Flagelo

Laymert Garcia dos Santos

O Relatório Lugano - Susan George - Editora Boitempo

III. A Peste

 

No Apocalipse, o quarto cavaleiro é simplesmente chamado a Morte, mas seu cavalo lívido (pálido , esverdeado , amarelo , conforme as traduções) tem a cor dos cadáveres em decomposição, “e a permanência da morte o acompanhava”, ou “o inferno o seguia”, para engolir os cadáveres das vítimas da peste. Dos quatro cavaleiros, ele é o mais temível e o mais útil para o nosso objetivo. Historicamente, as epidemias tiveram um impacto bem maior na dinâmica das populações do que as guerras ou mesmo a fome.

Inevitavelmente, a peste ceifa tanto a erva boa como a daninha; alguns que deveriam ser salvos perecem; a doença não distingue sempre o rico do pobre, o competente do inapto, o útil do inútil. De um ponto de vista estatístico, contudo, ela atinge primeiro os mais vulneráveis, os menos úteis.

Por toda parte, no mundo atual, tanto nos países desenvolvidos como nos do Terceiro Mundo, a esperança de vida aumenta paralelamente à melhora dos rendimentos e da educação. Mas na Grã-Bretanha, em toda faixa etária, a taxa de mortalidade sempre foi duas ou três vezes mais elevada na base da escala social do que no seu cume, diferença que se tornou ainda maior entre 1981 e 1991. Nos Estados Unidos, os Estados em que a distribuição de renda entre as famílias é mais desigual são também aqueles que possuem a taxa de mortalidade mais elevada devido a doenças cardíacas, câncer e homicídios.

Mesmo durante as grandes pestes, os ricos tinham mais facilidades para se refugiar no campo do que os indigentes. Quando uma epidemia de meningite surgiu no Brasil, em 1974, os brasileiros que estavam em boa situação financeira fizeram as suas malas e esperaram no exterior até que ela acabasse. Como ressaltou um médico indiano: “As pessoas que usam gravata não contraem o cólera”.

Durante a época colonial, e em particular antes da Segunda Grande Guerra, as administrações ocidentais tomaram medidas de saúde pública e de higiene nos territórios virgens do Terceiro Mundo onde, por séculos, as pessoas levaram uma existência precária, com taxas de natalidade e de mortalidade elevadas e doenças freqüentes. Os colonizadores importaram assim novas plantas alimentícias e melhoraram as técnicas agrícolas de forma que a alimentação se tornou mais abundante. O impacto desse conjunto de medidas foi surpreendente.

Essas mudanças, aparentemente pequenas, resultaram numa diminuição sem precedentes da taxa de mortalidade. Continuando inalterada, a taxa de natalidade excedeu proporções fenomenais, o que provocou uma explosão populacional. Em 1935, por exemplo, a ilha Maurício, então sob administração britânica, apresentava taxas de natalidade e de mortalidade quase idênticas; em 1966, a primeira era ligeiramente mais alta do que era 30 anos antes (36% contra 31%), mas a taxa de mortalidade tinha passado de 30% para 9%, de maneira que a população tinha praticamente dobrado durante esse período.

A história da introdução de medidas sanitárias, de higiene e de melhores dietas na Inglaterra do século XIX e em Nova York, na virada para o século XX, confirma o impacto desproporcional que tiveram essas mesmas medi das sobre a mortalidade pré-natal e infantil no hemisfério Sul.

Essas intervenções não eram puramente filantrópicas. Quando a peste atingiu a índia, então sob administração britânica, uma campanha de saúde pública sem precedentes foi organizada para enfrentá-la. Quando a doença deixou de constituir um perigo para os ingleses que lá viviam, os fundos e os recursos evaporaram; a peste foi declarada “endêmica” entre os nativos e os indianos foram deixados em uma miséria pior do que antes.

Da mesma maneira que pessoas de diferentes classes habitando o mesmo espaço físico (nacional ou local) podem ter estados de saúde extremamente diferentes, existem enormes diferenças entre países ricos e pobres no que concerne às principais causas de mortalidade. Deve-se, contudo, usar essas cifras com muita prudência, pois é freqüente, nos países subdesenvolvidos, que as causas da morte sejam identificadas de forma errônea.

A Organização mundial da Saúde (OMS) publicou novas cifras depois, embora as especificações sejam menos precisas:

O enorme estudo empreendido associadamente pela OMS, pela Harvard School of Public Health e pelo Banco Mundial sob o título The Global Burden of Disease (“O fardo mundial das doenças”, GBD) resultou em um conjunto de cifras mais vasto e mais preciso do que se podia esperar. Os seus autores previram as mudanças que se seguiriam na classificação das 15 causas principais do “fardo das doenças” (diferentes das causas das mortes) entre 1990 e 2020:

Para terminar, é interessante estudar as causas da morte em função do• modo de vida. Uma vez mais, é a OMS que nos fornece as cifras:

Essas tabelas são um guia aproximado para as questões das ERPs sobre as nossas recomendações aos nossos Grupos de instruções, e merecem atenção. Não podemos apresentar aqui uma análise em pormenores de todas as causas possíveis das mortes — a equipe do GBD identificou 107 categorias e subcategorias — mas é possível selecionar certas áreas, mais interessantes em função dos nossos objetivos.

Os autores do The Global Burden of Disease propuseram uma classificação prática das doenças e mortes: o grupo 1 compreende as doenças transmissíveis e as ligadas à maternidade, aos recém-nascidos e à nutrição; o grupo II, as doenças não-transmissíveis; o grupo III, os traumas (incluindo os auto-infligidos) e os acidentes. No mundo desenvolvido, 86% das mortes pertencem ao grupo II. Mais surpreendente contudo é a importância dessas doenças em relação às chamadas contagiosas, em várias regiões em desenvolvimento, notadamente na América Latina e na China.

Os resultados desse estudo podem reportar a um estudo mais preciso dos fatores ligados ao modo de vida, em particular aos que se referem às doenças cardiovasculares.

Fornecer cigarros aos fumantes é uma tática interessante. A dependência ao tabaco se propaga rapidamente nas sociedades cada vez mais ricas do Terceiro Mundo como a China, e os fabricantes destinam os seus orçamentos publicitários e de promoção aos países em que a opinião pública é menos hostil a essa mensagem. Segundo o Banco Mundial, devia-se contar com cerca de dois milhões de mortos por ano por causa do tabagismo na primeira década do século XXI. A OMS estima, por sua vez, que o tabaco provocará mais mortes prematuras e invalidez em 2020 do que qualquer doença, em particular na China e nas antigas economias socialistas, mas também nos países desenvolvidos.

A mortalidade em relação à poluição da água e às más condições de higiene pública e privada deveria igualmente aumentar. Dedicaremos mais adiante algumas linhas ao problema da água. Outros maus hábitos individuais — falta de atividade física, relações sexuais sem proteção, álcool e drogas — são responsáveis pelo aumento de 3.250.000 no número de mortos, dos quais 80% nas regiões em desenvolvimento. Os autores do GBD prevêem também um aumento dos acidentes de automóvel, dos traumas auto-infligidos, da violência e das mortes devido à guerra.

