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Flagelo |
Laymert Garcia dos Santos
O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo
۩ Introdução
O Império Romano atingiu o seu apogeu no ano 200 d.C., época em que contava com 46 milhões de habitantes em todos os seus domínios; incluídos 28 dos 36 milhões de habitantes da Europa. A Itália era a região mais densamente povoada, com 19 habitantes por quilômetro quadrado (hoje, na Itália, essa cifra é dez vezes maior). Durante os quatro séculos seguintes, a população diminuiu 25% na Europa; o fenômeno foi percebido de maneira ainda mais intensa nos países mediterrâneos. Esse incrível declínio não tinha qualquer relação com mudanças climáticas, nem com epidemias, nem com nenhuma causa específica. Segundo os demógrafos, “tem-se a impressão de que a sociedade clássica era simplesmente muito extensa...” Ou, em termos malthusianos, o aumento dos recursos não tinha acompanhado o aumento da população.
Sejam quais forem as causas, a civilização romana não sobreviveu por muito tempo e rapidamente deu lugar à Idade das Trevas. A produção de produtos para a subsistência estagnou-se, e ao final do primeiro milênio a população européia voltou a ter os mesmos 36 milhões de antes. Entre os anos 1000 e 1300, ocorreu um importante impulso demográfico, e no ou tono do século XIV a Europa atingia, pela primeira vez, a cifra de 80 milhões de habitantes.
Era bom demais para durar. A peste negra, como a chamavam seus contemporâneos, rapidamente deu cabo de pelo menos um quarto da população. Essa porcentagem foi ainda mais alta na França, na Itália, nos Países Baixos e em todos os países mais populosos. A bonança que se seguiu foi interrompida por uma nova decadência devido à Guerra dos Trinta Anos.
Lentamente, com a Revolução Industrial, a melhora da qualidade da alimentação e das condições de saneamento básico, e apesar das guerras, de fomes localizadas, de doenças e do êxodo de 50 milhões de habitantes, a população européia aumentou 80% entre 1845 e 1914. A Primeira Grande Guerra provocou o desaparecimento de 8 milhões de homens jovens o que não impediu o aumento da população em 40% entre 1914 e 1945. Após a Segunda Grande Guerra, a população estabilizou-se, e teria provavelmente declinado sem a contribuição dos imigrantes do norte da África e da Turquia.
A história demográfica da China e ainda mais violenta do que a européia Sua população atingiu um pico estimado em 50 a 60 milhões de habitantes durante o apogeu da Dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), cifra em torno da qual ela oscilará por mil anos Finalmente, o avanço técnico na cultura do arroz permitiu alimentar mais bocas e a população prosperou. O flagelo dos chineses não foi a peste, mas os mongóis. Os Khan, a partir de Gengis massacraram três quartos dos habitantes das províncias setentrionais e um terço dos das meridionais: provavelmente 35 milhões de chineses ao todo, uma cifra assustadora para a época. Mal o país se recuperava, tombava vítima dos manchus. Eles assassinaram 25 milhões de chineses no século XVII, e no século XIX mais 25 milhões. Os maoístas, a partir da época do Grande Salto para o Futuro, não fizeram nada mais nada menos que seguir um caminho então já bem demarcado.
Em outras palavras a diminuição das populações devido às conquistas às guerras à fome ou às doenças não é novidade, O difícil é torná-la dura- doura. Quando apresentarmos e desenvolvermos as nossas opiniões analisa remos as “Estratégias de Redução Populacional” (a partir de agora, usaremos a sigla ERP) preventivas e administrativas. As ERP preventivas visam à diminuição da taxa de nascimentos; as ERP administrativas, ao aumento da taxa de mortalidade.
Apesar de as conseqüências das estratégias administrativas, ou seja, o au mento da mortalidade, serem mais ou menos evidentes, insistimos que não será necessário atribuí-las a nenhuma agência específica mas ao destino e à incapacidade das próprias vítimas. As calamidades tradicionais ajudaram antigamente a conter o crescimento desordenado da população; fome, guerras, epidemias terremotos, esse arsenal não desapareceu; ao contrário, adquiriu mais força com as armas modernas como a drogas a criminalidade desenfreada e o envenenamento da natureza. Não falaremos de terremotos e outros fenômenos naturais, já que estão além do controle do homem: se ocorrerem, serão bem-vindos, mas não se pode contar com eles. Quanto aos flagelos históricos das conquistas, da guerra, da fome e das epidemias, o melhor guia continua a ser São João, cuja visão apocalíptica ainda ilumina o último livro da Bíblia.
Pelo fato de João não ter responsabilizado ninguém em particular pelos flagelos sem freio que se abateram sobre a humanidade, ele transformou seus autores em metáforas e personificou-as na forma de cavaleiros. (A conquista, é verdade, apresenta um agente conhecido. Podemos identificar os seus autores, e não importa o que fizermos seremos massacrados por um mongol ou um maoísta.) Os quatro cavaleiros continuarão a nos escoltar em nossa jornada para o reino do “como”. Esperamos que o “por que” tenha sido estabelecido para satisfação dos Grupos de instruções — caso contrário, teremos fracassado — e que eles estejam também convencidos da necessidade de “frear o crescimento acelerado da raça humana”.
Os cavaleiros do Apocalipse: uma análise contemporânea
1. A conquista
O primeiro cavaleiro do Apocalipse saiu para vencer. O seu cavalo e branco e ele carrega um arco, como os partos, que eram os rivais e o terror do mundo romano, e mestres na arte de lançar flechas em movimento por cima dos ombros, o famoso tiro parta.
A dominação continua a ser um componente importante de toda estratégia de redução populacional. Todavia, não se pode mais aplicar os métodos romanos ou dos partos de invasão direta, ocupação e instauração de um imperium. A utilidade da conquista (denominada “colonização” em sua forma mais recente) deixou de existir, pelo simples fato de que os territórios conquistados e os povos colonizados já não têm mais valor prático ou material.
