Ensino Público Gratuito via Internet e a Evolução da Humanidade

Leonildo Correa - Instituto OCW Br@sil - 02/12/2007

Eu assisti, recentemente, um documentário da BBC de Londres - "Aventura da Vida" - sobre o desenvolvimento e a evolução da vida na Terra (ver documentário). Não é um documentário só. São vários documentários, mas o mais interessante é o último deles. Este último trata da evolução do homem na Terra e busca responder à questão: se nós possuímos 99% dos genes que possui um chimpanzé, por que somos tão diferentes deles ? Certamente, é uma questão muito interessante, e, sem dúvida nenhuma, a resposta é surpreendente. Tão surpreendente que, enquanto o documentário se desenrolava, eu o relacionava com os projetos OCW e com o Ensino Público via internet. Mas, certamente, você só entenderá esta relação, se assistir o documentário ou ler o pequeno resumo que apresento abaixo.

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Inicialmente, diz o documentário, que as melhores pistas para desvendar o nosso passado estão nos chimpanzés. Isto porque quando estudamos estes parentes descobrimos indícios de que realmente descendemos de um ancestral simiesco e isto está marcado no âmago de nossos corpos, em nossos genes. 99% de nossos genes são exatamente iguais aos dos chimpanzés. E o que há no 1% restante é o que nos faz ser homens, em vez de macacos.

Fugindo um pouquinho do tema, no episódio quatro deste documentário, há uma informação interessante. Ele diz que há uma ser marinho, parecido com uma planta, que possui cerca de 80% dos genes que nós possuímos, inclusive aqueles genes que formam o coração.

Retornando ao episódio cinco. No princípio, a diferença entre homens e macacos não tinha nada a ver com a potência cerebral. Entre quatro e cinco milhões de anos atrás, os ancestrais dos homens começaram a passar mais tempo no chão do que nas árvores, onde ficaram os chimpanzés. Assim, os chimpanzés desenvolveram o caminhar apoiado nas articulações dos dedos e suas mãos permaneceram grossas e firmes para sustentar seu peso. Já os homens escolheram uma solução mais radical e este foi o primeiro passo na jornada humana. Os homens ficaram de pé sobre as duas pernas. Depois disso, avançaram sem olhar para trás.

Contudo, os cérebros humanos não eram tão grandes como são hoje. Há cinco milhões de anos atrás eram bem menores. Tinham o mesmo tamanho do cérebro dos chimpanzés.

Então, por que o caminhar ereto foi um passo tão crucial para os homens ? A resposta é: apoiando todo o peso sobre os pés, os homens deixaram as mãos livres para fazer outras coisas. Inclusive, isto originou o movimento de pinça delicado e preciso entre o indicador e o polegar. Uma característica exclusiva dos seres humanos.

Além disso, nossos polegares são mais longos e flexíveis que os dos chimpanzés, pois não precisamos andar apoiados nas mãos. Assim, as mãos humanas tornaram-se instrumentos de precisão que podem ser utilizados de maneiras extraordinariamente variadas. Mas não foi só isso que obrigou o aumento do cérebro. Também contribuíram a união e formação de grupos. Maneiras de evitar ser devorados pelos predadores. Logo, a vida comunitária trouxe novos desafios  e obrigou o homem a começar a usar a cabeça.

A convivência trouxe um elemento novo: a vida social. Mas, quanto maior o grupo, mais problemas sociais podem aparecer. E, mais uma vez, há a necessidade de um cérebro grande para lidar com eles. Assim, pouco a pouco e milhões de anos depois, comparado aos chimpanzés, o homem se transformou em um cabeçudo.

Vivendo em grupo, criar amizades e alianças é algo crucial. É preciso lembrar quem é quem e o que é o quê. Logo, o próximo passo na evolução dos cabeçudos, digo dos homens, foi conquistar a cultura e a civilização. Uma evidência antiga disso foi descoberta na Caverna Blombos, perto da Cidade do Cabo, na África do Sul. Nesta Caverna foi descoberto um artefato de argila com óxido de ferro. Objeto denominado ocre. Este artefato possui cerca de setenta mil anos.

