Pilares

Laymert Garcia dos Santos

O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo

Não somos engenheiros nem possuímos competência técnica em todos os campos a serem cobertos; por isso não é nossa intenção fornecer planos, nem soluções prontas. Porém, apresentaremos um quadro geral que determinará as questões estratégicas mais importantes e indicará os domínios nos quais seria útil recrutar especialistas.

Antes de descrever as estratégias de prevenção e tratamento do problema, parece-nos importante insistir nas tendências atuais que seriam estimulantes ou desestimulantes para que o capitalismo, o único sistema que acreditamos ser capaz de assegurar o maior bem para a maioria, continue a existir. Em primeiro lugar, é necessário consolidar os alicerces dessa empresa ambiciosa que visa provocar uma redução em massa da população. Tais alicerces têm por base quatro pilares:

• o pilar da ideologia e da ética;

• o pilar econômico;

• o pilar político;

• o pilar psicológico.

Embora devessem permanecer ocultos, esses quatro pilares sustentam a parte visível do edifício estratégico. Eles se reforçam uns aos outros, precisa mente como na arquitetura.

 

۩  O pilar da ideologia e da ética


Por que nos preocuparmos com idéias e crenças em vez de ir diretamente ao assunto? Simplesmente porque são as idéias e as crenças que governam o mundo; mas idéias e crenças não são imutáveis. Elas surgem e são moldadas em função das necessidades dos tempos; Marx teria dito que elas evoluem para responder às necessidades das classes dominantes. A ideologia é como a água para o peixe, o qual não tem consciência dela. A nossa preocupação aqui é modelar conscientemente a ideologia de modo que as idéias e crenças atualmente dominantes sirvam para justificar o grande projeto.

Por exemplo, nossa época vê com horror a miséria e as epidemias que se produzem em qualquer parte do planeta; no entanto, o escritor cristão Tertuliano disse: “os flagelos da peste, da fome, das guerras e dos terremotos, consideramos uma bênção para as nações superpopulosas, visto que servem para expurgar o crescimento abundante da raça humana”. Ele também lastima “a vasta população que é um fardo para a terra”, a ponto de esta “mal ter condições de prover as nossas necessidades

Para esse padre da Igreja primitiva, os flagelos, sejam acontecimentos provocados pelo homem ou pela natureza, são fenômenos positivos, “bênçãos”, já que salvam as “nações superpopulosas” das conseqüências catastróficas da sua demasiada fertilidade. A fome, a peste e as guerras preservam a comunidade para o futuro. Graças a essas pretensas calamidades, um verdadeiro benefício para a humanidade, os sobreviventes e os seus descendentes poderão ainda desfrutar a generosidade da terra. Sem elas, jamais o nosso planeta poderia “prover as nossas necessidades”, e tanto menos quanto essas necessidades estão em crescimento constante.

Por ser cristão, esse teólogo não via a vida de cada um como o bem mais elevado; ao contrário, ele colocava o bem-estar comum no topo de sua escala de valores e admitia a necessidade de purificar a árvore da família humana para controlar o “crescimento opulento”, para que prevalecesse ó bem comum. Já vimos que os filósofos da Antiguidade, como Platão e Aristóteles, acreditavam ser a superpopulação um grave perigo para a comunidade e para o Estado.

A ideologia de nossa época é, ao contrário, a ideologia do indivíduo. Os mecanismos do mercado e o liberalismo baseiam-se em decisões privadas e em riscos livremente assumidos por inumeráveis indivíduos. Da mesma maneira, a nossa ética dominante e o nosso sistema legal tratam apenas dos direitos, da consciência e das ações individuais (ou “dos homens”); nossa justiça só conhece os crimes e os delitos cometidos pelos indivíduos. Conseqüentemente, perdemos de vista a noção de crime coletivo e de bem geral. Em nome desse bem, às vezes, é necessário usar de coerção e fazer sacrifícios, coisas que nossa época não considera mais justificáveis, nem legal nem moralmente. Nossas sociedades extinguiram o conceito de responsabilidade coletiva, e mais ainda o de culpa coletiva em relação à felicidade geral.

