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A herança do cativeiro |
Desde a libertação dos escravos, em 1888, as elites do País criaram modelos discriminatórios, como a ideologia do branqueamento, marginalizando assim as camadas não-brancas nos níveis econômico, social, cultural e existencial.
Clóvis Moura -- Retratos do Brasil,
Ed. Política, 1984, Vol. II, p. 109-113
Manifestações do racismo
O sonho do branqueamento é antigo na elite brasileira. Está
subordinado, desde os tempos coloniais, a uma escala de valores que
vê no branco o elemento superior. Em 1980, o historiador Sílvio
Romero já dizia que "a vitória na lua pela vida, entre nós,
pertencerá, no porvir, ao branco". Em 1923, o deputado federal
Carvalho Neto garantia que "o negro, no Brasil, desaparecerá
dentro de 70 anos". Em 1938, o escritor Afrânio Peixoto previa que
em 200 anos "terá passado inteiramente o eclipse negro".
Em 1945, decreto de Getúlio Vargas sobre a política de imigração do
governo brasileiro ressaltava a necessidade de "desenvolver na
composição étnica do país as características mais convenientes de
sua ascendência européia." Já em 1966, o Ministério das Relações
Exteriores garantia, num livro de propaganda do Brasil, que a
população é branca, "sendo diminuta a percentagem de pessoas de
sangue misto."
Uma das mais absurdas manifestações de racismo aconteceria em São
Paulo, em 1982. O economista Benedito Pio da Silva, assessor do
governo do Estado de São Paulo na gestão Paulo Maluf, apresentou um
trabalho onde sugeria uma campanha nacional pelo controle de
natalidade de negros, mulatos, cafuzos, mamelucos e índios.
Considerava ainda que, se mantida a atual tendência de crescimento
populacional, no "ano 2000, a população parda e negra será da ordem
de 60% (do total de brasileiros), por conseguinte muito
superior à branca. E eleitoralmente poderá mandar na política
brasileira."
Isto porém, não é surpresa. Os exemplos poderiam ser dados às
dezenas. O certo é que, depois de 400 anos de preconceito, o
brasileiro tem um subconsciente racista. Pesquisas realizadas pelo
Jornal Folha de São Paulo (março de 1984) sobre o preconceito de cor
constataram que 73% dos paulistanos consideravam o negro
marginalizado no Brasil e 60,9% diziam conhecer pessoas e
instituições que discriminam o negro.
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É comum se ouvir dizer que o Brasil é a maior democracia racial do
mundo. E que isso ocorre porque o colonizador português apreciava o
relacionamento sexual com raças "exóticas", favorecendo a
miscigenação.
Atrás desses argumentos se esconde a realidade dos mecanismos de
resistência à ascensão social que foram criados contra determinados
segmentos discriminados da população brasileira, como os negros e
outras camadas não-brancas. E mais: não se vê que esses segmentos
populacionais eram componentes de uma estrutura escravista,
inicialmente, e, em seguida, de um modelo de desenvolvimento
sócio-econômico determinado.
Para compreender melhor a questão devemos analisar certas
particularidades no processo de formação das classes sociais no
Brasil. É idéia corrente de que, acabada a escravidão, os negros e
pardos ex-escravos foram, automaticamente, formar o proletariado das
cidades que se desenvolviam. Iriam compor a classe operária, nos
seus diversos níveis e setores. E em pé de igualdade com outras
levas proletárias em grande parte integradas por imigrantes. Mas
entre os próprios operários estrangeiros já existia o preconceito
racial.
Mesmo a imprensa anarquista de São Paulo e Rio não refletia nenhuma
simpatia ou desejo de união com os negros, conforme o levantamento
feito pelo professor Sidney Sérgio Fernando Solis. Os jornais
anarquistas chegavam mesmo a estampar editoriais nos quais eram
visíveis o preconceito racial. Portanto, se, de um lado, os negros
saídos das senzalas não se incorporavam automaticamente à classe
operária, de outro, surgia no interior da própria classe operária o
preconceito de cor. O negro e outras camadas não-brancas não são
incorporadas a esse proletariado, mas vão compor a grande parcela de
marginalizados decorrente das relações sociais que substituíram o
escravismo.
A valorização que se dá ao trabalhador imigrante, nesse processo de
mudança, pretere o negro, que é empurrado socialmente para os piores
setores da economia. Em 1893, por exemplo - escreve o sociólogo
Florestan Fernandes -, "os imigrantes entravam com 79% do pessoal
ocupado nas atividades manufatureiras; com 85% do pessoal ocupado
nas atividades artesanais; com 81% do pessoal ocupado nas atividades
de transportes e conexos; com 71,6% do pessoal ocupado nas
atividades comerciais. Sua participação nos estratos mais altos da
estrutura ocupacional ainda era pequena (pois só 31% dos
proprietários e 19,4% dos empresários eram estrangeiros). Contudo,
achavam-se incluídos nessa esfera, ao contrário do que sucedia com o
negro e o mulato."
Neste processo complexo e ao mesmo tempo contraditório, o negro é
logrado socialmente e apresentado como incapaz de trabalhar como
assalariado. No entanto, mesmo durante o escravismo, o negro atuava
satisfatoriamente no setor manufatureiro e artesanal. Visitando o
Rio de Janeiro, dois cientistas alemães que estiveram no Brasil no
século 19, Johann von Spix e Carl von Martius, disseram que "entre
os naturais são os mulatos os que manifestam maior capacidade e
diligência para as artes mecânicas". Trabalhavam, também, nos
estaleiros, na construção de barcos, na pesca da baleia e na
industrialização do seu óleo e em diversas outras atividades. Em
várias outras regiões se desenvolviam atividades artesanais e
manufatureiras aproveitando-se o trabalho dos negros escravos.
A herança da escravidão está
nas elites dominantes
No Maranhão, por exemplo, dos 3.949 profissionais artífices que
havia em toda a província, quando Spix e Martius por ali passaram
(1817-1820), 2.985 eram escravos e apenas 964 eram livres. Os
escravos eram a maioria entre os carpinteiros (326 escravos e 178
livres); entre os alfaiates (96 escravos e 61 livres); e entre os
pedreiros e britadores (608 escravos e 404 livres). E ainda
trabalhavam como carpinteiros, ferreiros, ourives e como auxiliares
nas indústrias existentes.
Toda essa força de trabalho, relativamente diversificada e
estruturada em um sistema de produção desarticulou-se, porém, com a
decomposição do sistema escravista. Esses ourives, alfaiates,
pedreiros, marceneiros, etc., ao tentarem reordenar-se na sociedade
emergente, passam por um processo de peneiramento brutal - são
considerados como mão-de-obra não aproveitável; e marginalizados.
Surge o mito da incapacidade do negro para o trabalho. Com isto, ao
tempo em que se proclama a existência de uma democracia racial no
Brasil, apregoa-se, por outro lado, a impossibilidade de se
aproveitar esse enorme contingente de ex-escravos.
O preconceito de cor é, assim, dinamizado. Os elementos não-brancos
passam a ser esteriotipados como indolentes, cachaceiros, não
persistentes no trabalho. Em contrapartida, elege-se o modelo branco
como sendo o do trabalhador ideal e apela-se para uma política
migratória sistemática, alegando-se a necessidade de se dinamizar a
nossa economia através da importação de um trabalhador superior e
capaz de suprir, com a sua mão-de-obra, as necessidades da sociedade
brasileira em expansão.
O "branqueamento" como ideologia das elites dominantes vai
refletir-se no comportamento de grande parte do segmento não-branco
da sociedade que começa a fugir das suas matrizes étnicas, para
mascarar-se com os valores criados para discriminá-lo.
