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Milton Santos: um negro que derrotou o sistema
Textos capturados na Internet
Universidade "Nesta fase de globalização, onde as coisas mais importantes são precedidas por um discurso ideológico, as idéias são apresentadas de forma confusa. Fica difícil criticá-las. (...) Uma das razões de hoje existir a tendência ao pensamento único, está dentro da própria instituição de ensino (...) A regra vigente é a regra do resultado. Não existe ética nesse contexto. O sistema universitário, no qual deveria prevalecer a diversidade de idéias, tem sido vítima da doença da globalização, isto é, a tendência a um pensamento único. E a universidade não tem defesa completa contra essa doença." Homens pobres e lentos "Os pobres nunca tiveram poder político. Hoje, eles têm uma cultura sua, e essa cultura é produzida em relação com o território e com a vida. E é por isso que essa cultura é matriz de uma nova política. Você tem explosões, manifestações de diversos tipos, 'desordens', mas uma busca de sentido. Não é a Lyonnaise des Aux que busca sentido, quem busca sentido são as populações dos lugares. O resultado imediato é a fratura dentro dos aparelhos dos partidos: todos os partidos são fraturados, uma parcela que busca soluções 'corretas' e outras parcelas que são da política tradicional." "Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado, partícipe das novas massas, e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único. Os pobres não se entregam e descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta; a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia." Violência O caldo de cultura que baliza a vida já é violento em si. A globalização exige de todos os atores, de todos os níveis e em todas as circunstâncias, que sejam competitivos. Esse processo exige que empresas, instituições, igrejas sejam competitivas. A competição estimula a violência porque a regra que vigora é a regra do resultado. Não existe ética. Quando, por exemplo, se privilegia, no ensino secundário, a formação técnica, sem nenhum conteúdo humanístico, está se criando mais um caldo de cultura que estimula atitudes violentas." "A violência dá impressão de ser incontrolável, mas não é irreversível. Hoje, nós temos um mundo, quero dizer com isso que ao mesmo tempo que a globalização incentiva a violência, ela favorece sua extinção. A facilidade de comunicação favorece a construção de um sentimento de solidariedade mundial. Essa é a contradição do processo de globalização. Nós temos que engrossar o lado positivo do processo globalitário, usar a idéia de civilização em benefício da humanidade. Isso não é impossível." Globalização "A globalização, parafraseando o compositor Lenine, é a face suprema do imperialismo. A humanidade esperou milênios para se globalizar, o que não aconteceu antes porque não havia as condições materiais necessárias. Com o aumento da produção e o desenvolvimento de técnicas avançadas, um pequeno grupo de empresas as seqüestrou. As corporações usam estes recursos extraordinários em seu próprio benefício e em prejuízo da humanidade." "Diante do que é o mundo atual, as condições materiais já estão dadas para que se imponha a desejada grande mutação, mas seu destino vai depender de como disponibilidades e possibilidades serão aproveitadas pela política. A globalização atual não é irreversível (...) Há um turbilhão, uma efervescência, de baixo, que a gente não está podendo captar completamente ainda, mas que há e que vai, um dia ou outro, confluir com a produção de idéias para forçar um outro caminho." Cidadania e Consciência Negra "Ser cidadão, perdoem-me os que cultuam o direito, é ser como o estado, é ser um indivíduo dotado de direitos que lhe permitem não só se defrontar com o estado, mas afrontar o estado. O cidadão seria tão forte quanto o estado. O indivíduo completo é aquele que tem a capacidade de entender o mundo, a sua situação no mundo e que se ainda não é cidadão, sabe o que poderiam ser os seus direitos." "O modelo cívico brasileiro é herdado da escravidão, tanto o modelo cívico cultural como o modelo cívico político. A escravidão marcou o território, marcou os espíritos e marca ainda hoje as relações sociais deste país." "Tenho instrução superior, creio ser personalidade forte, mas não sou um cidadão integral deste país. O meu caso é como o de todos os negros deste país, exceto quando apontado como exceção. E ser apontado como exceção, além de ser constrangedor para aquele que o é, constitui algo de momentâneo, impermanente, resultado de uma integração casual." Cidade "O ser humano agora é convocado a não ser ético. E às vezes as pessoas seguem essa tendência porque precisam sobreviver, criar os filhos, sustentar a família. Mas, no fundo, todos guardam a consciência do que é bom, com a esperança de utilizá-la um dia." "A cidade é o único lugar em que se pode contemplar o mundo com a esperança de produzir um futuro. Mas se criou toda uma liturgia anticidade. A cidade, porém, acaba mostrando que não existe