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Conclusões |
Laymert Garcia dos Santos
O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo
Desde o alvorecer da civilização ocidental, seus líderes interessaram-se corretamente pelo controle populacional. Platão acreditava que manter a população estável era um dos principais deveres que os governantes em A República deviam assumir. Ele chega a elaborar com minúcias as regras da eugenia, aplicáveis às diversas classes, com o propósito de melhorar a raça, preservar a estabilidade numérica e assegurar o equilíbrio político. As instruções de Platão garantem que as classes superiores constituem as mais inteligentes e as melhores, tendo mais possibilidades de procriar do que as classes inferiores.
No século V a.C., a taxa de mortalidade era geralmente igual, e às vezes superior, à taxa de natalidade; guerras e epidemias podiam causar devastação, e os governantes deviam empregar todos os tipos de subterfúgios se quisessem manter o Estado e a proporção de habitantes em seu tamanho ideal. Para essa finalidade, diz Sócrates, “os dirigentes serão obrigados a usar livremente da mentira e da traição para o bem dos governados”
Nossos dirigentes atuais parecem ter perdido completamente de vista a necessidade de manter o equilíbrio populacional, e, no lugar de mentir aos cidadãos para o bem desses mesmos cidadãos, a maior parte do tempo pare cem mentir para si próprios. Seja por covardia, seja por ignorância, eles se esforçam para acreditar que o próprio mercado é capaz de levar a felicidade, a riqueza e o bem-estar para todo o mundo, mesmo quando se deparam com o incrível crescimento do número de pessoas que ganharam essas recompensas.
Assim os governantes transmitem continuamente aos governados uma mensagem tácita, sutil, que não foi verificada, a saber: a ordem econômica neoliberal pode ser aplicada a todos, em qualquer lugar, por mais numerosos que eles sejam hoje ou possam vir a ser amanhã. Se, por um acaso, a ordem econômica de alguma maneira deixar de fora um grande número dessas pessoas, isso será devido ao desequilíbrio e à disfunção temporária, que serão logo corrigidos pela aplicação das políticas apropriadas. A exclusão de qual quer um dos benefícios de mercado é, dessa forma, tida como temporária e não deveria ser, de forma alguma, atribuída à natureza do próprio sistema.
Nós contestamos essa mensagem. Da mesma maneira o fariam, sem dúvida, os mais lúcidos de nossos “governantes”, se se dessem ao trabalho de refletir sobre a natureza do mercado capitalista e do sistema econômico que escolhemos. A doutrina do liberalismo lembra os Evangelhos: “são muitos“ os chamados e poucos os escolhidos; ainda que o mercado talvez aplique normas um pouco mais generosas do que Deus. Todavia, afirmamos que o neoliberalismo global não pode escolher a todos, nem mesmo nas nações mais prósperas. Em nenhum caso ele pode integrar uma população mundial de seis a oito bilhões de indivíduos.
Antigamente, antes da globalização, os processos econômicos
eram todos nacionais e dependiam da adição. Produção e distribuição significavam
acrescer valor combinando-se diversos elementos, essencialmente matérias-primas,
capital e trabalho. De acordo com máxima de Henry Ford, as pessoas “recebiam o
suficiente para comprar os carros que nós produzimos”.
Na era da globalização, precisamente porque se tornaram internacionais, esses
processos econômicos dependem da subtração. Acrescentam valor (lucro) utilizando
menos elementos, sobretudo mão-de-obra, do que os con correntes estrangeiros.
Temos a vantagem de substituir o trabalho pelo capital e pela informação. Quando
a mão-de-obra representa 70% de todas as despesas de uma empresa, como acontece
nos Estados Unidos, o sucesso internacional requer corte de produção, redução de
pessoal e diminuição de vagas.
Quanto mais baixa é a taxa de ostracismo, ou seja, de exclusão do siste ma, mais elevados são os custos de produção e menores os lucros. E, quan to mais eliminarmos elementos humanos dispendiosos (a mão-de-obra), correspondentemente maior será o retorno financeiro. Essa verdade, nós a comprovamos todos os dias no andamento das bolsas, em que a confiança do investidor em uma empresa e reflexo da ação dessa mesma empresa em enxugar” o seu quadro de funcionários.