O negro (mulato, portanto, também) entra num processo de acomodação,
o que irá determinar o esvaziamento de sua consciência étnica,
colocando-o, assim, como simples objetos do processo histórico. A
herança da escravidão que muitos dizem estar no negro, está, ao
contrário, nas classes dominantes que criam valores discriminatórios
através dos quais conseguem barrar, nos níveis econômico, social,
cultural e especialmente existencial, a emergência de uma
consciência negra.
Surge uma
"imprensa mulata" com caráter nacionalista
O sistema classificatório que o colonizador português impôs criou a
categoria do "mulato", que entra como uma espécie de amortecedor
dessa consciência. O mulato é diferenciado do negro por ser mais
claro e passou, ele próprio, a se considerar superior, assimilando a
ideologia do "branqueamento". Como resultado dessa política
aparentemente democrática do colonizador, surge uma "imprensa
mulata" no Rio de Janeiro, entre 1833 e 1867, aproximadamente, com
caráter nacionalista. Não incorpora, porém, à sua mensagem
ideológica a libertação dos escravos negros. Esses jornais lutavam
contra a discriminação racial, mas na medida em que os mulatos eram
atingidos na disputa de cargos políticos ou burocráticos. Essa perda
ou fragmentação da identidade étnica determinará, por sua vez, a
impossibilidade de surgir uma consciência mais abrangente do
segmento negro e não-branco em geral.
Em determinada fase da nossa história houve uma consciência entre a
divisão social do trabalho e a divisão racial do trabalho, os
brancos predominassem e, em outros, os negros e os seus descendentes
diretos. Tudo aquilo que representava trabalho qualificado,
intelectual, "nobre", era exercido pela minoria branca, enquanto
todo o subtrabalho, o trabalho não qualificado, braçal, subalterno,
"sujo" era praticado pelos escravos, e depois pelos negros livres.
Esta divisão do trabalho refletia uma estrutura social rigidamente
estratificada e ainda persistia em grande parte nos anos 80. Assim
como a sociedade brasileira não se democratizou nas suas relações
sociais fundamentais, também não se democratizou nas suas relações
raciais. Desta forma, a mobilidade social para o negro descendente
do antigo escravo é muito pequena. Ele praticamente foi imobilizado
por mecanismos seletivos que as elites estabeleceram. Isto se
reflete na posição que os negros e não-brancos de um modo geral
ocupam na estrutura da sociedade.
O Código Penal somente é aplicado contra três P
De acordo com o Censo de 1980, 119 milhões de brasileiros habitavam
o País. Destes, 54,77% são brancos; 38,45% pardos; 5,89% pretos e
0,63% são amarelos. Podemos afirmar, portanto, que são descendentes
de negros ou de índios 44,34% da população. Essa proporção vem
aumentando nas últimas décadas. Era de 35% em 1940; 41% em 1950; e
38,5% em 1960.
A posição da população negra e não-branca não se distribui
proporcionalmente nos diversos níveis sociais e econômicos, mas está
fortemente concentrada nas camadas de baixa renda ou marginalizadas.
Cláudio Fleury Barcelos mostra dados reveladores desse processo de
marginalização do negro: em São Paulo, os negros e mulatos somavam,
em 1950, 10,22% da população recenseada no município e, segundo
pesquisas feitas em 1967, a população marginal da região da Grande
São Paulo apresentava cerca de 39% de negros e mulatos. Como se vê,
há uma concentração enorme, se levarmos em conta a relação
entre a população e o percentual de criminalidade.
A criminalidade, do furto ao assalto, é toda concentrada na
faixa de negros e mulatos marginalizados. Em certo círculo do Poder
Judiciário afirma-se, mesmo, que o Código Penal somente é aplicado
contra três pês: prostituta, pobre e preto. Para o crime de
"colarinho branco" há o Código Civil; e ele não consta nas
estatísticas de criminalidade.
Além disso, constata-se que os negros e não-brancos em geral
(excluindo-se os amarelos) são aqueles que possuem empregos menos
significativos socialmente. Segundo os dados do Censo de 1980,
apenas 0,4% dos recenseados como pretos são empregadores. Isto
demonstra como os mecanismos de imobilização social funcionam
eficientemente no Brasil, impedindo praticamente que o negro ascenda
significativamente na estrutura ocupacional. Convém notar que no
Censo de 1950 o percentual era de 0,95 de pretos empregadores.
Evidentemente que os mecanismos de barragem social, exercidos de
maneira não institucional, mais atuantes na posição do segmento
negro, refletem-se em todos os níveis e produzem distâncias sociais
enormes, jamais compensadas. As desigualdades raciais existentes no
Brasil são, de um lado, incorporadas como "naturais", e, de outro,
consideradas como simples subproduto do próprio comportamento e
temperamento dos negros e dos não-brancos em geral. Daí o
comportamento racial do brasileiro branco ser de desconfiança,
atitude de defesa ou hostilidade contra o negro. Esta atitude, por
seu turno, irá refletir-se na situação real do negro na estrutura da
sociedade brasileira, quer no acesso ao sistema educacional, quer na
distribuição de rendo, no nível de criminalidade, na organização
familiar e nas oportunidades oferecidas pela sociedade capitalista.
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de
1976 mostram um perfil atualizado da estrutura das desigualdades
raciais existentes no Brasil. O historiador Carlos Hasembalg,
baseado nesses dados, afirma que "considerando-se as pessoas de
cinco ou mais anos de idade, a proporção de analfabetos entre os
não-brancos (40%) é quase o dobro da dos brancos (22%) (...). O
grupo branco tem uma oportunidade 1,55 vez maior que os não-brancos
de completar entre cinco e oito anos de estudo e uma oportunidade
3,5 vezes maior de cursar nove ou mais anos de estudo".
Quanto à distribuição de renda, escreve o mesmo autor: "É lógico
esperar que as desigualdades existentes na distribuição regional,
qualificação educacional e estrutura de empregos de brancos e
não-brancos determinem fortes disparidades na distribuição de renda.
Entre as pessoas não-brancas com rendimentos, 53,6% recebiam uma
renda de até um salário mínimo. No caso do grupo preto, essa
proporção aumenta para 59,4%, enquanto somente 23,2% dos brancos
situavam-se nessa faixa de rendimentos. No extremo oposto da
distribuição, 23,7% de brancos e 14,5% de não-brancos obtinham mais
de dois a cinco salários mínimos, por sua vez 16,4% dos brancos e
4,2% de não-brancos tinham rendimentos superiores a cinco salários
mínimos."
A
dominação e a opressão dos brancos contra negros
Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil -- 27/01/2008
Discurso aos combatentes
A história nos ensina que a dominação, a opressão, a exclusão e a
exploração sempre foram derrotadas e destruídas. Impérios caíram.
Imperadores, reis, czares e príncipes foram derrotados, decapitados
e fuzilados. Ditadores e tiranos tombaram nos palácios e nos campos
de batalha e com eles o sistema de opressão e tirania que criaram e
alimentavam.
A história nos mostra armadas invencíveis sendo vencidas. Exércitos
gigantescos perdendo batalhas. Impérios inimagináveis ruindo. Nações
poderosíssimas perdendo guerras para camponeses e Mujahedins.
No futuro não há espaço para dominação, opressão, exclusão e
exploração. Não há isto no futuro. E se não há, é porque foram
destruídos no presente. Nós destruímos os dominadores, os opressores
e os exploradores. Por isso, eles não estão lá. Eles não fazem parte
do futuro. Não fazem parte do novo céu e da nova terra.