outro caminho senão o socialismo. Para evitar que as pessoas acreditem nisso, há todo um foguetório ideológico para dizer que a cidade é uma droga. Imagine ir morar num campo. Só um louco quer morar em uma cidadezinha do interior." Informação "Não há produção excessiva de informação, mas de ruído. Existem o fatos. As notícias são interpretação deles. Como as agências de notícias pertencem às grandes empresas, os acontecimentos são analisados de acordo com interesses pre-determinados. Muitos economistas que escrevem em jornais, por exemplo, publicam diariamente o desejo de empresas das quais são consultores. As notícias são publicadas como expressão da realidade e o discurso acaba se tornando hegemônico. É essa mesma indústria que transforma em best seller um livro do Jó Soares, antes mesmo do lançamento." "Acho que o território é a mensagem. Nele, estamos todos juntos e separados. Somos conduzidos igualmente a um destino e obtemos resultados diferentes. Em Belo Horizonte, por exemplo, estão todos juntos: ricos, pobres, classe média, brancos, negros, índios. A técnica em si não é a mensagem. Ela só é utilizada por quem tem poder: as grandes agências de notícias, universidades, editoras e as igrejas locais. São essas instituições que seqüestram os meios." Brasil "O Brasil é um exemplo de pais para o qual a modernidade, em todas as fases de sua história nos últimos cinco séculos, impõem-se, sobretudo, como abertura aos ventos de fora. Como essa abertura foi quase sempre ilimitada e sem freios, a modernidade à moda brasileira é igualmente sinônimo de abandono. É como se aqui não fosse possível adotar as inovações criadas no mundo se não como cópia do pólo criador e difusor de novidades (Europa, depois os EUA...)." "Recentemente, com o neoliberalismo, é freqüente o abandono da idéia do nacional brasileiro, com a sedução de um imaginário influenciado por forte apelo da técnica e aceitação tranqüila da força totalitária dos fatores da globalização." "A vocação homogeneizadora do capital global é exercida sobre uma base formada por parcelas muito diferentes umas das outras e cujas diferenças e desigualdades são ampliadas sob tal ação unitária (...); é por este prisma que deve ser vista a questão da federação e da governabilidade da nação: na medida em que o governo da nação se solidariza com os desígnios das forças externas, levantam-se problemas cruciais para Estados e municípios". Mundo "O processo capitalista une, de forma desigual e combinada, países ativos, dos quais se irradiam as grandes mudanças e que delas se beneficiam, e países passivos, onde a grande maioria da humanidade vive na pobreza, segundo diversos graus de intensidade. Modernização e agravamento da desigualdade tem sido uma constante, constituindo, aliás, o lado perverso da difusão do progresso sobre a face do planeta." "A grande originalidade do presente período histórico é a visibilidade, em todos os cantos do mundo, das novas possibilidades oferecidas por ele e a consciência de que é possível uma multiplicidade de combinações. Estas não têm que ser obrigatoriamente condutoras de alienação, podendo construir-se a partir de um modo de ser característico da nação considerada como um todo, uma edificação secular onde as mudanças não suprimam a identidade, mas renovem o seu sentido a partir das novas realidades. Não se trata, assim, de recusar o mundo, mas de assegurar um movimento conjunto, em que o país não seja exclusivamente tributário, mas soberanamente partícipe na produção de uma história universal."
CONFERÊNCIA MAGNA DR. MILTON SANTOS - USP
I SEMINÁRIO NACIONAL Sou extremamente sensível à enorme delicadeza do convite que Dra Minayo me estendeu para estar aqui presente e falar, e talvez fosse mais proveitoso para todos que eu estivesse presente apenas para escutar. Foi aliás a minha primeira decisão, a de escutar, porque o convite me trouxe um grande medo. Os que trabalham questões epistemológicas, isto é, a filosofia particular a cada ramo do saber, sabem que, é extremamente perigoso, perigoso é um termo, falar diante de especialistas, ainda que, filósofos de outro ramo de saber. A única justificativa para minha ousadia é em primeiro lugar a minha ousadia. Mas é também o fato de que, o que une as disciplinas todas, é o mundo, e o mundo se havendo tornado acessível a todos nós nesse fim de século, a filosofia, de alguma maneira, se cientificiza e se coloca à disposição não dos filósofos, alguns dos quais decidiram tornar-se técnicos em filosofia, abrindo espaço para que a filosofia produzida em cada campo de saber seja operacional, é com essa desculpa que vou falar. Espero que aceitem a desculpa agora e sobretudo depois. Tenho que o convite que me foi feito, vem do fato de que, não sou outra coisa que um geógrafo. Um geógrafo que se dedicou ao longo da vida com a sorte de viver até o fim do século às coisas do mundo, agora que o mundo decidiu colocar-se ao alcance da nossa mão. Isso me permite alguns atrevimentos. Primeiro vai ser exatamente o de expor o que eu penso dessas palavrinhas