciumenta; em sua maneira de sentar percebi a naturalidade da índia que aqui já vivia antes da chegada dos colonizadores; em seu porte senti a calidez da negra escravizada; em sua maneira de falar, o recato da européia treinada para a dissimulação, educada sob o regime da condenação do prazer. Num instante me senti transportada no tempo e tive a ilusão de ver a jovem em minha frente vestida como uma dama da colônia, apertada em espartilhos, usando carapuça de seda, sapatos de cordovão. O que aconteceria com Elisa se aqui tivesse nascido há cerca de trezentos anos e dotada da sua mesma aspiração intelectual ? A não ser que fosse mandada para um convento, onde não havia a caprichosa luz da presença masculina e as mulheres tinham, portanto, liberdade para o florescimento do espírito, Elisa naufragaria em seu próprio sonho.
Mas será que realmente tudo mudou desde que o senhor de engenho dom Pedro de Mello assassinou sua mulher por ela ter sonhado que um homem a olhava ? Quanto caminhamos desde a época em que os pedaços da molície eram crime até os dias de hoje, quando ainda há a condenação de métodos anticoncepcionais artificiais e de atos julgados contra natura - o prazer sexual sem o vínculo com a procriação ? O que mudou para nós, mulheres, que depois de Leila Diniz mostramos nossas barrigas de grávidas nas praias ? O que podemos esperar do futuro ? Um vestido inatingível numa vitrine ? O que podia eu responder a Elisa ? Quais seriam seus limites em sua condição de mulher e mãe ? Quanto o fato de ser mulher iria ainda dificultar sua realização profissional ? As diferenças entre os sexos são um tema controvertido, que suscita paixões, sobre o qual podemos apenas revelar nossos preconceitos e sensibilidades, para que os outros tirem suas próprias conclusões.
Muitas vezes somos nós mesmas as disseminadoras das teorias misóginas que dizem que as mulheres são a encarnação do demônio, a origem dos crimes, a arma do diabo, a saliva da serpente, sempre prontas a morder como um escorpião pestilento, a peste das pestes, o dardo do demônio, seres que sabem admiravelmente chorar, pois choram quando querem, como querem, quanto querem porque têm o coração formado sobre uma roda movediça e a astúcia aninhou-se no seu seio, como disseram homens chamados de santos, ou sábios. Mas por que a realização pessoal (profissional) da mulher deveria significar a usurpação da legitimidade de suas funções naturais de sedução, de sua força mágica de amar ?
Desde a chegada da esquadra de Cabral à costa brasileira até quase duzentos anos depois não há a menção do nome de nenhuma mulher em nossa História oficial. Há referências a paixões de europeus por índias, aos contatos voluptuosos com a mulher exótica; há a menção de que os jesuítas solicitaram ao rei que mandasse para cá mulheres aptas ao casamento e vieram as órfãs, para constituírem a família de "pai soturno, mulher submissa e filhos aterrados." Vieram as prostitutas, as feiticeiras, as criminosas, as adúlteras, vieram as negras para a escravidão e para o ranger dos catres.
Vemos a mulher fazendo pudim, a mulher parindo, a mulher servindo ao homem, o comportamento da mulher controlado nos seus atos mais recônditos pelas normas aterrorizantes do Santo Ofício ou pelo receituário escolástico que interditava a posição mulier super virum por ser oposta à superioridade ativa dos machos. A Inquisição formou algumas de nossas características de introversão, doçura e em nós marcou a noção do pecado. Revela alguns dos costumes secretos das mulheres de antigamente, as que fomos outrora, das quais temos quase sempre apenas um nome vago, uma data de nascimento, casamento e morte. Padre Vieira achava que as mulheres deviam sair de casa em apenas três ocasiões: para o batismo, para o casamento e o próprio enterro. E, macilentas, esverdinhadas, foi o que fizemos durante séculos. É o que parece dizer a História.
O primeiro nome de uma mulher que aparece na nossa História oficial, excetuando-se o das rainhas, que já nascem com o direito de menção histórica, foi o da escrava forra Chica da Silva, a amante do contratador nas minas de ouro; a mulher que conseguiu tomar para si o poder de um homem, encantando-o através do afeto e do sexo. E quem são as outras mulheres ? A marquesa de Santos, cortesã, que por amor a um homem se tornou poderosa. Também há mártires, como Joana Angélica, morta a golpes de baioneta, uma versão nacional de Joana d'Arc; ou heroínas, como Inez de Souza, que ajudou o marido governador a expulsar os invasores franceses, e Anita Garibaldi, que abandonou o lar para seguir seu amante revolucionário catorze anos mais velho, Giuseppe, e que fugiu de uma prisão e atravessou a nado um rio agarrada à crina do cavalo para reencontrar seu amor em Vacaria. Parece-nos que, por amor a Giuseppe, Anita abraçou um ideal.