Este artefato histórico possui entalhes surpreendentes. Formas abstratas que são o primeiro registro que se tem de uma obra de arte. A peça é um marco das raízes do que chamamos cultura e civilização. É importante ressaltar que a arte e a religião diferenciam o homem do resto dos animais. Não só isto, são estas características que possibilitaram a construção das grandes civilizações.

Muitos cientistas crêem que a chave para o avanço extraordinário dos seres humanos é uma coisa em que não costumamos pensar muito: a linguagem. Mas por que a fala é tão importante na história da raça humana ? E a resposta está na transferência de conhecimento. Os chimpanzés adquirem habilidades por imitação. Os pequenos chimpanzés aprendem observando as mães.

Como os chimpanzés, as crianças menores também aprendem imitando as maiores. Assim, as habilidades passam de geração para geração. Contudo, há uma grande diferença entre os humanos e os macacos. Esta diferença é que os chimpanzés podem levar até seis anos para dominar totalmente a técnica de quebrar nozes, enquanto os humanos, por outro lado, podem usar um atalho. Os humanos podem ensinar, até as crianças mais novas, simplesmente falando com elas. Assim, estas crianças podem aprender uma técnica instantaneamente.

E com a linguagem continuamos a aprender coisas novas pelo resto de nossas vidas. Assim, há cem mil anos atrás já resolvíamos problemas conversando uns com os outros. Além disso, com nossos cérebros avantajados, criamos uma comunicação que nunca havia sido tentada antes. Quando nos tornamos seres falantes, nossa evolução cultural pode começar. E este é o segredo escondido atrás do 1%.

Evolução cultural foi uma idéia totalmente nova. Enquanto nossos parentes chimpanzés ficaram presos à evolução biológica, os humanos deram um salto quântico usando a evolução cultural. Uma evolução que não se baseia nos genes como a evolução biológica, mas sim no ato de partilhar idéias.

Com a fala, o conhecimento pôde ser disseminado depressa. Este foi um dos avanços mais revolucionários da Aventura da Vida, que nos colocou no caminho para dominarmos o mundo.

Mas não foi só isto. A erupção de um vulcão na Ilha de Sumatra - Vulcão Toba - cobriu a maior parte do planeta com uma nuvem tóxica, impedindo a passagem dos raios de sol. Isso ocasionou uma grande extinção - extermínio da maioria das espécies, incluindo a maior parte dos seres humanos. Hoje, cientistas acreditam que o que pode ter salvado uma pequenas parte dos homens da extinção foi o trabalho em conjunto e a troca de informações.

Em um ambiente hostil e árido, uma dica dos vizinhos pode salvar sua vida. Sem essa troca regular de conhecimentos, os vários povoados ficariam isolados e, sem ajuda externa, acabariam extinguindo-se. Hoje, supõe-se que foi nossa habilidade para falar e ajudar uns aos outros em um ambiente hostil que nos salvou depois da erupção do vulcão Toba.

Assim, os humanos não estavam apenas falando e compartilhando idéias, mas, mais do que nunca, já trabalhavam juntos. Com isso, a evolução cultural estava em pleno curso por todo o planeta.

Embora contar aos outros o que se sabe por meio da fala continue sendo primordial para o homem, a sua capacidade de armazenar conhecimento individualmente é muito limitada. Uma pessoa sozinha não pode saber tudo. Se alguém morre sem passar suas idéias e sua cultura adiante, elas estarão perdidas para sempre. A menos, é claro, que sejam escritas.

A solução foi preservarmos nossas idéias e conhecimentos nos livros. Com isto, a evolução cultural acelerou ainda mais. Com a escrita, gerações futuras expandiram idéias que já haviam sido delineadas. Ninguém pode lembrar sozinho como se constrói um foguete, mas, se estiver escrita, esta informação estará ao alcance de muitas pessoas.

Por dois mil e quinhentos anos, preservamos nossa preciosa cultura em livros. Mas a quantidade de conhecimento que pode ser armazenada no computador excede a de todos os livros, de todas as bibliotecas do mundo inteiro. Na era da internet, qualquer pessoa, de qualquer lugar, pode explorar esse repositório único.