A prova disso é que ainda consideramos “eticamente correto” que pessoas iletradas, incapazes de ganhar a vida, inúteis e degeneradas continuem a proliferar e a se reproduzir como bem quiserem; a ponto mesmo de tal julgamento não poder ser exprimido em público sem que seja imediatamente censurado, piedosamente denunciado e, em certos contextos, objeto de ações judiciais. Platão, Aristóteles e Tertuliano teriam ficado consternados com esse estado de coisas, da mesma forma que teriam ficado espantados com a leitura da Declaração Universal dos Direitos do Homem!

Se quisermos que as regras básicas mudem e que a estratégia que recomendamos tenha êxito, será imperativo começar a modificar o clima ideológico atual e recolocar a ordem em nossos conceitos e éticas arraigados. Os sistemas éticos dominantes evoluíram ao longo da história,, e não há mais razão para que eles não mudem. Se consideramos que a ética é a estratégia de sobrevivência coletiva de uma determinada sociedade, a nossa precisa de uma séria revisão. Os valores morais de hoje rejeitam qualquer empreendimento efetivo de gestão populacional, a menos e até que sejam resolvidas as contradições entre o individualismo do mercado, os “direitos do homem” e a necessidade de harmonia coletiva.

O primeiro passo consiste em reconhecer e fazer com que os outros reconheçam, friamente, que uma economia mundial vigorosa e competitiva criará necessariamente uma sociedade com duas fileiras: a dos fracassados e a dos bem-sucedidos, ou dos pobres e dos ricos, respectivamente; tanto no interior dos países como entre eles. Isso é saudável. E a mola-mestra do sistema, é a “natureza animal” e não pode em nenhum caso ser alterada.

Portanto, em vez de tentar em vão modificar a natureza, devemos procurar aumentar o número dos ricos, diminuir o número dos pobres, e conferir a uma maior porção da humanidade as vantagens que se pode obter do mercado. É necessário integrar muito mais as pessoas, tanto no hemisfério Norte como no Sul; é preciso também criar um meio social no qual os problemas principais das sociedades ricas (criminalidade, desemprego, poluição,uso de drogas etc.) diminuam visivelmente.

E claro que o mercado não pode criar, ele próprio, um bem-estar generalizado nas condições demográficas atuais, por isso torna-se necessário melhorar essa situação. Para que um autêntico controle das populações torne-se aceitável, devemos instituir um novo clima de pensamento e de opinião, um clima que não tome como ponto de partida dogmático uma liberdade individual sem freios, nem os “direitos do homem” como eixo central.

Portanto, estimulamos vivamente nossos instrutores a criarem e manterem um quadro de pensadores, escritores, professores e comunicadores capazes de desenvolver conceitos, argumentos e imagens que resultem, nos planos intelectual, moral, econômico, político e psicológico, em estratégias enérgicas de gestão populacional. Esses intelectuais deverão, da mesma forma, elaborar e difundir uma ética inovadora e pragmática para o século XXI.

Um investimento substancial em um quadro ideológico conveniente se ria bastante lucrativo. Em caso de necessidade, as idéias de grandes pensa- dores como Platão, Darwin, Hobbes, Malthus, Nietzsche, Hayek, Nozick (e, esperamos, sem modéstia, as contidas neste Relatório) deverão ser renovadas, revistas e adaptadas ao goút du jou (Em linguagem atual) reformuladas em função de po vos diversos e disseminadas entre os formadores de opinião, entre os que tomam as decisões e o grande público.

As descobertas das ciências biológicas modernas, da ecologia, da demografia, da economia neoclássica e de outras disciplinas, interpretadas judicialmente, encontrarão naturalmente lugar nas estruturas de um edifício intelectual renovado. Essas idéias deverão ser elaboradas, moldadas e promovidas por intermédio de uma rede de comunicações, de um quadro intelectual dedicado, cujos membros deverão ser muito bem remunerados e contar com um ambiente intelectual e material apropriado para o desenvolvimento de suas idéias, nas universidades de tradição, instituições e fundações especializadas, ou através de redes de informação.

Eles terão acesso não apenas a publicações em livros e revistas especializados, mas também à grande imprensa, rádio, televisão e meios eletrônicos. Será necessário criar ocasiões para que se expressem em manifestações privadas ou públicas, reunir e instruir a juventude e desenvolver vários sites na Internet.