Se foi importante para os conquistadores e para os colonizadores, em uma certa época, assegurar a manutenção dos povos conquistados pela importação de gêneros alimentícios, que vinham completar uma produção local irregular, e por medidas de saúde pública, não é o que acontece hoje. Durante pelo menos duas décadas, foram necessários trabalhadores mais qualificados e em menor número, No quadro das exigências da economia mundial, a superpopulação não é somente custosa para o sistema, mas in compatível com os métodos tradicionais de controle político e social.
Ë por isso que acreditamos em métodos de conquista que não são tradicionais e funcionam por meio da manipulação ideológica de opinião, da mu dança étnica e da criação de uma nova hegemonia cultural no sentido de Gramsci. Já ressaltamos também o valor dos métodos indiretos de dominação pelo reforço dos ajustes estruturais, pelo maior enfraquecimento possível dos Estados e pela constituição de um poder executivo internacional forte (embora difuso) que não tenha de prestar contas a ninguém e que trabalhe em estreita cooperação com as empresas transnacionais. Para diminuir a resistência dos conquistadores dos tempos modernos, estimulamos também o apoio às políticas de identidade e o agravamento das tensões étnicas e entre comunidades.
Onde quer que existam territórios e atividades locais ainda úteis, a con quista indireta deverá ser a norma, e a dominação deverá continuar invisível. Pode-se tomar como exemplo contrário a presença muito evidente da Shell Oil Company na Nigéria, onde o povo ogoni foi indiscutivelmente envenenado pelos dejetos das refinarias e os ativistas anti-Shell enforcados depois de um julgamento absurdo.
Antes de ser assassinado pela justiça, em novembro de 1995, o escritor Ken Saro-Wiwa escreveu de sua cela: “A Shell [ explorou, caluniou e levou o povo ogoni à extinção durante as três últimas décadas. A companhia deixou para trás um meio ambiente completamente devastado e um acúmulo de misérias humanas. Quando organizei o protesto pacífico dos ogoni, [ a companhia convidou o exército nigeriano para intervir. [ Eu tenho uma proposta: boicotar todos os produtos da Shell”. Milhões de pessoas leram essas linhas e seguiram esse conselho, e passaram a associar a Shell a “tribunal fraudulento” e “veneno”. A Shell contava com as seguintes opções: poderia ter usado um testa-de-ferro local e vendido os seus ativos; emprega do ou reintegrado o pessoal; ou cessado as atividades prejudiciais para a sua reputação e a de outras empresas transnacionais.
Temos pouca simpatia por empresas que se recusam a fazer o menor sacrifício que seja para o bem de um sistema no qual elas e outros como elas possam se desenvolver. Advertimos que, se o mundo dos negócios não criar uma autoridade interna capaz de estabelecer a sua própria vigilância para lidar com as empresas sem escrúpulos e tratar das infrações por meio de um código, escrito ou não, que reja o sistema, então, mais cedo ou mais tarde, arcará com as conseqüências.
A brutalidade é estúpida. Os dominados deveriam ser incapazes de compreender a organização e os métodos de seus mestres e de se mobilizar contra eles. Não se pode pretender que um conquistador situado a uma gran de distância do conquistado atinja seus objetivos por meio da publicidade, da subversão ou de ataques diretos.
Nossa principal preocupação, entretanto, não é com o poder com que o conquistador clássico ou moderno irá poupar ou oprimir os indivíduos e as sociedades, mas com uma noção muito mais ampla, a de “biopoder” ou “biopolítica”. O conceito é atribuído ao filósofo francês Michel Foucault, que analisou o problema da transição histórica entre duas formas diferentes de poder.
Foucault distingue “soberania” e “biopoder”. A primeira pode ser reconhecida pela capacidade de disciplinar, controlar e punir os indivíduos indesejáveis, e, em caso de necessidade, de se livrar deles. A segunda tem como objeto a população em geral. A biopolítica não se ocupa do indivíduo em particular, mas de previsões, estatísticas e medidas globais para aplicar ao conjunto. Ela não procura cuidar da doença ou prolongar a vida de Antônio, Pedro ou João, mas aumentar a expectativa de vida. Com esse objetivo, ela adota toda uma gama de regras de higiene pública; tenta estimular a adoção de um comportamento sadio e diminuir os acidentes. Essas medidas visam a uma entidade estatística, a “população”, e não aos indivíduos que a compõem.
A passagem do reino da soberania ao do biopoder deu-se no início do século XIX, segundo Foucault, e pode ser exemplificada pela mudança de atitude diante da morte. Antigamente, as mortes individuais passavam por ritos e eram submetidas a um cerimonial, do qual toda a família, e às vezes todo o grupo (clã, profissão, corte etc.), participava. Sob o regime da biopolítica, a morte tornou-se privada, solitária, quase um tabu. A morte era o momento em que o indivíduo deixava de ser o sujeito do poder temporal para tornar- se o objeto do julgamento de Deus. O biopoder não tem nada a ver com a morte: ele se ocupa apenas da mortalidade.
As tecnologias empregadas pelos dois tipos de poder são diferentes, de maneira que as instituições têm as suas preferências. A ação do soberano procura tornar os corpos individuais fisicamente mais disciplinados, mais dóceis, mais úteis. O biopoder não se interessa por corpos, mas pela massa da população, tentando reduzir a probabilidade com que se produzem os acidentes que podem afetar a vida em geral.
A soberania utiliza instituições como escolas, hospitais, quartéis e usinas; o biopoder precisa de uma importante burocracia para administrar a seguridade social e as aposentadorias dos idosos, para fazer respeitar as regras de segurança e higiene. Os nascimentos ocorrem no meio médico, as crianças são obrigatoriamente vacinadas, as mora dias devem ser construídas segundo normas estritas e assim por diante.