As correntes que carregamos foram colocadas, pelos opressores e
dominadores, nos nossos antepassados. Eles não as colocaram em nós.
Nós herdamos estas correntes de nossos antepassados e as prendemos
às nossas vidas. A nossa tolerância diante do mal, a nossa aceitação
e colaboração com o mal, a nossa omissão e indiferença é que
estabeleceram a dominação, a opressão, a exclusão e a exploração
sobre nós.
Os dominadores e opressores somente nos dominam e oprimem porque nós
consentimos com a dominação e com a opressão. Somos dóceis. Somos
patéticos. Somos resignados diante do mal. Nossos antepassados foram
domesticados pela escravidão e nos passaram, culturalmente, a
domesticação que receberam. Se não lutamos, eles vencem. Se
aceitamos a exploração e não reagimos, eles dominam. Se nos calamos
e resignamos, eles oprimem.
Temos que respeitar a vida e as diferenças. Contudo, não podemos
respeitar o mal, a dominação, a opressão, as injustiças, as
exclusões e as explorações. Quem diz que você tem que respeitar isto
é seu inimigo. É uma pessoa que ganha com este sistema. Uma pessoa
que está te explorando, oprimindo e dominando.
Os dominadores, opressores e exploradores devem ser destruídos, um
por um. Se não quer ser destruído, então não seja um dominador, um
opressor e nem um explorador. Respeite os outros, respeita as
diferenças, seja justo e faça justiça.
Certamente, aderir a esta luta é uma escolha. Uma escolha entre
continuar na escravidão e morrer grudado nela ou, então, morrer
lutando pela liberdade, por um novo céu e uma nova terra. Morrer
lutando para romper as correntes do mal.
A morte é inevitável. Todos morrem um dia. Mas você pode escolher. Pode morrer
como um herói, morrer lutando contra a dominação e a exploração, ou morrer como
um covarde resignado.
Devo alertá-lo, porém, que o seu tipo de morte determina o legado que você deixa
para os seus descendentes. Pode ser um legado de luta e de reação contra o mal
ou pode ser um legado de vergonha e de resignação. Para os seus filhos e netos,
para as futuras gerações, se você aceitar o mal e não lutar contra ele, você
deixa a mesma escravidão que viveu e a opressão que sofreu, deixa um mundo tão
ruim, ou pior, do que quando entrou nele. Se você lutar e reagir contra o mal,
lutar contra a dominação, a opressão e a tirania, você deixa um novo céu e uma
nova terra, um mundo de liberdade, justiça e paz.
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Por que eles matam negros ?
Porque os negros não reagem. São dóceis e humildes. Foram domesticados pela escravidão. Adotaram a subserviência da escravidão.
No dia em que eles matarem um negro inocente e os negros fizerem um grande levante e destruírem metade da cidade, de todas as cidades, então, eles irão parar de matar negros e começar a prender e a levar para julgamento.
O mal se instala onde encontra colaboradores, omissão, indiferença e medo. O mal foge dos lugares onde encontra reação e resistência, dos lugares onde pode ser destruído. Onde existem Homens de bem que peitam o mal e dizem: "Aqui não !!!
"O diabo é um homem com um plano. O mal verdadeiro é um conluio de homens." Exatamente o que temos hoje.
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Um aspecto é muito exaltado por Arendt nessa obra - Eichmann em Jerusalém, é a solidariedade e a capacidade de resistência à opressão – qualidades raramente encontradas naqueles tempos sombrios – mas quando elas aconteceram, os alemães recuaram.
"Quando [os nazistas] encontraram resistência baseada em princípios, sua 'dureza' se derreteu como manteiga ao sol. [...] O ideal de 'dureza', exceto talvez para uns poucos brutos semi-loucos, não passava de um mito de auto-engano, escondendo um desejo feroz de conformidade a qualquer preço, e isso foi claramente revelado nos julgamentos de Nüremberg, onde os réus se acusavam e traíam mutuamente e juravam ao mundo que sempre 'haviam sido contra aquilo', ou diziam, como faria Eichmann, que seus superiores haviam feito mau uso de suas melhores qualidades. Em Jerusalém, ele acusou 'os poderosos' de ter feito mau uso de sua 'obediência'" – ironizou Arendt.
A Holanda, lembra Arendt, foi o único país da Europa em que os estudantes entraram em greve quando professores judeus foram despedidos, e onde uma onda de greves operárias explodiu como reação à primeira deportação de judeus para os campos de concentração, principalmente de Sobibor. Na Dinamarca, quando os alemães abordaram altos funcionários governamentais para que fosse possível a identificação de judeus por um emblema amarelo no braço, eles simplesmente responderam que nesse caso o rei também usaria a identificação e que se os alemães insistissem haveria uma imediata renúncia generalizada. Segundo Arendt, os nazistas recuaram e foram tratar de criar outros meios para perpetrar seus crimes na região.
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Diz Henry Thoreau em "A desobediência civil":
De fato, nenhum homem tem o dever de se dedicar à erradicação de qualquer mal, mesmo o maior dos males; ele pode muito bem ter outras preocupações que o mobilizem. Mas ele tem no mínimo a obrigação de lavar as mãos frente à questão e, no caso de não mais se ocupar dela, de não dar qualquer apoio prático à injustiça. Se me dedico a outras metas e considerações, preciso ao menos verificar se não estou fazendo isso à custa de alguém em cujos ombros esteja sentado. É preciso que eu saia de cima dele para que ele também possa estar livre para fazer as suas considerações. (...)
(...) Há milhares de pessoas cuja opinião é contrária à escravidão e à guerra; apesar disso, nada fazem de eletivo para pôr fim a ambas; dizem-se filhos de Washington e Franklin, mas ficam sentados com as mãos nos bolsos, dizendo não saber o que pode ser feito e nada fazendo; chegam a colocar a questão do livre comércio à frente da questão da liberdade, e ficam quietos lendo as cotações do dia junto com os últimos boletins militares sobre a campanha do México; é possível até que acabem por adormecer durante a leitura. Qual é hoje a cotação do dia de um homem honesto e patriota? Eles hesitam, arrependem-se e às vezes assinam petições, mas nada fazem de sério ou de eletivo. Com muito boa disposição, preferem esperar que outros remedeiem o mal, de forma que nada reste para motivar o seu arrependimento. No melhor dos casos, nada mais farão do que depositar na urna um voto insignificante, cumprimentar timidamente a atitude certa e, de passagem, desejar-lhe boa sorte. Há novecentos e noventa e nove patronos da virtude e apenas um homem virtuoso; mas é mais fácil lidar com o verdadeiro dono de algo do que com seu guardião temporário. (...)
(...) Na maior parte dos casos não há qualquer livre exercício de escolha ou de avaliação moral; ao contrário, estes homens nivelam-se à madeira, à terra e às pedras; e é bem possível que se consigam fabricar bonecos de madeira com o mesmo valor de homens desse tipo. Não são mais respeitáveis do que um espantalho ou um monte de terra. Valem tanto quanto cavalos e cachorros. No entanto, é comum que homens assim sejam apreciados como bons cidadãos. Há outros, como a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que eles sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus - sem intenção -, pois raramente se dispõem a fazer distinções morais. Há um número bastante reduzido que serve ao Estado também com a sua consciência; são os heróis, patriotas, mártires, reformadores e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo; e o Estado trata-os geralmente como inimigos. Um homem sábio só será de fato útil como homem, e não se sujeitará à condição de "barro" a ser moldado para "tapar um buraco e cortar o vento”; ele preferirá deixar esse papel, na pior das hipóteses, para as suas cinzas.