O grupo 1, aquele que compreende as doenças transmissíveis, pré-natais e as deficiências alimentares, é o mais importante para os nossos objetivos. Um campo particularmente vasto foi aberto pela diversidade de doenças infecciosas e parasitárias como aquelas que a OMS, cm 1996, atribuiu como responsáveis por mais de 17 milhões de mortes. A mortalidade materna e pré-natal apresenta também um certo potencial.

Na análise que fizemos da fome, sublinhamos a importância de limitar a disponibilidade dos gêneros alimentícios, mesmo se algumas poucas pessoas.

morrerem diretamente por causa da fome. Isso é confirmado na Tabela IV, que classifica a desnutrição como fator decisivo para 11,7% de todas as mortes. As estratégias anti-alimentares contribuem, assim, enormemente para o grande projeto de redução populacional, na medida em que a desnutrição e a subalimentação preparam terreno para as doenças e epidemias.

 

۩  A tendência da História

 

O objetivo das ERPs vai além de simplesmente reduzir as cifras da população, objetivo já ambicioso. Deve-se procurar, cada vez mais, os meios de voltar às condições que prevaleciam no hemisfério Sul antes da colonização e, mais difícil ainda, à mentalidade pré-iluminista do hemisfério Norte. Convém renunciar ao mito, limitado ao culto, de um progresso inexorável.

Depois de dois séculos de avanços na medicina, em particular com o advento dos antibióticos, após a Segunda Grande Guerra, a opinião pública acabou por considerar que toda doença tinha o seu remédio. A verdade nua e crua é que isso não é mais verdadeiro para um grande número de doenças. Os parasitas, as bactérias e os vírus resistentes suplantam em numerosos casos as capacidades de tratamento da medicina. A ciência médica não pode fazer milagres e devia se concentrar nesses grupos e zonas geográficas onde é ainda possível manter o anjo da morte à distância.

A ciência e a medicina deviam praticar, em escala mundial, o método da triagem, inventado pelos cirurgiões da Primeira Grande Guerra, que abandonavam casos sem esperança para se concentrar nos feridos que podiam ser salvos. É normal que as doenças que mais recebam atenção sejam aquelas que afetam grupos que mais possam suportar os custos de uma pesquisa complexa e pagar por cuidados de qualidade. Espera-se que a opinião pública, no hemisfério Norte e ainda mais no hemisfério Sul, aprenda a encarar com grande fatalismo a doença e a se dobrar diante do inevitável, como as pessoas o fizeram durante séculos.

Além do mais, o fenômeno do bode expiatório é uma tendência natural que se pode discretamente estimular. Desde a antiga Atenas, qualquer epidemia tem sido atribuída a determinados grupos minoritários, ou elementos impuros, freqüentemente mulheres. As sociedades atingidas pelos flagelos podem também acreditar que sejam objeto de uma punição divina que este já reprovando as faltas espirituais de seus dirigentes, ou ainda vítimas de complôs fomentados por estrangeiros poderosos. Deve-se estar preparado para explorar essas suspeitas e discórdias.

A urbanização, a superpopulação e a falta de saneamento básico continuam a propiciar um terreno favorável para a propagação de doenças. A África é o menos urbanizado dos continentes pobres, entretanto sua população é já 30% urbana e as cidades atraem todos os dias mais pessoas. Para extrair a melhor parte possível desse contexto, recomendamos especifica- mente uma privatização completa dos serviços públicos, em particular do tratamento dos dejetos humanos, sobretudo dos esgotos, da distribuição de água e da coleta de lixo.

O Banco Mundial e o FMI estiveram na vanguarda em matéria de transferência de serviços públicos para o setor privado. Na prática, essa política exerce hoje muito mais influência sobre a saúde das pessoas nos países sub desenvolvidos do que a Organização Mundial da Saúde e os ministérios da saúde locais: ambos perderam terreno e sua capacidade de iniciativa. Como ressaltou o Banco Mundial, os riscos que a saúde dos pobres corre, devido aos equipamentos sanitários medíocres, a uma distribuição de água freqüentemente contaminada, higiene pessoal e alimentar de má qualidade, trata mento inadequado do lixo, atmosfera poluída no interior de favelas superpopulosas” têm um efeito significativo e juntos são responsáveis por um terço do “total das enfermidades no mundo”.

A solução do Banco Mundial é que os governos “coloquem em funciona mento um quadro legal e administrativo em que prestadores de serviços responsáveis (em geral do setor privado) sejam incitados a oferecer aos lares os serviços que eles querem e para aqueles que estejam dispostos apagar, compreendendo o abastecimento de água, a coleta das águas utilizadas e de lixo, o aquecimento com combustão própria e a moradia

A experiência mostra contudo que, quando for necessário pagar por esses serviços ao seu preço real e que eles, além disso, proporcionem lucro, tais serviços estarão longe do alcance dos habitantes das favelas e dos bairros pobres, o que estimulará os vetores de doenças. Não existe imunização, pelo menos até certo grau, contra esgotos a céu aberto, águas contaminadas e ratos. A estimativa comercial para a assistência à saúde adotada pelo Banco Mundial generalizou-se, e deveria concluir a privatização da medicina em todos os lugares em que ela ainda não foi realizada, utilizando o modelo americano, por exemplo, e adaptando-o para cada país.

De qualquer modo, as nações que procedem a esse ajuste estrutural não podem se dar ao luxo de assistência médica gratuita. Depois que a Índia foi submetida a essa política, no início da década de 1990, o seu orçamento para a saúde (exceto um mínimo de fundos contra a AIDS) foi cortado em 30%, e a experiência se repete em cada país. Enquanto a malária avança como nunca na Índia, o programa de luta contra essa doença foi reduzido em mais de 40%.

No futuro, e à medida que diminuam os orçamentos dos serviços públicos, os governos deverão, mais cedo ou mais tarde, instituir um sistema de assistência médica privado e erradicar a idéia de que a saúde seja um direito. As pessoas devem aprender a ser clientes ou membros contribuintes do sis tema de assistência à saúde coletivo, e não mais beneficiários passivos de uma engrenagem pública de distribuição.

Seria bom explorar as novas possibilidades de sinergia. Por exemplo, os projetos de equipamentos e de novos métodos agrícolas preconizados pelo Banco Mundial podem contribuir para a expansão da malária, como ocorreu na Índia, criando zonas de águas estagnadas e pântanos; estes constituem excelentes lugares para reprodução dos mosquitos. Todas as doenças ligadas aos problemas de meio ambiente, impossíveis de ser resolvidos individualmente, serão acentuadas pelas privatizações.

