Hannah Arendt

Eichmann em Jerusalém

Um relato sobre a banalidade do mal

۩ VIII - Deveres de um cidadão respeitador das leis

 Assim sendo, eram muitas as oportunidades de Eichmann se sentir como Pôncio Pilatos, e à medida que passavam os meses e os anos, ele perdeu a necessidade de sentir fosse o que fosse. Era assim que as coisas eram, essa era a nova lei da terra, baseada nas ordens do Führer; tanto quanto podia ver, seus atos eram os de um cidadão respeitador das leis. Ele cumpria o seu dever, como repetiu insistentemente à polícia e à corte; ele não só obedecia ordens, ele também obedecia à lei.

Eichmann tinha uma vaga noção de que isso podia ser uma importante distinção, mas nem a defesa nem os juízes jamais insistiram com ele sobre isso. As moedas bem gastas das "ordens superiores" versus os "atos de Estado" circulavam livremente; haviam dominado toda a discussão desses assuntos durante os julgamentos de Nuremberg, pura e simplesmente por dar a ilusão de que algo absolutamente sem precedentes podia ser julgado de acordo com precedentes e seus padrões.

Eichmann, com seus dotes mentais bastante modestos, era certamente o último homem na sala de quem se podia esperar que viesse a desafiar essas idéias e agir por conta própria. Como além de cumprir aquilo que concebia como deveres de um cidadão respeitador das leis, ele também agia sob ordens — sempre o cuidado de estar "coberto" —, ele acabou completamente confuso e terminou frisando alternativamente as virtudes e os vícios da obediência cega, ou a "obediência cadavérica" [kadavergehorsam), como ele próprio a chamou.

A primeira indicação de que Eichmann tinha uma vaga noção de que havia mais coisas envolvidas nessa história toda do que a questão do soldado que cumpre ordens claramente criminosas em natureza e intenção apareceu no interrogatório da polícia, quando ele declarou, de repente, com grande ênfase, que tinha vivido toda a sua vida de acordo com os princípios morais de Kant e particularmente segundo a definição kantiana do dever. Isso era aparentemente ultrajante, e também incompreensível, uma vez que a filosofia moral de Kant está intimamente ligada à faculdade de juízo do homem, o que elimina a obediência cega.

O oficial interrogador não forçou esse ponto, mas o juiz Raveh, fosse por curiosidade, fosse por indignação pelo fato de Eichmann ter a ousadia de invocar o nome de Kant em relação a seus crimes, resolveu interrogar o acusado. E para surpresa de todos, Eichmann deu uma definição quase correta do imperativo categórico: "O que eu quis dizer com minha menção a Kant foi que o princípio de minha vontade deve ser sempre tal que possa se transformar no princípio de leis gerais" (o que não é o caso com roubo e assassinato, por exemplo, porque não é concebível que o ladrão e o assassino desejem viver num sistema legal que dê a outros o direito de roubá-los ou matá-los).

Depois de mais perguntas, acrescentou que lera a Crítica da razão pura, de Kant. E explicou que, a partir do momento em que fora encarregado de efetivar a Solução Final, deixara de viver segundo os princípios kantianos, que sabia disso e que se consolava com a idéia de que não era mais "senhor de seus próprios atos", de que era incapaz de "mudar qualquer coisa". O que não referiu à corte foi que "nesse período de crime legalizado pelo Estado", como ele mesmo disse, descartara a fórmula kantiana como algo não mais aplicável.

Ele distorcera seu teor para: aja como se o princípio de suas ações fosse o mesmo do legislador ou da legislação local — ou, na formulação de Hans Frank para o "imperativo categórico do Terceiro Reich", que Eichmann deve ter conhecido: "Aja de tal modo que o Führer, se souber de sua atitude, a aprove" (Die Technik des Staates, 1942, pp. 15-6). Kant, sem dúvida jamais pretendeu dizer nada desse tipo; ao contrário, para ele todo homem é um legislador no momento em que começa a agir: usando essa "razão prática" o homem encontra os princípios que poderiam e deveriam ser os princípios da lei.

Mas é verdade que a distorção inconsciente de Eichmann está de acordo com aquilo que ele próprio chamou de versão de Kant "para uso doméstico do homem comum". No uso doméstico, tudo o que resta do espírito de Kant é a exigência de que o homem faça mais que obedecer à lei, que vá além do.mero chamado da obediência e identifique sua própria vontade com o princípio que está por trás da lei — a fonte de onde brotou a lei.

Na filosofia de Kant, essa fonte é a razão prática; no uso doméstico que Eichmann faz dele, seria a vontade do Führer. Grande parte do minucioso empenho na execução da Solução Final — um empenho que geralmente atinge o observador como tipicamente alemão, ou característico do perfeito burocrata — pode ser atribuída à estranha noção, efetivamente muito comum na Alemanha, de que ser respeitador das leis significa não apenas obedecer às leis, mas agir como se fôssemos os legisladores da lei que obedecemos. Daí a convicção de que é preciso ir além do chamado do dever.

Seja qual for o papel de Kant na formação da mentalidade do "homem comum" da Alemanha, não existe a menor dúvida de que Eichmann efetivamente seguia os preceitos de Kant: uma lei era uma lei, não havia exceções. Em Jerusalém, ele admitiu apenas duas dessas exceções durante a época em que "80 milhões de alemães" tinham cada um o "seu judeu decente": ele havia ajudado um primo meio-judeu e um casal judeu em Viena por quem seu tio interviera.