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Eu tenho um sonho
Discurso de Martin Luther King (28/08/1963)
"Eu estou contente em unir-me com vocês no dia que entrará para a
história como a maior demonstração pela liberdade na história de
nossa nação.
Cem anos atrás, um grande americano, na qual estamos sob sua
simbólica sombra, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse
importante decreto veio como um grande farol de esperança para
milhões de escravos negros que tinham murchados nas chamas da
injustiça. Ele veio como uma alvorada para terminar a longa noite de
seus cativeiros.
Mas cem anos depois, o Negro ainda não é livre. Cem anos depois, a
vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da
segregação e as cadeias de discriminação. Cem anos depois, o Negro
vive em uma ilha só de pobreza no meio de um vasto oceano de
prosperidade material. Cem anos depois, o Negro ainda adoece nos
cantos da sociedade americana e se encontram exilados em sua própria
terra. Assim, nós viemos aqui hoje para dramatizar sua vergonhosa
condição.
De certo modo, nós viemos à capital de nossa nação para trocar um
cheque. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as
magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência,
eles estavam assinando uma nota promissória para a qual todo
americano seria seu herdeiro. Esta nota era uma promessa que todos
os homens, sim, os homens negros, como também os homens brancos,
teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a
busca da felicidade. Hoje é óbvio que aquela América não apresentou
esta nota promissória. Em vez de honrar esta obrigação sagrada, a
América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que
voltou marcado com "fundos insuficientes".
Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça é falível.
Nós nos recusamos a acreditar que há capitais insuficientes de
oportunidade nesta nação. Assim nós viemos trocar este cheque, um
cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e
a segurança da justiça.
Nós também viemos para recordar à América dessa cruel urgência. Este
não é o momento para descansar no luxo refrescante ou tomar o
remédio tranqüilizante do gradualismo. Agora é o tempo para
transformar em realidade as promessas de democracia. Agora é o tempo
para subir do vale das trevas da segregação ao caminho iluminado
pelo sol da justiça racial. Agora é o tempo para erguer nossa nação
das areias movediças da injustiça racial para a pedra sólida da
fraternidade. Agora é o tempo para fazer da justiça uma realidade
para todos os filhos de Deus.
Seria fatal para a nação negligenciar a urgência desse momento. Este
verão sufocante do legítimo descontentamento dos Negros não passará
até termos um renovador outono de liberdade e igualdade. Este ano de
1963 não é um fim, mas um começo. Esses que esperam que o Negro
agora estará contente, terão um violento despertar se a nação votar
aos negócios de sempre.
Mas há algo que eu tenho que dizer ao meu povo que se dirige ao
portal que conduz ao palácio da justiça. No processo de conquistar
nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de
injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da
xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa
luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos
permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência
física. Novamente e novamente nós temos que subir às majestosas
alturas da reunião da força física com a força de alma. Nossa nova e
maravilhosa combatividade mostrou à comunidade negra que não devemos
ter uma desconfiança para com todas as pessoas brancas, para muitos
de nossos irmãos brancos, como comprovamos pela presença deles aqui
hoje, vieram entender que o destino deles é amarrado ao nosso
destino. Eles vieram perceber que a liberdade deles é ligada
indissoluvelmente a nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.
E como nós caminhamos, nós temos que fazer a promessa que nós sempre
marcharemos à frente. Nós não podemos retroceder. Há esses que estão
perguntando para os devotos dos direitos civis, "Quando vocês
estarão satisfeitos?"
Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos
horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos
satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem,
não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e os hotéis das
cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um Negro não puder
votar no Mississipi e um Negro em Nova Iorque acreditar que ele não
tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós
não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo
como águas de uma poderosa correnteza.
Eu não esqueci que alguns de você vieram até aqui após grandes
testes e sofrimentos. Alguns de você vieram recentemente de celas
estreitas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde sua
busca pela liberdade lhe deixaram marcas pelas tempestades das
perseguições e pelos ventos de brutalidade policial. Você são o
veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé que
sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem
para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a
Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as ruas sujas e guetos
de nossas cidades do norte, sabendo que de alguma maneira esta
situação pode e será mudada. Não se deixe caiar no vale de
desespero.
Eu digo a você hoje, meus amigos, que embora nós enfrentemos as
dificuldades de hoje e amanhã. Eu ainda tenho um sonho. É um sonho
profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o
verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas
verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados
iguais.
Eu tenho um sonho que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os
filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos
donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.
Eu tenho um sonho que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um
estado que transpira com o calor da injustiça, que transpira com o
calor de opressão, será transformado em um oásis de liberdade e
justiça.
Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia
viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele,
mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia, no Alabama, com seus racistas
malignos, com seu governador que tem os lábios gotejando palavras de
intervenção e negação; nesse justo dia no Alabama meninos negros e
meninas negras poderão unir as mãos com meninos brancos e meninas
brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!
Eu tenho um sonho que um dia todo vale será exaltado, e todas as
colinas e montanhas virão abaixo, os lugares ásperos serão
aplainados e os lugares tortuosos serão endireitados e a glória do
Senhor será revelada e toda a carne estará junta.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que regressarei para o Sul.
Com esta fé nós poderemos cortar da montanha do desespero uma pedra
de esperança. Com esta fé nós poderemos transformar as discórdias
estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com
esta fé nós poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos,
para ir encarcerar juntos, defender liberdade juntos, e quem sabe
nós seremos um dia livre. Este será o dia, este será o dia quando
todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.
"Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.
Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,
De qualquer lado da montanha, ouço o sino da liberdade!"
E se a América é uma grande nação, isto tem que se tornar
verdadeiro.
E assim ouvirei o sino da liberdade no extraordinário topo da
montanha de New Hampshire.
Ouvirei o sino da liberdade nas poderosas montanhas poderosas de
Nova York.
Ouvirei o sino da liberdade nos engrandecidos Alleghenies da
Pennsylvania.
Ouvirei o sino da liberdade nas montanhas cobertas de neve Rockies
do Colorado.
Ouvirei o sino da liberdade nas ladeiras curvas da Califórnia.
Mas não é só isso. Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Pedra
da Geórgia.
Ouvirei o sino da liberdade na Montanha de Vigilância do Tennessee.
Ouvirei o sino da liberdade em todas as colinas do Mississipi.
Em todas as montanhas, ouviu o sino da liberdade.
E quando isto acontecer, quando nós permitimos o sino da liberdade
soar, quando nós deixarmos ele soar em toda moradia e todo vilarejo,
em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia
quando todas as crianças de Deus, homens pretos e homens brancos,
judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão unir mãos e
cantar nas palavras do velho spiritual negro:
"Livre afinal, livre afinal.
Agradeço ao Deus todo-poderoso, nós somos livres afinal."
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O miolo da questão
A escravidão gerou uma elite, uma minoria branca, econômica poderosa que controla e domina tudo. Uma minoria que continua disseminando e usando os costumes da escravidão, pois a riqueza que eles possuem veio da escravidão, seja do trabalho escravo, seja do comércio de escravos.
Uma minoria que, atualmente, escraviza tanto os negros, que são pobres pela escravidão histórica, quanto os brancos que nascem pobres pela exclusão econômica atual.
Uma minoria que domina a política, a burocracia, a economia, enfim, todos níveis do Estado. E não deixa que mudanças essenciais aconteçam. Eles fazem as leis, eles governam, eles aplicam as leis, eles são os juízes, etc, Estão no poder e querem se perpetuar no poder.
Portanto, a questão do racismo é completamente irrelevante, principalmente porque raça não existe. E se existir só há uma: a raça humana. O miolo da questão é a dominação, a opressão, a exclusão e a exploração imposta por uma minoria branca rica sobre uma maioria negra e pobre.