A diminuição dos orçamentos da saúde e a própria natureza do mercado mundial, incluindo o de assistência médica, deveriam incitar os médicos qualificados a procurar melhores oportunidades no exterior; foi o que já fizeram 30 mil africanos e um grande número de médicos indianos, paquistaneses ou de outros países asiáticos. No meio dos ajustes estruturais tradicionais aparece geralmente a desvalorização da moeda nacional, o que torna mais custosas as importações de medicamentos e de material hospitalar. É preciso desencorajar o emprego de medicamentos genéricos, fonte de redução do custo dos tratamentos, usando como argumento que os laboratórios, não recebendo mais os direitos sobre os seus antigos produtos, não mais investirão em pesquisa de novos medicamentos de necessidade urgente.

A privatização desses serviços públicos, da prática da medicina, dos centros de assistência, da indústria farmacêutica, não poderá, entretanto, dar conta de tudo sozinha. Numerosos bairros urbanos e a maior parte das cidades não dispõem desses serviços, sejam gratuitos, sejam pagos. A estratégia aqui aconselhada consistiria em bloquear as intervenções técnicas simples e de pouco custo que as agências mais eficientes de desenvolvimento vierem a defender. A maior parte dos grandes avanços em matéria de saúde pública, como a erradicação da varíola ou as campanhas de vacinação, foi, na verdade, não tanto dos governos mas das brigadas internacionais do Unicef ou da OMS.

Se é delicado desacreditar este organismo das Nações Unidas que se ocupa mais especificamente das crianças, é necessário reconhecer que o Unicef é um perigoso inimigo na luta pela redução populacional. As contribuições governamentais dos países industrializados deverão ser revistas na sua base (é o caso dos Estados Unidos e do Japão). O orçamento das equipes de campo deverá ser examinado com acuidade a fim de se descobrir, para denunciar publicamente, eventuais práticas fraudulentas ou fontes de desperdícios. Uma campanha da imprensa com o tema “Para onde vai de fato o dinheiro dos cartões de natal?” colocaria em dúvida as práticas desses organismos e as suas despesas administrativas, o que poderia ser-nos, nesse sentido, favorável.

O Unicef utiliza um certo número de medidas — vacinações, soros de hidratação para os bebês que sofrem de diarréia e antibióticos a preços baixos — a fim de lutar contra as infecções mais comuns. Ele afirma prevenir assim 5 milhões de mortes por ano e, com uma ampliação, poderiam ser evitadas mais de 8 milhões. Talvez fosse necessário empregar métodos pouco ortodoxos para interferir ou, melhor ainda, interromper as atividades do Unicef, e de qualquer ONG eficiente, como a Oxfam, nos países visados. Não podemos excluir completamente a utilização de agentes infiltrados, sabotagens, perturbações e ataques seletivos do pessoal com o propósito de desencorajar as equipes em ação e os voluntários; mas esse seria um último recurso.

 

۩  Outros grupos

 

Foram interrompidos judicialmente os programas do “Medflag” que o exército dos Estados Unidos realizou em Gana, na Costa do Marfim e em Botswana em 1994 e 1995. Essas brigadas sanitárias, empreendidas em colaboração com os militares e os médicos locais, obtiveram um imenso sucesso junto às populações atingidas, aos meios de comunicação e aos governos. Elas consistiam em enviar aos lugares em litígio equipes especializadas em medicina de guerra por três semanas para fornecer assistência médica e veterinária em zonas urbanas e rurais, utilizando ambiciosos programas de vacinação contra as principais doenças endêmicas e treinando médicos locais para que pudessem fazer face às situações de urgência sanitária e aos desastres. Essas iniciativas tiveram a vantagem de proporcionar um valioso treinamento in situ para o contingente norte-americano e de fazer com que diversas ONGs cooperassem com os objetivos sanitários definidos pelas autoridades locais.

Uma colaboração estreita com as autoridades locais, antes e durante os exercícios do Medflag, fez calar as suspeitas e mudar as atitudes em relação aos Estados Unidos e aos militares em geral. Se tais operações se generalizarem na África e em outros lugares, elas poderão ameaçar seriamente as ERPs. Com satisfação, notamos que o Pentágono não parece mais se interessar por esses programas e mobilizou as equipes médicas para a Europa oriental.

Obteremos um efeito similar se redirecionarmos os orçamentos relativos à saúde, destinando-os à medicina clínica e aos tratamentos hospitalares mais do que prevenção. Dificilmente haverá necessidade de estimular os governos do Terceiro Mundo para que sigam esse caminho, pois há anos que direcionam seus gastos de saúde para as classes mais prósperas da sociedade. Os ricos têm acesso aos equipamentos hospitalares mais modernos, enquanto em outros lugares, como nos consultórios de zonas urbanas ou rurais, chega-se a utilizar uma mesma seringa várias vezes, e simples análises clínicas não podem ser realizadas. Os hospitais públicos podem se tornar, eles mesmos, os maiores transmissores de doenças que se pode imaginar.

Quaisquer que sejam os protestos, não se pode permitir que se reclame que a assistência básica à saúde para os pobres “deveria” substituir a assistência médica privada para os ricos, da mesma maneira que seria utópico pretender, como fez a OMS, que o objetivo “saúde para todos” possa ser atingido em nossa época ou em qualquer outra.

Essas afirmações ingênuas não levam em consideração nem a economia de mercado nem o equilíbrio de poder entre as instituições. A definição de saúde da OMS é tão ampla que até perde o sentido: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou de enfermidade”. Comparados a essa definição que procura englobar tudo, os balidos utópicos da Declaração Universal dos Direitos do Homem parecem simplesmente limitados! Duvidamos de que alguém possa dizer-se “saudável” de acordo com os critérios da OMS.

Mesmo definindo-a com mais rigor, a saúde é, e se torna, cada vez mais cara. Em 1990, segundo o Banco Mundial, as despesas públicas e privadas com serviços oficiais de saúde atingiram, pela primeira vez, a cifra de 1 bilhão e 700 milhões de dólares, o que representa 8% do produto mundial. Noventa por cento dessa soma foram gastos nos países ricos, ou seja, com menos de 20% da população mundial. Os 10% restantes serão cada vez mais direcionados às elites do Terceiro Mundo que podem pagar pela parte que lhes cabe dos gastos com a saúde no mundo. Nada nos permite prever que essas proporções venham a mudar nos próximos anos.

Ressaltamos já que as doenças infecciosas e parasitárias não podem ficar totalmente confinadas aos países e bairros pobres. É inevitável que ocorram propagações. Mas, mesmo que as “doenças do Terceiro Mundo” façam alguma vítima no Ocidente, são aliados vitais no combate para a redução da população mundial. As mortes ocasionais e isoladas em Los Angeles ou Londres contribuirão para reforçar a dicotomia civilizado/bárbaro. A verdadeira ameaça aos países ricos é de outra ordem.

 

۩  Os supermicróbios

 

A OMS exige relatórios de apenas três doenças, todas elas tropicais: o cólera, a peste e a febre amarela. Elas estão bem longe de representar um perigo real e imediato para as populações do hemisfério Norte. Os países que parecem aparentemente bem protegidos devem, contudo, enfrentar patologias que lhes são características. Não estamos falando de doenças cardiovasculares, de obesidade e de outras afecções ligadas à riqueza, mas do risco do surgimento de supermicróbios.