Essa incoerência ainda o deixava um tanto incomodado, e quando foi interrogado a esse respeito, ficou abertamente apologético: ele havia "confessado seus pecados" a seus superiores. Essa atitude intransigente em relação ao desempenho de seus deveres assassinos condenou-o mais do que qualquer outra coisa aos olhos dos juizes, o que era compreensível, mas a seus próprios olhos era exatamente ela que o justificava, assim como antes silenciara a consciência que pudesse lhe restar. Sem exceções—essa era a prova de que ele havia agido sempre contra seus "pendores", fossem eles sentimentais ou inspirados por interesse, em prol do cumprimento do "dever".

Cumprir seu "dever" acabou fazendo com que entrasse em conflito aberto com as ordens de seus superiores. Durante o último ano da guerra, mais de dois anos depois da Conferência de Wannsee, ele experimentou sua última crise de consciência. Com a aproximação da derrota, ele se viu confrontado com homens de seu próprio escalão que lutavam mais e mais insistentemente por exceções e até pela cessação da Solução Final.

Foi o momento em que sua cautela se rompeu e ele começou, mais uma vez, a tomar iniciativas — por exemplo, ele organizou as marchas a pé dos judeus de Budapeste até a fronteira da Áustria depois que o bombardeio aliado arrasou com o sistema de transporte. Era o outono de 1944, e Eichmann sabia que Himmler havia ordenado o desmantelamento das instalações de extermínio em Auschwitz e que o jogo acabara. Por volta dessa época, Eichmann teve uma de suas raras entrevistas pessoais com Himmler, no curso da qual este último teria gritado para ele: "Se você até agora esteve ocupado liquidando judeus, de agora em diante, estou ordenando, vai cuidar muito bem dos judeus, vai ser enfermeira deles. Lembre-se que fui eu — e não o Gruppenführer MüUer ou você — que fundou o Rsha em 1933; sou eu que dou as ordens aqui!".

A única testemunha que poderia confirmar essas palavras era o suspeitíssimo sr. Kurt Becher; Eichmann negou que Himmler tivesse gritado com ele, mas não negou que essa entrevista aconteceu. Himmler não pode ter dito exatamente essas palavras, pois ele sabia que o rsha havia sido fundado em 1939 e não em 1933, e não só por ele, mas também por Heydrich, com seu endosso. Mesmo assim, algo desse tipo deve ter acontecido, porque Himmler estava nessa época dando ordens a torto e a direito para que tratasse bem os judeus — eles eram seu "investimento mais seguro" —, o que deve ter sido uma experiência chocante para Eichmann.

A última crise de consciência de Eichmann começou com suas missões na Hungria em março de 1944, quando o Exército Vermelho estava se movimentando nos montes Cárpatos em direção à fronteira húngara. A Hungria havia aderido à guerra do lado de Hitler em 1941, simplesmente a fim de receber mais alguns territórios dos países vizinhos — Eslováquia, Roménia e Iugoslávia.

O governo húngaro era abertamente anti-semita mesmo antes disso, e um instrumento da organização do assassinato em massa; mesmo assim resta o fato de você ter executado, e portanto apoiado ativa-mente, uma política de assassinato em massa. Pois política não é um jardim-de-infância; em política, obediência c apoio são a mesma coisa.

E, assim como você apoiou e executou uma política de não partilhar a Terra com o povo judeu e com o povo de diversas outras nações — como se você e seus superiores tivessem o direito de determinar quem devia e quem não devia habitar o mundo—.consideramos que ninguém, isto é, nenhum membro da raça humana, haverá de querer partilhar a Terra com você. Esta é a razão, e a única razão, pela qual você deve morrer na forca."

Hannah Arendt: uma apátrida da cultura e da política

Cienc. Cult. v.58 n.2 São Paulo abr./jun. 2006

 Hannah Arendt (1906-75) é uma das figuras intelectuais mais significativas e complexas da cultura do século XX. Judia, fugitiva, se definiu sempre como uma apátrida, desenraizada, uma pária tanto na política quanto na cultura. Testemunha consciente e sensível dos eventos e da tragédia de sua época, estudou na universidade alemã do período de Weimar, com Heidegger e Karl Jaspers. Fugiu da Alemanha em 1933, na ascensão de Hitler, indo residir em Paris. Conheceu Walter Benjamin, Bertolt Brecht e Raymond Aron. Quando os alemães invadem a França, é detida como suspeita; solta, foge para Nova York, onde passa a segunda metade da vida.

Para Alberto Martinelli, as referências de Hannah Arendt estão simultaneamente em três culturas: a alemã, a hebraica e a norte-americana, sem, entretanto, identificar-se plenamente com nenhuma delas, nem com as nações que lhes correspondem. A Alemanha era a língua-mãe, a filosofia e a poesia, mas dela veio a indelével experiência de anti-semitismo. Sua relação com o judaísmo e com Israel foi mais complexa. Afirmou ter sido "educada com esforço e tormento na experiência judaica", num processo de reapropriação histórica e política das próprias origens, mas com plena autonomia com relação à religião hebraica que, como qualquer religião, não lhe dizia nada. Sua relação com os Estados Unidos foi menos tensa: encontrou em sua época um país multinacional e aberto aos estrangeiros. Não foi cega, entretanto, às tendências políticas daquela sociedade, que produziam a caça às bruxas do macartismo, a intolerância racial, a delinqüência juvenil, a vocação para a degradação.

Arendt não foi apenas uma mulher de idéias, mas um indivíduo atuante no mundo. Colaborou com organizações sionistas que organizavam a fuga de judeus da Alemanha e recolheu fundos para formar um exército judeu que combatesse ao lado dos aliados contra os nazistas. Logo depois da guerra, sustentou a tese de que a paz no Oriente Médio e a sobrevivência de Israel dependeriam da constituição de um estado não-confessional que oferecesse a cidadania política aos árabes. Essa posição, que a salvava do oportunismo, valeu-lhe violentas críticas da comunidade hebraica internacional.