Inclusive o Professor e ex-governador Cláudio Lembro (Site e textos aqui) é uma pessoa de grande visão, entendimento e sabedoria. Mas, mais do que isto, ele tem que coragem de falar a verdade. Não adianta ter grande entendimento e sabedoria e ficar calado ou colaborar com o mal. É preciso falar e falar na lata.
Disse o professor Lembo: "A elite branca deveria olhar menos para o que acontece no exterior e mais para a realidade social do Brasil".
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Palavras do Professor e ex-governador Cláudio lembro:
SOBRE A ELITE BRASILEIRA
"O Brasil é um país que só conheceu derrotas. Derrotas sociais... Nós temos uma burguesia muito má, uma minoria branca muito perversa".
"Em suas lindas casas dizem que vão sair às ruas fazendo protesto. Vão fazer protesto nada! Vão é para o melhor restaurante cinco estrelas com outras figuras da política nacional fazer o bom jantar".
"Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para esse País".
"A Casa-grande tinha tudo e a Senzala não tinha nada. Então é um drama. É um País que quando os escravos foram libertados, quem recebeu indenização foi o Senhor e não os libertos, como nos EUA. Então, é um País único. (...) O cinismo nacional mata o Brasil. Esse País tem que deixar de ser cínico. Vou falar a verdade, doa a a quem doer, destrua a quem destruir, por que acho que só a verdade vai construir este País".
SOBRE A REAÇÂO DA ELITE PAULISTANA
"O que eu vi em entrevistas da Folha de S. Paulo foram dondocas dizendo coisinhas lindas. Todos são bonzinhos publicamente. E depois exploram a sociedade, seus serviçais, exploram todos os serviços públicos. Querem estar sempre nos palácios dos governos porque querem ter benesses do governo. Isso não vai ter aqui nesses oito meses".
SOBRE A ELITE BRASILEIRA
"A bolsa da burguesia terá de ser aberta, para sustentar a miséria, no sentido de haver mais empregos, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações".
"Se nós não mudarmos a mentalidade brasileira, o cerne da
minoria branca brasileira, não iremos a lugar algum".
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O exército de crime
Roberto Saturnino Braga -- JORNAL – CORREIO BRAZILIENSE – 25.05.2006
– PÁG.29
Senador PT/RJ, é presidente da Comissão de Relações Exteriores e
Defesa Nacional do Senado
Arrefecida a tensão da tragédia de São Paulo, discutem-se
intensamente muitos subitens do problema da violência urbana – o uso
de celulares nos presídios, as benevolências carcerárias existentes,
o agravamento supostamente necessário das penas –, mas ignora-se o
fato principal: que o crime organizado dispõe de um exército com
grande poder de fogo, comandado por chefes de dentro dos presídios
ou por outros que logo os substituem quando eles faltam. O
gravíssimo é que existe esse exército organizado capaz de fazer
frente à polícia de igual para igual, cessando fogo mediante
negociação entre poderes. Isso sem falar do outro exército, também
numeroso mas inorgânico, de assaltantes maiores e menores que enchem
as ruas das cidades.
Que fenômeno é esse? Que enorme bando é esse de brasileiros que
ignoram a lei, o Estado, a República, os valores da moral, da
justiça, da humanidade? Como e por que se formou essa legião de
bárbaros dentro da sociedade? Como reverter a formação? E como
tornar mais eficaz, a curto prazo, nossa polícia para enfrentá-los?
Essas são as questões principais que, antes de todas, precisam
encontrar resposta.
Houve falta de investimento em educação nas décadas passadas?
Evidentemente houve, a constatação é consensual. Houve falta de
emprego, falta de oportunidade para uma vida digna? Sim, é outro
consenso. Cresceu a massa de pobreza absoluta? Desagregou-se a
família, a religião? Sim, também. Esses são fatores efetivamente
importantes na formação daquelas legiões. Mas que ainda não explicam
tudo a meu juízo. Há que somar outras causas para se ter um efeito
tão grande e assustador. Penso, principalmente, no enorme, vasto e
profundo sentimento de injustiça que cresceu na alma do nosso povo
mais carente e vitimado nos últimos 20 anos. Esse sentimento de
injustiça gera ódio nos corações mais agressivos e gera cinismo
absoluto, insensibilidade nos mais fracos de caráter. E esse
sentimento do povo carente é gerado pela injustiça estrutural e
abissal da nossa sociedade e no cinismo com que a nossa “elite
branca perversa” (Cláudio Lembo) a encara, achando que é natural,
resultante das diferenças de competência e de disposição para o
trabalho, decorrente da falta de “competitividade” deles no mercado
– os trabalhadores mais pobres – e o mercado tem que ser acatado,
ele é que decide, é a racionalidade, não há nada a fazer.
Pois o mercado não decide nada; quem decide é precisamente esse
sindicato do cinismo que manda na economia brasileira; eles decidem
que é o mercado quem deve decidir, e o povo que se vire. A
sociedade, porém, pode decidir, politicamente, que os critérios de
distribuição dos frutos do trabalho não são apenas os do mercado e
da “competição”, mas também os da justiça, os da solidariedade, os
do congraçamento social. Critérios, estes outros, que devem ser
implementados pelo Estado, pela sua presença na economia e pelo
planejamento, que a elite cínica quer evitar a todo custo, e
conseguiu fazê-lo nas décadas perdidas do neoliberalismo.
É claro que esse novo paradigma é viável; trata-se de um confronto
político que está acontecendo no país. Se a elite endinheirada e
cínica não bota a mão no bolso para ajudar os mais carentes (Cláudio
Lembo), o Estado tem de meter a mão no bolso dela, legitimamente,
taxando fortunas e ganhos de capital e pagando juros baixos, para
investir muito mais na educação, sim, mas também nas favelas, na
habitação digna, no saneamento.
Mudar o modelo, eis aí. Encerrar a era neoliberal. É muito difícil,
todos sabemos, enfrentar os gigantescos interesses do capital. Mas
temos que tentar; junto com a América do Sul, para ficar menos
difícil. Dialogando com a França também, que é o único país rico a
manifestar resistência àqueles interesses. Enfim, é o principal que
temos de fazer, pensando num Brasil mais justo e menos violento.
Mas é evidente que temos que cuidar, de imediato, da eficácia da
polícia. Temos que aumentar seus efetivos, que são muito baixos
(algo como cinco vezes menos policiais em ação por 1.000 habitantes
que nos países ricos). Temos que preparar ainda melhor esses
efetivos, como tem feito a Força Nacional; temos que usar mais as
tecnologias avançadas, a do geoprocessamento, por exemplo, que
permite monitorar todas as ruas da cidade 24 horas por dia. Não
entro a fundo nessa discussão porque não sou do ramo, mas é claro
que ela é importantíssima – e, a curto prazo, todos dependemos dela.
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Precisamos fazer um
rastreamento histórico
Poderíamos fazer um rastreamento histórico para calcular a
quantidade, aproximada, de riquezas que os negros produziram, ao
longo de centenas de anos de escravidão, e que foi apropriada pelos
brancos.
Poderíamos fazer um rastreamento para descobrir onde está esta
riquezas, onde estão as famílias que adquiriram e usaram escravos, o
que fizeram com a riqueza que acumularam, no que investiram.
Precisamos ver, com exatidão, a partir de que momento os negros,
antigos escravos, começaram a estudar... E onde se estabeleceram.
Também temos que ver em que momento os negros começaram a adquirir
propriedades, principalmente, terras e de que forma. Eles eram
ex-escravos e descendentes de escravos, como conseguiram arranjar
recursos para isto ?