A brava patriota Maria Quitéria tinha seus próprios ideais, mas teve de se vestir de homem para assentar praça na artilharia e lutar na guerra da Independência. Formou uma companhia feminina e no final foi condecorada como cavaleiro pelo imperador. A princesa Isabel talvez seja a única mulher em nossa História que aparece à frente de alguma marcante - embora contestada - transformação social. Estas mulheres formam os paradigmas femininos da História e fazem lembrar as lendárias guerreiras amazonas, que precisavam queimar o seio direito para poder atirar com arco e flecha.
Por outro lado, mulheres brilharam com fachos luminosos em todas as obras de todos os poetas desde o início dos tempos; e no Brasil, na nossa história literária, encontramos a mulher, desde nosso primeiro poeta Gregório de Mattos até Drummond, em todas as obras, oscilando entre a bondade angelical e a perversidade demoníaca. Marília de Dirceu, Helena, Capitu, Ceci, Tieta, Gabriela, a metade mulher Diadorim, a Moreninha, a enigmática comedora de baratas GH, as revolucionárias Ana Palindrômica e Maria Moura. Mas isso é mulher na ficção. "Na realidade, como assinala o professor Trevelyan, ela era trancafiada, surrada e atirada pelo quarto" (Vírginia Woolf). Ou na cozinha.
Estará a mulher sempre sujeita às maldições femininas ? Pensei em falar a Elisa sobre isto: a maldição do amor, a maldição doméstica e a maldição biológica. Mas para quê ? Na verdade, a profissão que ela queria seguir sempre foi facultada (com restrições) às mulheres, pois a situa no âmbito da escravidão do lar. A partir de Safo, o mundo sempre teve mulheres escritoras. No Brasil, desde Dorotéa Engrácia as mulheres escrevem livros. Dorotéa foi, talvez, a primeira brasileira a escrever um romance, publicado em Portugal no meio do século XVIII. Era algo insólito que atribuíram a autoria do livro a Alexandre de Gusmão - e Dorotéa terminou seus dias numa cadeia, destruída por ter desafiado o poder das leis e dos costumes femininos.
Mas, enfim, hoje temos mulheres escrevendo todo tipo de livro, de iologia, História, ocultismo, poesia, administração de empresas, política, informática. Virginia Woolf escreveu um ensaio inesquecível sobre as mulheres e a ficção, com o sugestivo título "Um teto todo seu", em que nos mostra um aspecto "insignificante", mas essencial: "A mulher precisa ter dinheiro e um teto todo seu se pretende mesmo escrever ficção."
Na época, as casas tinham uma sala comum onde as escritoras se sentavam para escrever seus livros, e diz Virginia que por isso não há poetisas na Inglaterra, mas muitas romancistas, pois ao contrário da poesia o romance "pode ser escrito em meio à balbúrdia das crianças".
Hoje é corrente a teoria de que escrever um romance exige total concentração que só a solidão proporciona. Enfim, há todo tipo de motivo para Elisa afastar-se de sua destinação e negar-se a suas aptidões. mas o desejo de realização é o impulso mais vigoroso para quem quer chegar à Lua. Filhos e um marido poderão não ser um obstáculo, mas é muito difícil evitar que o sejam.
Entre outros motivos, mas certamente para que as mulheres pudessem ter a mesma liberdade (disponibilidade, oportunidade) dos homens, a filosofia do kibutz determinava que os filhos não fossem criados pelas mães e sim em creches administradas por homens e mulheres. No entanto, esse princípio foi sendo gradativamente abandonado e informações recentes de Israel dizem que apenas um ou dois kibutzim ainda aderem a esse postulado. O que isso significa ? Uma volta às tradições mais antigas ? A noção de que a mulher não pode fugir da "maldição biológica" ?
Uma sociedade nova terá de se organizar de uma maneira nova, como no kibutz ? Fracassará como no kibutz ou como nas creches socialistas ? Ou nosso futuro ideal será não termos filhos, como os casais hedonistas consumistas dink (double income no kids, ou salário duplo sem filhos) nos Estados Unidos ?
Nos dias de hoje, quando a família tomou as mais variadas formas, numa época em que milhões de mulheres vivem sozinhas, obrigadas a arcar com a educação dos filhos e o sustento das casas, a jovem Elisa terá de enfrentar a divisão entre o lar e o trabalho profissional. Se fracassar nessa arte, não sobreviverá como um ser humano pleno.