Sem autoconsciência e uma liderança intelectual dinâmica, sem autoridade e justificativa, advertimos que as estratégias descritas neste Relatório fracassarão. Partimos do princípio de que a criação, a manutenção e a promoção de um quadro de “legionários ideológicos” deveriam representar um certo problema para os nossos Grupos de instruções, que estão, sem dúvida alguma, em relações estreitas com os dirigentes dos conglomerados mundiais dos meios de comunicação (que, por sinal, se encontram em grande crescimento), cujos bens abrangem todos os requisitos “intelectuais e ideológicos” necessários à disseminação de idéias.

Sinceramente, nós, os membros do Grupo de trabalho, consideramo-nos uma espécie de protótipo desse quadro intelectual. Admitimos, além do mais, de boa vontade, que fomos seduzidos pelas recompensas materiais que nos valeram a participação neste trabalho, muito mais do que pelos seus méritos intrínsecos. Não somos diferentes, nesse aspecto, de outros pensa- dores, cientistas e escritores profissionais, os quais reconhecerão as vantagens manifestas do liberalismo e colocarão o seu saber e o seu talento a serviço do mercado quando lhes for claramente vantajoso fazê-lo.

Contudo, devemos fazer mais uma advertência. Mesmo que o trabalho ideológico seja levado a cabo brilhantemente por um quadro de gênios que disponha de generosos recursos financeiros e materiais, essa empresa fracassará a menos que o sistema consiga de fato fornecer um bem-estar econômico, uma recuperação ambiental e valores civilizados ainda maiores à maio ria dos habitantes da Terra. Se tudo isso faltar, os excluídos, mais dia menos dia, acabarão por se revoltar e levarão consigo o capitalismo liberal para a ruína.

 

۩  O pilar econômico

 

É por essa razão que se faz necessário instituir ou reforçar imediatamente certos aspectos da política econômica. Até o presente momento, os programas de ajustes estruturais (PAEs) efetuados pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional foram a norma nos países do Sul e do Oriente, nos quais esses programas representaram, incontestavelmente, um papel positivo. Eles introduziram uma disciplina neoliberal coerente, obrigaram os governos a integrar sua economia nacional à economia mundial e criaram o quadro no qual as elites locais puderam enriquecer (graças a salários mais baixos, a uma mão-de-obra mais submissa, a privatizações em massa, a intervenções governamentais etc.). Favorecendo dessa maneira as elites, os PAEs permitem criar um grupo de especuladores e investidores influentes no plano nacional, mantenedores convictos do liberalismo e da globalização.

Ainda que isso seja difícil de provar, os PAEs provavelmente diminuíram a taxa de crescimento da população, mesmo que não tenham conseguido reduzir a população total. Chegou a hora de unir especificamente os objetivos econômicos aos objetivos demográficos. Existe uma possibilidade de multiplicar e reforçar os PAEs, pois todos os países envolvidos estão, no momento, muito mais endividados do que na época em que empreenderam esses programas. Esse endividamento coloca os países à mercê das medidas• cada vez mais duras do FMI, pois eles não podem encontrar crédito em nenhuma parte sem a garantia do Fundo. Agora que todas as nações superpopuladas da Ásia, com exceção da China, foram colocadas sob a tutela do FMI, podemos, enfim, avançar nesse terreno.

Os PAEs podem ter efeitos demográficos diretos ou indiretos e são modelos de sinergia. Eles favorecem por exemplo a exportação de produtos agrícolas, o que encarece o preço dos alimentos, diminui as rações alimentares e, conseqüentemente, a resistência a doenças. As mulheres podem ser obrigadas a se prostituir para sobreviver, e assim contrair e propagar a AIDS. Efetuam-se freqüentemente reduções orçamentárias nos setores de saúde pública, saneamento e coleta de lixo, tendo como conseqüência a volta da malária e de outras doenças. Os baixos salários interditam o acesso à saúde paga e aos medicamentos.

Quando os mercados são liberados rapidamente, sob pressão ou não, cria- se um clima favorável a um aumento da taxa de mortalidade e a uma diminuição da taxa de fertilidade. Em certos lugares, a esperança de vida já diminuiu de maneira surpreendente, como na antiga União Soviética, onde o emprego e os serviços sociais receberam violentos golpes orçamentários: a expectativa de vida diminuiu em cinco anos. Há dez anos, o Unicef afirmou que a dívida acompanhada dos PAEs ocasionariam a morte de meio milhão de crianças a mais por ano, ainda que essa cifra não possa ser conferida.