Essas formas mutantes aumentaram e se multiplicaram durante as déca das graças a um regime rico em antibióticos. Alguns micróbios, hoje, chegam mesmo a se nutrir com eles; são literalmente intoxicados e não poderiam viver sem os medicamentos concebidos inicialmente para os destruir. A descoberta de que um veneno pode se tornar uma fonte de alimento é preocupante demais, pois essa fonte em questão é um antibiótico de último recurso, a vancomicina. A resistência a esse antigo destruidor de micróbios pode pular de um elemento patogênico a outro, o que não deixa de fazer, aliás: por exemplo, o enterococo transmitiu ao estafilococo a resistência à vancomicina.

As bactérias da família dos estafilococos são a primeira causa das infecções hospitalares, e foi descoberta a super-resistente E. aureus nos hospitais japoneses e britânicos. Quando pessoas com baixa resistência se agrupam em um mesmo local, como em hospitais, os supermicróbios se aproveitam. Ninguém pôde ainda avaliar com precisão o seu impacto devastador, pois é sempre problemático determinar a causa imediata da morte de pacientes já doentes.

Os agentes infecciosos não se modificam até atingir o estado no qual eles se empanturram de antibióticos. Contudo, como no caso das plantas geneticamente manipuladas, muitas decisões políticas e científicas agem como se Darwin nunca tivesse falado de evolução, como se as formas de vida fossem estáticas e imutáveis. E exatamente o contrário que se verifica: a seleção natural se aplica a todas as formas de vida, inclusive às mais inferiores, cuja existência efêmera e rapidez reprodutiva lhes permitem mudar muito mais rapidamente do que os organismos mais complexos.

Segundo a OMS, os antibióticos, “utilizados por muitas pessoas para tratar da doença errada, na dosagem errada e por um período errado”, são a causa principal da proliferação das formas resistentes aos tratamentos medicamentosos. Outros estudos tendem a mostrar que as restrições orçamentárias nos hospitais têm igualmente contribuído para a constituição de focos de micróbios resistentes, com dosagens inadequadas e antibióticos utilizados uns após os outros e não em associação. Quaisquer que sejam as origens, o fenômeno do aumento da resistência dos micróbios é indiscutível.

A seleção natural desses elementos patogênicos se acelera, pois ela não depende mais unicamente de vantagens genéticas que intervêm por acaso. Certos micróbios estão literalmente programados para mudar quando sub metidos a uma pressão qualquer. Alguns manifestam um comportamento coletivo favorecendo a sobrevivência do grupo. Outros “exploram o seu meio ambiente, à procura de material genético potencialmente utilizável”, como o encontrado nos fragmentos do ADN chamados plasmídeos ou transpósons, que podem proporcionar resistência a dezenas de medicamentos.

As medidas de higiene convencionais não são mais suficientes; numero sos são os germes que se adaptaram ao sabão, aos desinfetantes, ao ácido, às altas temperaturas. Poucas pesquisas são feitas para patentear novas moléculas destinadas a combater esses invasores, em particular se as doenças que poderiam combater estiverem mais ou menos confinadas aos países e bairros pobres, onde lucros dificilmente são obtidos. Ao mesmo tempo em que esses organismos patogênicos resistentes se multiplicam, a utilização de no vos remédios para lutar contra eles diminui consideravelmente, em grande parte por causa do custo de se levar um novo antibiótico da bancada de um laboratório para o mercado, que pode atingir 350 milhões de dólares.

O mercado de antibióticos deve render em torno de 40 bilhões de dóla res no ano 2000. Quanto mais se espalhar o fenômeno da resistência aos antibióticos, maior será a diferença entre ricos e pobres, uma vez que um único dia de tratamento com a última superdroga poderá custar aproximadamente 500 dólares. Esses preços refletem o direito que os laboratórios têm de amortizar as suas pesquisas e limitar os riscos, em particular pelo fato de que existe uma variedade muito grande de moléculas similares e pela ferocidade da concorrência. Os 43 mil vendedores de medicamentos do Japão ligam para os médicos em média mais de uma vez por dia (os clínicos gerais ingleses estão mais bem servidos, pois recebem, em média, 62 visitas por ano).

Laboratórios farmacêuticos e médicos deverão se policiar; muito freqüentemente, e em muitos lugares, os médicos prescrevem um medicamento de “último recurso” como se fosse de “primeiro recurso”, ou utilizam antibióticos caros de largo espectro para tratar infecções comuns como a sinusite. Quanto aos laboratórios, eles pretendem que seus antibióticos atuem em um espectro tão amplo que medicamento algum poderia atingir.

Drogas proibidas na América do Norte e na Europa são regularmente comercializadas em outros lugares. Incorporam-se antibióticos aos coquetéis medicamentosos em que não há necessidade (por exemplo, nos tratamentos de diarréias). Médicos recebem comissão para prescrever o medicamento Y em lugar do X; e entre o laboratório de fabricação e uma drogaria ou ponto de venda da mesma companhia o preço de um medicamento pode ser várias vezes maior. Essas práticas são bastante comuns.

No futuro e à medida que aumenta a resistência bacteriana — e as bactérias dispõem de meios extraordinários para adquirir resistência aos antibióticos —, as doenças resistem cada vez mais aos tratamentos. Quando o públi co, nos países ricos, começar a entender as razões desse fenômeno de resistência e as conseqüências disso para a saúde pública, os laboratórios farmacêuticos, e talvez até mesmo os médicos, serão pregados ao pelourinho. Uma vez mais, temos a obrigação de mostrar que o setor comercial se importa muito pouco com o sistema que o mantém. Infelizmente, os grandes laboratórios precisam de controle interno.

 

۩  Pragas comuns

 

Faremos agora um breve inventário para classificar as doenças de acordo com a eficácia em contribuir para o aumento das taxas de mortalidade no Tercei ro Mundo (a AIDS constitui unia classe à parte). As doenças mais impressionantes, novas ou antigas, que nos últimos tempos cobriram as manchetes dos jornais estão longe de ser as mais destrutivas. Um simples caso de infecção por um vírus como o Ebola, o Lassa ou o Marburgo pode provocar pânico e atrair a atenção de Hollywood, mas, para os objetivos das ERPs, são de outros lugares que vêm as notícias importantes.

 

۩  Tuberculose

 

As doenças hoje mais perigosas são na r velhas conhecidas. A tuberculose, conhecida desde a Antiguidade, está se tornando cada vez mais letal e resistente a várias drogas. Ela matou mais de 3 milhões de pessoas em 1995. Seu potencial de morte e os seus alvos preferidos representam um instrumento de redução populacional extremamente promissor para o futuro.