aí, meio ambiente, que me incomodam profundamente. Não é uma questão profissional, agora chamam corporativo, é que o meio ambiente é apenas uma metáfora. Não é possível teorizar a partir do meio ambiente, quando é só uma metáfora. O que há é o meio, que por simplificação às vezes se chama meio ambiente, mas o que constitui também uma redução. Uma redução que, como a expressão está dizendo, limita o raciocínio e pode trazer um perigo de equívoco que desejamos ultrapassar, uma acepção puramente técnica do que vive, e alcançar essa visão global sem a qual o humanismo pode ficar no discurso e ser portador de uma moralidade, mas não de uma moral. O que distingue a moral da moralidade é que a moral é o fundamento da política, e nada se resolve, mas nada, a partir mesmo do domínio da técnica, sem que o dado político seja posto em primeiro lugar. Quando eu falo em política não estou me referindo à política com o p minúsculo da qual estamos desgraçadamente muito longe, mas aquela outra que é o desejo dos homens que pensam e que desejam e que pretendem com seu trabalho, melhorar o mundo para que melhore o seu país e o seu lugar. Na realidade, a geografia e minha disciplina tem algumas responsabilidades nisso, porque trabalhamos durante o século a partir da vertente européia, com visões que, na realidade mais prejudicam que iluminam o debate da história do presente. Uma dessas visões é a visão do território freqüentemente confundida com a visão do ambiente. Na realidade, o território tão pouco é uma categoria analítica. A categoria analítica é o território usado pelos homens, o território utilizado pelos homens, tal qual, tal qual ele é, o espaço vivido dos homens, mas de todos os homens, que também é o teatro da ação, de todas as empresas, de todas as instituições, esse espaço banal, de que as cidades são hoje, é a grande representação e a grande esperança. Eu queria fazer essa primeira aclaration, o que eu imagino que ela se impõe para que não tenha eu que recorrer a cada vez a uma nota infra-paginal, essas famosas notas infra-paginais, tantas vezes chatas, no decorrer da minha breve, espero que breve, exposição. Como viram essa foi uma introdução. O que eu quero dizer mesmo, é que a busca da utopia, é algo de ancestral e companheiro do homem, porque o que distingue o homem dos outros animais não é esse dedão, é exatamente o fato de que ele é portador de utopia. Eu sei que hoje se costuma ridicularizar quem fala em utopia, mas não me preocupo em insistir que sem ela não vale a pena viver, e sem ela tão pouco é possível pensar porque o pensamento não é produzido a partir do que houve, nem do que há. O pensamento portador de frutos é apenas produzido a partir do que pode, é isso que nos reúne aqui, nessa sala, é isso que reúne os homens de boa vontade em toda parte. Ora, essa utopia secular, milenar, expressa de diferentes maneiras, pelas diferentes civilizações, codificadas pelos filósofos, acaba nesse século que agora se escoa de encontrar um reforço graças ao fato de que, o prometido casamento entre técnica, isto é, modos de fazer, e a ciência, produção na mente dos modos de fazer a partir dos modos de ser, começa a se tornar algo impossível. Esse século conhece e foi, depois da evolução separada do que era propriamente técnico, fundado na experiência, e do que era científico fundado na reflexão, esta convergência entre uma coisa e outra, essa convergência que deu sempre ao homem a possibilidade de pensar que amanhã teremos um mundo melhor. Ora, os homens e mulheres, perdão, as mulheres e os homens, que se ocupam da questão da saúde são possivelmente, entre todos nós, aqueles que mais claramente devotam-se a essa questão do bem estar da dignidade da vida do homem. Esses sonhos e essas visões poderiam, e essa era a esperança dos cientistas no começo do século, tornar-se coisa viável num presente a construir a partir do pensamento científico. Era um belo momento da história da humanidade, belíssimo momento na história da ciência, ciência voltada para o homem, para humanidade, para a produção da dignidade, para alicerçar as condições pelas quais a vida se tornaria não apenas mais longa, mas digna de viver. Essa busca de possibilidades de que a medicina, as medicinas, todas são representativas se baseavam numa ciência respeitosa, as medicinas, todas são representativas e se baseavam numa ciência respeitosa da moral, havia um encontro entre preocupações morais e preocupações científicas. A discussão hoje presente da ética no trabalho do cientista, não se imporia como hoje da forma que começa a se impor, exatamente porque o cientista era cauteloso diante do que produzia, difundia, propunha, a moral era a grande fiscal das realizações intelectuais. Isso também tinha relação, não vou desenvolver isso agora, com o fato de que o mercado que existia, já que o capitalismo, este breve momento da história da humanidade, dura 500 anos, por conseguinte mais velho do que a institucionalização da ciência, o mercado era circunscrito pelas fronteiras e regulado por um estado, era um monstro