Além disso, é preciso ver, após a escravidão, como ficou a questão
das terras. Os brancos, pelo que consta, já tinham se apoderado de
tudo, restando apenas as terras distantes e inóspitas...
As respostas destas questões mostrarão, exatamente, porque os negros
são pobres, porque são analfabetos e porque vivem nas favelas e
periferias.
A resposta, certamente, pode ser antecipada: dominação, opressão,
exclusão e exploração dos brancos contra os negros.
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Branco não é raça. É cor.
Na discussão da dominação, opressão, exclusão e exploração de uma
minoria branca sobre a maioria negra e de pobres, estão tentando
levar o tema para o lado do racismo. Racismo ??? Que tipo de racismo
? Não estamos diante de uma questão de raça, a coisa é muito pior e
muito maior, estamos diante de uma questão de cor. Cor não se
confunde com raça...
Os brancos não se fundem em uma única raça, assim como os negros não
são uma única raça. Mais do que isto, existem brancos que são tão
explorados, pelos próprios brancos, quanto os negros. Portanto, não
há, nesta questão, a discussão de racismo. Inclusive, no Brasil, não
é possível discutir racismo, pois aqui todo mundo é vira-lata.
Certamente, vão tentar deslocar a discussão para o tema do racismo.
Vão fazer isto para emperrar o negócio e não resolver nada. Vão
dizer que a insurgência dos negros contra os brancos é racismo. Vão
dizer que os brancos, uma minoria, pode dominar, explorar, oprimir e
excluir a maioria da população. Isto é mérito.
Contudo, em um passado próximo, os negros eram escravizados. Tudo o
que produziram agregou-se ao patrimônio dos brancos. E o costume da
escravidão, assim como a cultura de ver os negros como bobos,
serviçais, analfabetos, inferiores, etc, entrou e se perpetuou na
sociedade. A identificação está na cor e não em raça.
Um branco nascido na África, que só falava dialetos africanos,
adotava todos os costumes africanos, etc, poderia ser escravizado ?
A escravidão pode ter começado com uma raça, mas, ao longo do tempo,
foi nivelada por um só critério: a cor. E hoje a dominação branca
continua se respaldando no mesmo critério, na cor. Os maiores
bandidos são brancos. Mas quem vai para a cadeia são os negros.
Se os negros tivessem escravizado os brancos e arrancado tudo o que
eles produziram, ao longo de centenas de anos, hoje, estaríamos
falando da dominação dos negros sobre os brancos. Os brancos seriam
os pobres, os favelados, os analfabetos, os inferiores, etc. A
superioridade e a riqueza dos brancos foi construída com o sangue
dos negros, com o trabalho dos negros, com o rebaixamento dos
negros, com a submissão dos negros, com o holocausto dos negros.
Mas vamos pegar um exemplo pragmático. Eu gosto de pragmatismo.
Hoje, se você chegar em um rico tradicional (Forest Gump), não os
novos ricos da megasena, ele vai te contar. O meu dodecavô não tinha
nada começou do zero. E deixou uma moeda para o meu udecavô. Com uma
moeda o meu udecavô comprou uma galinha e deixou de herança para o
meu decavô. O meu decavô trabalhou, ganhou outra moeda e comprou um
galo. Deixou um galo e uma galinha de herança para o meu nonavô. O
meu nonavô com a galinha e o galo poduziu ovos e construiu um
galinheiro, deixando tudo de herança para o meu octavô. O meu octavô
com a galinha, o galo, o galinheiro e os ovos, aumentou a produção e
construiu cinco galinheiros, deixando tudo de herança para o meu
septavô. O meu septavô juntou tudo, aumentou a produção, e construiu
uma granja e deixou de herança para o meu hexavô. O meu hexavô
ampliou o negócio, construiu mais granjas e comprou uma fazenda e
deixou para o meu pentavô.
O meu pentavô com estes bens montou uma indústria de ovos e iniciou
a engorda e o abate de frangos. Já o meu tetravô não gostava de aves
e preferiu começar outro negócio. Ele investiu em cimento. Ampliando
os negócios da Família. O meu trisavô não gostava nem de aves e nem
de cimento, mas de alumínio. Então ele investiu na montagem de uma
fábrica de alumínio. O meu bisavô continuou com o negócio das aves e
do gado, investindo pesado na exportação. Coisa que o meu avô não
fez, pois gostava mais de tecnologia. Ele investiu pesado em
empresas de internet. E meu pai e eu gostamos mais de mercado
financeiro. Investimos o dinheiro da família no mercado, mas até
hoje ainda temos o galo e a galinha adquiridos pelo meu udecavô e
meu decavô, ainda continuam botando ovos. Dizem que esse galo e esta
galinha vieram das terras altas, vieram da Escócia. São Highlander.
Agora vamos ver a História dos negros. Dodecavô: escravo. Udecavô:
escravo. Decavô: escravo. Nonavô: escravo no galinheiro. Octavô:
escravo em 5 galinheiros. Septavô: escravo na granja. Hexavô:
escravo na fazenda. Pentavô: escravo na fazenda. Tetravô: escravo na
fazenda. Trisavô: escravo na fazenda. Bisavô: livre - trabalhador
rural sem-terra. Avô: livre - servente de pedreiro...
Aquilo que a força do trabalho dos negros produziu, ao longo de
centenas de anos, foi agregado ao patrimônio dos brancos. Quando a
escravidão terminou, os negros foram expulsos das senzalas com uma
mão na frente e outra atrás. A única coisa que possuíam era a força
de trabalho. A força de trabalho que vendem até hoje. Os negros são
pobres, são favelados, são analfabetos, etc, por causa da escravidão
dos brancos que os impediu de se desenvolveram, de acessarem as
riquezas, de estudarem, de usufruírem daquilo que produziram. Não só
impediu, como continuam impedindo.
A dominação dos negros pelos brancos não é uma questão de raça, é
uma questão de uma minoria oprimindo, excluindo e explorando uma
maioria. Não há embasamento para se falar em raça no Brasil. A
dominação está mais baseada na cor, por uma razão histórica, do que
na idéia de raça que envolve costumes, língua, religião, etc...
A discussão fundamental é o domínio de uma minoria sobre uma grande
maioria. Uma minoria que controla o poder político, o poder
econômico e as instituições públicas, impedindo a maioria da
população (negros e pobres) de acessarem o poder político, o poder
econômico e as instituições públicas. Uma minoria que, para
perpetuar a sua dominação, impede a realização de projetos sociais
que o apartheid social. O parasita cria mecanismos para perpetuar o
parasitismo.
A reparação histórica é mais do que obrigação. É justiça, pois a
riqueza que construíram originou-se da escravidão.
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Somente haverá paz, contínua e duradoura, quando houver justiça e
for eliminada toda forma de dominação, opressão, exclusão e
exploração. Enquanto existir isto, haverá desejo de vingança e
pessoas dispostas a iniciar uma guerra para fazer cessar o mal.
O terrorismo é conseqüência da dominação, opressão, exclusão e
exploração. O terrorismo não é causa é conseqüência. Além disso, é
um meio de luta como judô, karatê, kung fu. Portanto, não se combate
o terrorismo, a conseqüência, sem combater as causas. Eliminou as
causas, eliminou a conseqüência, eliminou o terrorismo.
Entre a causa e a conseqüência há uma linha do tempo. Uma linha que
leva à ação terrorista. Se olharmos para esta linha veremos crianças
jogando pedras em tanques, jovens provocando soldados, o ódio se
expandido. E o resultado, terrorismo. Contudo, eu pergunto, quanto a
guerra ao terror rendeu para as indústrias que fabricam armas e
equipamentos anti-terror ? Por isso, as causas não são combatidas...