Por mais útil que seja a distinção feita por Foucault, a maioria das nossas instituições se situa ainda hoje em algum lugar entre a soberania e o biopoder. A medicina e os hospitais se ocupam ao mesmo tempo da saúde das pessoas e do “corpo político”. As empresas devem continuar a exercer o controle físico sobre os seus empregados, mas não devem aplicar os velhos critérios de Henry Ford de regularidade e previsibilidade para garantir a eficiência da linha de montagem. Ford era um verdadeiro soberano, e seus métodos admitiam a intrusão de trabalhadores sociais na vida privada de seus operários para assegurar que estes não tivessem hábitos pessoais ou condições domésticas incompatíveis com o salário integral de 5 dólares por dia.
As empresas precisam no momento de um pessoal menos submisso e mais flexível. Algumas tomaram diretamente a iniciativa instituindo estágios de formação e atualização. A “formação experimental” à qual recorreram numerosas companhias norte-americanas, exige que os empregados dos dois sexos, quaisquer que sejam a sua idade e as suas capacidades físicas, escalem paredões, passem o vau, andem na corda bamba, se lancem ao espaço suspensos por uma corda controlada por um colega ou se mantenham sobre uma plataforma de 30 centímetros de largura agitada por um violento movimento giratório, antes de saltarem ao espaço novamente. Esse último exercício foi batizado de pamper pole, em homenagem a uma célebre marca de fraldas descartáveis, pois, segundo os treinadores das empresas, «as pessoas freqüentemente defecam nas calças enquanto procuram se manter nele”.
Os que “sobrevivem” a essas experiências aprendem visceralmente a se arriscar no desconhecido e a suportar o medo, tudo para reconhecer que dependem do apoio de seus colegas de trabalho. “O sucesso, nessa época de rápidas mudanças e de concorrências sem precedentes exige que se abando nem os velhos métodos e comportamentos que se transponham com um salto as passagens difíceis e que se trabalhe duro na perspectiva de novos começos.” Os empregados devem aprender a se situar em um mundo que não é mais monolítico, hierárquico, burocrático, mas, ao contrário, transitório, fluido e flexível.
Quanto a nós, estimamos que o mundo esteja entrando em uma fase totalmente nova e que seja hora de avançar mais um passo no sentido da distinção elaborada por Foucault, a qual data da metade da década de 1970. E imperativo que se opere um deslocamento de poder em direção a um terceiro modelo, além da soberania e do biopoder. À primeira vista, essa nova etapa parece aumentar a responsabilidade das empresas; na verdade, ela está centrada na responsabilidade de cada um em relação a si mesmo.
Sob esse novo regime, as pessoas devem assumir individualmente a responsabilidade por seus corpos, assegurar sua soberania por completo, e até mesmo “conquistá-la”, se quiserem ter êxito e sobreviver em um mundo de concorrência. Se não forem flexíveis de corpo, espírito e alma, serão dispensáveis, e o mundo se encarregará de fazê-los compreender mais rapidamente essa verdade.
No campo social, o objeto do biopoder deve ser redefinido e revirado, como se estivesse às avessas. Continuará a lidar mais com populações do que com pessoas. Mas, na medida em que o poder for deixando de ser nacional e se deslocando para o plano internacional, o objeto do biopoder será cada vez menos uma população nacional, considerada de responsabilidade do Esta do, mas a população, no seu sentido mais amplo, isto é, o conjunto dos habitantes do planeta.
Biopoder e biopolítica deverão, de agora em diante, concentrar os seus esforços não na vitalidade das populações mas em sua mortalidade promover não a reprodução mas a redução dos efetivos; procurar não a longevidade mas a brevidade. A tarefa é de dimensão histórica, filosófica e até mesmo metafísica. É necessário transformar a mentalidade que predominou no Ocidente por dois séculos; ela deverá se tornar o oposto, o contrário do que foi até agora; ela deve compreender e aceitar a necessidade do avanço da morte e procurar deter a vida.
Só podemos descrever as necessidades do futuro no quadro da orientação que nos foi confiada dando-lhes a devida importância e tratando-as com a seriedade que merecem. Não nos cabe dizer se esse vasto movimento filosófico poderá se impor ou não. Contudo, mesmo sabendo que a evolução das mentalidades faz-se sempre lentamente, elas acabam, ainda assim, por mu dar. Nós indicamos os meios de estimular essa transformação, no que diz respeito tanto ao indivíduo como à sociedade. Trata-se da Conquista, em seu sentido mais profundo. Ela deve continuar a ser o primeiro dos quatro cavaleiros se os outros vierem a dominar. Voltemo-nos então para os que cavalgam atrás dele.
II. A guerra
O segundo cavaleiro está montado em um cavalo vermelho, e ergue uma grande espada; ele é o chefe dos soldados. No Apocalipse, “foi-lhe dado tirar a paz da terra para que os homens se matassem uns aos outros”. Ao longo de toda a história, soldados combateram nas guerras e soldados foram mortos. Sob a forma moderna, em particular, durante o nosso século turbulento, a guerra aniquilou infinitamente mais civis do que militares. Somente na década de 1990, e se analisarmos as estimativas mais prudentes, cerca de 6 milhões de civis foram vítimas de tiros cruzados em quase 100 guerras.
Paralelamente às epidemias e à fome, as guerras intestinas constituem assim uma estratégia de redução populacional extremamente promissora no mundo moderno. O emprego de uma força externa para “matar” deveria ser considerado o último recurso. Hoje, está totalmente fora de cogitação imitar Gengis Khan, menos ainda rivalizar com ele; não devemos tentá-lo, nem que isso seja possível.
Onde aplicar essa estratégia de controle populacional em que os homens se matassem uns aos outros? Certamente não no Norte, nem apenas em áreas cuidadosamente determinadas. Como seria de esperar, três quartos de todos os investimentos e a maior parte da capacidade produtiva do planeta estão concentrados nos países ricos. Provocar guerras seria contraproducente e exigiria empenhar recursos políticos e materiais descomunais.
