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Perigos |
Laymert Garcia dos Santos
O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo
Segundo sabemos, nenhum grupo de trabalho jamais se confrontou com uma relação de tarefas tão vasta e desafiadora, de uma só vez, quanto o nosso. Fomos instruídos:
- a identificar as ameaças ao sistema capitalista liberal e os obstáculos para a sua generalização e preservação à medida que adentramos o novo milênio;
- a examinar o presente curso da economia mundial à luz dessas ameaças e obstáculos;
- a recomendar estratégias, medidas concretas e mudanças de rumo com o objetivo de ampliar ao máximo as possibilidades que o sistema capitalista de mercado aberto globalizado proporcionará.
Devemos levar em considerar as ameaças e os perigos na primeira parte deste Relatório e formular propostas e sugestões na segunda.
O grupo aceitará, sem restrições, a premissa dos Grupos de instruções: um sistema liberal globalizado, baseado na economia de mercado, deveria não apenas ser a norma mas o sistema triunfante no século XXI. Vemos um sistema econômico baseado na liberdade e no risco individuais como o guardião de outras liberdades e outros valores.
Aceitamos também o desafio dos Grupos de instruções de deixar de lado, na medida do possível, sentimentos, preconceitos e idéias preconcebidas na elaboração deste Relatório. Acreditamos e esperamos que a nossa bagagem cultural e acadêmica seja bem adequada para a realização desse intento.
۩ Ameaças e obstáculos
As ameaças e os obstáculos à visão liberal são bastante sutis e o sistema corre muito mais perigo do que normalmente se supõe. Protegê-lo, no século vindouro e depois, é algo mais fácil de falar do que de fazer.
Para que não haja mal-entendidos, nós não antevemos o renascimento de um império neo-soviético; antes, duvidamos seriamente de que qualquer sistema politico-econômico mundial alternativo possa razoavelmente competir com a economia global de mercado nos terrenos prático e teórico nas próximas décadas. Um ressurgimento do marxismo, ou de qualquer outro sistema alternativo, é carta fora do baralho. Nem acreditamos tampouco que seja provável que qualquer dogma religioso consiga se sobrepor política ou economicamente, embora possa representar problemas periféricos.
As ameaças ao sistema são mais delicadas do que qualquer afirmação política, ideológica ou de fé. Não basta que esse sistema represente vantagens práticas substanciais e contenha uma legítima coerência teórica. Ninguém pode negar que milhões, hoje em dia, lucram com ele, seja em suas tradicionais fortalezas norte-americanas e européias, seja nas imensas áreas do mundo mais recentemente abertas aos seus benefícios.
Milhões acreditam, ainda mais ardorosamente, que também podem melhorar o próprio destino, pois o capitalismo não é simplesmente uma doutrina econômica e uma realização intelectual, mas também um poder revolucionário e milenar, além de ser uma fonte de esperança, assim como o foi o comunismo um dia. Eis uma outra razão pela qual, em um sentido mais profundo, capitalismo e comunismo eram inimigos mortais.
A aspiração imediata a uma boa vida material provou-se muito mais efi ciente (para não dizer que inspirou mais confiança) do que as promessas do comunismo ou da religião, a oferecerem recompensas para serem gozadas em um radiante futuro indeterminado ou em uma vida após a morte. Nessa competição, o barulho e o clangor do mercado haverão sempre de derrotar os coros terrestres ou celestiais do paraíso postergado. Por que, então, o sis tema de mercado estaria ameaçado? Apresentamos várias razões para isso.
۩ O potencial catastrófico do desequilíbrio ecológico
Os sinais de perigo estão espalhados por toda a nossa volta, embora pouco registrados nos modelos econômicos padrões. A Natureza é o maior obstáculo de todos para o futuro do sistema de mercado aberto e não pode ser tratada como se fosse um adversário. A mensagem deve ser esta: proteger ou perecer.