O MAL É BANAL Em 1947 foi como enviada especial do New Yorker cobrir o julgamento, em Jerusalém, do oficial nazista Adolf Eichmann, encarregado pela logística de extermínio do holocausto. Com grande coragem, denunciou as reticências acerca do fenômeno do colaboracionismo judaico com os nazistas e o tom teatral do processo, que poderia obscurecer aquilo que era o ponto central, isto é, a banalidade do mal. A figura de Eichmann era, na sua atroz normalidade, a expressão mais inquietante do nazismo. O tipo social característico do totalitarismo é o do indivíduo atomizado da sociedade de massas, incapaz de participação na vida civil, que encontra seu lugarzinho numa organização que lhe anula o juízo. No totalitarismo, esses indivíduos – muitas vezes bons chefes de família - podem inclusive fazer parte de uma máquina de extermínio. Essa posição de Hannah Arendt valeu-lhe, por dois anos, uma profunda campanha difamatória: de Israel, que queria fazer do processo um evento exemplar útil para a legitimação do novo Estado, e da Alemanha, que preferia a imagem de excepcionalidade do mal perpetrado pelos nazistas.

AS ORIGENS DO TOTALITARISMO No pós guerra, Arendt pôs-se a escrever uma de suas obras mais instigantes: The origin of totalitarism (1951). Sua tese central é que o totalitarismo é uma forma política radicalmente nova e, na essência, diferente das outras formas historicamente comparáveis de poder pessoal: o despotismo, a tirania, a ditadura. Onde se implantou, o totalitarismo destruiu todas as tradições sociais, políticas e jurídicas, substituindo-as por formas completamente novas. Um dos resultados dessa operação, tão ao gosto da apologética modernista, é a criação da sociedade de massas, que transforma as populações em multidões de indivíduos intercambiáveis; os partidos são substituídos por movimentos de massas; a subordinação política das pessoas amplia-se até a invasão da esfera privada; o centro do poder é transferido para a polícia e o exército.

A CONDIÇÃO HUMANA A produção científica da Hannah Arendt é rica e multiforme, abarcando ensaios de crítica literária, obras filosóficas e importantes contribuições na teoria política. Em The human condition (1958) reconstrói a degradação da idéia grega de politéia, isto é, do Estado e da cidadania no sentido de direito de todos os cidadãos. Essa obra indaga: nas condições de bem estar econômico e paz civil, qual é a condição da liberdade política? Qual é o espaço consentido para a ação política que não seja apenas a defesa dos interesses materiais ou mero comportamento exterior para o ritual eleitoral? Nas suas respostas, Arendt indica uma teoria libertária da ação na época do conformismo social.

Hannah Arendt foi lealmente criticada por alguns filósofos marxistas, que viram na sua crítica ao totalitarismo um apagamento das diferenças entre nazismo e socialismo. Os acontecimentos políticos posteriores, entretanto, puderam mostrar que esses dois regimes possuíam natureza comum, sendo formas esdrúxulas de acumulação de capital em sociedades historicamente atrasadas. A história parece dar razão ao seu pensamento.

Hannah Arendt morreu em 1975: foi poupada das formas finiseculares da estupidez das massas, de Sabra e Chatila, da nossa obscena miséria cultural, do infinito retorno das guerras étnicas. 

Carlos Eduardo O. Berriel
é professor do Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp.

Entrevista de Hannah Arendt

 

Hannah Arendt (Interview Guenter Gans 1964 - 1)

Hannah Arendt (Interview Guenter Gans 1964 - 2)

Hannah Arendt (Interview Guenter Gans 1964 - 3)

 

Hannah Arendt (Interview à New York 1973)

Hannah Arendt (Interview à New York 1973 - suite)

 

O Conceito de Violência em Hannah Arendt

Psicol. cienc. prof. v.24 n.3 Brasília set. 2004

Em Sobre a Violência, Arendt (1994) distingue cinco palavras que, muitas vezes, costumamos usar como sinônimas: “poder”, “vigor”, “força”, “autoridade” e “violência”. “Poder”, diz ela, “corresponde à habilidade humana não apenas para agir, mas para agir em concerto. O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e permanece em existência apenas na medida em que o grupo se conserva unido” (p. 36). O “vigor”, enquanto entidade individual, é definido como “a propriedade inerente a um objeto ou pessoa e pertence ao seu caráter, podendo provar-se a si mesmo na relação com outras coisas ou pessoas, mas sendo essencialmente diferente delas” (p. 37). Já “força”, termo destacado pela autora como o sinônimo de “violência” mais utilizado no discurso cotidiano, “deveria ser reservado, na linguagem terminológica, às ‘forças da natureza’ ou ‘à força das circunstâncias’ isto é, deveria indicar a energia liberada por movimentos físicos ou sociais” (p. 37). A “autoridade” pode ser investida em pessoas ou postos hierárquicos, e “sua insígnia é o reconhecimento inquestionável por aqueles a quem se pede que obedeçam; nem a coerção nem a persuasão são necessárias” (p. 37). Finalmente, a violência distingue-se de todos os demais termos pelo seu caráter instrumental, estando “próxima do vigor, posto que os implementos da violência, como todas as outras ferramentas, são planejados e usados com o propósito de multiplicar o vigor natural até que, em seu último estágio de desenvolvimento, possam substituí-lo” (p. 37).