Os países ocidentais formam a grande maioria no conselho de administração do FMI. Ao contrário do Banco Mundial, o Fundo nunca cedeu às pressões destinadas a agradar às massas, e o Grupo de trabalho sugere que as conclusões deste Relatório sejam comunicadas a quadros do FMI, criteriosamente escolhidos nas altas esferas de sua hierarquia, os quais deverão simpatizar com as conclusões dele.

Os capitais financeiros privados podem igualmente representar um papel positivo, criando condições que favoreçam o declínio da população. Contrariamente aos investimentos em usinas e equipamentos, as compras de ações e de obrigações dizem respeito à liquidez, e o investidor pode se retirar do dia para a noite desse mercado. Durante a crise financeira do México, no final de 1994, a desvalorização do peso que a seguiu levou uma série de empresas à falência, fez disparar as taxas de juros, provocou bancarrotas e demissões em massa. O consumo de alimentos diminuiu 25%, a taxa de suicídios atingiu novos picos e os crimes violentos tornaram-se muito mais comuns. Uma situação similar se desenvolve atualmente na Rússia e está se repetindo na Tailândia, na Coréia, na Indonésia e em outros lugares do Sudeste da Ásia. Os mercados impõem a ordem instantaneamente; eles mantêm, seja como for, eleições permanentes.

Essas medidas financeiras públicas ou privadas, bem empregadas, podem conduzir a um controle das populações e acabar favorecendo as estratégias de “corte”. Mas, quaisquer que sejam as vantagens desses ajustes e/ou a versatilidade dos investimentos financeiros, eles não podem sozinhos fazer todo o trabalho. Essas medidas devem ser acompanhadas por uma ordem política remodelada a serviço da nova ordem econômica mundial.

 

۩  O pilar político

 

Os ajustes estruturais, por mais úteis que sejam, são necessariamente atributos do sistema de Estado-nação no qual um governo, mesmo quando colocado sob a tutela do FMI ou do Banco Mundial, mantém-se como entidade e ponto de referência. Até hoje, os Estados cooperaram mais ou menos de boa vontade com os programas de liberalização. As nações menores e mais frágeis não tinham outra escolha; outras tentaram se rebelar contra as drásticas medidas econômicas que lhes foram impostas O quadro não e uniforme, e muito pode depender das convicções ideológicas dos dirigentes nacionais O fato e que em muitos paises o método malogrou.

O erro não é do FMI ou do Banco. Ambos executaram um excelente trabalho pioneiro, mas foram também obrigados a funcionar em um ambiente político instável e ambíguo. A legitimidade dessas instituições voltou a ser colocada em questão não somente pelos movimentos populares, mas também pelos governos. As autoridades políticas mundiais do momento não estão em condições de impor regras adequadas para resolver os problemas manifestos de hoje, e estarão ainda menos amanhã, quando as estratégias de controle populacional estiverem operantes.
O objetivo deve ser a substituição do modelo, hoje ultrapassado do Estado-nação. O final do século XX assistiu ao triunfo parcial da econo mia globalizada; a tarefa do século XXI será criar uma estrutura política mundial legítima, universalmente reconhecida, que a sustentará e aperfeiçoará. Quaisquer que sejam os seus defeitos, um FMI renovado constituirá provavelmente uma peça vital para esse quadro. Ele deverá se servir de crises financeiras sucessivas para reforçar a sua autoridade doutrinária e o seu poder de coerção.

Como vimos, a Organização Mundial do Comércio (OMC) abre o caminho de maneira inovadora e revolucionária. Pela primeira vez, um organismo internacional desfruta de um genuíno poder judiciário para solucionar as disputas entre todos os seus membros, ricos ou pobres, grandes ou pequenos fracos ou poderosos.

Outro elemento positivo desse processo é o Acordo Multilateral sobre Investimento (AMI). O AMI teria podido mostrar as presas ao governo econô mico mundial criando um cenário transnacional de pressão para o investi mento das empresas privadas que sobrepujasse as leis nacionais.