Estejam os economistas profissionais completamente cegos ou não ao perigo ecológico, eles se comportam como se quanto menos falarem sobre o assunto, melhor. Talvez temam que ao revelar ou analisar essa que é a maior de todas as contradições do nosso sistema econômico prejudiquem a preservação desse sistema, apesar de com isso arruinarem as pretensões científicas de sua própria disciplina e a sobrevivência de suas próprias profissões.
Apesar das limitações das correntes econômicas e da sua grande rejeição, tornou-se claro, desde a obra renovadora de Nicholas Georgescu-Roegen no começo da década de 1970 (logo depois popularizada pelo professor Herman Daly e outros), que as economias devem, em última instância, ser analisadas como fluxo de energia, efetivo ou potencial, e de “entropia”, ou energia dispensável, que não está disponível. Em outras palavras, a economia, como qualquer sistema físico (inclusive o corpo humano), deve ser analisada da perspectiva da Segunda Lei da Termodinâmica.
Essa lei é aplicável pela simples razão de que o nosso sistema econômico é um subsistema do mundo natural e não o contrário. Tornar a economia como um sistema e a natureza como um mero subsistema e, somente a partir daí, examinar os fenômenos da economia usando uma “epistemologia mecanicista” (expressão de Georgescu-Roegen) é um procedimento pura mente artificial. Acreditamos também que seja uma receita para o desastre.
Em mecânica, todos os fenômenos são reversíveis. A
reversibilidade é, de maneira similar, adotada por aproximadamente todos os
economistas neo clássicos, keynesianos e marxistas. Nenhum evento,
aparentemente, deixa uma marca indelével; tudo, em determinado momento, reverte
ao estado inicial”. Como esclarece Georgescu-Roegen, isso não faz sentido.
O processo econômico não é um processo isolado, autotrófico. Ele não pode
funcionar sem que haja um intercâmbio contínuo que altere o meio ambiente de
forma cumulativa, e sem que seja, em contrapartida, influenciado por essas
alterações.
Reconhecer essa verdade fundamental significa reformular drasticamente um cânone acadêmico há muito estabelecido, tarefa que não suscita muito entusiasmo, teórico ou prático.
Nossa tarefa, todavia, não é defender nenhuma profissão, mas descrever o mundo como ele é. Negar as enormes pressões impostas à natureza pela economia capitalista (e ainda mais pela antiga economia socialista) seria tolice. As medidas clássicas da economia tratam do consumo das fontes, renováveis ou não (“capital natural”), como rendimento e contribuições ao crescimento. Crescimento, por sua vez, é considerado bem- estar econômico.
Nesse sistema, uma floresta que é devastada, vendida como lenha, como madeira de corte, como carvão ou para a indústria de móveis e assim por diante, fica registrada apenas na coluna de entradas do livro do caixa. A destruição do capital natural, representado por aquela floresta e pelos serviços por ela prestados, como a capacidade que tem de absorver CO de dar estabilidade ao solo e abrigar uma diversidade de espécies, não é contabilizado em nenhum lugar. O esvaziamento dos estoques de peixe, a diminuição dos nutrientes do solo, dos minerais, da camada de ozônio, das espécies selvagens, das plantas raras, etc., são registrados ou como entradas ou a ser com pensados por subsídios aos produtores, subsídios esses cujo propósito é esgotar ainda mais esses recursos (como nas companhias agropecuárias e na indústria extrativista).
Devido à longa duração do liberalismo, uma atitude como essa é suicida. A economia está contida no mundo físico, que é finito, e não o inverso. A realidade da biosfera é um dado; seus recursos não podem ser expandidos; sua capacidade de absorção não pode ser ampliada pela intervenção humana; uma vez danificada, não reverte às “condições iniciais”, ou, como dizia Keynes, trata-se de “um longo percurso, ao final do qual todos estaremos mortos”.