domado, era esse grande selvagem todavia domesticado. E as ideologias tinham livre curso e buscavam sem precisar tanto que, as grandes revoluções foram presididas pelas grandes produções de idéias políticas, que precediam elas, idéias políticas, a produção da política. Por isso talvez que é a gente revendo essa história sabe que, uma idéia que brota aqui ou ali, e se mostra como se fosse coisa frágil, tem força, a força da qualidade, que é esse o único alento que tem os que trabalham a coisa intelectual, essa consciência de que podem ficar sozinhos, porque sozinhos não estão, eles tem a companhia do futuro, que ajudam a gestar através exatamente do discurso produzido a partir da produção de idéias generosas. Essas idéias libertárias, igualitárias, essa ambição universalista que levaram, depois da guerra sobretudo, a que se tornassem gêmeas as místicas do desenvolvimento e da civilização, momento que tive a oportunidade de assistir e viver, batalhando com tantos outros na busca dessa civilização nova, desse desenvolvimento que ganha então uma expressão contraditória em relação com o crescimento econômico, essa distinção necessária entre os dois e que vai marcar a história do mundo na metade do século XX. Esse momento, é um momento muito rico, porque permite afloração de quantidade de postulações, que levam ao debate mais filosófico da questão da vida, e aí que incluo a saúde como um dado apenas na questão da vida que é o que nos preocupa fundamentalmente, a saúde é um instrumento dessa coisa mais ampla. Evidente que pode ser tratada do ponto de vista técnico, mas é melhor que seja do ponto de vista filosófico, antes de que o tratamento técnico, a técnica se subalternam, e venham acloparem e acomodarem-se às exigências ditas da prática. Não esqueçamos que a palavra recurso não tem valor por si própria, a palavra recurso é um termo do vocabulário da política, não tem autonomia a palavra recurso. Cada vez que tratamos a questão dos recursos com autonomia, estamos abandonando a utopia, por conseguinte estamos renunciando a sermos, simplesmente homens. Ora, a questão da saúde, como a questão da alimentação, como a questão do bem estar,foi no primeiro momento tratado segundo critérios deterministas, e essa é uma das razões pelas quais a palavra ambiente me choca, me aborrece, é que, com freqüência ela conduz a uma deriva determinista, não tenho medo dos adjetivos, mas é preciso que a gente retome o debate pela raiz. Essa questão de determinismo que levou por exemplo a conceituação das chamadas doenças tropicais. Tive há alguns anos um privilégio, digamos assim, de haver ensinado na Universidade de Bordeux, cujo o Instituto de Geografia Tropical, como se houvesse uma ciência social tropical e uma ciência social temperada. Formas de raciocínio própria do racismo, mais ou menos velado europeu, constante também na vida acadêmica e na produção intelectual, vontade de dizer: "as culpas das dores são suas. Nós pretendemos aliviá-las, mas vocês são como são". Essa idéia da Geografia Tropical que me conduziu, eu tive sorte de estar lá durante aquele movimento de 1968, a escrever um livro, do qual cada capítulo se tornou depois, um novo livro, esse livrinho que se chama "O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo". E hoje, esse livro, eu devo dizer isso agora, penso que devo fazê-lo, esse livro é a crítica que eu fazia à geografia ensinada naquela faculdade. Essa idéia de doenças tropicais que também levou a um certo paralelismo entre a noção de trópico e as dificuldades, quando eu era jovem se falava ainda na expressão higiene, a higiene dificultada pela tropicalidade. Da mesma forma, a questão alimentar, que já então preocupava as pessoas de boa vontade e que também era apontada como um problema em parte porque a alimentação tinha muito de ver com, quer dizer, na explicação que era fornecida, com a questão da regionalização. Então havia regiões fadadas a ter fome e outras fadadas a ter uma certa abundância. É evidente, e aliás é normal, por que não, que os europeus se organizassem inteligentemente, e nós naturalmente, em parte em culpa de nossa tropicalidade, e em parte devido a nossa precaridade intelectual, "que todo mundo sabe disso", não poderíamos ultrapassar esse patamar. É aí que surge Josué de Castro, jamais suficientemente lembrado por nós, ele teve a má sorte de morrer quando o Brasil era um país em pleno caminho para um regime autoritário, e de morrer na França,que, nesse momento deixava, abandonava, sua vocação universalista, e dava a sua diplomacia como fanal o comércio, então ele morreu sem o brilho que se costuma dar aos grandes homens quando eles desaparecem, e até hoje nós não conseguimos resgatá-lo. Só quero dizer que, Josué de Castro sugeria uma mudança fundamental na visão do mundo, e das coisas inclusive na questão da saúde, deslocando o problema do chamado ambiente e recolocando a questão no domínio da sociedade, e da sociedade internacional, é razão pela qual ele acusava o ocidente do que hoje acusamos nós, isto é, essa vontade deliberada