Nunca as idéias foram disseminadas com tanta rapidez, seja para fins comerciais, educativos ou por mero prazer. Os computadores são o centro da cultura moderna.

Sem a escrita e sem esse poder de armazenar conhecimento, onde será que nós estaríamos ? A resposta é: na idade da pedra, pois os humanos daquela época e os humanos de hoje são exatamente iguais. Na Idade da Pedra os humanos já eram tão inteligentes quanto nós. Tirando o nosso aparato tecnológico, no fundo, todos continuamos sendo os mesmos homens das cavernas. Isto porque nossos genes não mudaram nada. Logo, bebês das duas eras, se pudessem ser colocados juntos, seriam indistinguíveis geneticamente, ou seja, possuem a mesma composição genética.

Além disso, a atualidade evidencia que a evolução cultural tende a acelerar cada vez mais. Contudo, o mais surpreendente desta história é que nós humanos conquistamos, pela primeira vez na história, o poder de controlar a nossa evolução e o nosso futuro biológico.

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Mas o que os Projetos OCW e o Ensino Público Gratuito via Internet tem a ver com a evolução dos seres humanos ? Antes de responder esta questão preciso falar algumas coisas sobre os Projetos OCW e o Ensino Público Gratuito via Internet.

Primeiro: o que é um projeto OCW ? É um projeto que tem por finalidade reunir e publicar gratuitamente na internet todo o conteúdo (conhecimento + informação) das disciplinas ensinadas/transmitidas nas Universidades, incluindo texto, áudio e vídeo. Aqui no Brasil, nós pretendemos implantar este projetos nas Universidades Públicas, mas nos EUA começou com o MIT, uma Universidade Privada. Enfim, não importa qual seja a Universidade, o que importa é o que o projeto faz.

O Projeto OCW-MIT começou desbravando o desconhecido, porém avançou e chegou no lugar em que todo mundo está chegando e parando: na mera publicação de aulas presenciais na internet. Não conseguiram e não estão conseguindo enxergar e avançar além disso. Vêem apenas vinte metros ao redor do Projeto. Nada mais do que isto.

Nos próximos parágrafos eu utilizarei o termo Projeto OCW-USP - um projeto OCW que estamos desenvolvendo na USP - como sinônimo de Projeto OCW genérico. Farei isto porque as idéias  foram desenvolvidas utilizando a USP e o Brasil como referenciais. Contudo, todas as afirmações se aplicam a outras Universidades do Brasil ou do mundo.

O Projeto OCW-USP é o começou de uma grande revolução. Poderíamos dizer que é uma espécie de Grande Marcha que culminou com a instalação do Regime Comunista na China. O Projeto OCW-USP é a Grande Marcha. O Regime Comunista é o Ensino Público gratuito via internet. Contudo, não conte isto para ninguém, pois é o nosso plano secreto.

Certamente, a primeira coisa que os "Velhos do Restelo" vão dizer, quando nos ouvirem falando disso, é a mesma coisa que disseram para o Santos Dumont: "Impossível !!! Impossível !!! Impossível, pois o mais pesado do que o ar não pode voar." E a minha resposta para estas pessoas é um drink: Keep Walking (Se beber, não dirija).

É difícil explicar as tecnologias atuais para pessoas de mente estreita e que não conseguem enxerga nem o que está ao lado delas, o que dirá as coisas que ainda estão no futuro e que serão corriqueiras daqui a vinte, trinta ou cem anos. É difícil porque estas pessoas estão com o corpo no presente, no século XXI, mas suas cabeças continuam no século XX. E se dependêssemos das decisões desses medíocres para evoluirmos estaríamos, até hoje, andando de cipó, usando lamparina e pombo-correio. Mesmo assim, vou falar do Ensino Público Gratuito via Internet que existirá em um futuro próximo. Existirá porque nós estamos construindo este sistema de ensino, queiram ou não queiram, gostem ou não gostem.

Portanto, o Projeto OCW-USP não se esgota em si mesmo e não visa apenas a disponibilização/publicação de aulas presenciais na internet. Isto é apenas um detalhe do Projeto. O detalhe mais evidente, a ponta do iceberg.