Refletindo sobre a relação entre poder e violência, concluímos que, para Arendt, não é a violência que gera o poder, pelo contrário, ela aparece quando o poder está ameaçado: “poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente” (Arendt, 1994, p. 44). Distinguindo “poder” de “violência”, a filósofa alemã diz: “uma das mais óbvias distinções entre poder e violência é a de que o poder sempre depende dos números, enquanto a violência, até certo ponto, pode operar sem eles, porque se assenta em implementos” (p. 35). Ela ainda complementa: “A forma extrema do poder é o Todos contra Um, a forma extrema de violência é o Um contra Todos” (p. 35).

A violência pode ser justificada, mas nunca será legítima, diz Arendt. O poder sim, esse é legítimo, e a mais simples forma de legitimação é o voto. A violência pode ser justificada porque traz queixas à atenção pública (conforme Arendt, 1994). Denuncia uma ausência de diálogo e, em última instância, reclama a falta de cidadania. A burocratização da vida pública implica uma atração pela violência, pois, em uma burocracia plenamente desenvolvida, não há ninguém a quem se possa inquirir, a quem se possa apresentar queixas, sobre quem exercer as pressões do poder: “A burocracia é a forma de governo na qual todas as pessoas estão privadas da liberdade política, do poder de agir, pois o domínio de Ninguém não é um não-domínio, e, onde todos são igualmente impotentes, temos uma tirania sem tirano” (p. 59). A “violência”, na concepção arendtiana, não se basta a si, ela sozinha não leva a nada. Por ser de natureza instrumental, necessita de justificativa, mas “sua justificação perde em plausividade quanto mais o fim almejado se distancia no futuro. Ninguém questiona o uso da violência em defesa própria porque o perigo é não apenas claro, mas também presente, e o fim que justifica os meios é imediato” (Arendt, 1994, p. 41.)

Assim, uma das justificativas para a violência, conforme Arendt (1994), dá-se quando ela é utilizada em legítima defesa. A violência é justificada quando constitui uma ameaça ao corpo político ou “na geração do poder político, ou fundação de um novo corpo político, manifestado sobretudo nos atos de guerra e de revolução” (Santos, 1998, p. 29), ou seja, na destruição de velhos poderes, objetivando a instituição de novos.

Para Arendt, a violência é um fenômeno cultural que advém da tentativa de arrancar as máscaras da hipocrisia e da mentira, e da consciência de uma injustiça praticada (Santos, 1998, p. 28).

Dessa forma, “a violência teria um papel retórico a desempenhar, dramatizando queixas e trazendo-as à atenção pública, visando a alcançar objetivos a curto prazo e, assim, operar reformas em uma ordem política dada” (Santos, 1998, p. 29). Quanto menor a liberdade (entendida na visão arendtiana como participação nas coisas públicas ou admissão ao mundo político), mais queixas necessitam ocupar a esfera pública.

Edinete Maria Rosa - Universidade Federal do Espírito Santo

Eda Terezinha de Oliveira Tassara - Universidade de São Paulo.

Programa de Pós-graduação em Psicologia Social

 

Seminário: Da violência

Hannah Arendt

Seminário de Sociologia - Turma de 2000

Professor Mourão

۩ Relatório do Seminário

 

Hannah Arendt propõe reflexões sobre os acontecimentos do século XX concernentes às guerras e revoluções. O próprio Lênin predissera tal cenário ainda que provavelmente inferindo sobre a disseminação do comunismo, já que segundo sua perspectiva internacionalista, a revolução na Rússia serviria como um estopim para a eclosão da revolução em outras nações.

De qualquer forma, a violência teve um papel extremamente marcante ao longo deste século. É interessante notar que no período entre guerras (1918-1939) a "Legitimação da Violência" consta na proposta do regime de consenso, aquele próprio de partido único quer de esquerda ou direita. As propostas de consenso consideram-se "a alternativa" e quaisquer meios são legítimos para atingir os fins a que se propõem, inclusive a violência, vista como meio legítimo de eliminar os que se colocam como obstáculo à revolução.

Um outro fator que também assumiu um papel importante é o progresso técnico dos instrumentos de violência. Vale ressaltar que essas grandes inovações dos instrumentos de violência se devem primordialmente ao processo de unificação alemã, mais precisamente no que concerne aos preparativos para a guerra Austro-prussiana (1866). O chefe do Estado Maior da Prússia, Moltke, foi o primeiro a compreender o que se poderia tirar de proveito da Revolução Industrial para a montagem de guerra. Dessa forma houve uma remodelagem do exército visando maior eficácia, através da utilização de fuzil carregado de balas pela culatra ( os tradicionais eram carregados pela boca do cano), da utilização do telégrafo, de ferrovias entre outros.

Durante a Guerra Fria, com ascensão de duas potências e o advento de armas nucleares e biológicas, a guerra perdeu muito de sua eficácia e seu glamour. Se qualquer um vencesse, implicaria no fim de ambos, o objetivo racional não é mais a vitória e sim a dissuasão, sendo a corrida armamentista um meio de se ter mais dissuasão para garantir a paz. A autora chegou a se perguntar como seria o fim dessa insanidade e não conseguiu prever esse fim, que já presenciamos com o esfacelamento da antiga União Soviética.

Na medida em que a violência sempre necessita de instrumentos e como os propósitos da atividade humana não podem ser previstos com certeza, os fins - a luta armada, correm o perigo de serem dominados pelos meios - instrumentos aperfeiçoados de destruição. E na verdade são dominados já que quando estão envolvidas armas nucleares, o conflito armado desaparece em sua totalidade.