de genocídio através da vontade esopitável de poder. Não é de estranhar que ele não tenha tido o prêmio nobel. Prêmios Nobeis são geralmente outorgado a quem faz o possível para dar impressão que está cuidando da humanidade, mas não faz realmente. Essa idéia da natureza natural, ela iria nos perseguir permanentemente a despeito de que a história comprovasse que a natureza natural tem um papel, evidentemente, ninguém vai desconhecer esse papel, mas não um papel central na posição da história, cada vez menos, sobretudo hoje. Ao mesmo tempo como a universidade era livre-pensar, coisa que é cada vez menos, como a cooperação internacional em matéria de pensamento era possível, o que cada vez é menos possível. Nós sabemos que hoje é quase impossível cooperar com os nossos colegas do norte, por razões que não vou analisar agora, mas cada um deve ter sua pequena história a contar, talvez não conte, porque as nossas universidades nos pedem que sejamos cada vez mais amiguinhos dos colegas do norte para aumentar os nossos títulos. Não é? Então somos convidados a um expediente de safadeza cotidiano para obter as promoções, porque não sei o que acontece no Equador, Cuba, mas no Brasil é muito freqüente, que o que você faz seja distinguido entre nacional e internacional, não é isso? Quando, na realidade, nacional é estrangeiro, não é? E não nacional e internacional, mas os valores são atribuídos a quem, como nós sabemos que a vida acadêmica podia ser transferido para o ministério do turismo em vez de permanecer no ministério da educação ou da ciência. Essa época leva uma imbricação crescente e uma vontade de teorizar, que se mostra profundo em todos os domínios, e teorizar a população, de teorizar a urbanização, de teorizar a nutrição, de teorizar a saúde pública, de teorizar o desenvolvimento. Essas teorias eram imbricadas umas com as outras porque o elo central era exatamente o mundo, que é a unidade de pensamento de problemas são formidáveis. Isso tudo era baseado numa solidariedade internacional que deixou de existir, numa luta civilizatória que também deixou de existir. Daí a contribuição fundamental da questão da saúde, dada por desenvolvimentistas terceiro-mundistas, anti-imperialistas, nessa época, no fim dos anos 60, começo dos anos 70, me perdoem se apenas têm essa idade, cometi um livro que não está traduzido para o português, um livro muito grande, um livro que discutia a questão da alimentação e da população, e, evidentemente passando pela questão da saúde a partir de uma visão de um geógrafo. É dessa época também que se notam progressos médicos, conducentes a uma melhor saúde individual e coletiva, e havia avanços ainda que não homogêneos na questão do enquadramento, da prevenção, e da informação, uma tomada de consciência. Então, a ajuda internacional tinha um papel positivo, que depois deixou de ser norma, a ajuda internacional a partir dos anos 70, em grande parte, se deixa comandar por interesses das grandes potências. Basta ver o tratamento dado à questão da fome, na África subsalariana: comandava esse tratamento em função da política dos novos grandes impérios, o tratamento de diversas questões no subcontinente Asiático, tantas outras questões consideradas de ajuda internacional que foram tratadas de forma egoística de tal maneira que as pessoas bem pensantes, sempre passaram desde então a desconfiar da palavra ajuda. Mas também as idéias, a timidez das idéias provenientes das instituições internacionais, a prudência com a qual os seus representantes tomam a palavra nas ocasiões que lhe são oferecidas, o escamoteamento da centralidade do problema social e político que se tornou mundial, a prevalência dos enfoques tecnicistas que também dominam situações de grande relevo para a vida do homem como a própria medicina em todos os seus aspectos e que mostram esse distanciamento entre uma produção intelectual que se amplia e para a qual os recursos são abundantes, desde que, os esforços se dirijam nesta direção vesga e a realidade que avoluma a necessidade de enfoques mais abrangentes. Naquele tempo, gabávamos-nos dos efeitos, das políticas, mas também dos efeitos do desenvolvimento, sobre os índices vitais, mortalidade geral, mortalidade infantil, fertilidade, esperança de vida, nutrição. Essa combinação entre minorias e condições gerais, e de efeitos do desenvolvimento sobre a vida individual e das famílias. Esses anos 70 marcam a emergência tímida e depois agressiva de aspectos chamados qualitativos, mas que, como agente, todo mundo sabe que o qualitativo mostra-se com sua cara quantitativa, e variáveis novas entre as quais a tecnociência, que tem um papel desgraçadamente muito importante nas questões que interessam os senhores. Esses progressos da ciência e da técnica estimulariam produzir as pragmáticas. Vamos fazer assim para obter tal resultado, a tal ponto que, as formulações ditas gerais começam do resultado e não das causas, o que é sempre um empobrecimento do ponto de vista da posição do pensamento. Os resultados são postos em xeque, avançados