Esse sistema só pode funcionar sob a forma de um conflito permanente entre os produtos, as empresas e os indivíduos. Quanto menor o número de pessoas entre as quais dividir a riqueza, maiores as recompensas a serem distribuídas entre os bem-sucedidos. Cada um entra em uma competição não somente com o seu vizinho, mas com estrangeiros que vivem a milhares de quilômetros de distância e com quem nunca se encontrará.
Sendo o lucro o objetivo e o motor desse sistema, devemos deixar às empresas a liberdade de o perseguir. A empresa pertence aos que investiram capital comprando suas ações. Digam o que quiserem os moralistas, a em presa não pertence aos seus empregados, da mesma forma que não pertence aos fornecedores, ou à aldeia, cidade ou país onde o acaso quis que ela se encontrasse. É assim, sem dúvida, que deve ser, mas não se pode ter tudo de uma vez só. A mão-de-obra, os fornecedores, a comunidade local e o país deverão aceitar sacrifícios.
Mesmo se as nações ricas continuarem relativamente ricas em relação às outras, nem todos os seus cidadãos poderão se beneficiar de uma nova geração de riqueza. Numerosos serão deixados de lado. Quanto aos povos das nações mais pobres e mais vulneráveis, eles sujeitar-se-ão a um grau maior e menor de distribuição da miséria e a um grau sempre pequeno de distribuição de empregos, o que criará uma desordem cada vez mais explosiva.
Em todos os países, sejam ricos ou pobres, o ostracismo econômico e a dialética dos “incluídos” e dos “excluídos” darão lugar a comportamentos destrutivos, compreendendo o crime, o êxodo e o terrorismo. Vastas partes do mundo, como já esboçamos anteriormente, serão reduzidas ao estado natural de Hobbes*. Na guerra de todos contra todos, o Estado e às vezes até mesmo o mercado serão incapazes de funcionar.
Nossos dirigentes atuais recusam-se a admitir esses fatos, talvez porque precisem pensar o impensável. A conseqüência é que eles mentem àqueles a quem governam, mas acima de tudo mentem a si mesmos.
A legitimidade do crescimento da população
Já propusemos o seguinte problema: é legítimo que cada um seja livre para buscar a máxima vantagem pessoal pelo poder de se reproduzir, sejam quais forem as conseqüências disso para o bem geral?
As noções de legitimidade e ilegitimidade fazem lembrar a lei, a autoridade e as normas. Com raras exceções, o tamanho dos povos e das famílias nunca foi submetido a uma legislação nacional ou a decretos. Se procurar mos colocar esse problema em um contexto de legitimação, o da lei inter nacional e da Declaração Universal dos Direitos do Homem das Nações Unidas, que são os mais elevados, veremos que esses organismos têm pouco a nos oferecer.
O artigo 16 da Declaração fala do casamento e da família, e declara a igualdade dos direitos do casal, afirmando que “a família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado”. Nada diz do tamanho das famílias. Tampouco o artigo 25, que promulga uma verdadeira carta de direitos para o bem geral do Estado:Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe, e à sua família [ nossos], saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e o direito à previdência em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle.
A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mes ma proteção social.
Uma vez mais, a capacidade de se reproduzir dos indivíduos não é levada em consideração: a avalanche dos “direitos” declarados se aplica ao próprio indivíduo e à sua família. Se alguém tem oito filhos e não é capaz de lhes oferecer “alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos”, então, segundo a Declaração Universal, o dever de o fazer pertence à sociedade como um todo.