É necessário que o AMI mostre de fato as suas presas e seja ratificado o mais cedo possível. Como declarou um alto funcionário: “Não nos esqueça mos de que se trata apenas de uma etapa, como o GATT em 1947. O AMI deve ser o núcleo de uma constituição econômica mundial. Nós entramos em um processo de dimensões históricas”. Esperamos que ele seja ouvido finalmente.

Tomados em conjunto, e considerando que esses organismos se consultem e colaborem entre si, o FMI, a OMC e o AMI poderiam desempenhar o papel precursor de um Ministério Internacional das Finanças, do Comér cio e dos Investimentos. Porque se trata efetivamente de um início. Eles próprios não bastariam para constituir um governo mundial que dispusesse de meios universais para se fazer respeitar.

O limiar do milênio está repleto de perigos. Os Estados-nações foram incontestavelmente enfraquecidos, ainda que nenhum poder político supranacional autêntico e reconhecido viesse a substituí-los. Como preencher esse vazio?

• O mercado mundial deve continuar a ser o grande princípio organizador da sociedade. Contudo, contrariando a opinião dos apologistas mais dogmáticos, o mercado não pode se auto-regulamentar por completo. Ele deve ser dirigido e canalizado com o objetivo de preservar o seu futuro e o nosso. Esse princípio é particularmente válido no setor dos mercados financeiros. Talvez ainda seja cedo para recomendar a implantação de uma moeda mundial, mas o certo é que necessitamos todos de um executivo forte, capaz de agir com rapidez e autoridade, de tomar decisões econômicas e políticas de alcance universal e colocá-las em prática.

• Um executivo assim deveria ter o encargo de regulamentar os merca dos financeiros, talvez pela volta de um banco de regulamentos inter nacionais revigorado. Esses mercados deveriam também ser instituídos com o propósito de captar rendimentos para o funcionamento do executivo.

• As empresas transnacionais deverão participar ativamente da concepção de novas estruturas políticas e também de sua instalação, como já faziam na OMC e no AMI. Todavia, é necessário que elas nunca sejam vistas como donas do poder.

• A Comissão Européia, que é representante formal dos governos mas não tem responsabilidade em relação ao Parlamento Europeu, e muito menos em relação aos parlamentos nacionais, poderia servir inicial- mente como modelo de um executivo transnacional.

• O G7 deveria cogitar em representar um papel como esse. Os altos cargos do G7 já não são mais reservados exclusivamente aos chefes de Estado, mas congregam também ministros das Finanças (ou outros). Uma congregação de altos funcionários deveria ser a próxima etapa; eles teriam por mandado específico o desenvolvimento dos sistemas de tomada de decisão coletiva sobre questões delicadas.

• Manipulada com habilidade, a ONU poderia ser utilizada para ajudar a constituir um executivo mundial. Se esse enorme número de organismos internacionais fosse reestruturado, fundido e reduzido, se as próprias Nações Unidas elaborassem um modelo de coleta de in formação e de tomada de decisão da empresa privada, ela poderia dar uma certa legitimidade aos processos visando à instauração de um executivo internacional. O atual secretário-geral parece inteiramente receptivo a essa mensagem.

• Apesar da clara necessidade de um executivo forte, o mundo é hoje complexo demais para admitir os organismos legislativos internacionais. É preciso considerar a democracia um hiato de dois séculos entre formas diferentes de governos necessariamente mais autoritários.

• Todavia, devia-se permitir às organizações não-governamentais (ONGs) que mantivessem um estatuto “consultivo” dentro do quadro de uma organização oficial, tomando assento nesta a intervalos regulares. Os representantes desse foro permanente das ONGs poderiam ser eleitos ou não, de acordo com as políticas de cada Estado membro. Aprova do com sucesso no decorrer de numerosas conferências da ONU ocorridas durante a década de 1990, esse método demonstrou-se capaz de tornar as ONGs mais “construtivas” e “responsáveis” ou seja, muito menos radicais, provocadoras e indisciplinadas.

• O único setor tradicional do governo que será melhor deixar ao cargo do Estado-nação é a justiça, incluindo a jurisdição da polícia e a manutenção da ordem local, o sistema dos tribunais, das prisões, etc.

• Toda ordem política deve se apoiar em uma força militar. O Pentágono com a coordenação da National Security Agency e uma OTAN ampliada, parece destinado a representar esse papel. Ele deveria manter estabelecimentos militares de segunda fileira confiáveis em certos Estados clientes em áreas culturalmente diversas em civilizações que não sejam ocidentais.