À medida que a doença ganha terreno e se torna mais perigosa, a sociedade procura tomar medidas cada vez mais severas, obrigando as pessoas contaminadas a tomar medicamentos ou então encarcerando-as, como foi o caso da “Typhoid Mary”, uma cozinheira de Nova York portadora do bacilo, que foi presa em 1907, e assim mantida a maior parte da vida.

Se os casos de tuberculose continuarem a aumentar em Nova York (eram 4 mil em 1994, com uma alta proporção no Harlem), certamente representarão um alto nível de controle social. Isso ainda acontece: todo paciente de Nova York que evita os exames médicos e que se recusa a tomar seus medica mentos corre o risco de ser preso.

Severas medidas de quarentena poderão ser introduzidas para impedir o contágio, em particular nas fronteiras nacionais. As medidas coercitivas enfraquecerão os “direitos individuais do homem” na maneira de tratar os pa cientes, em benefício dós que visam à sobrevivência da comunidade; é exata mente essa a atitude que procuramos estimular.

Entre as numerosas vantagens que a tuberculose apresenta como ferra menta para diminuir a população, podem-se mencionar as seguintes:

• A tuberculose, mesmo em suas novas e mais resistentes formas, parece ter perdido aquela imagem terrível que apresentava. Apesar de ter sido um dia responsável por uma entre sete mortes na Europa, hoje está associada, no espírito das pessoas, às heroínas das óperas do século XIX que morriam nas águas-furtadas.

• Os especialistas em saúde estimam que serão necessários 100 milhões de dólares por ano para combater, de maneira efetiva, a tuberculose no mundo todo. No momento, os fundos internacionais dedicados à erradicação e ao tratamento da doença não passam de 16 milhões de dólares.

• A BCG é ainda hoje uma vacina eficaz para aproximadamente dois terços de crianças do hemisfério em que é administrada; mas as campanhas na África, contudo, demonstraram que lá essa vacina não con fere nenhuma proteção, provavelmente porque os indivíduos afetados sejam portadores de outras bactérias que não existem no hemisfério Norte. O que significa que o hemisfério Sul não dispõe de nenhum tratamento preventivo da doença.

• No hemisfério Norte, muitos sanatórios e clínicas foram desativados na década de 1970, porque se acreditava que a tuberculose era uma doença do passado. No Sul, as pessoas que recebiam um tratamento contra a tuberculose interrompiam-no freqüentemente quando se sentiam melhor; isso fez com que esses pacientes contaminassem outras pessoas, o que contribuiu para aumentar a resistência ao bacilo.

• O diagnóstico é lento: os testes de laboratório podem levar um mês para identificar a tuberculose normal, e dois meses para as classes mais resistentes aos antibióticos. Mas, enquanto isso, o doente já transmitiu sua infecção.

• A doença, especialmente em suas formas mais patogênicas, apresenta uma afinidade particular com as populações indesejáveis: os portadores do vírus HIV são extremamente suscetíveis, e a tuberculose tornou-se a principal causa das mortes ligadas à AIDS. Na antiga União Soviética, ela prolifera nos presídios e entre os antigos detentos. As populações de baixa renda de Nova York e de Londres apresentam uma taxa significativamente elevada de casos de tuberculose. Os refugiados são pessoas de alto risco, pois estando em constante desloca mento, mesmo que o diagnóstico seja corretamente determinado, eles não podem seguir um tratamento completo.

• O tratamento é caro. Segundo a OMS, o preço do tratamento de um paciente de tuberculose em ambulatório é de aproximadamente 2 mil dólares, enquanto um tratamento moderno contra uma classe particularmente resistente pode atingir a soma astronômica de 250 mil dólares. A identificação dos pacientes (aidéticos, prisioneiros, moradores de rua) deverá, é bem provável, desestimular a sociedade a investir por muito tempo somas como essas.

Paradoxalmente, a OMS afirma que, pelo menos no Terceiro Mundo, os tuberculosos poderiam ser curados gastando apenas 13 dólares em medica mentos. Mas, nesses países, destina-se menos de 0,2% de todas as despesas com saúde ao tratamento da tuberculose, apesar de essa doença ser, muitas vezes, a causa principal de mortes. Somente a insignificante parte de 0,4% de ajuda estrangeira ao Terceiro Mundo vai para o tratamento da tuberculose. Em dezenas de países pobres, a OMS constata também “uma interrupção no fornecimento de medicamentos anti-tuberculose. Isso representa um meio seguro para se provocar a disseminação de classes multirresistentes do bacilo”.

Visto que todos esses fatores apontam para uma infecção cada vez maior, vemos na tuberculose uma aliada preciosa para todas as ERPs. Os recursos para a pesquisa sobre a tuberculose e as ações lançadas contra ela são lamentáveis; e, além disso, quanto mais negligenciamos essa epidemia, mais ela se tornará difícil e custosa de tratar. As mortes atribuídas à tuberculose aumentaram em 13% no mundo apenas entre 1994 e 1995. As infecções aumentaram por causa do vírus HIV e as sinergias descritas acima manterão ou aumentarão, é bem provável, essa taxa de crescimento.

 

۩  Malária

 

Duas doenças dividem o segundo lugar de mortalidade no Terceiro Mundo: a AIDS e a malária. Essa última é também uma doença epidêmica antiga. Da mesma forma que a tuberculose, ela desenvolveu classes particularmente perigosas e muito resistentes aos medicamentos. A utilização em massa de DDT e outros inseticidas poderosos resultou no aparecimento de mosquitos anófeles ultra-resistentes, cuja picada transmite os quatro tipos de plasmódios, parasitas que contaminam entre 300 e 500 milhões de pessoas por ano e matam em torno de 3 milhões. Mais uma vez da mesma forma que a tuberculose, a baixa muito visível do número de casos no início criou um falso sentimento de segurança na década de 1970. O número de portadores de plasmódios tinha caído para 4 ou 5 milhões no mundo inteiro, e nossa negligência permitiu aos parasitas levar vantagem.

No início da década de 1990, equipes médicas vietnamitas depararam- se pela primeira vez com classes de malária resistentes a todas as terapias conhecidas. Depois o mesmo fenômeno se reproduziu em certas partes do Gabão e do Quênia. Essas classes resistentes ganham terreno em outros lugares da África, na índia e na América Latina, e, devido ao aquecimento global, aumentou o número de zonas propícias à malária. Quarenta por cento da população mundial vive hoje em zonas de alto risco.

As pulverizações não são mais possíveis e, atualmente, qualquer programa sério de controle e ação prática deveria ser universal e coordenado pela OMS, além de generosamente financiado. Numerosos fatores concorrem no caso da tuberculose, tornando, por isso, a doença útil na qualidade de inibidora da população, com a vantagem suplementar de que ela atinge surpreendente menos os ocidentais do que os habitantes dos trópicos. Segundo o nosso objetivo, contudo, a redução ou a supressão dos financiamentos é pratica mente tudo de que necessitamos, pois muitas opções terapêuticas encontram-se já bloqueadas em muitos lugares.