Em 1948, quando os signatários da Declaração se reuniram em assembléia, a população mundial era de cerca de 2,5 bilhões de habitantes. Na época, esse objetivo era utópico; hoje, ele está completamente fora de questão: é impossível garantir esses “direitos” para seis bilhões de pessoas, cuja maior parte vive na miséria. Em 50 anos, a Declaração Universal dos Direi tos do Homem tornou-se um documento com contradições insolúveis, pois no artigo 28 ela afirma igualmente que “Todo homem tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados”. Claro que os signatários não consideraram que poderiam ter de escolher entre uma liberdade sem entraves para a reprodução e uma ordem social e internacional (sem falar de uma ordem ecológica) à beira da ruína.
No entanto, homens sensíveis e responsáveis, como Sócrates e Platão, logo perceberam que a multiplicação descontrolada da população provoca tensões inaceitáveis para a ordem social. Aristóteles, por sua vez, ressaltou que nenhum dos “Estados conhecidos onde reina a ordem apresenta uma população excessiva”. Para os cidadãos, um bom governo significa “a manutenção exemplar da ordem entre eles”, e “o excesso em números não os conduz à ordem”. Se a polis é superpopulada, as leis, se são boas, são ineficazes, e só a “divina providência” seria capaz de restabelecer a ordem.
Parece pouco provável que a divina providência restabeleça a ordem nas nossas cidades terrenas. Quanto mais a população aumenta, menos o bom governo e as boas intenções declaradas pelas Nações Unidas terão como se impor, e ainda menos o terá uma ordem internacional que garanta os direitos que a ONU preconiza. Esse aumento da população é incompatível com os direitos do homem como os signatários os definiram na Declaração Universal.
Se, por um lado, a Declaração Universal parece aprovar ou, pelo menos, justificar a explosão demográfica, por outro não dispõe de autoridade correspondente ou de uma instituição internacional que possa legitimamente intervir para remediar o problema. Belos discursos diante da Assembléia da ONU não custam nada. Nunca se propuseram contratos justos de obrigações, nem mesmo de ações. Os burocratas internacionais não exercem nenhuma influência moderadora sobre o crescimento da população, e não se pode esperar nada das relações intergovernamentais.
Um e outro Estado, internamente, ainda estimulam, de forma direta ou indireta, a liberdade desenfreada de reprodução. Em muitos países pobres e superpopulados, o Estado se vale de seu poder de coerção para manter as mulheres em uma condição servil e proíbem os contraceptivos, ou impedem que mesmo as informações sobre o assunto transponham certos limites. Os Estados particularmente atrasados persistem em pensar, equivocadamente, que uma superioridade numérica os torne, no final das contas, mais poderosos. Tal foi o caso, por exemplo, da Romênia durante a ditadura comunista, e esse parece ainda ser o caso em certos países árabes.
Na sua maioria, contudo, os Estados do hemisfério Sul já ultrapassaram seus limites. Eles raramente dispõem de uma política demográfica digna desse nome. Numerosos são os governos que efetuaram cortes claros nos orçamentos dos serviços de saúde pública e de planejamento familiar para responder às exigências de ajustes estruturais, de reembolso da dívida e de disciplina financeira. Por ironia, eles freqüentemente se endividam para tentar impedir, em primeiro lugar, uma queda no nível de vida motivada por um crescimento descontrolado da população. Alguns governos, como os da Indonésia e do Chile, lançaram campanhas sérias para limitar o crescimento de sua população. A China se esforça igualmente para fazê-lo, mas a desobediência às diretrizes da autoridade é constante, tanto na cidade como no campo. Milhões de famílias chinesas ultrapassam os limites teóricos de re produção, e a política de “um filho por família” é sistematicamente violada.
A forte preferência por uma prole masculina, na maior parte dos países do Sul, aumenta ainda mais a taxa de nascimentos. Em certas regiões da Ásia, encontramos até treze meninos para cada dez meninas. Aparentemente, ninguém se pergunta quem vai querer se casar com os três meninos a mais. Faltam vontade e meios para combater a superpopulação nos países em que ela alcança os níveis mais dramáticos. É por isso que nascem, a cada ano, milhões de seres humanos cujas perspectivas de futuro são ainda mais sombrias do que as que seus pais enfrentam no presente.