A economia é, acima de tudo, um sistema que transforma a energia e os materiais, que entram, nos bens e serviços, que saem, descarregando o lixo, a poluição e o calor (entropia), engendrados por esse processo, na biosfera. Em outros termos, a economia é um sistema aberto funcionando em um sistema fechado.
As técnicas atuais de descrição, cálculo e análise desse sistema não nos esclarecem o que precisamos saber, pois são ferramentas inadequadas, uma vez que a contabilidade das empresas e das nações se limita a operações mecânico-matemáticas e partem de uma economia que funciona independentemente da natureza.
Bens e serviços extraídos da biosfera são, assim, depreciados ou simplesmente desconsiderados. A poluição, o lixo e o calor que voltam para a biosfera não são contabilizados como custos. Os custos ecológicos reais são externados e, dessa forma, devem ser suportados pela sociedade e pelo plane ta como um todo.
Assim, surgem imediatamente problemas de escala. Se a escala da economia é pequena em relação à biosfera, o que era até este século, problemas ambientais não são fundamentalmente importantes, a não ser ocasionalmente e em determinadas regiões À medida que a economia cresce, todavia, a escala torna-se crítica.
O mundo produz, agora, em menos de duas semanas, o equivalente a tudo o que foi produzido no ano de 1900. A produção econômica (ou melhor, a “transprodução”, termo que comporta o sentido mais dinâmico do processo que envolve a tomada de recurso, a sua transformação e as sobras) dobra aproximadamente a cada 25 ou 30 anos. No começo do século vindouro, a escala de atividade irá pressionar os limites biosféricos e mesmo a capacidade do planeta de manter a vida.
Avanços tecnológicos podem retardar esse processo, mas não interrompê-lo totalmente Vários sinais indicam que o sistema de mercado competitivo já está criando certos obstáculos naturais a serem transpostos, incluindo alguns que podem não ser reconhecidos pelas autoridades políticas ate que seja tarde demais. Alguns desses obstáculos são bem conhecidos: o desaparecimento da camada de ozônio, alterações climáticas provocadas pelo homem, colapso dos campos de pesca e coisas semelhantes.
Entre os custos imediatos e visíveis da interferência humana no sistema natural está o aumento da freqüência de tempestades tropicais, associadas por muitos cientistas ao aquecimento global. Os furacões representam o mais dispendioso desastre natural para os Estados Unidos, e as previsões agora falam que esses custos tendem a aumentar cada vez mais.
As maiores seguradoras do mundo reconheceram que o enorme aumento na freqüência desses desastres “naturais” é um dreno significativo e potencialmente insustentável para o seu ramo de negócios. Elas propõem hoje um novo modelo de instrumentos financeiros aos investidores, na esperança de diminuir os custos dos prêmios de seguro a serem pagos, apostando que tempestades catastróficas não ocorrerão.
As tensões ecológicas levarão também a maior instabilidade política e a mais conflitos armados. Estima-se que 70% da população mundial já esteja vivendo em áreas com escassez de água. Conflitos ecológicos ocorrerão primei ro no Oriente Médio, na África saeliana e na Ásia, envolvendo a seguir regiões mais favorecidas, com resultados imprevisíveis para a economia.
As grandes empresas, as comunidades mais ricas e os indivíduos mais afortunados, sejam quais forem os seus bens, não podem escapar às conseqüências da degradação do meio ambiente. Apesar disso, parecem mesmo impo tentes para alterar o processo. Eles ilustram o paradoxo dos beneficiários incapazes de proteger o sistema que os beneficia, um paradoxo que encontraremos com freqüência neste Relatório.
Em seu cerne, há o problema do “penetra”. Apesar de serem apenas alguns a pagar os custos da mudança dessas tendências destrutivas, todos serão beneficiados. Se uma companhia parasse de passar o arrastão para permitir que os estoques de peixe se recuperassem, algum rival menos escrupuloso tiraria proveito da situação, apanhando os peixes remanescentes e, ainda por cima, arruinando a empresa ecologicamente mais responsável. O lucro a curto prazo é o mais importante.