O que o Projeto OCW-USP faz realmente é iniciar a migração, completa e total, do Ensino Público Gratuito para a internet, para o ambiente virtual. Estou falando de Escola Pública Virtual, de coisas do futuro. Mas os cursos a distância não fazem isto ? A resposta é não, pois os cursos a distância atuais buscam ministrar cursos presenciais a distância. Só isto. Não fazem e não buscam nada mais do que isso.

Mas não é a mesma coisa ? A resposta é não, pois o Ensino Público Gratuito via Internet não é um curso presencial ministrado a distância, é um curso completamente virtual, onde toda a aprendizagem, a interação, as avaliações, etc, são feitas via computador e internet. É um sistema de ensino público via internet.

Por isso, a lógica do Projeto OCW-USP é diferente. É diferente porque é a base de uma coisa maior, uma revolução educacional. O Projeto OCW é a primeira pedra na construção de um castelo. É a primeira árvore de uma floresta. O lenhador, os medíocres e a burraiada olham para a árvore e vêem lenha e carvão. Eu olho para ela e vejo possibilidades, infinitas possibilidades, assim como o primeiro passo em direção a um futuro extraordinário.

Logo, não podemos deixar os lenhadores tomarem conta da árvore e nem da Floresta Amazônica. Estão transformando a Floresta Amazônica em lenha, carvão e madeira para construção civil. Estão transformando árvores de trezentos anos em mesa, cadeira e armário. A estupidez humana não tem limites. Quem tem inteligência estreita e obtusa não pode assumir cargos decisórios, sob pena de parar a evolução e o desenvolvimento social e econômico da sociedade.

Por exemplo, muito não entendem o fato do Projeto OCW-USP não emitir diplomas. Dizem os tapados, e com razão: Se o indivíduo faz o curso da USP, assiste todas as aulas, lê todas as anotações, etc por que ele não terá o diploma da USP ? A resposta é simples: porque o Projeto OCW-USP pretende quebrar o paradigma do diploma. O diploma não é importante, pois não prova nada. É apenas um pedaço de papel que não valerá absolutamente nada se todos os registros da USP e do MEC pegarem fogo e queimar tudo.

Pergunto eu: se não houver provas da veracidade do diploma, o indivíduo que se formou pela USP perde o conhecimento que adquiriu ? A resposta é não. Portanto, o diploma não significa nada. É apenas uma mera formalidade arcaica que deveria ter sido enterrada no século XX, mas que conseguiu entrar no século XXI. O que realmente importa é o conhecimento. E nossa mira, nosso foco, está no conhecimento.

Além deste, outros paradigmas serão quebrados ao longo do desenvolvimento e da implantação da cultura OCW. Por exemplo, a idéia do presencial, da bunda colada na carteira para assistir aula, do tempo necessário para formação, da idade para estudar coisas avançadas, etc. Todos esses dogmas e paradigmas serão quebrados e enterrados. Não podemos mais aceitar estas coisas antigas nos tempos atuais, pois elas emperram o nosso avanço, o desenvolvimento da nossa inteligência e a disseminação do conhecimento.

Vou fazer uma pausa aqui e falar outra coisa. A Revolução Francesa firmou na História o lema: "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". Lema que foi dividido e se converteu em uma bandeira de luta. Um lema e três lutas: uma por liberdade, outra por igualdade e a terceira por fraternidade. Lutas contínuas que avançam de conquista em conquista. Não apenas para conquistar mais liberdade, mais igualdade e mais fraternidade, mas principalmente para se manter aquilo que foi conquistado.

A primeira luta foi por liberdade. Ela não começou com a Revolução Francesa, pois esta luta sempre existiu na História Humana, mas foi nesta Revolução que ela apareceu com mais força, intensificando-se no século XIX. Inclusive podemos dizer que o século XIX foi o século de luta pela liberdade do homem e dos cidadãos, luta pelos Direitos Humanos, luta contra a opressão e a tirania do Estado.