É necessário que o AMI mostre de fato as suas presas e seja ratificado o mais cedo possível. Como declarou um alto funcionário: “Não nos esqueça mos de que se trata apenas de uma etapa, como o GATT em 1947. O AMI deve ser o núcleo de uma constituição econômica mundial. Nós entramos em um processo de dimensões históricas”. Esperamos que ele seja ouvido finalmente.

Tomados em conjunto, e considerando que esses organismos se consul tem e colaborem entre si, o FMI, a OMC e o AMI poderiam desempenhar o papel precursor de um Ministério Internacional das Finanças, do Comércio e dos Investimentos. Porque se trata efetivamente de um início. Eles próprios não bastariam para constituir um governo mundial que dispusesse de meios universais para se fazer respeitar.

O limiar do milênio está repleto de perigos. Os Estados-nações foram incontestavelmente enfraquecidos, ainda que nenhum poder político supranacional autêntico e reconhecido viesse a substituí-los. Como preencher esse vazio?

• O mercado mundial deve continuar a ser o grande princípio organizador da sociedade. Contudo, contrariando a opinião dos apologistas mais dogmáticos, o mercado não pode se auto-regulamentar por completo. Ele deve ser dirigido e canalizado com o objetivo de preservar o seu futuro e o nosso. Esse princípio é particularmente válido no setor dos mercados financeiros. Talvez ainda seja cedo para recomendar a implantação de uma moeda mundial, mas o certo é que necessitamos todos de um executivo forte, capaz de agir com rapidez e autoridade, de tomar decisões econômicas e políticas de alcance universal e colocá-las em prática.

• Um executivo assim deveria ter o encargo de regulamentar os merca dos financeiros, talvez pela volta de um banco de regulamentos inter nacionais revigorado. Esses mercados deveriam também ser instituídos com o propósito de captar rendimentos para o funcionamento do executivo.

• As empresas transnacionais deverão participar ativamente da concepção de novas estruturas políticas e também de sua instalação, como já faziam na OMC e no AMI. Todavia, é necessário que elas nunca sejam vistas como donas do poder.

• A Comissão Européia, que é representante formal dos governos mas não tem responsabilidade em relação ao Parlamento Europeu, e muito menos em relação aos parlamentos nacionais, poderia servir inicial- mente como modelo de um executivo transnacional.

O G7 deveria cogitar em representar um papel como esse. Os altos cargos do G7 já não são mais reservados exclusivamente aos chefes de Estado, mas congregam também ministros das Finanças (ou outros). Uma congregação de altos funcionários deveria ser a próxima etapa; eles teriam por mandado específico o desenvolvimento dos sistemas de tomada de decisão coletiva sobre questões delicadas.

Manipulada com habilidade, a ONU poderia ser utilizada para aju dar a constituir um executivo mundial. Se esse enorme número de organismos internacionais fosse reestruturado, fundido e reduzido, se as próprias Nações Unidas elaborassem um modelo de coleta de informação e de tomada de decisão da empresa privada, ela poderia dar uma certa legitimidade aos processos visando à instauração de um executivo internacional. O atual secretário-geral parece inteiramente receptivo a essa mensagem.

• Apesar da clara necessidade de um executivo forte, o mundo é hoje complexo demais para admitir os organismos legislativos internacionais. É preciso considerar a democracia um hiato de dois séculos entre formas diferentes de governos necessariamente mais autoritários.

• Todavia, devia-se permitir às organizações não-governamentais (ONGs) que mantivessem um estatuto “consultivo” dentro do quadro de uma organização oficial, tomando assento nesta a intervalos regulares. Os representantes desse foro permanente das ONGs poderiam ser eleitos ou não, de acordo com as políticas de cada Estado membro. Aprovado com sucesso no decorrer de numerosas conferências da ONU ocorridas durante a década de 1990, esse método demonstrou-se capaz de tornar as ONGs mais “construtivas” e “responsáveis” ou seja, muito menos radicais, provocadoras e indisciplinadas.

• O único setor tradicional do governo que será melhor deixar ao cargo do Estado-nação é a justiça, incluindo a jurisdição da polícia e a manutenção da ordem local, o sistema dos tribunais, das prisões, etc.