Ninguém quer ser o primeiro; assim, todos terminam por ser os últimos. Os investidores não desejam Estados poderosos que possam impor regras de restrição sobre os seus negócios, ainda mais em um governo global; assim, ninguém pode regulamentar. Ninguém se pode dar ao luxo de parar e voltar atrás; assim, a destruição continua. Mas, por outro lado, ninguém poderá viver em um planeta morto.
۩ Crescimento pernicioso
Dizer que a economia de mercado aberto está ameaçada peio crescimento soa como loucura ou heresia. “Todos” sabem que o crescimento é o motor de nossas’economias e que, se não há crescimento, há estagnação e declínio. Para usar uma metáfora: da mesma maneira que o viajante no ambiente inóspito do Saara ou do Ártico deve seguir em frente ou correr o risco de perecer, os viajantes na grande jornada de mercado não podem manter-se parados.
Parar significará, cedo ou tarde, ser posto de lado e eliminado, morrer à beira da estrada. O crescimento tem então se tornado a busca incessante do sistema, mesmo que muito daquilo que passa por crescimento reflita hoje em dia tendências contraproducentes e até mesmo perniciosas. O conceito deve ser examinado com mais atenção e redefinido. A distinção entre “cres cimento” e “bem-estar social” deve-se tornar mais precisa. Maior e mais não significam necessariamente melhor.
Tomemos um exemplo trivial da imprensa norte-americana: de acordo com a indústria de seguros daquele país, o roubo de automóveis custou oito milhões de dólares em 1995; naquele mesmo ano, os motoristas instalaram 675 milhões de dólares em equipamentos eletrônicos em seus veículos para frustrar os ladrões. Esse mercado espera alcançar a cifra de 1,3 bilhão por volta do ano 2000. Aquele que exclama: “Mas isso é bom, pois expandirá a indústria automotiva”, tem a visão curta.
Essa atividade econômica figura, apesar de tudo, como “crescimento do Produto Interno Bruto (PIB)”, da mesma maneira que os tratamentos de câncer, a construção de presídios, os centros de reabilitação de drogados, os consertos decorrentes de estragos causados por ataques terroristas e assim por diante. Entretanto, a forma mais eficiente de se aumentar o PIB com rapidez seria, provavelmente, entrar em guerra.
Se o crescimento já esteve intimamente relacionado com a melhoria do bem-estar de todos, esse não é mais o caso. Mais e mais, o crescimento econômico é provocado por fenômenos sociais que a maioria das pessoas prefere evitar. Medir com precisão o crescimento baseando-se nas correções e nos reparos dos erros anteriores é algo impossível de ser feito, mas nós sublinhamos a necessidade urgente de examinar esse paradoxo econômico sob uma nova e pungente ótica.
Em vez de comemorar o crescimento pelo próprio crescimento, deveríamos calcular todos os seus custos, inclusive os ecológicos e sociais, ora ignorados por aqueles que são favorecidos pelos benefícios financeiros do cresci mento pernicioso.
۩ Os extremos sociais e o extremismo
O futuro da economia de mercado aberto depende também daqueles que serão favorecidos pelos benefícios do crescimento. Se as recompensas visarem à parte menos favorecida da população, essas pessoas, que são relativa mente pobres, desencadearão uma febre de consumo que manterá a demanda flutuante. Se as recompensas apontarem para o topo da escala social, os beneficiários correrão para os mercados financeiros em vez de investir em bens e serviços. O resultado disso será que a demanda cairá, trazendo consigo os perigos do aumento de estoques, da superprodução e da estagnação. A natureza da distribuição de renda é, portanto, crucial para o bem-estar a longo prazo do sistema.
Nisto reside o perigo: economias desregradas e competitivas, se por um lado beneficiam poucos, muito beneficiam aqueles que estão no patamar social mais elevado. Poderíamos mencionar uma ampla variedade de países como exemplo disso: por causa da liberalização e da desregulamentação, os 20% que podiam mais melhoraram ainda mais a sua posição. Quanto mais próximo se está do topo, mais se ganha. A mesma lei se aplica em relação aos restantes 80%: todos perdem algo; aqueles que se encontram em pior situação pagam mais.