No Norte, os Estados são também afetados profundamente pela crise demográfica, mesmo que não tenham plena consciência disso. Quanto à contenção desse problema, o Norte tem se mostrado tão impotente quanto o Sul. Os Estados Unidos, por receio de ofender os movimentos contrários ao aborto (denominados “pró-vida”) no país, recusam-se a subvencionar o controle de natalidade em seus programas de ajuda internacional. Fundações particulares americanas bem que tentam preencher esse vazio, mas não podem substituir uma política estrangeira rígida.
Numerosos ministérios do interior dos países da OCDE tornaram-se verdadeiros ministérios da imigração; contudo, não sabem nem mesmo como enfrentar a sua população de imigrantes. Estes, pelo menos nas duas primeiras gerações, são muito mais prolíficos do que seus vizinhos de raça autóctone. Os países para os quais eles afluem nunca elaboram programas de planejamento familiar especificamente destinados a responder às suas necessidades, e nem sequer chegam a diminuir os incentivos destinados à maternidade, como por exemplo a redução ou supressão das gratificações familiares ou dos benefícios fiscais associados ao tamanho das famílias.
As famílias de imigrantes, por serem muito grandes, são estatisticamente mais pobres. Elas sofrem freqüentemente de problemas de escolarização e de níveis de educação escolar inferiores aos da média; moram muito mal e encontram-se praticamente confinadas em guetos; a formação profissional de seus membros é inferior, e representam taxas de desemprego superiores às da média. Todos esses fatores se expressam por uma atividade anormal nos tráfegos ilícitos de todo gênero, por meio da formação de quadrilhas, da peque na criminalidade e, mais raramente, mediante um terrorismo muitas vezes relacionado com conflitos políticos de seus países de origem.
Porém é necessário dizer, em seu favor, que a grande maioria desses imigrantes não participa de atividades ilegais; sujeita-se ao trabalho clandestino pôr salários de miséria e sem proteção social. Quem se refere a emprego ilegal refere-se a empregadores ilegais, que estão, muitas vezes, em contato com as m ativas do contrabando de pessoas, fenômeno tolerado por governos que têm consciência de que suas empresas precisam dessa mão-de-obra barata para permanecer competitivas. Fechamos os olhos, a corrupção se espalha, os crimes ficam impunes e, a torto e a direito, os trabalhadores imigrados são criticados por concorrer injustamente ao mercado de trabalho e, além do mais, por rebaixar o valor dos salários.
Os políticos extremistas prosperam dos dois lados. Sentindo-se rejeita dos no seu país adotivo, os estrangeiros estão sujeitos a procurar refúgio em práticas culturais e religiosas exacerbadas, o que os torna ainda menos aceitáveis aos olhos da população autóctone, criando, assim, um círculo vicioso.
Esses estrangeiros, em cuja assimilação os Estados do Norte não acreditam, representam uma pequena fração daqueles que logo procuram migrar por causa do efeito de desastres políticos, econômicos e ecológicos que atingem sua sociedade. Já que o dinheiro que eles enviam a seus países de origem ajuda os governos desses países a conter suas precárias finanças, não há razão para que o país procure evitar a emigração, apesar das promessas que faz aos países do Norte, quando não os extorque em troca de barrar essa emigração. De uma maneira ou de outra, o crescimento demográfico torna-se um artigo de exportação.
Considerados em conjunto, os fenômenos da superpopulação no Sul e a presença cada vez mais marcante de imigrantes do Sul no Norte resultam em graves conflitos e implosões culturais. O cenário do “chdque de civilizações” que opõe o Ocidente ao resto do mundo, com justiça, chama bastante a atenção. O primeiro a ter se pronunciado sobre isso, o professor Huntington, já ressaltava o inevitável abismo que se criava entre os e do Ocidente para promover uma cultura ocidental universal e sua incapacidade de fazê-lo. A dinâmica da demografia inclina-se inteiramente para o outro lado.