A única razão para a existência de conflitos deve-se ao fato de que não há substituto algum para esse árbitro final das relações internacionais no cenário político. A autora acrescenta que enquanto houver independência nacional e soberania do Estado não é provável que apareça outro substituto. Soberania aqui é definida como a reivindicação de um poderio ilimitado e irrestrito nas relações internacionais. A autora ainda parece lamentar-se do fato de os Estados Unidos da América terem herdado a estrutura política conceitual do Estado nação europeu, já que no princípio o conceito de soberania era inexistente na Constituição dos EUA.

Ora, mas se os EUA não tivessem adotado este esquema político europeu, o que seria do mundo nos pós-guerras? Provavelmente o grande país vencedor teria sido a Alemanha, com uma ideologia bastante diferente e às vezes equivocada, como na limpeza étnica em busca da manutenção da pureza e cultura da "raça ariana".

Os donos do saber (também chamados de “futurólogos”) são os assessores dos governos em matéria de estratégias, principalmente em relação às guerras. Procuram fazer previsões em relação às conseqüências de certas hipóteses, negligenciando sua realidade e praticando uma pseudociência de objeto especulativo, que procura imitar as características das ciências com conteúdo realmente intelectual.

A ciência dos “donos do saber” representa um perigo, pois pode levar a crença de uma compreensão e controle dos eventos, quando, na verdade, tal controle não existe.

A previsão do futuro nada mais é do que a projeção de eventos que aconteceriam se os homens não interferirem e se nada de inesperado acontecer. Tratar o inesperado como irrelevante nas projeções facilita o esclarecimento da teoria, mas a move para longe da realidade, tornando-a hipnótica, deixando de lidar com a realidade dos fatos.

O estudo da violência vem sendo negligenciado, apesar de seu enorme papel nas atitudes humanas. Foram poucas vezes objeto de decisão. Tal fato decorre principalmente da casualidade da violência. Até então, ela era tida como um fenômeno marginal , enquanto a ênfase se manteve na continuidade do processo que permanece determinado por aquilo que precedeu o ato de violência. Assim manifestam-se filósofos como Clausewitz e Engels.

O estudo da violência como ciência é praticamente inexistente. Existem estudos voltados para os instrumentos, meios, causas, efeitos e até das implicações político-econômicas da violência. A explicação talvez resida no fato de a violência ser tão presente na vida do ser humano, tornando-o incapaz de examiná-la.

Atualmente, guerra e paz se confundem, não porque são parecidas na forma, mas porque em ambas existe um conflito, conflito este que, pode acabar em catástrofe. Seguida da II Guerra Mundial, não se assistiu a um momento pacífico, mas o que se viu foi uma guerra indireta, por isso chamada guerra fria. Talvez muito pior, no sentido de relações e conseqüências que a própria II Guerra, já que o mundo se dividiu, e o desenvolvimento bélico tornou o problema muito maior, obrigando os países a se alinhar em um dos dois lados.

A violência direta ou indireta, na verdade, agora já faz parte da vida da sociedade e a afirmação de Engels de que a guerra é aceleradora do desenvolvimento, não tem mais o menor senso. É mais sensato e condizente concluir que “a própria guerra é o sistema social básico, dentro do qual outros tipos de organização social conflitam ou conspiram”.

O desenvolvimento nuclear, nada mais representa do que o extremo do poder de coação, quer dizer, aqueles que investem neste desenvolvimento, possuem poder político. Essa fórmula deixou os países subdesenvolvidos muito mais vulneráveis aos conflitos, já que estes não se equiparam aos primeiros e acabam se submetendo, ou mesmo que não exista uma submissão clara, existe uma tensão muito maior, porque as conseqüências de determinado conflito, agora refletem em âmbito mundial e com certeza, terá reflexos bem mais sérios para aqueles mais fracos . Portanto em breve, talvez assistamos a uma influência por parte dos países desenvolvidos em relação aos países subdesenvolvidos de cunho coercitiva, isto é, não uma influência diretamente política, mas violenta, ameaçadora. Assim como aconteceu em Kosovo, onde o que definiu os acordos, não foi um suposto vínculo político, mas sim essa força coercitiva e de caráter ameaçador advinda dos países desenvolvidos e interessados.

Desta forma volta à tona a velha afirmação de que a riqueza não serve de referência para se medir o poder de um país, mas são outros os termos que classificam um país como tal, neste caso, a violência coercitiva.

O mais preocupante é que a posição da violência, cada vez mais alcança níveis justificadores, principalmente quando se refere a revoluções. Nesta situação, a violência assume uma patamar nobre, explicando ditaduras, como a liderada por Tito na Iugoslávia, ou ainda a revolução liderada por Máo Tsé-tung, segundo o qual o “poder brota do cano de uma arma”. Estes, a fim de alcançar um ideal, plantado por Marx, matavam, torturavam e tornavam tudo isso legítimo diante dos olhos de quem via. Este talvez seja um efeito colateral não previsto por Marx, que via o papel da violência secundariamente, para ele as classes dominantes utilizavam da violência, sendo o Estado a expressão máxima deste uso, mas seu poder não se baseava nisto, consistia no papel desta classe no processo produtivo.

Marx, na verdade, rejeitava o emprego da violência, ao contrário de outros que viam no uso da violência, mesmo que temporária (como na ditadura do proletariado, que teria caráter transitório) o único meio de atingir os fins ideais. E foi o que se observou em países como a China e a Iugoslávia ou mesmo na Rússia, onde a violência era vista como imprescindível para a implementação dos tão sonhado ideais sociais.