O capitalismo, dentro da sociedade humana, é um touro desajeitado
que entrou em uma loja de cristal e porcelanas. Não há como
tirá-lo. Logo, temos que segurá-lo, controlá-lo e amarrá-lo, etc...
Mesmo assim, ele vai fazer um grande estrago. Acho que esta história
vai acabar em churrasco dentro da loja. Vamos comer o capitalismo...
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Está chegando a hora de deixar a Universidade e ir para as favelas,
para as periferias, para o meio da coletividade. Minha sina não será
diferente da sina do meu povo. (Filme: Star Wars I - Ameaça
Fantasma). Contudo, antes disso preciso construir e fundamentar a
parte espiritual da revolução. É a parte espiritual que leva um
homem a lutar e a oferecer a própria vida para o bem de todos, para
salvar as futuras gerações. É a parte espiritual que faz um homem
amarrar bombas ao próprio corpo e explodir com o inimigo.
Certamente, eu não pretendo construir um fundamento espiritual tão
radical e extremo. Mas devo construí-lo de forma que a luta dure
enquanto durar a dominação, a opressão, a exploração e as
injustiças. Enquanto a igualdade de direitos e condições não forem
alcançadas e uma minoria estiver oprimindo a maioria, a luta
tem que durar.
Além disso, o fundamento espiritual tira a importância das
lideranças e das pessoas e põe o motivo na realidade. Não lutam pelo
Leonildo, ou por fulano ou por sicrano. Lutam porque há uma
dominação, uma opressão, a exploração e a escravidão sobre todos.
Lutam por si mesmos, por suas consciências, por suas liberdades e
para que as próximas gerações nasçam livres e em uma sociedade
fundada na justiça, no direito e na vontade da maioria.
Eu não sou importante. A minha pessoa não é importante. Essenciais e
necessárias são as minhas idéias e visões. Elas é que mostrarão o
rumo e que motivarão a luta, seja por um, dois ou dez mil anos. A
vida é passageira. A consciência e as idéias são eternas. Por isso,
o que fazemos em vida ecoa na eternidade.
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"Lembre-se, lembre-se, do dia 5 de novembro. A pólvora, a traição e
a conspiração. Não vejo razão para que a pólvora da traição jamais
seja esquecida.
Mas e o homem ? Sei que se chamava Guy Fawkes. E sei que em 1605 ele
tentou explodir as casas do Parlamento. Mas quem ele era na
realidade ? Como era ?
Lembramos da idéia totalmente, mas não do homem. Pois um homem pode
fracassar. Podem capturá-lo, matá-lo e esquecê-lo. Mas uma idéia,
quatrocentos anos depois, ainda pode mudar o mundo.
Presenciei pessoalmente o poder das idéias. Vi pessoas serem mortas
em seu nome...e morrerem defendendo-as.
Mas uma idéia não pode ser beijada, tocada ou abraçada. Idéias não
sangram, sentem dor, ou amam." (Abertura do Filme V de Vingança)
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Por trás deste movimento deve haver mais do que pele e osso. Tem que
haver idéias. Idéias são a prova de bala. Passam de pessoa
para pessoa, de geração para geração, contaminando toda a sociedade.
Pode-se matar uma pessoa, mas não se pode matar uma idéia, um
propósito, um destino.
"Há mais de cem anos, o poeta alemão Heine advertiu os franceses a
não subestimarem o poder das idéias: os conceitos filosóficos
alimentados na tranqüilidade do gabinete de um professor poderiam
destruir uma civilização. Citou ele a Crítica da Razão Pura, de
Kant, como a espada com que fora decapitado o teísmo europeu, e
descreveu as obras de Rousseau como a arma ensangüentada que, em
mãos de Robespierre, destruíra o antigo regime." (
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V, no filme V de Vingança, não quer meramente um acerto de
contas pessoal. Verdade que ele não esquece e nem perdoa os horrores
que viu e sentiu durante os primeiros anos de instalação do regime
que agora surge para combater, com direito a experiências genéticas
em campos de concentração que não deixavam nada a dever às dos
nazistas em sua melhor forma. Mas, se fosse apenas isso, bastaria a
ele eliminar os responsáveis pelo seu sofrimento (o que ele,
efetivamente, faz — metódica e eficientemente, aliás).
Mas a cruzada de V não se restringe a pessoas. Sua amplitude é muito
maior: ele quer matar todo um regime político. Não se conforma com a
realidade que o cerca. Não se submete — e não admite que as outras
pessoas se submetam. Quer abrir os olhos de seus concidadãos para o
fato de que a realidade em que vivem não é a única possível.
Quer mostrar que o povo não deve temer um governo, mas todo governo
deve temer o povo. Quer esquartejar a ideologia dos que detêm o
poder. Sua vingança, portanto, transcende o mero gosto pelo sangue
de seus algozes. E o fato de ele poder unir as duas coisas em sua
cruzada, já que seus algozes são todos membros do próprio sistema
que ele quer ver eliminado, é apenas uma feliz coincidência.
Ele quer erguer toneladas de poeira, resultado da explosão de tudo o
que for um símbolo do poder instituído. Busca, acima de tudo,
eliminar um governo por suas próprias mãos. Nenhum passo de V é dado
por acaso: ele se preparou durante anos a fio, em várias frentes,
matando quem o torturou sem deixar pistas, minando pouco a pouco
toda a estrutura do estado policial que o cerca sem ser jamais
pressentido, a não ser quando ele mesmo decide que é hora de subir
ao palco.
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Eu navego facilmente, tanto no mundo das idéias, quanto no mundo da
ação. Inclusive posso criar pontes diretas entre estes dois mundos.
Isto significa que eu já tenho os planos que precisamos para a
resistência e para a rebelião. Agora é preciso encontrar pessoas
leais, comprometidas e dispostas a enfrentarem a dominação e a opressão do sistema.
Preciso encontrar Cavaleiros Jedi naturais que lutem pela Justiça, contra a
tirania e contra o império dos grupos dominantes. Pessoas que queiram instalar a verdadeira República no
Brasil, assim como restaurar a essência da antiga polis grega. Uma República livre da dominação dos grupos econômicos e dos
corruptos. Uma República na qual o povo expresse livremente a sua
vontade.
Eu estou pronto para iniciar o movimento e para enfrentar
o mal em todos os níveis. Sou leal ao movimento e aos companheiros
que entrarem na luta. Não deixaremos ninguém para trás. E aqueles
que tombarem ao longo do caminho, como disse Getúlio, "sairão da
Vida para entrar na História". Os negros podem iniciar algo novo.
Algo que os brancos não podem iniciar, pois estão presos à dominação
e corrompidos pelo poder.
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O problema dos pardos se resolve da seguinte forma: pardo pobre é
negro; pardo rico é branco. Isto não está sendo imposto, mas
proposto. A última palavra no assinto será dado pela consciência de
cada um.
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A Câmara e o Senado são brancos, pois os políticos são todos
brancos. Logo, a lei que produzem também é branca e representa o que
eles pensam, a dominação que eles exercem, a opressão que executam,
a exploração que os enriquecem.
A burocracia, a administração pública brasileira, assim como o poder
executivo é branco, pois somente são aprovados nos concursos os
brancos que dominam as melhores Universidades Públicas ou possuem
recursos para pagar os cursinhos caríssimos.
A justiça brasileira é branca. O judiciário brasileiro é branco,
pois os juízes brasileiros são brancos. Esta é uma das razões das
prisões brasileiras estarem cheias de negros.