Ë fato conhecido que os laboratórios farmacêuticos não têm nenhuma vontade de investir em pesquisas para os medicamentos destinados às regiões em que predomina a pobreza. Além disso, os novos tratamentos contra as malárias têm a tendência de se tornar rapidamente inoperantes: a eficácia daquele que era considerado o melhor durou apenas três anos. A mefloquina, medicamento preventivo, apresenta efeitos colaterais debilitantes graves e, além disso, novas drogas estimulam a resistência. A pesquisa se concentra atualmente nos óxidos nítricos e nos coquetéis de antibióticos.

Um produto chinês de ervas à base de absinto e amargoseira*, uma árvore indiana, parece apresentar interessantes propriedades contra a malária, mas os medicamentos à base de plantas não recebem bons financiamentos pois não podem ser patenteados e não dão lucro. Um médico colombiano utilizou uma vacina que seria, segundo ele, eficaz entre 36% e 55% dos casos, mas ele deu a fórmula e o direitos legais de exploração à OMS em vez de os vender para um laboratório, e eles não serão utilizados a menos que haja um financiamento público.

O único remédio quase permanente poderia, provavelmente, ser encon trado nas diversas formas de controle ambiental (como a introdução de peixes e outros predadores naturais que se alimentam de mosquitos e de larvas**), mas essas pesquisas ainda são rudimentares. As perspectivas atuais para controlar e erradicar a malária parecem fadadas ao fracasso.

Do jeito que as coisas estão, afora deixar a natureza seguir seu curso, recomendamos insistir nos perigos das viagens. A fronteira entre a Tailândia e a Birmânia, por exemplo, está hoje interditada aos ocidentais, pois é o epicentro de uma classe resistente de malária que já se difundiu até o norte da Tailândia e ocupa uma grande parte do Camboja e da Birmânia. Para que a epidemia se propague mais rapidamente, seria suficiente desfazer os campos de refugiados: o plasmódio retomaria o seu curso. O próprio mosquito não tem nenhuma necessidade de viajar; a corrente de transmissão é constituída pelos seres humanos que contaminaram parasitas resistentes e que são picados de novo.

Os soldados norte-americanos deveriam ficar fora das zonas infectadas pela malária. Toda vez que um recruta é contaminado, o exército americano aumenta o financiamento à pesquisa da malária. Sem o interesse dos americanos, esse financiamento seria ainda menor do que é, e o progresso em direção às eventuais terapias seria retardado consideravelmente.

 

۩  Doenças “exóticas”

 

Quais são as perspectivas em relação às doenças “exóticas”? Há poucos anos, um punhado de epidemias isoladas, sintomas terríveis e jornalistas de talento transformaram obscuras patologias como o Ebola em símbolos do horror. Como ERI pouco se pode esperar desses vírus de “zonas quentes”, que atuam como filovírus (de vetores desconhecidos, talvez morcegos ou macacos: Ebola, Marburgo, Reston), arenavírus (disseminados por roedores: machupo, coriomeningite, febre hemorrágica, febre de Lassa) ou como buniavírus (disseminados pelo carrapato: congo-crimeano e a síndrome das febres hemorrágicas renais). Precisamente por causa de seu lado dramático, essas doenças foram rigorosamente controladas e rapidamente restringidas, pelo menos até agora.

Práticas culturais que não existem no Ocidente favorecem o contágio. Na maior parte das sociedades africanas, o contato físico com a pessoa falecida é comum, e o ritual de purificação dos cadáveres compreende não apenas a lavagem, mas também a retirada da urina e das matérias fecais, método que praticamente assegura a transmissão dos vírus à família e a todos os envolvi dos no ritual. Não eliminamos a possibilidade de que um vírus como esse possa entrar em um avião com destino a Nova York ou Paris, mas não consideramos que essas doenças tenham a capacidade de provocar mortes em massa. O vírus Ebola, tão temido, por exemplo, é extremamente sensível aos raios ultravioleta. Naturalmente, se esses vírus exóticos se propagassem muito para mudar rapidamente, as conseqüências seriam imprevisíveis.

Entretanto, o deslocamento de uma doença contagiosa terrível e excepcional pode, de certa forma, favorecer a mortalidade além das capacidades físicas do vírus a ser destruído. Devido a uma longa experiência, e por boas razões, os ocidentais acreditam na abnegação e no profissionalismo de seus médicos e enfermeiros, e têm a tendência de supor que seja assim em toda parte. Deveriam refletir melhor.

Quando, em 1994, uma peste (a Ye pestis) atingiu Surat, no oeste da Índia, três quartos dos médicos fugiram da cidade, e somente uma parte da equipe médica hospitalar se apresentou. Pacientes atingidos pela peste (por volta de 100) iam ao hospital local e, vendo que não se podia fazer nada por eles, decidiam que seria melhor retornar para suas casas, difundindo assim ainda mais a doença. O exército teve de intervir para obrigar os doentes a permanecerem no hospital a fim de limitar o contágio. O comporta mento do corpo médico pode assim, em alguns casos, contribuir de fato para a disseminação de uma doença.

 

۩  As vias clássica

 

Pode-se aumentar a mortalidade infantil pelo aleitamento na mamadeira. No Terceiro Mundo, os substitutos do leite materno garantem que uma grande quantidade de bebês nutridos dessa forma não tenha uma ração conveniente (produto muito caro) e bebam água impura a partir de mamadeiras e bicos que não foram esterilizados.

Doenças respiratórias transmitidas pelo ar, como as pneumonias de alta resistência a antibióticos, estão de volta; da mesma maneira que o sarampo (1 milhão de mortes por ano) e a coqueluche (300 mil). Com todos os vírus de mutação rápida que nos circundam, não se pode eliminar a possibilidade de uma nova epidemia de gripe espanhola (na realidade vinda da Ásia); em 1917-1918, ela causou 25 milhões de vítimas, três vezes mais do que a carnificina da Primeira Grande Guerra.

Entre as doenças transmissíveis pela água, a diarréia é a mais comum e aquela com que mais se pode contar. Na ausência de hidratação por via oral, ela pode provocar a morte de um bebê em poucas horas e causar anualmente, em média, 2,5 milhões de vítimas entre as crianças e mais de meio milhão entre os adultos. Oitenta milhões de pessoas vivem atualmente sob a ameaça do cólera, endêmico em vários países.

Algumas doenças estão reaparecendo rapidamente, como a lepra e o ver me da Guiné. A OMS estima poder erradicar a poliomielite até 2005, se bem que as guerras, as vacinas de má qualidade e a escassez de câmeras frias para armazenagem possam impedir o cumprimento dessa meta. Conta-se ainda com 100 mil casos de poliomielite por ano.

Esses sucessos pequenos e parciais podem ser frustrados facilmente pela intensificação dos conflitos e pela superpopulação. Todos os conflitos locais são bons para a ERP, pois eles só complicam as operações cotidianas dos serviços de saúde pública, tornando suas intervenções mais aleatórias e perigosas. Quaisquer que sejam as medidas que transformem áreas substanciais do planeta em terras de ninguém, elas favorecem obrigatoriamente a mortalidade.