como algo a desejar, mostrados como se fosse algo moral, mas na realidade são um resultado que não tem base no processo. Então os processos que levam os problemas são escamoteados, inclusive essa questão do meio ambiente, nós veremos que isso não tem um papel relativamente cada vez menor na produção de quantidade de problemas, já que as dificuldades da maior parte da população não vem do fato de estar aqui e ali, mas do fato de ser assim ou assado. Um saber e uma prática bem colocados de preocupações humanísticas, é a principal marca do domínio da técnica sobre a ciência que estamos agora assistindo, a técnica que também dita as escolhas possíveis para os remédios. É curioso que a nova ciência, acabe semi imposta pela via da técnica, pelos portadores de uma filosofia pragmática dos Estados Unidos, que hoje tem o comando absoluto no debate das questões por exemplo da saúde, tanto do social quanto do individual. Isso se dá em paralelismo com a busca de uma nova ordem da economia. Quando os progressos técnicos-científicos ganham autonomia, e é o que nós estamos assistindo hoje, na vida acadêmica com profundas repercussões negativas na produção da política, eles tenderiam a aconselhar ou justificar visões de buscas parciais, cada vez mais parciais, cada vez mais isoladas, cada vez mais penetrantes e cada vez mais autônomas, de tal forma que a produção de conhecimento ganha autonomia sobre a vontade de humanização da vida sobre o planeta. Sou apenas um observador das questões médicas, quem sou eu para ter um juízo definitivo ou mesmo próximo disso, a respeito disso, confesso que tenho muito medo do que leio, sobretudo, sou um homem assustado porque chego à idade que tenho, quase a obrigação de ser também doente, e me vejo cada dia cotejado com manchetes contraditórias que as mesmas revistas publicam, dando conta do trabalho já não tanto das universidades, mas das empresas ou das empresas dentro das universidades. A grande moda agora é pedir às universidades que devem pedir às empresas que digam o que elas devem fazer. É chique. O que permite ao CNPQ, etc de se retirar do processo de financiamento. Só que em dados que tem relação com a vida, o resultado é o que a gente começa a ver. Levando aquilo que a gente pode chamar de corrupção da pesquisa. A corrupção da pesquisa e a desconfiança justificada em relação aos homens de ciência, que são cada vez menos, por isso, os homens da verdade. Uma meia verdade serve a objetivos pragmáticos mas uma meia verdade não é a verdade. E todas as meias verdades possíveis reunidas não produzem a verdade. As verdades parciais podem ser eficazes no interesse daqueles a quem interessem, mas não conduzem à verdade, e cedo ou tarde conduzirão a desastres como é o caso do Brasil, cujo o primeiro grande desastre vai ser o da saúde, que já está se mostrando, exatamente porque o modelo foi aceito tranqüilamente pelo estado, mas também por nós, os homens da universidade, por nós os cientistas que não levantamos suficientemente a nossa voz para protestar, que não cumprimos devidamente o nosso dever. Isso tem que ser dito, essa universidade dos resultados com esse auto controle suicida, mas também assassino de cientistas, que dá prevalência na elaboração de textos, ao poder, e ao mercado, um círculo fechado, do qual os progressos atuais da medicina tanto ressentem. É evidente que, as questões técnicas do como fazer são importantíssimas, mas que faço delas se não obtiver antes esse dia mais amplo, de recolocá-las dentro de um quadro, no qual as coisas todas possam ser cotejadas, revistas, produzindo uma idéia generosa do que o mundo pode ser, responsabilidade que é nossa. A globalização vai deixando para traz as grandes questões civilizatórias, humanísticas, basta ver o debate que se dá no Brasil atual, e no qual a palavra civilização é quase como se fosse uma palavra obscena, mas também obscena para os adultos, não é que seja proibida aos menores de 14 e 15 anos, é uma palavra que se tornou proibida neste país, e o que é grave é que não é apenas isso um dado do oficialismo, é também um dado das oposições. Eu ia dizendo das esquerdas, poderia insistir nisso somente acrescentando que ser de esquerda hoje é de novo ser diferente de ser de direita, só que a direita dá centralidade a isso que passamos a adorar, a moeda estável, o fim da inflação, os equilíbrios macroeconômicos e toda essa coisa repetindo sem saber para que, porque, e a esquerda seria aquela parte da sociedade preocupada com essa coisa tão insignificante, mas que é a única justificativa real de que o mundo prossiga, isto é, o homem. A globalização veio sem que viesse junto um mundo só. Busca-se abreviar o tempo do trabalho, mas não é para socializar o lazer, é pra fazê-lo mais mercantil. Acredita-se que atécnica conduz ao desemprego, que horror! A técnica jamais existiu historicamente sem a política, não existe isso, é um equívoco imaginar que se pode conceber a presença histórica da técnica se não fosse, em qualquer que fosse o momento da história, tendo como paralelo a