Esses modos violentos, na realidade, sempre foram características próprias da Direita, já que a Nova Esquerda entende que as revoluções não devem ser arbitrárias, impostas, mas devem surgir de um consenso, “o resultado necessário de circunstâncias inteiramente independentes da vontade e da orientação de certos partidos e de classes inteiras”.
O que de fato deveria representar o pensamento de todos, inclusive dos que se encontram em níveis superiores, como as potências, pois a violência é característica de uma relação desigual entre forte e fraco, que não é legítima, pois é efetivada através da pressão.

A geração da Nova Esquerda, por ser a primeira geração a conviver com o perigo de uma bomba atômica e por ter entrado em contato com os horrores de guerras passadas, como o massacre aos judeus na segunda guerra e a morte maciça de civis, inerente a qualquer guerra, tornou – se contrária a todas as formas de violência, o que pode ser verificado na luta pelos direitos civis e nos protestos contra a guerra do Vietnã. Porém essa não violência se encontra enfraquecida e cada vez mais surgem movimentos que vêem a violência como solução para seus problemas.

Esses novos militantes, comparados com os ludistas Europeus do passado, tem seu comportamento justificado por diversos fatores, muitas vezes contraditórios, como "a falta de liberdade no leste Europeu e a liberdade excessiva no Ocidente". Porém esse movimento é global e essa geração se caracteriza por sua coragem, sua disposição, e sua crença em poder mudar o mundo e o que pode ter causado esse movimento é o fato de que "o progresso tecnológico está levando, em muitos casos, diretamente ao desastre"

As universidades, onde ocorrem esses progressos, necessita de uma separação bem definida entre a pesquisa para a guerra e as outras pesquisas, porém, essa separação não impediria o avanço da tecnologia de guerra e ainda poderia tirar recursos das outras áreas de pesquisa.

Algumas teorias foram exceções :

- Georges Sorel : tentou unir o marxismo à filosofia de vida de Bergson,obtendo um resultado que é estranhamente semelhante ao amálgama feito por Sartre de existencialismo e marxismo referente à luta de classes em termos militares e,mesmo assim, terminou ele por nada propor de mais violento do que o famoso mito da greve geral , um tipo de ação que hoje consideraríamos como parte do arsenal da política não-violenta.

- Sartre : vai muito além de Sorel em suas famosas “Reflexões sobre a violência”, e até além do próprio Fanon .Sartre tem no inconsciente uma discordância básica com relação a Marx sobre a questão da violência, especialmente ao afirmar que “a violência irreprimível é o homem recriando a si mesmo” .

*De acordo com Hegel o homem “produz” a si mesmo através do pensamento , já para Marx foi o trabalho , a maneira humana de metabolismo com a natureza , que preencheu essa função .

*Não se pode negar que um vácuo separa as atividades essencialmente pacíficas do pensamento e do trabalho de todos os atos de violência .

*Sartre mostra uma nova mudança de posição no pensamento dos revolucionários em apoio à violência.

Enfim, o avanço irrefreável nas técnicas e máquinas de guerra não ameaça certas classes de desemprego, mas ameaça a existência humana.

A autora inicia o capítulo diferenciando as gerações que na época do livro tem 20 anos, e a dos seus 30, 35 anos, e conclui que a nova geração não tinha esperanças de um mundo melhor. De fato, a geração que nasceu na década de 50, logo após a Segunda Grande Guerra, na época apresentava grande desânimo com relação ao futuro. Dizia-se com, freqüentemente, que não haveria futuro, por isso os jovens experimentaram as drogas e passaram por uma revolução muito grande.

Esta geração foi conhecida por todos como a geração Baby Boomers, ou seja, nascidas após a guerra. Devido ao fato do livro ser da década de 70, não se pode visualizar o futuro esta geração. Muitos desses indivíduos que nos anos 70 eram hippies e protestavam contra a guerra, o capitalismo e pregavam o amor livre tornaram-se os yuppies dos anos 80. Os yuppies foram um grupo cujo único objetivo era acumular bens e ter status social.

Existe, então, o choque, mais futuramente, entre os jovens que nasceram na década de 70, conhecidos como "Geração X" ( devido à grande incerteza que contagiou as pessoas nascidas nesta época, e a falta de estruturação de valores em sua infância-adolescência nos anos 80, fica um grande ponto de interrogação na mente de muitos sociólogos, por isso a grande adequação com a letra X, ou seja, uma incógnita)e os baby boomers, já entre 45 e 55 anos. A inquiteção e a angústia são marcas tácitas destes dois grupos durante suas respectivas vidas – os yuppies ansiavam por responder suas aspirações econômicas ( e as de seu grupo social) e os geração X, que buscam muito mais do que dinheiro, mas identidade pessoal, dentro de um mundo tão massificado.

Em sua jornada pelo ego, o jovem acaba indo por outros caminhos, como a fuga, a negação e a violência, por exemplo. O jovem, por não saber lidar com situações potencialmente estressantes, projeta na vida de um artista, de um músico, ou mesmo em seu sono a expectativa de que algum dia, miraculosamente, ele se torne alguém mais interessante, de acordo com os padrões pré estabelecidos pelo grupo no qual está inserido socialmente.

Sabe-se que a violência não gera nada, a não ser violência. Isso tornou-se ponto pacífico. Mas o jovem, enquanto ser social em desenvolvimento, tem que manifestar-se e interagir com a sociedade, de tal sorte que possa equilibrar-se e encontrar sua função social. Este momento de "rebelião" acontece principalmente na época de faculdade.

