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Um estudante de filosofia Gabriel Perissé Texto publicado no jornal: Correio da Cidadania
Conheci recentemente um verdadeiro estudante de filosofia. Chama-se Osmair Camargo Cândido. Profissão: coveiro no Cemitério do Araçá (zona oeste de São Paulo). Aluno da Universidade Mackenzie (bolsista), instituição em que já trabalhou como faxineiro. Aprendeu sozinho a ler em inglês e alemão. Freqüentador assíduo da biblioteca. No dia em que o encontrei, estava lendo um estudo sobre Hegel. Durante 20 anos, entre mais de 400 mil túmulos, aprendeu o que é a vida. Escreve uma literatura que não sei qualificar. Carioca da gema, olhar em contínua admiração, mora em São Paulo porque precisa sobreviver. Mas viver é outra história, viver é ler, pensar e escrever. Bisneto de escravo (e a bisavó era indígena), terminará a sua graduação no ano que vem. Pretende estudar a obra de Soren Kierkegaard em instituição dinamarquesa. Professor voluntário (de redação) no Capão Redondo, bairro da zona sul, argumenta: “do que têm medo muitos que se dizem ‘- solidários’ e ‘cristãos’, mas não fazem o que eu, que creio pouco, faço por consciência do dever?” E continua, enquanto subimos uma ladeira em direção à estação do Metrô: “A liberdade está em fazer aquilo que se deve fazer”. Ele é kantiano num Brasil tão pouco iluminista. O conhecimento lhe traz a felicidade dolorida que ambientes rarefeitos não experimentam mais, “Sempre soube que a filosofia entraria na minha vida”. Estamos dialogando como nos tempos em que se acreditava na busca da sabedoria. E ele me pergunta: “Você aceitaria ter todo o dinheiro do mundo e apenas mais três dias de vida?” Minha resposta é rápida. Nego o dinheiro, e me agarro à vida. Osmair denuncia meu egoísmo. Se ele, Osmair, tivesse no bolso todo o dinheiro do mundo, o distribuiria com justiça entre as pessoas e seria o homem mais feliz da terra por saber exatamente quando chegaria a Inevitável. Quem diria, ele também é estóico. “A verdade atrai.., e a mentira possui”. Estou lendo Osmair ou Nietzsche? Tomando café num barzinho repleto de estudantes universitários (gritos.., gargalhadas...), o pensador observa. Com tristeza e ironia, murmura: “não vejo nenhum livro entre os copos..?’. Não consegui dormir na noite posterior à conversa com Osmair. Fiquei chocado por encontrar um verdadeiro estudante de filosofia. Seu realismo, seu amor às idéias, sua sinceridade total me fizeram pensar. Pensar em carne viva tira o sono de qualquer um.
Gabriel Perissé é autor do livro "Elogio da leitura" (Editora Manole) |
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(...) Mas o que ocorreria ao mundo se cada um de nós pudesse exercer, sem censura ou medo, as suas pulsões de vingança, por mais cruéis que elas fossem? Regrediríamos, certamente, ao que os filósofos chamam de "estado de natureza", o suposto estágio que antecede o início deste em que vivemos, e que os filósofos apreciam chamar de "contrato social". Um contrato de cláusulas leoninas, segundo as quais a imensa maioria deve servir e apodrecer na miséria, na fome e na doença, enquanto uma minoria legisla e governa em causa própria, além, é claro, de enriquecer. E denominamos esse estado de absoluta discrepância de poderes com um outro adorável eufemismo: "democracia". Uma palavra que de tão falsa chega a me provoca<>r pruridos anais... As regras, como vemos, são muito simples: eu te exploro e você me agradece (ou, como é o costume, finge agradecer). Se, por alguma incontrolável razão, você decidir se vingar... bem... para isso existem as prisões e os hospícios. (...) E a história não nos desampara neste momento: compulsemos os melhores tratados e veremos que a verdade só triunfa quando escolhe, como aliada, a violência. Os servos só deixaram de ser espoliados quando encostaram a faca na garganta dos seus opressores. Da mesma forma, certamente também nós guardamos a lembrança dos poucos momentos em que ousamos erguer a cabeça e nos revoltamos. Aqueles minutos de prazer, semelhantes em tudo a uma deliciosa sucessão de orgasmos, foram os únicos em que ousamos ser verdadeiros, e são eles, hoje, que nos salvam do completo embotamento. (Konstantin Gravos - Texto Completo) |
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O sistema vigente é nosso inimigo. Mas, quando estamos dentro dele, o que vemos ? Homens de negócio, professores, advogados, marceneiros, etc. Vemos e interagimos com as mesmas pessoas que queremos salvar. Contudo, antes de salvá-las, essas pessoas fazem parte do sistema e isso faz delas nossas inimigas. Você precisa entender que a maior parte dessas pessoas não estão prontas para acordar. E muitos estão tão inertes, tão dependentes do sistema que irão lutar ferozmente para protegê-lo. (Adaptado do Filme Matrix) |
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Se você treme de indignação perante uma injustiça no mundo, então somos companheiros - Che Guevara Quando se faz uma boa ação, há sempre quem a ache má e se queixe, e quando se faz bem a uns, faz-se mal a outros! August Strindberg Se o conhecimento não tem dono, então a propriedade intelectual é mais um truque do neoliberalismo. Hugo Chaves |
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