• Toda ordem política deve se apoiar em uma força militar. O Pentágono com a coordenação da National Security Agency e uma OTAN ampliada, parece destinado a representar esse papel. Ele deveria manter estabelecimentos militares de segunda fileira confiáveis em certos Estados clientes em áreas culturalmente diversas em civilizações que não sejam ocidentais.

• Caberá às tecnologias de informação o papel principal para construir e consolidar uma ordem mundial remodelada. As elites já estão ligadas por redes particulares, e essas ligações ficarão necessariamente mais fortes quando a necessidade de consultas e tomadas de decisões políticas de alcance mundial se tornarem ainda mais urgentes. Da mesma maneira, a tecnologia da informação aumentará a vigilância sobre todas as formas de oposição; facilitará a infiltração nelas e o seu desmembramento.

A noção de cidadania deverá ser redefinida (com ou sem a ajuda do pilar ideológico; ver acima) e será preciso empregar intensamente as redes de informações interativas, as quais são facilmente manipuláveis, para criar a ilusão de que o povo participa das deliberações. Ainda uma vez, os instrumentos desse controle político deverão ficar tão invisíveis quanto possível aos olhos dos controlados, sem o que a gestão planetária e até o bom funcionamento do mercado correm o risco de ser colocados em questão. A cena internacional seria então de desordem, confusão e anarquia.

 

۩  O pilar psicológico

 

Esse último pilar está profundamente ligado às questões ideológicas e éticas apresentadas anteriormente. As psicologias individuais e de grupos, a “bata lha para os corações e os espíritos” merecem contudo dedicação exclusiva. encaminhadas de maneira conveniente, essas psicologias podem contribuir para criar um clima favorável para a hostilidade entre os grupos, o que pode ria levar à redução populacional. Paradoxalmente, a psicologia individual pode também favorecer a globalização.

O instrumento psicológico mais útil para esses objetivos é a “política de identidade”, como a chamamos no Ocidente. Seria ideal que os indivíduos, onde quer que venham a se encontrar, passassem a se identificar estreita- mente com um subgrupo étnico, sexual, lingüístico, racial ou religioso, em detrimento de sua nacionalidade, de sua identificação com uma classe social ou profissional de seu país, e em detrimento mais ainda de sua identificação como membro da “espécie humana”. Cada indivíduo deveria se sentir pertencente, antes de tudo, a um grupo bem definido, e apenas em seguida como trabalhador, membro de uma comunidade, como pai, como cidadão de uma nação ou do mundo. É necessário lutar ativamente, em todos os níveis, contra a noção de cidadania.

Uma parte da ofensiva ético-ideológica planejada acima deverá ser consagrada a garantir a sustentação material e moral dos porta-vozes mais agressivos e que exprimam com melhor sagacidade os pormenores dessa ofensiva, seja ela sexual, racial, religiosa ou étnica Esses porta-vozes deverão ter amplo acesso aos meios de comunicação, com programas específicos que serão cria dos e financiados se não se manifestarem espontaneamente.

De quem estamos falando? De negros, brancos, amarelos, mestiços; homossexuais de ambos os sexos, das feministas, dos falocratas; dos judeus, cristãos, hindus e dos muçulmanos fundamentalistas e partidários da supre macia; e também de grupos profissionais vulneráveis e menosprezados, como motoristas de caminhão e policiais. Cada um terá o seu jornal, a sua revista, a sua rádio, o seu espaço na televisão, a sua página na Internet, e todos estarão, acima de tudo, preocupados em defender os seus “direitos”. “Direi tos” que deverão ser concebidos não apenas de forma negativa (por exemplo, o direito de não sofrer perseguições, violência ou discriminação), mas tam bem de forma positiva (ou seja, o direito a um tratamento particular em nome de erros passados ou presentes reais ou imaginários), até que se atinja o direito de desfrutar de um Estado separado.