Apesar de excepcionalmente ocorrerem situações em que estes métodos arcaicos são empregados, como na Bósnia e em Kosovo, a perspectiva de uma guerra intestina nos Estados europeus ou entre eles tornou-se quase tão impensável quanto um conflito entre os Estados Unidos e o Canadá. Por outro lado, a guerra não está, de maneira alguma, fora de moda no Sul ou nas repúblicas islâmicas da antiga União Soviética. Lá, ela continua a ser um instrumento eficaz para “frear o crescimento acelerado”.
Fazer com que esses homens “se matem uns aos outros” exige a utilização de armas não só materiais, mas também psicológicas. Já nos referimos anteriormente as psicológicas, em particular sobre o significado do prefixo auto em “autodefesa”. A política de identidade desperta a violência; reduz a solidariedade diante das vítimas dessa mesma violência, que se tornam estranhas, produtos de uma essência diferente da sua e da minha. A discriminação e a opressão atingindo grupos determinados fortalecem o sentido de identidade e, deveriam, por causa disso, ser discretamente encorajadas. O sentimento de injustiça leva a vítima a escolher a sua própria vítima.
Não devemos deixar de lado armas relativamente novas, como o correio eletrônico, as ordens de pagamento e a arrogância do emigrado. As populações de imigrantes, muitas vezes, dispõem de recursos materiais maiores do que os dos compatriotas que deixaram para trás. Elas podem também desenvolver um sentimento de culpa, pelo fato de não participarem de movimentos nacionalistas ou religiosos que se manifestam, ou que vierem a se manifestar, em seus países de origem, e, à guisa de compensação, lançar-se em atos extremistas de violência. Esse fenômeno afeta as diásporas, desde os judeus e palestinos norte-americanos até os croatas do Canadá, os tigres tâmeis e os fundamentalistas islâmicos da Europa. Esses grupos merecem ser apoiados, uma vez que circunscrevem suas atividades estritamente à sua pátria de origem e não interferem na política dos países que os acolhem.
Quaisquer que sejam os grupos envolvidos, localmente ou no exterior, deve-se estar alerta para que nem todos possam se beneficiar desse ou daquele recurso, projeto ou investimento. No mundo pobre. onde será utilizada a maior parte das estratégias recomendadas, pode-se tirar excelente partido do “desenvolvimento” e das “metas de desenvolvimento” tradicionalmente concebidas.
As pessoas que foram deslocadas devido à construção de grandes barra gens, ou privadas de sua fonte de recursos pela erosão comercial ou ecológica, são levadas ao desespero e se tornam excelentes recrutas para os movi mentos xenófobos, fundamentalistas, nacionalistas ou religiosos. Uma vez que descobrirem e forjarem a “identidade” que os separa do resto do mun do, poderão ser colocados em confronto com outros grupos.
Uma grande parte da população rural terminará por residir nas periferias das cidades. A superpopulação, que engendra a promiscuidade, é um estímulo a mais de disputas. Quanto ao conflito (e também à fome e à doença, como vamos examinar em breve), existem condições promissoras para ele em um grande número de metrópoles do Terceiro Mundo, suscetíveis de seguirem o modelo de Beirute, Argel e Colombo, fundamentado em problemas técnicos ou religiosos.
A superpopulação representou da mesma forma um papel preponderante no quadro rural no conflito entre hutus e tútsis na Ruanda, conflito que pode ser encarado parcialmente como uma guerra por recursos. Como declarava o ministro da Agricultura em Ruanda, em 1991, isto é, bem antes que as tensões tivessem atingido os assassinatos em massa: “Temos uma forte pressão demográfica e uma produtividade agrícola em baixa, devido à erosão dos solos. (...) Podemos produzir muitos gêneros alimentícios para alimentar cinco milhões de habitantes, mas nós temos 7,3 milhões ...“ A solução desse problema elementar de aritmética apareceria logo em seguida.
Apesar de as pesquisas mostrarem que fomentar uma guerra é uma em presa complexa, porque nenhuma guerra tem uma causa única, alguns elementos que as favorecem podem ser identificados com clareza. O Instituto de Pesquisas para a Paz em Oslo (IPPO), que arrola os conflitos, mostra que a década de 1990 conheceu um grande número de conflitos armados (98 entre janeiro de 1990 e dezembro de 1996), acima de tudo guerras civis e não guerras entre Estados. Segundo o IPPO, eles tiveram as seguintes características: Eles ocorrem principalmente nos países pobres, nos quais a agricultu ra é ainda a mais importante contribuição ao PIB.
• Os fatores do meio ambiente mais freqüentemente associados aos conflitos civis são, nesta ordem: “a degradação das terras aráveis [ a falta de água doce disponível per capita e uma forte densidade populacional”.
• Os regimes mais inclinados a provocar a guerra são, estatisticamente, os “governos semi-democráticos”.
• Há uma correlação particularmente rigorosa entre uma dívida externa muito alta e a eclosão das guerras civis.
• "A queda dos rendimentos provenientes da exportação de matérias- primas está sempre associada à eclosão de uma guerra civil” (é o IPPO que sublinha).
• A história das rigorosas intervenções do FMI também está claramente relacionada com todas as formas de conflitos políticos e armados. “O número de planos de ajustes impostos pelo FMI e as condições draconianas para implementar esses ajustes são cruciais para que se produzam protestos políticos e conflitos civis”.
Esses fatores de causalidade funcionam em sinergia e são feitos sob medi da para servir aos nossos propósitos. A dívida continua a aumentar. O preço das matérias-primas continua a baixar, pois os produtos de exportação de numerosos países acabam caindo em uma mesma e estreita categoria, o que provoca a superabundância dos mercados mundiais. O poder de aquisição produzido pelas matérias-primas está em queda livre; atualmente, com os rendimentos de suas exportações, a África pode comprar somente 40% do que podia obter em 1980 nos mercados estrangeiros. Os exportadores de petróleo constituem um alvo particularmente interessante, pois a maioria deles está impossibilitada de diversificar as suas exportações. Nós recomendamos abaixar o preço do petróleo de todas as formas possíveis.