As agudas divisões sociais e a “luta de classes”, termo que talvez os marxistas continuem a utilizar, constituem uma verdadeira ameaça. Além de representarem um obstáculo, as disparidades são também perigosas para o sistema e devem ser monitoradas com cuidado. O fato de que grandes diferenças de rendimentos e de condições de vida podem desencadear o ódio, o comportamento desordeiro e a violência quase não é novidade, mas o final do século XX acrescentou uma nova ruga à realidade da sua velhice: a tendência de o rico em informação provocar a raiva e a violência do pobre em informação. O pobre em informação representa uma categoria dispersa pelo mundo que pode ou não ser a mesma que a dos materialmente pobres.
O pobre em informação, precisamente pelo fato de não poder produzir, absorver ou manipular a informação em quantidades suficientes, ou com rap suficiente, torna-se disfuncional, quando não socialmente descarta do. Sua disposição de trabalhar, sua força muscular são irrelevantes na era da informação.
Algumas sociedades ricas, como os Estados Unidos, apesar das graves diferenças entre as suas camadas sociais, continuam capazes de absorver os conflitos de classes, embora a existência de milhares de comunidades independentes, isoladas e apartadas revele uma profunda apreensão. Não está claro até quando essa relativa tranqüilidade vai durar. E o que vai acontecer quando a classe média não puder mais contar com os benefícios sociais adquiridos sem despesas diretas, como escola pública e vizinhança segura?
Na União Européia, embora os extremos sociais sejam menos visíveis, o desemprego crônico, a estagnação salarial dos empregados de baixa renda e o predomínio de empregos temporários, na Europa continental, ou o aumento alarmante no número de “trabalhadores pobres”, na Grã-Bretanha, causam ressentimento e apreensão.
Os governos europeus tratam e destratam do problema da distribuição de empregos, e seus cidadãos procuram inutilmente realizar a quadratura do círculo. Os europeus exigem empregos, mas não querem desistir dos benefícios sociais em favor de mercados de trabalho mais flexíveis. Muitos observa dores falam do “desaparecimento da classe média” e da ansiedade das pessoas dessa classe, preocupadas com a perda da própria segurança e da segurança de seus filhos. A “globalização” está sendo apontada cada vez mais como a causadora desse estado de coisas.
Em muitos países do Terceiro Mundo, particularmente na América Latina, onde os extremos de riqueza e pobreza sempre foram a regra, os benefícios da comodidade são freqüentemente contrabalançados pelas desvantagens que ela comporta. A contratação de segurança particular é indispensável: crianças de pais ricos não podem ir à escola desacompanhadas por medo de seqüestro; os negócios devem pagar proteção; as mulheres não podem usar jóias nas ruas; correr ou andar de bicicleta são atividades impossíveis; dirigir o próprio automóvel ou tomar um táxi é arriscado, mas o transporte público é impensável; e assim por diante.
Os programas de televisão contribuem para aumentar a raiva do pobre em toda a parte, ao mostrar estilos de vida opulentos (normalmente acompanhados por uma “imoralidade” flagrante de comportamento). Muitos levam essas telenovelas a sério e, além de tudo, acreditam que a riqueza seja transitória e que foi injustamente apropriada, por uma minoria corrompida, da maioria que de fato a merece, na qual eles se incluem.
Outras disparidades podem ser completamente irrelevantes nessa dialética da raiva e da violência. Um exemplo, freqüentemente mencionado pelos moralistas, diz respeito aos cerca de 450 bilionários cujas rendas somadas, dizem, é equivalente à renda somada de meio bilhão de pessoas no Terceiro Mundo (conforme a distribuição de renda per capita calculada com base no PIB desses países).