Talvez por achá-lo evidente, Huntington não afirmou que o sistema capitalista mundial não poderia perdurar se a cultura que o sustenta enfraquecesse. Seu trabalho, contudo, quase não toca questões econômicas. Todavia, esteja ultrapassada ou não, a cultura do capitalismo é, antes de qualquer coisa, ocidental. Ainda que o comerciante tenha sempre existido no decorrer da história, o capitalismo é de outra essência, e muito menos freqüente e predominante no resto do mundo do que se pensa. Ele não é chinês, nem árabe, nem indiano, nem sequer japonês, mas ocidental; historiadores como Fernand Braudel e Joseph Needham consagraram suas vidas a demonstrar isso. “Mercados” não são sinônimos de capitalismo: os mercados podem existir sem o capitalismo, mas o capitalismo depende do mercado para existir.
A cultura capitalista incorpora a noção de risco, a motivação pelo lucro, a necessidade dc acumular; não é somente uma cultura de comerciante, mas também uma cultura de poupador, de investidor e de empresário. Se fosse preciso escolher uma palavra para caracterizá-la, esta seria “concorrência”. Essa cultura guarda em seu seio o amor pela luta e o desejo de se aventurar no desconhecido; a “destruição criadora” é sua obra-prima. Todavia, os países em que a economia de mercado moldou uma cultura capitalista dominante durante séculos hoje mal chegam a representar 10% da humanidade. Isso é um mau presságio para o futuro do sistema.
A perspectiva de uma implosão cultural entre as nações do Ocidente recebeu menos atenção do que o risco de choque nas linhas de falha ao longo das civilizações. O professor Huntington está preocupado na verdade com a extensão das fronteiras culturalmente traçadas; em contrapartida, ele está pouco preocupado com os problemas de imigração e conflitos internos. No entanto, e sem que isso tenha a menor relação com as agressões rotineiras e primitivas (como a dos skinheads) cujas vítimas são os estrangeiros na Europa e nos Estados Unidos, uma dinâmica distorcida está em curso, apontando para conflitos latentes mais profundos que poderão afetar milhões.
Quando, como vem acontecendo com freqüência, a assimilação dos estrangeiros (ou, aliás, dos autóctones) por uma cultura nacional não se dá mais por meio da escola, das igrejas, dos partidos políticos, do exército, das associações civis, do local do trabalho, enfim, por todo o espectro das instituições sociais, ela só pode se realizar, quer se queira quer não, por intermédio da publicidade, da televisão e do consumismo; tudo isso é produto da economia de mercado.
Assim, o próprio conceito de assimilação cultural se torna contraditório. Ir à escola ou à igreja não custa nada, e para participar das atividades de uma associação ou de um partido político só é preciso um pouco de tempo; mas é necessário dispor de rendimentos substanciais para se integrar à cultura mercantil. Milhões ficam de fora, embora sejam constantemente estimula dos e provocados por imagens de consumo.
Vários cientistas sociais já observaram que os centros comerciais e os supermercados são as verdadeiras catedrais da nossa época, e que o número dos seus fiéis não pára de crescer. Mas não são todas as almas que podem participar dessa comunidade de consumidores. Os excluídos não são apenas os estrangeiros, mas também os desempregados, os trabalhadores pobres ou mal remunerados, os que cumprem tarefas sem futuro, os marginalizados, jovens ou velhos: ou seja, os excluídos, os fracassados.
A incapacidade de participar de uma cultura resulta em constantes frustrações que podem se exprimir, cedo ou tarde, por movimentos internos ou externos de cólera. Quando a sua participação atinge um número crítico, os excluídos provocam uma implosão cultural. Aqueles que não podem ser integrados procuram se consolar, às vezes até se vingar, por meio de formas diferentes, exacerbadas e patológicas de particularidades étnicas, fundamentalistas ou outras, nas quais o ódio é dirigido para um único objeto: a cultura política dominante. As milícias privadas dos Estados Unidos são um exemplo disso.