Essas manifestações, ou seja, esta rebelião estudantil, seria, teoricamente, universal. Mas o que acontece é que, dependendo de para onde tange o seu ponto de vista, a rebelião pode ser encarada como um sinônimo de violência física ou não. Caso seja, as manifestações seriam díspares.

Enquanto em muitos lugares do mundo praticam-se atos de protesto construtivos, como ocupações de prédios, passeatas, greves de fome, em alguns lugares parte-se para a violência física. Geralmente as camadas mais populares são paradoxalmente membros e objetos desta violência.

Exemplificadamente: No Brasil, por exemplo, existe um grupo conhecidos como "Os Carecas do ABC" que espancam e infringem punições a membros das camadas mais baixas da população, tais como os travestis, os nordestinos e os afro-brasileiros. Ironicamente, estas pessoas são, não raramente, descendentes de negros ou nordestinos, e freqüentemente pessoas que tem uma renda mais baixa do que a média da população "branca" e que,de alguma forma,foram prejudicadas e guardam rancor contra alguns indivíduos que teoricamente trabalhariam por um preço menor e "roubam" seus empregos, e projetam suas frustrações nos outros deste mesmo grupo causador teórico de seus problemas.

Outro problema grave é a desnivelação do nível superior que ocorre no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, os afro-americanos com os seus sistemas de cotas, conseguiram acesso a universidade. Estes, reunidos lá, através de protestos violentos de forças mobilizadoras e repressoras ( leia-se black power e black panthers) conseguiram fazer com que os indivíduos tivessem uma situação mais privilegiada do que a dos euro-descendentes, por causa de um sentimento de culpa da comunidade euro-americana. Isso é afirmado até em relatórios como o "Violência na América", que dizia " (...) Força e violência são armas bem sucedidas de controle social e persuasão se tiverem amplo apoio popular". O Nazismo é um movimento que exemplifica este ponto de vista.

A autora fala também sobre a glorificação da violência que acontecia na década de 70; hoje em dia ocorre uma glamorização da violência. Nos dias de hoje é extremamente gloroficado e, de algum modo, encorajado por filmes e pelos meios de comunicação, invadir escolas e matar muitas pessoas inocentes. A violência chega a níveis absurdos, e por banalidades.

Grandes pensadores foram levados a racionalizar seguindo esta linha teoricamente irracional de que a violência é uma arma, "(...) como uma lança de Aquiles, que cura as feridas que causou"- Sartre. Caso fosse assim, estaríamos então no estado decaído inicial, tão falado por Hobbes, no qual não poderíamos nos diferenciar dos animais. A violência não é a cura de todos os males da sociedade, pelo contrário, até a piora.

Destes pensadores universitários que são violentos e pseudo-seguidores de Marx, Fanon é o que mais se destaca, tanto por causa de sua prolixidade, quanto pelo número de argumentos sem sentido que ele produz. Por exemplo, de seus livros vieram pérolas como " Gângsters iluminarão o caminho do povo" e também " A fome com dignidade é preferível ao pão em cativeiro". como diz a própria autora" (...) Fisiologicamente não é certo dizer isso. Se ele houvesse afirmado que o pão comido no cativeiro com dignidade é preferível ao bolo saboreado na escravidão teria perdido o seu objetivo retórico.

Hannah Arendt nega a idéia de que a violência, expressa por rebeliões e revoltas, possa ser a solução mais viável e plausível para contrariar regimes de exploração, sistemas rígidos e outras situações intransigentes. Isto vai de encontro à ideologia de Marx e Engels, Sartre e Fanon que acreditavam ser a violência uma forma de contrapeso à violência à violência imposta.

A respeito desta idéia apresentada pelo texto, é de se indagar tamanha rivalidade, isso porque seria de grande antagonismo usar da própria violência para contestá-la a si própria. Para lutar contra uma força e suavizá-la no cenário humano, é preciso combater todas as suas formas de expressão; sendo assim, lutar contra violência usando dela própria para reagir estar-se-ia, em vez de combatendo, cultivando-a e dando-lhe apoio para prosperar.

O parágrafo anterior tem como base de sua criticidade trechos subtraídos do texto e que podem elucidar o comentário feito: “Se isso fosse verdade, a vingança seria a cura para a maior parte dos males” e “a raridade das rebeliões de escravos e das revoltas entre os deserdados e humilhados é notória”.

Segundo Hannah Arendt, a explicação para todas as inconstâncias está no progresso. A definição de progresso; apresentada no dicionário de Política de N. Bobbio, N. Mattercoi e C. Pasquino; é a idéia de que o curso das coisas, principalmente da civilização, conta desde o início com um gradual crescimento do bem- estar, com melhora do indivíduo e da humanidade, constituindo um movimento em direção a um objetivo desejável.

A noção de progresso da humanidade evoluiu ao longo dos séculos. No século XVII, Pascal e Fontenelle afirmaram que o progresso é o acúmulo de conhecimentos através dos tempos. Já no século XVIII, Lessing definiu progresso como educação para a humanidade. Nesse contexto, o progresso é considerado limitado, pois a sociedade sem classes, teoria de Karl Marx, seria o fim da história. No século XIX, desaparecem os limites do progresso. “O ser humano nasce passível de perfeição, mas nunca será perfeito”. Partindo-se do princípio de que os movimentos do progresso originam-se das coisas de forças antagônicas, é possível interpretar todo o ‘retrocesso’.

Todas as doutrinas, com exceção a de Marx, analisam a História como “eterna repetição de acontecimentos”. No plano individual, a única certeza é a morte e no plano geral, o progresso é injusto, uma vez que apenas as gerações posteriores usufruirão dos benefícios batalhados pelas gerações anteriores.