política, que é o que decide o que fazer da técnica, em todos os tempos foi assim. Conquistamos tempo e espaço, mas não para enriquecer a vizinhança, o vizinho, sabemos todos, ao entrar nos elevadores, o vizinho é o nosso inimigo. Inventam novas formas construtivas, mas não para humanizar a cidade, não é a cidade que é responsável, como tantas vezes se diz, a urbanização, esse mal, mal ao contrário. A urbanização é que permitiu inclusive avanços formidáveis em todas as áreas, inclusive da saúde, não foi a urbanização que os países subdesenvolvidos tiveram muito maiores dificuldades para enfrentar as questões de saúde, tanto do ponto de vista individual quanto do ponto de vista coletivo. Quem disse, quem escreveu isso tem provas que a cidade é por si mesma, causa de qualquer que seja o mal, é a maneira como organizamos a sociedade, separando os que podem e os que não podem, e dizendo que os que não podem vivem em bairros que adjetivamos de forma pejorativa, e nos quais, bairros pobres, o ambiente é hostil. Não é isso que dizemos e às vezes escrevemos. Grande equívoco é a sociedade na sua organização, que acho que mudêmo-la e a produção do bem estar, inclusive da saúde, terá um outro caminho. Mas não se quer falar em mudanças sociais, queremos falar das mudanças dos organogramas, mas não da sociedade, daí esse enfoque tímido, mas que é corajoso pela sua subserviência ao sistema, e que dá prioridade ao que não tem. Aumentou-se a produção alimentar - quando dei esse curso, de que resultou nesse livro de mil páginas, felizmente não traduzido para o português - havia ainda crença de que se produzisse alimentos todos comeriam. Então a grande luta era para aumentar a produção alimentar, aí houve os que toleraram a revolução verde - como agora se está justificando os trangênicos, como se a questão da fome e todas as questões sociais, fossem derivadas de soluções técnicas, quando não são. O que vimos é que primeiro a produção alimentar ultrapassou a produção, a necessidade alimentar do mundo tomado como um todo, basta ver o ardor com que os europeus arrancaram as suas plantações alimentares para garantir o preço, isso não tem relação uma coisa com a outra realmente. A questão não é técnica, e quando a gente fala em natureza está falando também em técnica, em última análise. Então a questão é muito outra. E a própria doença reduzida nos laboratórios, os anais dos congressos como esse mostram como a doença pode ser atacada, mas o ataque à doença é igualmente algo que privilegia uma parte da sociedade em detrimento da outra. A discussão que agora timidamente se dá no Brasil, quanto a questão da distribuição de remédios, é bem explicativa dessa situação. Isso tem que ver, em grande parte, pelo fato de que a técnica passou a Ter comando sobre a ciência, e como a técnica é cada vez mais comandada pelo mercado que comanda a ciência, os senhores sabem disso melhor do que eu, porque a minha disciplina não me obriga a produzir produtos-somente- idéias, e os senhores são obrigados a produzir produtos-resultados. São cobrados por isso e quantas vezes os senhores são apressados porque tem que oferecer resultados, se não os oferecem são considerados como lerdos no cumprimento das suas obrigações. Mas é dessa maneira também que tranqüilamente sintoniza a barbárie. Quando esse processo evolutivo se dá ao mesmo tempo que as empresas concentram, elas se concentram em todos os domínios, elas se concentram no domínio da alimentação, produção, distribuição, circulação, consumo, ela se concentra no domínio dos remédios, ela se concentra no domínio da saúde, mas ela se concentra também nos domínios dos serviços urbanos. A cidade está ameaçada de privatização, o que vai ser um grande problema nas questões de saúde pública, privatização em marcha da cidade, o que no Brasil não tem, a nossa análise está faltando - a dos senhores e as nossas, os geógrafos - a respeito disso, tem uma análise prospectiva desse processo de privatização que vai agravar ainda mais questões de saúde pública: a privatização da água, dos esgotos, e tudo mais o que concerne a vida urbana. No mundo em que a cidade tendo crescido tendo crescido de tamanho, os problemas se avolumando com esse crescimento de tamanho da cidade, são as grandes empresas filiadas aos grandes bancos que são chamadas para resolver as questões urbanas, mesmo num país grande como o Brasil os capitais que são chamados já agora para resolver as questões urbanas são cegos para a vida social, são cegos para as questões humanitárias, por conseguinte vem agravar problemas como esse que vão entreter os senhores durante esses dias aqui. Será que, essa técnica, assim comandante da ciência, essa técnica assim comandada pelo mercado, esse mercado comandante da ciência, decretaram uma vez por todas a maldição dos homens de ciência ou podem eles ainda erguer a sua cabeça, e dizer: não? É evidente que não peço a um e outro que o faça. Mas, aqui estamos isolados. Espero que, essa famosa lista com que os congressos terminam vota nisso, vota naquilo, apelo, não sei o