Algumas vezes, uma destruição totalmente sem sentido acaba por predominar. Em certos subúrbios europeus, vemos adolescentes que destroem tudo, inclusive os imóveis onde eles próprios residem, as escolas, as clínicas onde suas famílias recebem tratamento gratuito e as instalações esportivas colocadas à sua disposição.
Todas essas tendências vão de encontro às condições necessárias para a manutenção do sistema liberal mundial no próximo século. Preparamos uma lista sucinta dessas condições, que sozinhas podem garantir o sucesso a longo prazo:
• É necessário garantir empregos estáveis e corretamente remunerados a uma parte muito maior da população. Apesar de a tarefa do mercado ser a geração de lucro e não de empregos, a partir de um certo ponto o número de consumidores diminui e os descontentes começam a criar perturbações perigosas e dispendiosas. Isso precisa ser evitado.
• Para diminuir o risco do choque de civilizações, as disparidades colos sais entre salários pagos por trabalhos similares em níveis similares de produtividade, em diferentes partes do mundo, deverão ser reduzidas drasticamente.
• E preciso integrar as novas gerações à cultura de mercado; para os mais brilhantes, essa iniciação deveria abranger uma formação adequada a um futuro de alta produtividade. Os primeiros empregos correspondentes a esse nível de formação deverão ser numerosos. É necessário, porém, que continuem a existir empregos que não exijam qualificações, para os menos dotados.
• Vários desses empregos poderão ser criados no campo da renovação ecológica. É necessário que cesse a destruição do substrato no meio ambiente. O próprio mercado deverá encabeçar a revolução ecológica se não quiser se arriscar a perder suas matérias-primas. O abastecimento de alimentação, água e energia, em particular, deverão ser suficientes e ter preços acessíveis.
• O Estado deve concentrar sua ação em dois pontos: fornecer infra- estruturas de base e garantir a segurança dos cidadãos. Deverá se envolver o menos possível nas funções de gestão ou de regulamentação. Atualmente, obrigado a enfrentar uma gama variada de crises prestes a explodir, o Estado ultrapassa seus próprios limites.
• Embora as instituições governamentais públicas devam continuar a cumprir um papel, a regulamentação internacional será mais bem assegurada por novas instituições a serviço dos interesses da empresa privada. O planeta vai precisar, e quanto mais cedo melhor, de instituições mundiais capazes de tomar rapidamente decisões executórias; uma tarefa que a ONU, atualmente, não tem estrutura para realizar.
• Como os cidadãos ricos participam cada vez mais dos mercados financeiros, eles deveriam estar preparados para contratar seguros “antiquebra”, cujas garantias seriam constituídas por seus prêmios, acrescidos de uma taxa internacional mínima sobre transações financeiras, taxa que seria administrada por um consórcio internacional de seguro.
• Será necessário obrigar os cultos e as manifestações religiosas a ficar confinados a suas próprias esferas.
• Será preciso dar um fim ao desenvolvimento da economia ilegal, incluindo o tráfico de estrangeiros em situação irregular; se os governos não forem capazes de assumir essa tarefa, ela deverá ser confiada a uma empresa privada.
Essas são as condições mínimas necessárias para o sucesso e a continuidade do capitalismo mundial. No entanto, nas condições demográficas atuais não podemos satisfazer a nenhuma delas. A sua utilização é totalmente incompatível com uma população humana de seis bilhões ou mais.
Contudo, suponhamos que seja decidido que “nós” podemos assegurar a existência de oito a doze bilhões de pessoas. Qual seria a condição dessas pessoas? O que se faria para assegurar a sua existência? Para começar, havendo uma quantidade infinitamente maior de pobres do que de ricos, seria necessária uma interminável transferência entre os produtores de riqueza e os consumidores. Aqueles que não contribuíssem em nada (porque não poderiam) para esse sistema continuariam a esperar que ele respondesse ás suas necessidades. Milhões de pessoas não poderão ser absorvidas pela economia produtiva, mas exigirão que algum tipo de Estado previdenciário tome conta delas.