Essa visão revela-se extremamente negativa e nesse ponto, Hannah Arendt, expõe Marx que ao analisar a teoria de Hegel, é o único a mostrar o aspecto do progresso.

Consoante Marx, o progresso não apenas explica o passado sem quebrar a continuidade do tempo como pode servir de guia para futuras ações”. Conseqüentemente, afloraram idéias como a fé dos liberais que dependem da noção de desenvolver o ser humano para que se torne melhor. Já a esquerda, propõe o desenvolvimento das atuais contradições, transformando-as em sua síntese básica.

Conclui Hegel: “nada mais surgirá exceto aquilo que já existia”.

 

Conclusão

 

Pode-se entender a diplomacia internacional como um carro típico da metade do século XIX. Sua rotação é garantida através de pactos, acordos ou tratados firmados entre os países, de forma que as engrenagens centrais (países desenvolvidos) movimentam as engrenagens periféricas (países subdesenvolvidos) segundo seus interesses econômicos e políticos. O motor, através de controladas explosões de combustível, produz uma força de propulsão que movimenta as engrenagens no sentido estabelecido pelas engrenagens centrais. Assim, o motor é o potencial de destruição que os países apresentam como forma de coerção para que se cumpram os “contratos internacionais”, garantindo a harmonia do sistema.

É desta forma que a “paz mundial” se estabeleceu no mundo contemporâneo: uma paz infundada, porque inexistente. Se os países estão cada vez mais preocupados em criar verdadeiras “maravilhas” bélicas de destruição ou bombas que aniquilariam o planeta em questão de segundos, eles estão se preparando para uma provável guerra. E enquanto esta não se observa, outro combate é travado ocultamente entre os Estados: o potencial de destruição dos países militarmente mais fortes é tão grande que subjuga os mais fracos, obrigando-os a seguir as disposições internacionais, mesmo que confrontem seus preceitos de soberania. É por isso que no âmbito internacional os fins tornaram-se mais importantes que os meios, ou seja, o armamento se destaca frente a própria guerra.

Um bom exemplo foi a Guerra dos Bálcãs, ocorrida em 1999. Os EUA, visando proteger seus interesses econômicos e políticos, e evitando que o conflito atingisse proporções devastadoras, bombardeou a região de Kosovo com o discurso de “evitar o massacre albanês”. Na verdade, o que se obteve foi um verdadeiro show, com o lançamento de bombas assistido por milhões de pessoas e majestosa posição dos americanos como “eternos defensores da justiça e da ordem”.

O estudo dos cientistas, juntamente com o progresso da tecnologia, é responsável pelo desenvolvimento de armamentos cada vez mais destrutivos. Eles trabalham em Universidades financiadas pelo governo, evidenciando a interdependência entre as duas organizações: o Estado precisa de tecnologia militar, as faculdades, de apoio financeiro. Esta relação inicialmente harmoniosa traz em seu bojo profundas conseqüências: os jovens universitários, nascidos em meio a uma geração de total repúdio ao combate armado – quer por duas guerras mundiais, quer pelo temor de uma hecatombe durante a Guerra Fria – , quando cientes dos horrores que suas pesquisas e invenções poderão provocar em um mundo que ainda “não cessou totalmente seus grandes canhões”, refugiam-se em teorias marxistas e hegelianas para a prosperidade dos seres humanos.

Segundo Karl Marx, cada período da História fundamenta-se nas relações econômicas entre os indivíduos de determinada sociedade. Tais relações (infra-estrutura) são os pilares que originam e sustentam todas as demais relações (superestruturas), a saber: relações jurídicas, religiosas, políticas, sociais. As relações sociais, por sua vez, são marcadas por antagonismos entre classes (dominantes e dominados) observados em qualquer período histórico. É evidente que conflitos armados e revoltas são desdobramentos do antagonismo de classes, apresentando-se como meros indicadores de uma superestrutura e, portanto, incapazes de alterar as relações de determinada sociedade.

É isto que os universitários insistem em não compreender. Em sua necessidade de mudar o desconfortável dualismo em que se encontram – “devemos evitar uma guerra mundial, mas precisamos criar bombas que destruam o planeta em centésimos de segundo” – eles organizam-se em revoltas generalizadas por todo o globo. Algumas delas limitam-se a criar pequenas “sociedades artificiais” isoladas, compostas por indivíduos com características predeterminadas (como o movimento Black Power), mas sua maior parte preocupa-se em alterar completamente o todo social.

Influenciados por interpretações exaltadas e errôneas da teoria marxista – encontradas em obras como as de Sartre e Fanon – os movimentos estudantis apresentam características singulares: pregam a revolta do estudante e do proletariado, mas não se preocupam em transformar a ordem capitalista.

E a sociedade, por classificar jovens como meros “extremistas”, repudia qualquer manifestação estudantil, inviabilizando sua união com os trabalhadores, ou seja, com o objeto do seu movimento. Perdidos em meio a um cenário caótico, os jovens organizam mais revoltas, correspondidas com a indignação da sociedade. É assim que a violência nacional surge em prol da internacional em um processo contínuo e incontrolável.

Voltando ao carro da diplomacia internacional, o movimento estudantil são rodas que insistem em “andar para trás” por temerem o asfalto liso pelo qual deverão passar. Produto de uma sociedade ambígua, movida por impulsos capitalistas e injeções morais, as rodas do carro, ao final, igualam-se a suas demais partes: observam atentamente o motor da grande máquina, aguardando o momento de uma explosão rápida, impetuosa e catastrófica, que marcará o fim de todos os seus passageiros.

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