Uma dívida que aumenta e preços que abaixam ocasionam um desvio de pagamento parcial ou total, o que leva o FMI a impor condições ainda mais severas. Se as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, então os conflitos deverão igualmente se intensificar. O Sudoeste asiático, preso rigorosamente nas garras do FMI, prova que mesmo os velhos “tigres” não estão a salvo de infortúnios. O nível elevado de sua dívida e a densidade de sua população são bons candidatos para as potentes ERPs.
A Indonésia, por exemplo, é o quarto país do mundo em população; durante dezenas de anos, esforçou-se em lidar com números que não pôde administrar durante décadas através do programa Transmigrasi, que consistia em enviar colonos para povoar as ilhas externas. Obrigada a se curvar diante das exigências do FMI, a Indonésia não poderá mais financiar esse programa, nem a corrupção em grande escala que engraxou muitas mãos e rodas. Trata-se do mesmo país que, em 1965, massacrou meio milhão de pessoas em programas anticomunistas, o que constitui um precedente interessante.
Em outros países superpopulosos e pobres, a dívida elevada, os ajustes nas suas economias, há muito presentes, somados a condições draconianas, exacerbaram as lutas de classe e as divisões étnicas. Esses países contribuem muito pouco, ou quase nada, para o bem-estar mundial, e é justamente por isso e justamente aí que é necessário “frear o crescimento acelerado”.
As instituições que concebem os programas de ajustes freqüentemente elogiam os ideais dos governos democráticos, mas democracia é algo bastante incompatível com as condições impostas por essas mesmas instituições. A IPPO fala com circunspeção de regimes “semidemocráticos” como tendo características das situações de conflitos. Os governos dos países pobres são obrigados a aceitar a desregulamentação de seus mercados e a se abrir para a concorrência mundial, ao mesmo tempo em que procuram manter suas populações descontentes sob controle. Como o nível de vida da maioria se degrada constantemente, esses governos correm o risco de ser removidos pela violência (sem falar da sanção das urnas). Eles encontram-se então presos em uma tripla contradição: precisam ser democráticos, aplicar as condições severas a eles impostas e permanecer no poder. Esse paradoxo talvez seja o que explica a correlação ressaltada pela IPPO entre os regimes semi-democráticos e a guerra civil.
No quadro dos nossos objetivos, é necessário convencer os governos, pela vontade ou pela força, a se unirem seriamente à questão do controle populacional pelos métodos que possam levar à eliminação dos seus criminosos e dos seus elementos anti-sociais, mas também pelo acesso à esterilização e à contracepção (esse ponto será discutido mais adiante). Se essas funções foram asseguradas pelas autoridades locais, nada exigirá nem justificará intervenções exteriores diretas.
A estratégia saneadora da guerra pode ser aplicada sem o obstáculo da política? Os governos intervencionistas do Norte ou os movimentos “humanitários” não procurarão se opor? Tais interferências deverão ser sem dúvida às vezes levadas em conta, mas, em geral, os conflitos gerados pelas lutas e rivalidades étnicas, regionais ou mesmo de origem ecológica não contam mais com a simpatia do Norte.
A era das fortes oposições políticas e das grandes frentes de solidariedade, como os movimentos contra a guerra do Vietnã ou em defesa do Chile, da Nicarágua ou da África do Sul, chegou ao fim. Quanto às batalhas contemporâneas dos pobres com as suas estratégias políticas confusas e seus massacres aparentemente cegos, será preciso deixar sempre subentendido que elas se passam entre bárbaros e selvagens que o mundo civilizado considera esses conflitos coisas lastimáveis, infantis e sem solução. A coesão do Ocidente aparece reforçada, o que é uma vantagem suplementar.
A reação do mundo civilizado aos conflitos dos países do Sul deveria se centrar menos nas missões humanitárias. Se uma afirmação como esta pode parecer contraditória com o nosso objetivo final, não nos esqueçamos de que a tática de salvar 50 pessoas de preferência na presença das câmeras, pode ser uma cortina de fumaça bem prática para eliminar outras 50 mil. Essas missões reforçarão a imagem das vítimas como fracos e sem esperança, inca pazes de resolver não apenas os seus problemas, mas também os de seu próprio país. Assim, a justificativa da missão estaria clara (não podemos imaginar missões humanitárias estrangeiras indo em socorro dos Estados Unidos ou da Alemanha).
Talvez, no futuro, possamos também persuadir as organizações humanitárias a tomarem elas próprias a frente dos programas de controle de nascimentos, de esterilização e de aborto, para o “bem das vítimas”. É necessário substituir uma ética de solidariedade por uma ética de emergência. A piedade pós-colonial pelos deserdados e a compaixão pelos aflitos, no estilo de madre Teresa, terminou por suplantar as tentativas políticas, de qualquer tendência. Simbolicamente, os desafortunados ocupam o mesmo plano existencial das crianças e dos débeis mentais. Contudo, ninguém pode se opor à ajuda humanitária sem correr o risco de parecer desprovido de todo sentimento humano. Recomendamos então que ela seja estimulada.
۩ O comércio de armas
As populações que serão objeto das ERPs deverão se auto-selecionar e negociar mutuamente. Isso supõe que terão os meios materiais de fazê-lo. Os hutus arranjaram-se com facões, mas a matança manual é um procedimento ineficaz e dissipador de energia. Será necessário então que tenham acesso a meios materiais mais sofisticados.
Um estudo superficial das cifras leva a pensar que as transferências de armas para o Terceiro Mundo, em valor, teriam diminuído enormemente de pois de 1989; as estatísticas oficiais registram de fato, uma queda constante de mais de 40% em dólares durante a década de 1990. Cifras enganadoras. O declínio do volume financiado não significa que os conflitos dos países do Sul diminuíram ou virão a diminuir de maneira expressiva, pelo contrário. Depois do período da Guerra Fria, as aquisições de armas pelos países do Terceiro Mundo, se dermos crédito às fontes, oficiais ou não, refletem três realidades:
A necessidade que muitos governos militares do Terceiro Mundo têm de aumentar a segurança interna e a capacidade de lutar contra as insurreições. Em lugar de equipamentos pesados para as guerras externas, como tanques e aviões de combate, eles utilizam armas menos custosas para a infantaria, helicópteros e equipamentos para controle de tumultos, os quais serão cada vez em maior número entre sua própria população.