Comparar os bilionários com os bilhões é irrelevante para o persistente sucesso do mercado aberto, porque a riqueza do mundo não é finita mas elástica e, pelo menos até aqui, vem crescendo constantemente. A fortuna dos bilionários não é claramente considerada uma espoliação dos pobres, porque os dois grupos não habitam o mesmo espaço físico. Os dois bilhões e meio não terão muitas ocasiões favoráveis para encontrar os 450 bilionários ou para reivindicar as propriedades deles, mas, mesmo se tentassem, não conseguiriam impor essa reivindicação.
A contigüidade física dos ricos e dos pobres torna a vida daqueles menos agradável do que gostariam que fosse, por direito. Mas por razões paradoxais, mesmo em caso de sérios perigos, os ricos raramente advogam a distribuição de riquezas aos pobres, ainda que isso pudesse diminuir significativa- mente os riscos para si mesmos. A máxima dos vencedores repousa, como sempre tem sido, em Après naus, le deluge* (Em francês, no original: “Atrás de nós, o dilúvio”.)
Enquanto isso, os políticos ocidentais invocam “valores familiares” na crença equivocada de que esses valores possam, de alguma maneira, servir para manter as sociedades unidas até que passe a tensão que está cada vez maior. Eles não explicam como as massas populares podem se adaptar automaticamente ao desemprego, ao subemprego, ou às condições precárias de trabalho, ao deslocamento geográfico e a uma longa jornada de trabalho e, ao mesmo tempo, devotar o tempo e a atenção necessários às suas famílias.
Na maioria das famílias norte-americanas e européias de hoje, ambos os pais trabalham para poder pagar as despesas da casa. Assim, pode-se dizer que a contribuição da família à estabilidade social também está enfraquecendo.
Em um clima de privatização e de redução dos serviços estatais, as pessoas esperam. tomar para si mais responsabilidades pelas suas comunidades locais e pelos seus compatriotas mais pobres. Mais uma vez, não fica claro como pessoas que devem necessariamente competir no mercado de trabalho e colocar os seus próprios interesses acima de tudo, sobretudo ao longo de suas vidas profissionais, poderão mudar radicalmente o modo de pensar e dedicar-se aos desafortunados e oprimidos, durante o tempo livre.
As inexoráveis pressões econômicas, combinadas com o esfarrapado teci do social, indicam que não estamos simplesmente entrando em uma outra era na qual alguns possuem tudo e outros, nada, como na Grande Depressão dos anos 30, nos Estados Unidos. Nosso mundo se divide, hoje, entre os que estão incluídos no sistema e os excluídos dele. Os otimistas insistem que haverá muito mais favorecidos do que desfavorecidos, mais incluídos do que excluídos. Vemos a integração social — acompanhada de um grande número de excluídos — como um formidável desafio à elasticidade do sistema.
Da mesma maneira que os cidadãos de um mesmo país estão distribuí dos ao longo de uma linha de riqueza-pobreza e segurança-insegurança, as regiões geográficas estão sujeitas às disparidades produzidas pela liberalização e pela competição global. Podemos falar dessas regiões em termos de “incluídos” e “excluídos”.
Enquanto o Sudeste da Inglaterra e algumas das redondezas de Londres encontram-se em plena efervescência econômica, a maior parte do Norte assemelha-se a uma região deserta e outras áreas da capital estão em decadência. O “cinturão da ferrugem” nos Estados Unidos permanece em agudo contraste com as áreas mais dinâmicas do Sul e do Oeste. Na escala global, os tigres ou dragões asiáticos são sempre lembrados como uma zona rica. A crise financeira, que estava-se aprofundando quando realizamos este Relatório, pode relegar esses países a um nível ainda mais baixo. A África, por sua vez, é qualificada como a quintessência da pobreza.