Se essas populações não estiverem já presentes em massa nos países produtivos, será preciso pagá-las para que aí não cheguem. Onde quer que elas venham a estar, sua presença estará acompanhada da parafernália de uma vasta burocracia administrativa. A taxação nacional e internacional de todos os indivíduos produtivos e das empresas lucrativas alcançaria níveis astronômicos. Em casos de choque entre produtivos e improdutivos, da mesma forma que a erva daninha sufoca a erva boa, o baixo padrão de vida dos pobres abafaria o alto padrão de vida dos ricos.
Para sustentar tal população, nós teríamos igualmente necessidade de uma força policial ecológica planetária e de um sistema judicial rigoroso, de maneira que as medidas de conservação que venham a ser adotadas sejam cuidadosamente respeitadas. Mesmo assim, com oito ou doze bilhões de habitantes na terra, não poderemos impedir um desflorestamento gigantes co, a destruição do hábitat de numerosas espécies, a proliferação em excesso, cidades sem condições de vida e poluídas, a morte de lagos e a morte dos mares causada pelos dejetos industriais e humanos; tudo isso se propagará intensamente por uma população em crescimento constante, até que todos os recursos do planeta estejam devastados e esgotados.
A transferência de renda dos relativamente ricos para os totalmente desprovidos acompanharia inevitavelmente a transferência de poder; o Ocidente deveria abandonar não apenas a sua riqueza, mas também a sua autoridade. Isso acabaria, sem dúvida alguma, com o destino do sistema liberal e asseguraria o seu desaparecimento definitivo. Adotar esse caminho seria autodestrutivo.
Nossos instrutores nos pediram para que fôssemos diretos e explícitos. Eles próprios tirarão as conclusões de nossa análise: não podemos, ao mesmo tempo, sustentar o capitalismo e continuar a tolerar a presença de bilhões de seres supérfluos.
O sentido original de “proletário”, proletarius, é “aquele que serve ao Estado não com os seus bens mas com a sua prole”. O Estado, como o mundo em geral, está hoje mal servido nesse aspecto. O proletarius hoje ajuda a si mesmo tendo filhos; na verdade, no interior dessa camada social, a transferência de riqueza vai dos filhos para os pais, e não, como nas sociedades modernas e evoluídas, dos pais para os filhos. Ele tem vários incentivos para continuar a se reproduzir. Seus descendentes produzirão ainda mais descendentes, acentuando o fenômeno da proliferação, prejudicando o Estado e, por fim, destruindo as comunidades em âmbito local, nacional e mundial.
Aqueles que não puderem participar do sistema por incapacidade ou pela recusa a adotar sua cultura representarão um fardo pesado demais para o sistema em questão e uma verdadeira sangria na massa de indivíduos produtivos. Estes últimos acabarão se recusando a sustentar o enorme e crescente número de improdutivos, mesmo nos níveis insuficientes (do ponto de vista dos improdutivos) em que ela se encontra atualmente. O choque é inevitável, não apenas entre civilizações, mas em todos os nossos espaços sociais de hoje.
O único meio de se garantir a felicidade e o bem-estar da grande maioria das pessoas é a redução do número de habitantes do planeta. Escolha que pode parecer dura, mas que é imposta, a um só tempo, pelo discernimento e pela compaixão. Se desejamos preservar o sistema liberal, premissa de nos sa tarefa, não há outra solução. O resto é ilusão e devaneio.
Consideramos que seguir esse caminho é não apenas imperativo, do ponto de vista econômico, social e ecológico, mas também que se trata de uma decisão moralmente justificável. Um número menor de pessoas vivendo em um meio ambiente com menos tensões significa uma vida melhor para todos. No lugar de um nível de vida em contínuo decréscimo e do reino da anarquia, a norma legal prevaleceria, a busca da felicidade poderia tornar-se uma realidade e o planeta sobreviveria. Esse é o verdadeiro sentido da ex pressão “desenvolvimento sustentável”. São nesses fundamentos que se apóia a segunda parte do nosso Relatório.
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O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo Susan George |
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O Relatório Lugano Susan George |