A violência na Argélia chegou a fechar ambulatórios e tornou problemáticas medidas de saúde pública como a vacinação. A mortalidade infantil aumentou nesses países pela primeira vez após 20 anos de constante redução. O inferno em que se transformou a região dos lagos africanos, com seus numerosos refugiados e as conseqüências dos massacres devido à guerra na Ruanda, é um bom exemplo: vê-se como a violência e o caos se constituem nos melhores veículos de doenças, como a rubéola e a malária. Jogavam-se inúmeros cadáveres no lago Kivu, de cuja água a população local bebeu, o que resultou em 50 mil vítimas de cólera.

No caso de alguém não acreditar, foi demonstrado cientificamente por um estudo da ONU sobre o hábitat que a “intensidade da exposição” (crianças dormindo juntas ou dividindo o alojamento com animais domésticos como porcos) faz aumentar o aparecimento das doenças em proporção bem superior ao que se poderia atingir simplesmente por causa de péssimas condições de higiene. Esse fator de intensidade funciona para a tuberculose, para o sarampo, para a coqueluche e para a diarréia, todas doenças que se propagam muito mais rápido e destroem com mais freqüência lares e bairros superpopulosos.

 

۩  AIDS

 

Quaisquer que sejam as múltiplas possibilidades proporcionadas pela tuberculose, pela malária e por doenças exóticas ou antigas, será a AIDS, antes que qualquer outra, a mudar a face da humanidade. Embora não seja hoje a principal causa de mortes, a ATDS contribui substancialmente para a taxa de mortalidade, sobretudo no hemisfério Sul. De fato, a síndrome da imunodeficiência adquirida se propaga cada vez menos no Norte. Mais de 90% dos novos casos ocorreram no Terceiro Mundo, e três quartos deles na África.

Quantas pessoas são atingidas pela AIDS? Em junho de 1997, o número oficial de casos relatado pela Organização Mundial da Saúde era de 1,65 milhão, uma cifra insignificante. O programa da ONU dedicado à AIDS avaliou o número de portadores do vírus, em 1996, em 30,6 milhões; estima-se igualmente que 16 mil novas contaminações ocorram diariamente, ou seja 5,8 milhões por ano. Eis um aliado inédito para as ERPs: um au mento anual de 19%, com mais de dois terços na África subsaariana, e 22% na Ásia. Os novos casos estão relacionados principalmente com os jovens entre 15 e 24 anos; 10% são crianças.

Em torno de 12 milhões de pessoas já morreram dessa doença, e quatro quintos delas na África. Mais importante, as cifras da mortalidade avançam a passo de gigante: desde 1997, as mortes devido à AIDS representam um quinto de todas as mortes constatadas depois do início da epidemia. As cifras são um verdadeiro barril de pólvora.

Essas eram cifras. A sociologia da AIDS trabalha também em favor das ERPs. As tomadas de posição oficiais e religiosas em relação à sexualidade continuam a favorecer a difusão dessa síndrome. As administrações públicas, com o seu recato, recusam-se a reconhecer que fenômenos amplamente difundidos como a homossexualidade, as relações sexuais extraconjugais, a prostituição, os comportamentos de risco e a dependência em relação às drogas possam existir na nossa sociedade.

Nos países muçulmanos, na China, no Japão, na Rússia, na Índia ou na África, as reações previsíveis de recusa em massa e a convicção de que “isso não vai acontecer aqui” retardam a tomada de medidas de educação popular e de prevenção. A doença vai ganhando tempo de se enraizar solidamente.

Os religiosos muçulmanos proclamam que os valores do islamismo protegerão os fiéis, e que aqueles que pegam a doença são os que a merecem. Segundo uma parte do clero, é necessário evitar essas pessoas. Um mufti de Dubai cita uma opinião do Profeta sobre as doenças contagiosas: “mantém- te distante daqueles como mantens distância de um leão”, e opinou que “as pessoas infectadas por esse vírus (com exceção daquelas que foram contaminadas sem ter culpa) são os revoltados contra Deus e contra o Profeta, e estão sendo punidas por seus pecados. É necessário então evitá-las a todo custo”.

Como o clero católico, o clero muçulmano não pode estimular o uso de preservativos, pois isso significa, segundo ele, encorajar a promiscuidade sexual. Segundo um outro erudito islâmico: “Os doentes da ATDS não são curados e não têm nenhuma utilidade para a sociedade, senão para difundir essa monstruosa doença. Deveriam ser postos em vilas separadas, como aquelas destinadas aos leprosos”.

A prevenção é negligenciada, seja por causa da “síndrome da negação”, seja simplesmente porque os governos, já muito endividados, não têm re cursos para dedicar às campanhas de informação. Quanto aos tratamentos, o custo da assistência para um paciente africano é igual ao preço de custo de um ano escolar para dez crianças no primário. No Zimbábue, onde talvez haja 900 pessoas morrendo de AIDS a cada semana, o governo suprimiu tratamentos caros como as hemodiálises, para não esbanjar o escasso dinheiro com os moribundos.

Os elementos culturais individuais, sobretudo as atitudes machistas, funcionam assim em favor do vírus. Na África, os homens desprezam o preservativo, citam com freqüência o provérbio que diz que “não se toma banho com capa de chuva”. Na África francesa, o acrônimo SIDA tornou-se “síndrome imaginária para desencorajar o amor”, uma invenção dos “brancos” para conter a sexualidade africana.

Em outros lugares, em particular no campo, as origens virais ou simples mente físicas do vírus não são necessariamente reconhecidas: algumas vezes é transmitido pelas “pessoas da noite” ou “feiticeiras”, e poderia ser evitado observando-se certos rituais e costumes. A idéia da necessidade de uma mudança de comportamento sexual está longe de ser universal na África ou no resto do Terceiro Mundo.

Em numerosas sociedades, as mulheres dependem freqüentemente dos homens para os servir e não exercem nenhum controle sobre os companheiros sexuais, nem mesmo o marido, que exigem uma relação sexual sem proteção, mesmo que eles freqüentem, por outro lado, prostíbulos. A maior parte das mulheres doentes, nas sociedades árabes, foi contaminada pelo marido. Em casos mais extremos, mulheres podem ser obrigadas a recorrer à prostituição para sobreviver. As prostitutas são evidentemente as pessoas mais expostas, na medida em que não estão sempre em posição de recusar uma relação que não seja segura. As rotas africanas de caminhões são famosas por constituir um terreno de disseminação do vírus desde meados da década de 1980.

Há apenas alguns anos, relatou-se pela primeira vez a aparição do vírus da AIDS na Índia; esse país tem hoje mais casos (mais de 3 milhões) do que qualquer outro. Essa cifra pode parecer insignificante, em um universo de um bilhão de habitantes, mas os especialistas prevêem que haverá mais de 10, se não 20, talvez até mesmo 50 milhões de pessoas contaminadas no início do século XXI, quando a Índia se tornará o centro mundial da síndrome.