A segunda luta foi por igualdade. Esta luta também não começou na Revolução Francesa, pois ela sempre esteve presente na História Humana desde a antiguidade. Contudo, foi na França que ela se transformou em uma bandeira das classes sociais, intensificando-se exponencialmente no século XX. Assim, o século XX foi o século de luta pela igualdade entre os homens. Luta pelos direitos sociais. Época das revoluções comunistas.

A terceira luta é por fraternidade. E será travada agora, no século XXI. E as primeiras batalhas já podem ser percebidas, por exemplo, a questão da quebra de patentes dos medicamentos anti-aids, o software livre, You Tube, Wikipédia, os movimentos de Seattle, a explosão das ONGs, os Fóruns Sociais. Todos estes movimentos são transpassados por um fio comum que é a luta por fraternidade entre os homens. A lógica do lucro está sendo quebrada, a humanidade está se sobrepondo à mercadoria e ao preço. Você cobraria por um medicamento anti-aids que salvaria a vida de seu irmão ? Você cobraria direitos autorais e propriedade intelectual de um produto ou serviço que é essencial para o crescimento e para a evolução de seu irmão ?

A resposta é única: não. Não cobra porque entre você e seu irmão há uma ligação fraternal estabelecida pelo elo familiar. Esta ligação fraternal, de repente, saiu do âmbito da família e está contaminando a humanidade. Basta olhar para o Movimento anti-globalização, para os Fóruns Sociais, para as ONGs sérias e compromissadas com a Justiça Social, Direitos Humanos, etc. O mundo está mudando e tomando uma nova direção. A revolução da fraternidade está remodelando o capitalismo, assim como as revoluções socialistas remodelaram.

Mas, retomando o assunto anterior, a quebra de todos esses paradigmas da educação pública atual culminará com a instalação completa do Ensino Público Gratuito via internet e com a respectiva extinção das Escolas Públicas de Ensino Médio, Escolas Técnicas e Universidades. Existirão apenas os laboratórios e as áreas para aprendizagem manual. Mesmo assim, essas áreas irão desaparecer completamente com o desenvolvimento da realidade virtual, holografias, etc.

Assim, com as novas tecnologias que estão sendo desenvolvidas agora, o cérebro conseguirá entrar completamente em ambientes 3D, em uma realidade virtual, sem sair da cadeira do computador. Inclusive o ambiente das escolas atuais poderá ser reconstruídos em ambientes 3D e os alunos continuarem tendo aulas sentados em carteira, um atrás do outro, e todo mundo dentro de um mesmo ambiente virtual, uma sala de aula dentro do computador. Contudo, os corpos físicos dos alunos continuam em suas casas, porém conectados na internet.

Entretanto, assinalo que as creches e as escolas primárias continuarão existindo, pois elas são essenciais para a formação da sociabilidade humana, desenvolvimento da linguagem e aprendizagens manuais. Uma criança precisa ter contato direto com outras crianças para se desenvolver. E serão nestes ambientes físicos que os pimpolhos irão aprender a usar todas as tecnologias e aprenderão a aprender utilizando a internet como ferramenta de aprendizagem. A partir da oitava série predominará a liberdade de aprendizagem e de conhecimento. O indivíduo estuda o que quer e aprende apenas aquilo que desejar.

Ele estuda via internet e, posteriormente, vai até determinado órgãos do Governo fazer as provas respectivas. Porém, assim que for desenvolvido um método seguro de certificação digital, as provas podem ser feitas via internet, sem ter que sair de casa.

Se um aluno de 11 anos estudou tudo de Direito e sabe tudo, não há razão para não lhe dar o diploma de bacharel em Direito. Basta verificar os seus conhecimentos em provas específicas e, uma vez aprovado, ele deve receber a qualificação. Aqui o paradigma da idade para acessar conhecimentos avançados será completamente quebrado. Não há razão para se nivelar pessoas. Cada um tem seus limites e suas facilidades e isso deve ser considerado na aprendizagem.

Portanto, quem vê no Projeto OCW-USP apenas a publicação de aulas presenciais na internet, deve ser mantido longe, bem longe, do Projeto. Este Projeto é o estágio inicial da implantação do Ensino Público Gratuito via internet. É o começo de tudo. Por isto, em paralelo com o Projeto OCW-USP, serão desenvolvidos uma série de outros projetos menores visando atingir o estágio completo de migração do Ensino Público atual para o âmbito virtual.

