A Desordem

Zbigniew Brzezinski   -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993

Os Estados Unidos estão confundindo vaidade nacional com liderança moral, argumenta o autor. Cientista político e chefe do Conselho de Segurança na Presidência Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski explora caminhos para os EUA reencontrarem o seu domínio.

O século XX nasceu em meio à esperança. O sentimento que predominava nas grandes capitais no dia 1 de janeiro de 1900 era, para a maioria, o otimismo. A estrutura de poder mundial afigurava-se estável, os impérios existentes pareciam cada vez mais esclarecidos e seguros. Alguns, como o austro-húngaro, até poderiam ser descritos como exemplo de moderação e coabitação étnica. As capitais mais importantes - quer se falasse de Londres, Paris e Berlim, quer de Viena e São Petersburgo - começavam a usufruir os benefícios da revolução industrial e, simultaneamente, prosperavam como centros culturais. Florescia a arte, a arquitetura e a literatura, e suas correntes inovadoras inspiravam uma auspiciosa criatividade.

A democracia - inclusive a social-democracia - também começava a fazer discretas incursões nas estruturas autoritárias tradicionais da época, porém sem efeitos visivelmente perturbadores. A desigualdade social, embora generalizada, ainda parecia ser algo natural.

O nacionalismo fortalecia-se, mas ainda não predominava. Entre as elites governantes havia um grau considerável de consenso, sem falar dos laços de sangue que uniam os monarcas reinantes. A fé crescente na revolução científica gerava otimismo quanto às futuras condições da humanidade. A chegada do século XX foi saudada por muitos como o verdadeiro início da Idade da Razão.

E a razão, expressa por meio da ciência, de fato ajudava a transformar o mundo para melhor. O século XX experimentou avanços científicos sem precedentes nas áreas mais diretamente importantes para os aspectos físicos do ser humano: medicina, nutrição, comunicações modernas. A expectativa de vida das pessoas aumentou de 30% a 50% em várias partes do mundo. Inovações nos métodos cirúrgicos e nos tratamentos médicos em geral, bem como a chegada ao espaço cósmico, redefiniram em grandes linhas as fronteiras da vida humana. Mas esse progresso, infelizmente, não encontrou paralelo no nível moral - e a política constitui o grande fracasso.

Contrariando as expectativas, o século XX veio a tornar-se o mais sangrento, o mais virulento de todos os séculos, marcado pela política alucinante e por monstruosas chacinas. A crueldade foi institucionalizada em um nível sem precedentes, a letalidade passou a ser organizada em escala de produção em massa. O contraste entre o potencial científico para o bem e a perversidade política efetivamente desencadeada é chocante. Nunca antes, na História, a matança fora difundida em grau tão elevado, jamais ela consumira tantas vidas; em época alguma a aniquilação de seres humanos fora alvo de tamanha concentração de esforços persistentes, em nome de objetivos tão arrogantemente irracionais.

É verdade que houve na História outros períodos de formidável violência. Na Idade Média, com uma população mundial muito menor, a Grande Horda que assolou a Europa Central e o Oriente Médio produziu, em escala relativa, mortalidade talvez maior. Contudo, essa e outras explosões de violência semelhantes foram apenas surtos. Em raras ocasiões as matanças constituíram objeto de uma política constante, baseada em premeditação sistemática. Esta última representa a medonha contribuição do século XX à história política.

Na década que encerra o século XX, a posição dos Estados Unidos no cenário mundial é paradoxal. Por um lado, pousado no topo do mundo, o país não encontra rivais à altura de seu abrangente poderio global. Por outro, a dinâmica da mudança social e o conteúdo de valor da mensagem americana para o mundo ameaçam solapar o papel especial dos Estados Unidos como líder mundial.

Hoje em dia, nenhum outro Estado chega sequer perto de equiparar-se aos Estados Unidos em prestígio e poder global. A Rússia ainda conta com o arsenal nuclear de uma superpotência, mas não tem capacidade para projetar suas forças pelo planeta, e seu grande Exército convencional encontra-se desmoralizado e em processo de desintegração. Em outros aspectos, o poder russo é absolutamente deficiente. A Alemanha e o Japão detêm poder econômico, mas não está claro se existe a possibilidade de em pouco tempo traduzirem esse poder em força político-militar. A Europa unificada poderia fazê-lo apenas se um grande salto à frente no processo da unificação européia gerasse uma entidade político-militar única.

Em contraste, os Estados Unidos possuem não só um avassalador poder estratégico - constantemente magnificado por inovações tecnológicas - mas também uma capacidade ímpar de projetar suas forças convencionais em regiões distantes. Para o mundo em geral, um dos aspectos mais notáveis do desempenho militar americano na Guerra do Golfo de 1991 foi a maneira como os Estados Unidos foram capazes de mobilizar e manter logisticamente uma força de várias centenas de milhares de homens na remota Península Arábica.

Essa capacidade militar única está sustentada por uma economia que ainda é a maior do mundo e cujo PNB representou aproximadamente 25% a 30% do total mundial durante boa parte do século (exceto os níveis bem mais elevados registrados no decênio que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial). Tal combinação, por sua vez, confere aos Estados Unidos uma influência política de alcance mundial da qual nenhuma outra nação consegue sequer se aproximar.

Na presente fase da História, a ênfase que os americanos dão aos direitos individuais constitui também um dos principais fatores determinantes da posição inigualável dos Estados Unidos. Anteriormente, a Revolução Francesa produzira um impacto galvanizador sobre os vizinhos europeus da França, desencadeando as idéias utópicas que reinaram soberanas na política dos séculos XIX e XX. Hoje, neste mundo que encolheu graças às comunicações modernas, quem empunha as rédeas são os Estados Unidos, com sua liberdade política e sua cultura de massa.