• A nova capacidade de se produzir armas menores, não-tradicionais, menos caras, que se beneficiaram das transferências de tecnologia no passado. Numerosos combatentes, mesmo se sob embargos oficiais, podem hoje satisfazer a maior parte de suas necessidades em matéria ‘militar muito mais próximos de casa.
• Um incremento espetacular do mercado negro de armamentos e uma baixa igualmente espetacular de preços, de forma que hoje se pode obter um fuzil AK-47, que até bem pouco custava 100 dólares, por 30 a 40 dólares na Rússia, ou por algo entre 8 e 10 dólares no Camboja. Os preços do mercado negro eram antigamente muito mais elevados do que os do mercado legal, mas não é mais esse o caso. E os compra dores dessas armas não precisam mais pagar propinas exorbitantes para manter a liberdade.
Durante a Guerra Fria, a maior parte dos sistemas de armas eram objetos volumosos e caros que eram estocados. Contrastando singularmente com os procedimentos do Pentágono ou dos militares soviéticos de outrora, os compradores de armas atuais obtêm artigos mais leves e menos sofisticados, e os utilizam imediatamente. Os Estados Unidos permanecem como o principal fornecedor de materiais de guerra pesados ou leves e foram os grandes vence dores da guerra fria comercial. Para quantidades relativamente reduzidas, o mercado americano de varejo é também o preferido, uma vez que abriga centenas de fabricantes de armas legais, importadores e 285 mil distribui dores. Mais de 500 milhões de armas de pequeno calibre de todo tipo circulam no planeta, mais da metade delas apenas nos Estados Unidos. A Rússia perdeu esse mercado. Durante a década passada, os pedidos provenientes do Terceiro Mundo tiveram uma queda de 80%.
Para fazer economias de escala, numerosos fabricantes de armas, nos outros países, fizeram fusões, resgatando os concorrentes ou promovendo par- cenas, ou ainda estabelecendo alianças estratégicas para transferir a tecnologia militar. Os principais beneficiários dessa tendência são os Bálcãs, o subcontinente indiano e a Ásia central, além do Oriente Médio, já bem armado.
Apesar de uma tendência ao “empobrecimento” das oficinas de armeiros, nações do Terceiro Mundo obtêm não somente armas leves, mas também armas de destruição em massa. Os serviços de informações norte-americanos suspeitam que, atualmente, pelo menos dez países possuem armas biológicas, apesar de sua interdição teórica na Convenção sobre as Armas Biológicas e Bacteriológicas. Todo país que conta com biotecnologias bem consolida das, aparatos de fermentação comercial e uma indústria farmacêutica, ou mesmo muita competência para fazer funcionar uma indústria de medica mentos fornecidos por estrangeiros, está perfeitamente em condições de produzir armas biológicas. Essas armas não precisam ser estocadas, elas podem ser produzidas rapidamente a um baixo preço, segundo a demanda, em pequenas indústrias. Os sistemas utilizados vão do mais sofisticado ao mais rudimentar (em particular no caso de terroristas dispostos a sacrificar as próprias vidas).
No mercado clandestino de armas leves convencionais, uma verdadeira casta de’ profissionais emerge; são traficantes habilidosos, eficientes na arte de dissimular as cargas, concebendo rotas complicadas, falsificando documentos oficiais e fazendo lavagem de dinheiro. Para o tráfico de quantidades mais expressivas, os grandes mercados se encontram notadamente em Bancoque, em Peshawar, na Turquia, e em várias antigas repúblicas soviéticas.
As autoridades, nos países desenvolvidos assim como nos outros, pare cem ao mesmo tempo pouco desejosas e incapazes de colocar um fim nesse tráfico lucrativo. A ONU, o que não surpreende mais, não vai muito além de estabelecer uma “declaração voluntária” (totalmente inofensiva) em relação ao repasse de armas convencionais. Quase nada pode realmente impedir que os governos, grupos dissidentes e máfias criminosas, se assim o quiserem, dominem os negócios militares. Apesar de o comércio de armas ter sido obrigado a transferir algumas de suas bases, estamos de acordo com o especialista que declara que ele “continuará a se comportar muito bem durante os próximos anos, sem encontrar obstáculos importantes ao seu desenvolvi mento e ao seu crescimento”.
Dessa forma, o melhor é deixar a natureza seguir o seu curso, dando uma ajuda discreta aos fornecedores de armas e concedendo, aqui e ali, ajuda financeira para o empreendimento dessas operações. As armas, quer sejam sofisticadas ou rudimentares, propagam-se nos países menos desenvolvidos, o que é desejável na medida em que eles podem usá-las uns contra os outros.
۩ Intervenção
Apesar da propensão a se matar uns aos outros, os “bárbaros” não nos farão a cortesia de se ocupar por completo desse trabalho, e seguramente não o farão na medida necessária. Além do mais, podem vir a nos causar sérios danos. Eles nutrirão um forte ódio contra a civilização ocidental, estarão mais bem organizados que no passado e munidos da rica experiência de suas múltiplas atividades criminosas.
De tempos em tempos, os poderes ocidentais serão forçados a intervir nesses negócios, algo a que será necessário habituar a opinião ocidental. E ainda teremos de ocasionalmente enfrentar o Iraque ou um outro; nossos principais adversários serão, nas palavras de um observador, “grupos que atualmente chamamos de terroristas, guerrilheiros, bandidos e ladrões, mas que sem dúvida alguma escolherão títulos mais honrados que os descrevam” Futuras guerras terão lugar entre Estados tradicionais e esses novos “bárbaros”, senhores da guerra, barões da droga e grupos organizados de todo tipo, que estarão de hoje em diante em competição com os Estados-nações.