Certamente, ao longo deste caminho de implantação do Projeto e da cultura OCW uma série de novas tecnologias irão aparecer e serão criadas. Estas tecnologias reunidas darão suporte e apoio ao novo sistema de ensino e educação via internet. Este novo sistema tem grandes chances de constituir uma tecnologia genuinamente brasileira e, uma vez implantada com sucesso no Brasil, poderá constituir um dos principais produtos de exportação, assim como os biocombustíveis, as urnas eletrônicas, etc, gerando um sistema global de Ensino Público Gratuito via internet.

Outra característica importante do projeto OCW-USP é a reunião de tecnologias pontuais. Existem dezenas de tecnologias que foram desenvolvidas e que possuem pouca aplicação, pois, geralmente, que desenvolve não consegue ver todas as possibilidades daquilo que construiu. Assim, o projeto OCW-USP aglutina tecnologias pontuais para formar o sistema que dará vida e suporte ao Sistema de Ensino Público Gratuito via internet. Além disso, é necessário que os professores de educação e pedagogia, assim como todos os profissionais das demais áreas acadêmicas, comecem a desenvolver novas técnicas de ensino e aprendizagem, considerando a emergência do Ensino Público Gratuito via internet. É um ambiente completamente novo de aprendizagem onde tudo pode ser acessado na hora (texto, áudio, vídeo, etc).

O uso do ambiente virtual, para aprendizagem, na atualidade ainda é excessivamente limitado e restrito. As pessoas não sabem utilizar a internet como ferramenta para aprender mais. Não só isto, as informações disponíveis na internet hoje são fragmentadas, dispersas, não confiáveis, etc. Por isto, precisamos de Projetos OCW, aulas open e free com certificados de autenticidade, professores gabaritados ensinando, gratuitamente, para todos os brasileiros, etc. Tudo isto reunido em um local fácil de encontrar. Em um local sem login e sem senha, pois o símbolo máximo do monopólio do conhecimento e da retenção dos saberes dentro de uma Universidade Pública é o login e a senha para acessar conteúdos digitais.

Não só isto, o Governo tem que fazer a parte dele que é informatizar e instalar internet em todas as escolas públicas do país e dar possibilidades para que todos os alunos pobres recebam o notebook de cem dólares, assim como todos os professores tenham computadores conectados à internet.

Estas condições são imprescindíveis para que a próxima geração comece a entrar no Ensino Público Gratuito via Internet. Certamente, os próximos 10 anos (talvez menos, pois no mundo da tecnologias as coisas acontecem rapidamente) será um período de transição, construção e descobertas, havendo o convívio entre o ensino tradicional com o ensino virtual, mas com declínio do primeiro.

Além disso, o Governo deve disponibilizar e liberar recursos para o desenvolvimento deste Projeto OCW-USP, assim como para a construção dos demais Projetos que estarão ligados a ele. É um projeto feito para a coletividade e que beneficia toda a coletividade, sem distinção e sem exceção. É uma porta aberta para o desenvolvimento social e econômico.

O acesso gratuito e aberto ao conhecimento e aos saberes gera desenvolvimento, produz inovações e reduz as desigualdades. Isto porque o conhecimento é uma ferramenta para solução de problemas e transformação social. Se todas as pessoas tiverem esta ferramenta, os problemas serão atacados de todas as formas, possíveis e impossíveis, e em todos os seus ângulos, conhecidos ou desconhecidos.

Soluções que alguns não vêem, outros verão. Perspectivas que alguns não têm, outros terão. E o problema será visto de baixo, de cima, de lado, de dentro, de fora e até da quarta dimensão. Com isto, novos caminhos serão abertos e novas estratégias encontradas. Quanto mais pessoas tiverem acesso ao conhecimento, mais rápido caminharemos para o desenvolvimento e mais soluções eficientes e inovadoras encontraremos.

Por isto, as três ações fundamentais que marcarão o século XXI serão: compartilhar, democratizar e socializar. O sucesso das redes P2P, do You Tube, da Wikipedia, etc derivam dessas ações.