Parte desse crédito é devido aos seus 5 milhões de motoristas de caminhão (com uma média de 150 a 200 relações sexuais com companheiras diferentes por ano) e a 10 milhões de prostitutas. Delas, 100 mil trabalham “engaioladas” nos afamados bairros da luz vermelha na Falkland Road, em Bombaim. Mais da metade delas portam o vírus HIV. Mais uma vez a epidemia começa a penetrar nos lares e a atingir as mulheres que afirmam ter tido relação sexual apenas com o marido.

Em cada país, mais ou menos a longo prazo, e qualquer que seja a forma pela qual a epidemia tenha sido importada, ela acaba sempre se concentrando nos grupos mais marginais e desordenados da sociedade. No Brasil, onde ela começou com usuários de cocaína, e com as trocas de casais entre pessoas da alta sociedade, hoje ela atinge as favelas. Na África, as elites também foram as primeiras a ser contaminadas, mas a doença está diminuindo de classe. Não é mais entre os ricos homossexuais que são encontradas as novas vítimas da AIDS nos Estados Unidos, mas nos bairros miseráveis das gran des cidades.

Dessa forma, a AIDS é uma ERP ideal: satisfaz os desejos de punição aos “picadores” e a sociedade se livra desse lixo. Um intelectual indiano declarou a um jornalista ocidental que conduzia uma pesquisa sobre esse assunto em Bombaim que a AJDS seria benéfica para o país pois ela iria “despovoar sua vasta subclasse”. Essa mentalidade, que não convém aos nossos objetivos, talvez se enquadre melhor em outros contextos como no da Índia e seu pesado sistema de castas. Em todos os lugares as vítimas da doença têm de escutar: “foram eles que a procuraram”; e, em toda a parte, elas são sempre mais numerosos nas classes mais baixas da sociedade.

De todas as doenças mortais, a AIDS é uma daquelas que mais beneficiou os fundos de pesquisa mais importantes, em grande parte devido às pressões que os primeiros e bem organizados pacientes norte-americanos exerceram sobre o governo federal. Foi assim que o orçamento para a pesquisa da AIDS passou de zero, em 1982, para 14 milhões de dólares, em 1996. Milhares de cientistas estudam o HIV e suas síndromes associadas; fala-se cada vez mais de possibilidades de cura, ou de meios de se controlar o vírus, desde que os pacientes sigam um regime estrito.

Mas a que preço? Nos Estados Unidos, um ano de tratamento em terapia custa de 10 mil a 15 mil dólares, e os portadores do vírus que não possuem seguridade social não podem pagar. Os fabricantes de medicamentos (Merck, Abbott, Roche, Glaxo-Wellcome) ressaltam que essas terapias custam muito menos do que a assistência a pacientes que estão morrendo de AIDS. É verdade: um ano de internação hospitalar nos Estados Unidos para tais pacientes custa, segundo se estima, no mínimo 60 mil dólares.

O tratamento estará totalmente fora de condições para praticamente to dos os pacientes do Terceiro Mundo. O orçamento nacional indiano de luta contra a AIDS conta com a soma insignificante de 20 milhões de dólares, ou seja, 2 centavos por habitante. Quanto à campanha contra as relações sexuais não protegidas, o custo representará, mais uma vez, um papel determinante. A OMS estimou que a aquisição de preservativos poderia custar, para o decênio 1995-2005, 1,3 bilhão de dólares para as agências do Terceiro Mundo. Estas estão bem longe de dispor de tais somas.

Durante essa época, por razões éticas, muitos moralistas se opuseram a testar qualquer vacina ou tratamento em grande escala, alegando que certos participantes receberiam placebos. Precisamente porque a epidemia é tão densa na África subsaariana, os pesquisadores puderam estudar muitos indivíduos e obter resultados bem mais rapidamente do que nos países desenvolvidos. Eles poderiam também testar os efeitos de diferentes remédios em pacientes chamados de ingênuos , ou seja, que não tivessem nunca recebi do tratamento nem desenvolvido resistência aos medicamentos.

Os moralistas também afirmam que os pobres não podem mesmo se beneficiar das drogas que estes se arriscam para testar. Assim que esses experimentos fossem concluídos, suas provisões de medicamentos seriam corta das a menos que pagassem o preço de mercado, de forma que os testes não deveriam ser feitos em tais populações. A menos que se estabelecesse um protocolo clínico conveniente para os ocidentais, seria imoral, eles dizem, aplicar esses testes às pessoas do Terceiro Mundo.

De acordo com os nossos objetivos, os experimentos mais meticulosos e mais duradouros permitirão à AIDS se propagar ainda mais. Nisso estamos de acordo com os moralistas. O vírus se desenvolverá não entre os que toma ram o placebo, mas entre os que, ao contrário, receberem a terapia efetiva. Para se colocar um medicamento novo contra a AIDS no mercado, é preciso investir em torno de 500 milhões de dólares.

Quanto à contaminação das populações indesejáveis dos países mais ricos, as agulhas contaminadas parecem ser o método mais rápido e mais eficaz. Os Estados Unidos contam entre 1 e 2 milhões de usuários de drogas injetáveis, poucos dos quais poderiam dispor de agulhas esterilizadas. Ape nas em Nova York, existem 200 mil viciados, e a metade deles foi considera da soropositiva, em 1995. Um estudo realizado em uma cidade da Ucrânia mostrou que a taxa de contaminação entre os viciados em drogas injetáveis aumentou de 5% para 60% em apenas um ano.

Os políticos se recusam a financiar programas de fornecimento de seringas esterilizadas com medo de que as campanhas da televisão mostrem um dependente de heroína administrando uma dose, enquanto uma voz diz: “Veja para onde vai o dinheiro dos seus impostos”. Em toda parte onde os programas de troca de seringas foram realizados, como na Grã-Bretanha, nos Países Baixos e mesmo em Katmandu, a contaminação entre os viciados em drogas se estabilizou incontestavelmente.

Acreditamos que a AIDS será um fator determinante para a ERI e representará também um abandono de uma concepção biopolítica em favor de outra: não se procurará tanto assegurar o bem-estar de uma dada população quanto se livrar de uma subclasse de contaminados. Não será preciso que nos preocupemos com os indivíduos que compõem essa subclasse, pois a própria sexualidade deles os condenará à morte da maneira menos custosa.

Na medida em que a doença se move inexoravelmente em direção à baixa escala social, os “biopolíticos” tomam consciência de que financiar progra mas para cuidar da escória da humanidade garantir-lhes-á poucos votos. A compaixão pelo lixo pode ser uma virtude, como, por exemplo, para Madre Teresa, mas não passa de uma virtude heróica. Felizmente, poucos políticos são heróis.

O Mercado da Fome: as Verdadeiras Razões da Fome no Mundo

Susan George

Detalhes e preço deste livro

O Relatório Lugano

Susan George

Detalhes e preço deste livro

Principal - Leonildoc - OCW Br@sil - Direito-USP