Quer os “pobres” reajam psicologicamente culpando a si
próprios e aos seus líderes ou culpem a outros países, recusando-se a aceitar a
culpa e a responsabilidade pelo próprio fracasso, mais cedo ou mais tarde eles
tentarão compensar as suas deficiências. Os meios que vierem a escolher podem ir
desde o suicídio individual até a migração em massa; do protesto político e das
demonstrações de paz até a formação de milícias privadas e o terrorismo aberto.
Sejam quais forem as estratégias individuais e coletivas, os pobres estarão
invariavelmente desestabilizados pelo sistema dominante ou predominante.
Protestos organizados ou dispersos contra as desigualdades deverão ser leva dos
a sério e entendidos do ponto de vista econômico, cultural e, se for o caso,
militar.
O século XXI terá pela frente a difícil tarefa de encontrar um equilíbrio entre a preservação da liberdade de mercado e o controle do efeito social colateral que essa liberdade não apóia, mas engendra. Caso contrário, os custos pesarão mais sobre os benefícios, mesmo para aqueles que ora estão no topo da escala geográfica e financeira.
۩ Capitalismo de quadrilhas
O crime em larga escala pode solapar as fundações da atividade econômica legítima. Particularmente, desde a dissolução do império soviético e desde que a China adotou alguns aspectos da economia de mercado, o “capitalis mo de quadrilhas” (como assim o denominou uma revista) tem-se alastrado por amplas áreas do globo e ameaçado muitas outras. As economias paralelas, baseadas no tráfico de drogas, no contrabando de armas, na lavagem de dinheiro e na corrupção de toda espécie, contabilizam hoje trilhões de dólares e atraem novos recrutas a cada hora.
Grandes áreas do planeta já estão fora da jurisdição do Estado. Autoridades legítimas não necessariamente conhecem, e muito menos controlam, a localização de pistas de pouso particulares, fábricas de produção de cocaína ou centros de operações dos cartéis. Esses cartéis adquiriram não apenas poder econômico, mas também estratégico: correm muitos rumores de que um poderoso barão da droga latino-americano chantageia um governo legítimo com a ameaça de atirar nas linhas aéreas comerciais de sua base privada usando mísseis adquiridos no mercado clandestino de armamentos.
A expansão das quadrilhas e das máfias é acompanhada por dinheiro, e por políticos. Negócios legítimos são tragados por um vórtice. As quadrilhas podem permitir-se comprar os elementos necessários dos governos nacionais na medida de sua conveniência.
Oficiais mexicanos de altas patentes da “guerra das drogas” voltam-se para o serviço dos barões das drogas, que também empregam antigos boinas-verdes norte-americanos, colocando a sua experiência anti-insurrecional contra a polícia e o FBI. Oficiais do exército nas antigas repúblicas soviéticas incrementam seus salários de fome por meio da venda de armas roubadas (e provavelmente de armamentos nucleares). Mineiros demitidos das minas de estanho na Bolívia só se contentam em trabalhar nas plantações de coca e no processamento da cocaína. Um desemprego em massa aumenta esta tendência: organizações disfarçadas podem recrutar qualquer poder humano de que precisem, inclusive exércitos particulares.
Países pesadamente endividados ganham muito mais exportando drogas, armamento leve ou emigrantes do que produtos de consumo primário legais. Alguns analistas se referem à guerra da Rússia contra a Chechênia como um conflito entre quadrilhas rivais pelo controle de recursos estratégicos. Grandes economias ilegais como a da Rússia podem se inclinar para qual quer direção; alianças imprevisíveis entre as antigas repúblicas soviéticas ou grupos étnicos e Estados islâmicos radicais podem envolver significativa- mente uma parte do suprimento mundial de petróleo.
Apesar de a desregulamentação ser necessária, pode voltar-se contra si mesma e derrubar os seus propósitos iniciais. O capitalismo paralelo e lucrativo das quadrilhas pode se tornar difícil de ser contido e vir a representar uma ameaça clara e presente à economia legal de mercado. Se ele chegar a superar os negócios legais, as regras tradicionais de concorrência serão pulverizadas, e o terrorismo multinacional tornar-se-á a ordem do dia. O clima que paira sobre o mundo dos negócios, hoje relativamente previsível, será substituído por anarquia de longa duração e por uma guerra hobbesiana de indivíduo contra indivíduo, de empresa contra empresa e de nação contra nação.