Já que praticamente todos os grupos identificáveis do planeta foram vítimas um dia ou outro, em maior ou menor grau, de um outro grupo ou simplesmente de condições históricas e/ou geográficas particulares, os clamores que se erguerão deverão criar um barulho tão ensurdecedor, que nenhuma outra chamada às armas poderá ser entendida. O objetivo é reforçar a fragmentação, ressaltar as diferenças entre os grupos e criar guetos, quer se fundamentem ou não nos fatos ou nas tradições. Contrariamente às idéias aceitas, a maior parte das identidades, e em particular as chamadas “identidades étnicas”, têm raízes históricas bem frágeis e, na maior parte dos casos, são de criação recente. Identidades são mais ou menos como Deus: mesmo que não existam, são extremamente poderosas, a ponto de pessoas até se matarem em nome delas.

O meio mais rápido para se criar um forte e belicoso sentido psicológico de separação é garantir que um número suficientemente grande de membros do grupo X seja humilhado ou morto por membros do grupo Y ou acredite que foram cometidas certas barbaridades ou impostas humilhações. Embora tais tensões não sejam sempre fáceis de se manipulara o mundo contemporâneo fornece vários exemplos de circunstâncias em que diferenças étnicas ou religiosas duvidosas vieram à tona e se alastraram com sucesso. Ódio acirrado entre grupos e conflitos em andamento podem agravar tendências racistas existentes, e as provocações tornam os grupos mais inclina dos à violência.

A política de identidade apresenta duas vantagens notáveis: Em primeiro lugar, exacerbando todos os tipos de tensões no interior das comunidades, ela cria as condições que dão origem aos conflitos internos e às guerras civis. Mesmo quando essas tensões não chegam tão longe quanto à guerra aberta, elas mantêm as facções em ódio mútuo, e longe dos verdadeiros atores da cena mundial, que se tornam praticamente invisíveis para elas.

Em segundo lugar, ela neutraliza a solidariedade e faz com que a oposição às estratégias que recomendamos se torne extremamente problemática; dificulta ou impossibilita as alianças nacionais ou internacionais e afasta o recurso à política autêntica.

No lugar de se perguntarem o que  , é necessário que os indivíduos se preocupem sobretudo com o que eles são. A globalização econômi ca e política prosseguirá sem impedimento enquanto as pessoas continuarem psicologicamente cegas ao que se passa, e não haverá nenhum grupo de cidadãos no mundo para se lhe opor.

É suficiente lembrarmos a exortação do Mando Partido Comunista: “Proletários de todos os países, uni-vos!” Ou do grito dos estudantes parisienses em maio de 1968: “Somos todos judeus alemães!”, quando o governo francês tentou colocar o líder estudantil Daniel Cohn-Bendit sob censura especial invocando sua religião e sua cidadania. A situação ideal é aquela na qual os futuros Cohn-Bendits vierem a se sentir eles próprios “judeus alemães” (ou seja lá o que mais) e se consagrarem a resolver os problemas do grupo ao qual pertencem, excluindo os outros, enfrentando sempre que possível outros grupos nacionais, religiosos ou étnicos.

Da mesma forma, os dirigentes potenciais que pretenderem adotar estratégias de solidariedade e universalidade, como os que insistem em um nacionalismo exclusivista, fundado no conceito de cidadão, deveriam ser desacreditados no plano pessoal a fim de que percam a confiança de seus vizinhos, estudantes, trabalhadores ou colegas, sobretudo por causa de sua “raça”, de suas origens étnicas, de suas preferências sexuais ou de sua probidade financeira.

Trabalhos científicos recentes abriram novas perspectivas para essas questões e deveriam ser cuidadosamente seguidos na prática desse processo “imperativo de redução”. A teoria dos jogos e a primatologia, em particular, ajudam a explicar como e por que os seres humanos cooperam e vivem em sociedade. As simulações em computadores de certas estratégias de jogo (“é dando que se recebe”, “cooperação condicional”, “quem perde ganha “ousado, mas justo” e assim por diante) mostram que se pode provocar ou atitudes conciliadoras, e uma cooperação que se prolonga indefinidamente, ou, de outra maneira, desencadear uma série de recriminações mutuas intrica das que levarão ao ódio e a uma “rixa de sangue” A construção do pilar psicológico se beneficiará do estudo aprofundado dessas estratégias e de seus resultados.

Com esses pilares solidamente colocados, como esperamos, poderemos então nos voltar para os elementos concretos da grande estratégia de redução populacional.

O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo

Susan George

Detalhes e preço deste livro

O Relatório Lugano

Susan George

Detalhes e preço deste livro

Principal - Leonildoc - OCW Br@sil - Direito-USP