que, entendeu, também incluam pontos como esse, e não apenas coisas utópicas, água na baía de não sei o que, o rio tal na cidadezinha de Paracatú, mas os grandes problemas de sociedade que em um país como o Brasil tem gravidade irrecusável. E aí comparece o papel crítico das ciências humanas, e entre elas as ciências sociais da saúde, que tem de ser um trabalho com uma certa valentia. É evidente que a estrutura da universidade atual é hostil, a qualquer exercício do pensamento livre, esse que talvez seja o maior problema da universidade brasileira, e essa que talvez seja o maior desmentido da universidade pública brasileira, que se quer pública, mas não chega a sê-lo, inclusive não o é, porque o pensamento que se elabora em nossas universidades públicas é cada vez menos público, porque cada vez menos livre. Por conseguinte, já que me convidaram, eu lhes venho fazer esse apelo, evidente que nem precisava fazê-lo, porque essas idéias estavam presentes nas mentes e nos corações. Todavia é sempre bom que alguém venha e produza algum discurso de conjunto oferecendo uma provocação no caso dispensável, que amplie as vozes e que, eventualmente as façam entendidas. As vozes não são entendidas quando se dirigem às autoridades, esse tempo acabou. As vozes tem que se dirigir à sociedade em geral, que se incube depois de impor aos ouvidos das autoridades, essa voz, se ela condiz com que profundamente sentem as pessoas. Essa esperança que os senhores me dão, com a qual esperança me despeço, e com a qual agradeço a generosidade do convite. Muito obrigado.
A VIDA DE MILTON SANTOS
Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, em 1926. Os pais, professores primários, o alfabetizaram em casa. Aos 8 anos, já havia concluído o equivalente ao curso primário. Neto de escravos por parte de pai, foi incentivado a estudar sempre e muito. Dos 8 aos 10 anos, por exemplo, quando vivia em Alcobaça, aprendeu francês e boas maneiras, sempre em casa, enquanto aguardava o tempo para ingressar no ginasial. Os benefícios de sua aplicação nos estudos o país nunca poderá negar, mas o geógrafo confessava uma frustração: embora Alcobaça seja um pedaço de terra entre o Oceano Atlântico e um rio, Milton, sempre às voltas com livros, nunca aprendeu a nadar. Da mesma forma, nunca participou das peladas e jamais entrou num estádio de futebol. Já em Salvador, custeava suas aulas no colégio lecionando Geografia na própria escola aos alunos do que seria atualmente o ensino médio. Depois, incentivado por um tio advogado, cursou Direito. Diplomado, não chegou a exercer a profissão; prestou concurso público para professor secundário e foi lecionar Geografia em Ilhéus. Iniciou, então, carreira repleta de desafios, não raro impostos pela sua condição de negro. Rodou o mundo, estudando e lecionando, numa trajetória impressionante. Aprendeu e ensinou na Europa, Américas e África. Fez trabalhar em seu favor o doloroso exílio que a ditadura militar lhe impôs por treze anos. Milton Santos escreveu mais de quarenta livros em diversas línguas, sua obra é uma referência para todos aqueles que pretendem compreender de maneira crítica o mundo atual. Um pensador otimista, antes de mais nada, que conseguiu distinguir o novo da novidade, conceitos que ele diferenciava radicalmente. Um geógrafo sério e combativo. Não poupou ninguém de suas severas críticas. Políticos, intelectuais, colegas de departamento e até mesmo seus alunos mais fiéis (inclusive esta que vos escreve). Os cabelos brancos apareceram nos últimos tempos, mas sempre se mostrava o professor com camisas de mangas compridas e gravatas vermelhas, vestido com a mesma seriedade com que lidava com o conhecimento.
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"Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva Milton Santos em Por Uma Outra Globalização - Do Pensamento Único à Consciência Universal
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(...) Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provoca<>r pruridos anais... As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios. (...) E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento. (Konstantin Gravos - Texto Completo) |
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O sistema vigente é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos ? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros, etc. Vemos e interagimos com as mesmas pessoas que queremos salvar. Contudo, antes de salvá-las, essas pessoas fazem parte do sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema que irão lutar ferozmente para protegê-lo. (Adaptado do Filme Matrix) |
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Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros - Che Guevara Quando se faz uma boa ação, há sempre quem a ache má e se queixe, e quando se faz bem a uns, faz-se mal a outros! August Strindberg Se o conhecimento não tem dono, então a propriedade intelectual é mais um truque do neoliberalismo. Hugo Chaves |
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