۩ Colapso financeiro
Os riscos de um grande colapso financeiro aumentam cada vez
mais. De fato, nos surpreendemos que não tenha ainda ocorrido Queremos aqui
chamar a atenção para a volatilidade inerente dos mercados financeiros como uma
grave ameaça à economia de mercado.
Indicadores financeiros como o Dow Jones, o FTSE, o CAC-40 ou o Niquei
fundamentam-se em uma base estreita. Se consideramos o peso de suas respectivas
capitalizações, esses indicadores apóiam-se nas fortunas de um número
extremamente reduzido (50 a 60, no total) de multinacionais gigantes.
Especula-se que os mercados de derivados valham hoje vários trilhões de dólares,
muito mais do que o Produto Nacional Bruto (PNB) dos Estados Unidos, a economia
nacional mais importante do planeta.
Embora na maior parte do tempo e na maioria dos lugares o mercado saiba se comportar com sabedoria, a experiência mostra que ele foi atingido por verdadeiras crises de loucura e colapsos mentais, colocando em perigo todo esse sistema que o nosso Relatório está encarregado de defender. Esse perigo é hoje maior do que em qualquer época do passado e, por esse motivo, uma questão da mais alta importância, que será tratada com mais cuidado no próximo capítulo.
۩ A relevância das contradições
Para simplificar as coisas, os Grupos de instruções pediram-nos para deter minar se o sistema econômico global está a salvo de danos maiores, se caminha na direção certa para evitar os perigos, e, caso contrário, como pode ser protegido. As ameaças que pairam sobre esse sistema, como indicadas acima, contêm aspectos paradoxais. Suas contradições inerentes não vaticinam nada de bom para a segurança fritura do sistema:
• O mercado é o melhor juiz da sabedoria e do valor da atividade econômica humana, mas ele não pode nos dizer em que momento atravessamos um limite ecológico decisivo, antes que seja tarde demais.
• O crescimento é a seiva da economia, mas o bem-estar geral está cada vez mais dissociado do crescimento, que, em muitos casos, é cada vez mais contraproducente, representando mais uma fonte de empobrecimento do que uma fonte de riqueza.
• A economia está no cerne da sociedade, mas efeitos sociais indesejáveis podem se revelar fortes o bastante para minar os benefícios econômicos. Os negócios devem permanecer livres para investir e prosperar sempre que as condições o permitirem, mas as pessoas abandonadas na sarjeta comportam-se de maneira imprevisível e sem estabilidade. É preciso, certamente, evitar o excesso de regras, mas um mercado completamente sem regras (ou com regras próprias) corre o risco de se destruir, pois, deixado por sua própria conta, ele criará poucos favorecidos e muitos desfavorecidos, poucos incluirá e muitos excluirá.
• As economias ilegais ganham força, financeira e politicamente; as alianças entre as quadrilhas e os Estados inescrupulosos poderiam criar desordens geopolíticas que destruiriam o clima natural dos negócios.
• No final do século XIX, Walter Bagehot dizia: “Quanto mais as pessoas são felizes, mais são crédulas”. No final do século XX, John Kenneth Galbraith declarava: “Os gênios financeiros aparecem sempre antes da falência”. Os mercados financeiros são instáveis por definição, e não podemos esperar que se comportem com perfeita racionalidade; também são capazes de gerar miséria em uma escala tal que faria a crise de 1929, nos Estados Unidos, parecer um simples dia ruim para se ir à feira.
Os perigos que o sistema capitalista deve enfrentar requerem atenção urgente. Por enquanto, examinemos os modos de controle e proteção em vigor até agora.
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O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo Susan George |
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