Em certos casos, se bem que as autoridades tradicionais se recusem a reconhecê-lo, eles já substituíram o Estado, ou se infiltraram tanto nele que vem a dar no mesmo: “Cada vez mais os governos são invadidos, dirigidos ou suplantados por uma assombrosa variedade de organizações criminosas e de estruturas inovadoras para o controle de riquezas no meio da violência e da coerção” Essas organizações são ágeis, movem-se com facilidade e ignoram fronteiras. (“As fronteiras que vemos nos mapas não existem no chão.”) Os novos objetivos do Ocidente serão máfias em escala continental, quer sejam russo ucranianas, albanesas ou cosovares, nigerianas ou italianas; quer sejam as yakusas do Japão ou as tríades chinesas, os cartéis da droga mexicanos ou colombianos, ou ainda simplesmente 1,5 milhão de membros de quadrilhas norte-americanas, segundo o que foi calculado em uma recente estimativa.
Essas organizações de caráter paraestatal causarão prejuízos financeiros aos Estados convencionais por meio de diversas ligações mercenárias inter nacionais. Terão, cada vez mais, ambições regionais, se não mundiais. Integrar-se-ão, cada vez menos, às guerras clássicas, mas haverá cada vez mais violência e ameaças estratégicas autênticas.
Essas ameaças deverão ser objeto de publicidade em vez de dissimuladas ou negligenciadas, como é muito freqüente hoje em dia. Os governos ocidentais enganam-se quando querem dominar a situação. No lugar de encobrir os perigos, deveriam preparar o povo segundo as intervenções necessárias, e para isso os cidadãos deverão se sentir ameaçados.
Será relativamente simples influenciar a opinião pública, já que tais ameaças são autênticas. Os novos bárbaros estão cada vez mais sofisticados e não hesitarão em utilizar as armas de destruição em massa que possam ter à sua disposição. Se os autores do atentado ao World Trade Center tivessem entulhado sua caminhonete de material radioativo, todo o distrito financeiro de Nova York se tornaria uma zona interditada durante décadas. Se eles tivessem usado agentes bacteriológicos ou tóxicos, ninguém pode imaginar que hecatombe poderia ter resultado.
O Ocidente não está preparado para enfrentar essas organizações paraestatais e seus exércitos criminosos. Uma vez que levamos dezenas de anos desenvolvendo instrumentos tecnológicos para esperar nossos inimigos a uma grande distância (bombardeios com um grande raio de ação, submarinos lança- mísseis, etc.), deveríamos acordar e compreender que os alvos militares, nos combates do século XXI, estarão infinitamente mais próximos. A guerra parecerá muito mais com a Ilíada do que com Hiroxima.
Não precisamos de mais bombardeiros, submarinos e tanques, salvo se quisermos preservar o emprego na indústria da defesa. Precisamos de fato é redirecionar fundos para esta que é a verdadeira defesa de nossos interesses, ou seja, as estratégias que aqui esboçamos. É trágico constatar que estamos mais bem equipados para assassinar algumas centenas de pessoas a uma grande distância do que para localizar os inimigos que estão sob os nossos narizes (“Nosso sistema atual procura punir os vizinhos do assassino, deixando o próprio assassino em liberdade.”). Acrescentemos que o ataque ao “assassi no” em questão deve parecer advir de um de seus vizinhos a fim de provocar ressentimentos e represálias entre os bárbaros.
As guerras pós-modernas têm todas as possibilidades de se desenvolver não em distantes desertos e em outros espaços abertos, mas de preferência no meio urbano, onde o inimigo conhece bem melhor o terreno e os seus habitantes do que nós. Esse terreno abrange os arranha-céus transformados em favelas, os túneis, as redes do metrô e os esgotos; serão verticais, enquanto a guerra tradicional tem se desenvolvido principalmente de forma horizontal. Serão nojentas e repletas de doenças. (“Os campos de batalha mais prováveis serão os espaços urbanos onde se acumula o lixo sem tratamento, onde o ar é irrespirável e onde a humanidade se decompõe.”)
Os americanos, em particular, habituaram-se às máquinas e não aos ho mens para fazer os trabalhos mais sujos. Hoje, eles querem guerras sem mortos do seu lado, embora no futuro o soldado venha a restabelecer a sua importância. O campo de batalha urbano não pode ser atacado, tomado ou controlado sem perdas humanas.
Mesmo o estado de espírito e a ética dos ocidentais estão mal adaptados aos previsíveis futuros inimigos. Nossos tribunais concedem, sem hesitar, a proteção legal prevista pelas constituições aos barões da droga estrangeiros e a outros criminosos. Respeitamos as leis e as regras do processo, eles não. (“Cada vez mais, o mundo se incomoda menos com as nossas leis, nossos costumes e com a maneira pela qual nos comportamos à mesa. Estamos ainda mais sob a influência de um modelo superado do que um soldado, do que a polícia e do que um governo do ponto vista legal. Nossos adversários não carregam esses fardos.")
Os campos de batalha do futuro não estarão todos em terreno estrangeiro. É alta a probabilidade de que tenhamos os mesmos problemas em casa, e que estejamos também mal preparados para eles. (“Ilhas de ineficácia estão prestes a surgir nos Estados Unidos, apresentando-lhes problemas tão insolúveis e concentrados que os métodos tradicionais para a manutenção da ordem são ineficazes para contê-los.”) Em outras nações ocidentais, algumas cidades estão longe de ser imunizadas contra esse mal e, por isso, assistem impotentes à emergência de suas ilhas de ineficácia.
Os americanos mais ricos já perceberam o perigo. Prevendo um sólido avanço, eles refugiam-se em comunidades rodeadas de muros e jardins; hoje são 30 mil, e outras 60 mil estão projetadas e deverão ser construídas até 2005. Contudo, apesar de suas muralhas, nem os privilegiados dos Esta dos Unidos, nem os dos outros países ocidentais escaparão às armadilhas dos conflitos do século XXI.