Hoje, no Brasil, poucas pessoas têm acesso ao conhecimento. Poucas pessoas têm poucas visões, encontram poucas soluções, geram pouco desenvolvimento e produzem poucas inovações. Portanto, o monopólio e a retenção do conhecimento e dos saberes, dentro das Universidades Públicas, são fatores inibidores do crescimento econômico e do desenvolvimento social. 

Enfim, o Ensino Público Gratuito via Internet será uma realidade inevitável e nosso trabalho, no Instituto OCW Br@sil, é construir e concretizar este futuro que vislumbramos agora. A meta é democratizar o conhecimento, socializar os saberes e unir tecnologias, gerando, com isto, inovações e soluções inteligentes. A revolução da fraternidade está em curso. Estamos no século XXI.

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Agora vamos ao que interessa, ou seja, vamos relacionar o Ensino Público Gratuito via Internet com a evolução da humanidade. Certamente, a maior parte dessa relação já foi feita e ela aparece nos últimos parágrafos do resumo do documentário.

A humanidade evolui, conforme mostra a ciência, pelo compartilhamento de idéias e informações. Inclusive o que diferencia os homens dos chimpanzés não é a genética, mas a evolução cultural que nós possuímos.

Enquanto nossos parentes chimpanzés ficaram presos à evolução biológica, os humanos deram um salto quântico usando a evolução cultural. Uma evolução que não se baseia nos genes como a evolução biológica, mas sim no ato de partilhar idéias.

Isto mostra que a apropriação capitalista das idéias por meio da propriedade intelectual é uma ação contra a evolução humana. Partilhar idéias é um ato gratuito e natural. Logo, inserir um preço ou colocar barreiras ao fluxo de conhecimento e informação significa excluir parcela da população e fazer uma espécie de seleção cultural. Uma pessoa pode receber conhecimento e informações, outra não.

Os humanos romperam a barreira da evolução biológica que garantia vida apenas aos mais fortes e adaptados. E o capitalismo está tentando inserir uma espécie de seleção dentro da evolução cultural. Agora não são os mais fortes e adaptados que vencem e vivem, mas sim os mais ricos. Quem tem recursos pode evoluir culturalmente, recebendo conhecimento e informações, enquanto quem não tem fica excluído, é impedido de evoluir.

Inegavelmente, esta espécie de seleção cultural é estúpida e problemática, pois a partilha de idéias depende da produção de idéias e isto não pode ser monopolizado e nem é exclusividade de alguns poucos humanos. Qualquer ser humano pode ter idéias, pode produzir e desenvolver idéias. Basta apenas que tenha acesso ao conhecimento e às informações.

Contudo, a perversidade capitalista é estarrecedora, pois eles tentam, justamente, impedir que as pessoas tenham acesso ao conhecimento e às informações. Tentam retirar da maioria da população o aparato tecnológico que separa o homem atual do homem da Idade da Pedra.

O monopólio do conhecimento e das informações, assim como a apropriação do conhecimento histórico produzido pela humanidade, são obras de saqueadores, ladrões da coisa pública, pois constituem uma construção coletividade e social da humanidade. Logo, não pertence a ninguém, mas sim a todos.

O problema da preservação e armazenamento do conhecimento foi resolvido com a invenção dos livros e do computador. Ninguém pode lembrar sozinho como se constrói um foguete, mas, se estiver escrita, esta informação estará ao alcance de muitas pessoas. Hoje, não está mais. Está ao alcance de poucas pessoas que querem usar o monopólio do conhecimento e da informação para dominarem a maioria, para promoverem uma espécie de seleção cultural na sociedade. O monopólio do conhecimento e da informação é uma barreira à evolução humana que depende do compartilhamento gratuito de idéias.

Os projetos OCW, inicialmente, e o Sistema de Ensino Público via Internet, posteriormente, rompem com esta nova lógica de dominação, ou seja, rompem com a lógica da dominação cultural, dominação da evolução cultural. O conhecimento e a informação voltam a fluir livremente pela sociedade. A partilha de idéias e de visões voltam a ser naturais e a evolução cultural é destravada. A lógica da dominação é quebrada mais uma vez.

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