A polícia brasileira é branca, pois a maioria dos policiais são
brancos. Esta é outra razão dos negros serem as maiores vítimas da
polícia, principalmente, nas favelas. O mesmo se aplica aos oficiais
graúdos das forças armadas.
Portanto, no Brasil, o executivo, o legislativo e o judiciário são
brancos. A força de repressão também é branca. E a maioria da
população é negra.
Isto me lembra Esparta na Grécia Antiga. Contudo, Esparta era uma
cidade-estado militar. Esta era a única forma de manterem a opressão
de uma minoria sobre uma maioria. De acordo com a Wikipedia, "os
Hilotas eram os servos, que pertencendo ao estado espartano,
trabalhavam nos kleros(lotes de terra), entregando metade das
colheitas ao Espartano e eram duramente explorados. Deviam cultivar
essa terra a vida inteira e não podiam ser expulsos de seu lugar.
Levavam uma vida muito dura, sujeita a humilhações constantes. Foram
protagonistas de várias revoltas contra o estado espartano. Para
controlar as revoltas e manter os hilotas sob clima de terror, os
espartanos organizavam expedições anuais de extermínio (krypteia ou
criptias), onde os hilotas eram obrigados a participar. Tratava-se
de um massacre anual que consistia na perseguição e morte dos
hilotas considerados perigosos, no qual os espartanos competiam para
ver quem matava mais hilotas. "(clique
aqui para ler o verbete: Esparta)
E no Brasil, como uma minoria branca consegue manter uma violenta
dominação e opressão sobre uma grande maioria negra ? A resposta
está no conformismo, na resignação. A maioria negra foi domesticada
pela escravidão e está passando o costume da resignação,
culturalmente, para as gerações seguintes. A maioria negra é uma
maioria silenciosa e conformada. Precisamos quebrar essa
cadeia de dominação e opressão e interromper a passagem do costume
da escravidão.
É hora de organizar e realizar uma grande rebelião. É hora de fazer
valer o princípio democrático e a Constituição Federal que diz: o
poder pertence a maioria. Os negros são a maioria.
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Eu não sou o criador da divisão brancos x negros. Eu apenas estou
evidenciando uma divisão que foi criada pela escravidão e
internalizada na História do Brasil e nas instituições brasileiras.
É uma divisão artificial que se tornou costume, virou paradigma e
fundamenta, atualmente, a dominação e a opressão.
Os brancos enriqueceram com o sangue dos negros. Não só enriqueceram
como se apoderaram de todas as riquezas do Brasil.
Os negros não são pobres porque são preguiçosos ou porque são menos
inteligentes. São pobres, miseráveis e analfabetos porque foram
escravizados e tudo o que produziram, por centenas de anos, foi
agregado ao patrimônio dos brancos e dos europeus. A fortuna dos
brancos e dos países ricos é fruto de pirataria, de furto e roubo
dos negros, da escravidão dos negros, seja aqui ou seja na África.
Os negros brasileiros são pobres, miseráveis e analfabetos por isto.
Porque foram escravizados e porque os brancos se apoderaram de todas
as riquezas do Brasil, de todas as terras, enfim, de tudo. Quando
libertaram os escravos não lhes deram nada, simplesmente os
expulsaram das fazendas com uma mão na frente e outra atrás.
Se os negros tivessem escravizado os brancos e tivessem se apoderado
de todas as riquezas do Brasil, hoje estaríamos falando de dominação
e opressão dos negros sobre os brancos.
Portanto, a dominação e a opressão que está fundada na cor, tem que
ser quebrada pela cor. Chegou a hora dos brancos responderem pelos
crimes que cometeram e devolverem a riqueza que roubaram ou
construíram com o sangue e o trabalho dos negros.
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Em cada Favela
construiremos uma Palmares. E cada negro será um Zumbi dos Palmares
em ação. Agiremos em conjunto e buscando o mesmo objetivo: destruir
o poder e as instituições que nos domina, oprime e escraviza há 500
anos. Derrubaremos os grupos dominantes opressores e seus aliados e em seu lugar
reconstruiremos a polis ateniense - a Democracia Direta.
Portanto, se nas revoluções o grande
problema era saber o que fazer depois de tomar o poder, aqui já
temos a resposta: o poder pertence à maioria e será exercido pela
maioria, sem intermediários, sem representações. Porém,
continuará existindo um executivo e um judiciário, pois são poderes
que não podem ser manejados pela multidão. Contudo, os membros
desses poderes serão eleitos e poderão ser destituídos a qualquer momento pela
maioria. As leis e todos os atos de grande relevância pública serão
aprovados ou rejeitados diretamente pelos cidadãos.
A democracia representativa é a democracia
dos grupos dominantes, é parcial, tendenciosa e corrupta. Não
representa a maioria e nem representa a vontade popular, mas sim os
interesses e a vontade da classe dominante. A democracia direta é
legítima, pois representa os interesses e a vontade da maioria. A
vontade da maioria é o interesse público e deve ser seguida.
A violência não gera poder. Mas a
violência pode destruí-lo. Por isso, na luta contra o poder que
domina e oprime, a violência é uma ferramenta necessária.
A minha preocupação era construir
instituições para um novo céu e uma nova terra. Contudo, somente
haverá um novo céu e uma nova terra quando o velho céu e a velha
terra forem limpos da dominação, da opressão e da maldade. Nós nos
acostumamos ao mal que está do nosso lado. Nós toleramos e
colaboramos com aquilo que
temos que destruir. O mal tem que ser destruído.
1- Um Juiz branco não tem
competência e nem poder suficiente para impedir os negros de
entrarem nas Universidades Públicas;
2- As Universidades Públicas não
pertencem aos reitores brancos ou aos grupos dominantes brancos.
3- O Estado, a Administração
Pública, enfim, a burocracia, incluindo a Polícia e os Militares, estão nas mãos dos
brancos. Por isso, as coisas não mudam. Por isso, massacram os negros.
4- As leis são feitas por
deputados e senadores brancos, são executadas por governantes
brancos e fiscalizadas por um judiciário branco. A escravidão nunca
terminou. São 500 anos de escravidão, exploração e opressão dos
verdadeiros brasileiros.
5- A maioria, os verdadeiros
brasileiros, que construíram este país com suor e sangue, são
negros. A maioria é negra, é pobre e vive na periferia. Os ricos, a
elite, os grupos dominantes são brancos.
6- De onde virá as mudanças que Você espera ?
Dos brancos ? Você acha que a mão que escraviza e explora vai te
libertar ? Quantos negros os brancos mataram nestes 500 anos ? E se
não agirmos, quantos eles irão matar no futuro ?
E não se enganem,
7- São necessários apenas 40 dias. Em 40
dias levamos à decretação de estado de sítio. Em 40 dias paralisamos
todas as instituições públicas e capturamos mais da metade das
autoridades públicas que apunhalam os negros pelas costas. O que
faremos com eles ? Usamos como escudos para as bombas que os
militares irão jogar nas periferias.
O poder que domina e oprime é
branco. Os líderes negros precisam enxergar o mal que está dizimando
a coletividade. O povo negro está sendo dizimado nas favelas e nas
periferias. Favelas e periferias que devem ser transformadas em
focos de resistência. A resistência tem que ser armada. Novos Zumbi
precisam se levantar. Os negros devem se preparar para guerra. É
melhor morrer lutando numa guerra pela liberdade, por justiça e
igualdade de direitos, uma guerra para tomar de volta aquilo que lhe
pertence, do que ser morto pelas costas, pela polícia branca, na porta de um
barraco da favela, na porta daquilo que lhe impuseram como casa.
FAÇA JUSTIÇA, MESMO QUE O CÉU DESABE.
Nós somos
a esperança.