Não especularemos sobre as alianças que os nossos instrutores podem ter forjado com os líderes dos exércitos e da polícia nos países ocidentais. Não nos sentimos menos obrigados a aconselhar certas estratégias em conformidade com a tarefa que nos foi confiada. Nada deste Relatório é político ou ficção científica. Ao contrário: aceitando a ameaça e o inimigo confrontamos o hoje.
O mundo com o qual nos familiarizamos, aquele que surgiu no
século XIX, com nações estáveis, sem corruptos, que não estava organizado nem
aci ma nem além do Estado, esse mundo está em vias de desaparecer, provavelmente
para sempre. Nossos militares deveriam parar de se preparar para uma guerra
contra a União Soviética ou para outra Guerra do Golfo e levar o século
XXI a sério. Deveríamos nós também reavaliar os papéis do exército e da polícia.
Já sublinhamos anteriormente a necessidade de instaurar um poder executivo
internacional forte para substituir as desgastadas Nações Unidas.
Os métodos chamados de “manutenção da paz” da ONU revelam-se sempre ineficazes; está na hora de utilizar novidades. Como toda instância do poder, o executivo internacional proposto deveria dispor de uma força de intervenção armada bem equipada, bem treinada e preparada para as tarefas de com bate que descrevemos. Tal força apresentaria vantagens importantes: não so mente lutaria contra o crime e o terrorismo internacional, tornando o planeta mais seguro para todo o mundo (salvo para os responsáveis pelas atividades criminosas em questão), mas também protegeria indiretamente os Estados- nações. Para os governos que ainda não se venderam para as máfias ou que foram substituídos por elas, esse argumento deveria ser convincente.
Insistimos que os governos ocidentais considerem a criação e a utilização de forças ofensivas e defensivas de segurança privadas, paralelamente aos seus exércitos regulares uniformizados. Já existem estruturas desse gênero em estado embrionário: por exemplo, a sociedade “Executive Outcomes”, com sede na África do Sul. Historicamente, tais forças sempre existiram: são os mercenários. Não falamos aqui simplesmente de serviços de segurança ou de sociedades que alugam os serviços de policiais, mas de verdadeiras tropas de combate. Eles deveriam estar a serviço dos objetivos do Estado, mas não ao de entidades privadas. Os governos, sozinhos ou em conjunto, seriam os seus únicos clientes. O recurso público para essas tropas privadas apresenta ria numerosas vantagens:
• Elas constituiriam assim uma saída para os jovens sem trabalho, re voltados e muitas vezes violentos; elas os disciplinariam e lhes dariam alguma coisa construtiva para fazer.
• Elas passariam por um processo de licitação. Para uma grande parte das missões não-tradicionais, elas custariam infinitamente menos do que as atuais estruturas militares, de efetivos inchados e superequipados.
• Elas não seriam atrasadas pela morosidade da justiça e por regras estabelecidas, e poderiam completar sua tarefa de maneira rápida, limpa e com eficiência.
• Pelo fato de seus empregados se submeterem aos riscos ao assumir seus bem remunerados empregos, as perdas de vidas humanas não provocariam protestos como os que vemos hoje com a morte de um soldado raso.
Tropas de combate (por oposição às forças de manutenção da ordem) a serviço de um poder executivo internacional e com os recursos privados para as unidades de combate podem parecer mera especulação; mas essas proposições estão longe de ser inverossímeis, e estimamos que logo trarão muitas vantagens. O Departamento de Estado dos Estados Unidos, por exemplo, já assinou um contrato de vários milhões de dólares com a empresa americana Military Professional Resources, Inc., à qual encarregou da formação das forças militares na federação croato-muçulmana da Bósnia. E necessário adentrar com firmeza esse caminho, até que ele seja considerado um modo de ação normal, ou pelo menos um dos muitos procedimentos operacionais.
Para falar de maneira realista e do futuro próximo, contudo, o grosso dos alistamentos militares deverá continuar a ser feito nos exércitos nacionais tradicionais, cuja responsabilidade será defender a sociedade e a cultura oci dentais contra tudo o que lhe for hostil. O lúcido oficial citado acima reconhecia que “o papel de facto das forças armadas dos Estados Unidos será o de manter o mundo seguro para a nossa economia, e aberto às nossas agressões culturais. Para esse fim, ser-nos-á necessário provocar um certo número de mortes”.
۩ Bebês bárbaros?
Se é preciso que haja mortos, o que acontecerá em seguida? Os bárbaros não buscarão recuperar o tempo perdido, uma vez acalmado o conflito? Não começarão a crescer e a se multiplicar furiosamente de novo? Devemos fazer aqui uma breve alusão ao que se chama “síndrome da natalidade pós-conflito”: essa expressão designa um aumento significativo de nascimentos nas sociedades que acabaram de ser destruídas. Se a população da China pôde se reconstituir depois da passagem de Gengis Khan, qual será o impacto final das ERPs contemporâneas?
A reação do baby-boom é uma noção que remonta à época medieval ou, a rigor, ao fim da Segunda Grande Guerra, mas tem pouca relação com a nossa situação presente. Apesar das estatísticas da ONU, constata-se pouca modificação na taxa de natalidade (ou que essa taxa esteja caindo) após os conflitos em países tão diferentes como o Vietnã, a Nicarágua, o Irã, o Iraque, Moçambique, a África do Sul, ou mesmo (depois de uma breve aceleração) nos casos extremos das sociedades pós-genocídio, como o Timor Leste ou o Camboja. A exceção é a Palestina, onde foi promovida, por razões políticas, uma estratégia de natalidade que a população endossou claramente. Mas em qualquer outra parte parece que, para os nossos propósitos, os conflitos e o tráfico de armas exercem um impacto puramente positivo.
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O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo Susan George |
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O Relatório Lugano Susan George |