Mas terão os EUA condições de sustentar sua posição especial no longo prazo ? Existirão rivais no horizonte realmente capazes de arrebatar sua posição de liderança ? Em que medida os valores e as realidades americanas contemporâneas são importantes para um mundo altamente diferenciado e que vem passando por uma ampla tomada de consciência política ?

A História nos ensina que uma superpotência não consegue manter por longo tempo seu domínio se não projetar - com uma boa dose de confiança sustentada por uma auto-imagem muito favorável - uma mensagem de relevância mundial. Essa foi a experiência vivenciada por Roma, França e Grã-Bretanha. Porém, a menos que essa mensagem derive de um código moral íntimo que defina um padrão de conduta comum como exemplo para os outros, a auto-imagem favorável da nação dominante pode degenerar e se transformar em vaidade nacional, destituída de atrativo para outros povos.

Ela acabará sendo rejeitada pelos demais - e como exemplo típico disso temos a queda do império soviético. Esse é o motivo por que a dinâmica interna - não só a econômica, mas especialmente a cultural - dos Estados Unidos em nossos dias é tão decisiva para a capacidade do país de influenciar construtivamente a arrancada da mudança global.

Preocupa-me que essa mudança global possa estar fora de controle. Forças postas hoje em ação podem produzir conseqüências drásticas ao ter início o século XXI. A velocidade da nossa História acelerou-se, e sua trajetória é incerta. A História não terminou, mas tornou-se mais condensada. A descontinuidade é a principal realidade de nossa História contemporânea, e isso requer um debate mais intenso acerca do significado de nossa era.

Ademais, nossa capacidade de compreender as ramificações mais amplas do presente - sem falar as do futuro - é dificultada pelo colapso, especialmente nas partes mais avançadas do planeta, de quase todos os valores estabelecidos. As doutrinas totalitaristas caíram em descrédito - o que merece aplausos. Mas o papel da religião na definição de padrões morais também enfraqueceu, enquanto um etos consumista disfarça-se como substituto dos padrões éticos.

São as idéias que mobilizam a ação política e, portanto, que moldam o mundo. Essas idéias podem ser simples ou complexas, boas ou más, bem entendidas ou apenas sentidas instintivamente. Em certas ocasiões, podem ser articuladas por personalidades carismáticas; outras vezes, simplesmente aparecem por toda parte. Estamos na era do despertar político global e, por isso, as idéias políticas tendem a assumir uma importância cada vez maior, quer como fonte de coesão ou confusão intelectual, quer como fonte de consenso ou conflito político.

Tempos atrás, quando a América parecia tão remota, separada por vastos oceanos, a mensagem de liberdade dos americanos representava com muita clareza a percepção que o mundo tinha dos Estados Unidos. Quando o mundo começou a encolher mas simultaneamente passou a ser ameaçado pelo desafio totalitarista, a defesa da liberdade caracterizou os Estados Unidos para boa parte dos demais países.

Agora, repelido o desafio totalitarista e com o planeta tornado pequeno a ponto de permitir a visão instantânea, a comunidade imediata e a intimidade crescente, é a realidade da vida americana e os verdadeiros valores de sua sociedade que passam cada vez mais a definir os Estados Unidos para o mundo. E a percepção clara da sociedade americana como ela realmente é, e não em sua forma idealizada, tende a gerar reações cada vez mais ambivalentes.

A liderança globl dos Estados Unidos e especialmente sua autoridade estão fadadas à dependência crescente em relação ao que verdadeiramente acontece dentro do país - como a economia lida com o desafio dos concorrentes estrangeiros, como a nação define na prática e em seus valores o significado de seu alto padrão de vida, como reage ante os dilemas concretos do mundo politicamente consciente e pós-utópico. A resposta americana pode servir como elo entre os anseios das massas recém-mobilizadas - no que se costumava denominar Terceiro Mundo e também no ex-bloco soviético - e a opulenta cultura dos vitoriosos no pós-Guerra Fria.

Mas a importância que a mensagem política do ocidente tem para o mundo poderia ser anulada pela tendência crescente, nos países avançados, de infundir na democracia liberal um estilo de vida que eu definiria como cornucópia permissiva. A prioridade dada à auto-satisfação, combinada à crescente capacidade do ser humano para dar a si mesmo uma nova forma recorrendo à genética e a outras formas de auto-reforma científica - nenhuma destas sujeita a restrições morais -, tende a criar uma situação na qual se exerce pouco autocontrole sobre a dinâmica do desejo de consumir e de alterar a si mesmo.

Em contraste, fora do rico ocidente, boa parte da vida humana continua dominada por preocupações fundamentais com a sobrevivência, e não com o consumo conspícuo. Essas tendências divergentes solapam e tolhem o consenso global, intensificando os perigos inerentes a um aumento da divisão entre os povos.

Os Estados Unidos hoje deparam com uma série de desafios tangíveis e intangíveis. Sua resposta aos desafios tangíveis provavelmente será decisiva na definição das relações com seus rivais em poder econômico, especialmente Europa e Japão. A reação aos intangíveis será ainda mais vital para amoldar a sua capacidade mais ampla de exercer uma autoridade global legítima.

A correção de grandes problemas compõe, de fato, a pauta para a renovação dos Estados Unidos e a efetiva reafirmação de sua capacidade para aexercer uma liderança global contínua. Entre esses duros desafios incluem-se o ônus cada vez mais severo da dívida nacional, o déficit na balança comercial, os baixos níveis de poupança e investimento, a falta de competitividade da indústria, baixas taxas de crescimento da produtividade, serviços de saúde inadequados, ensino secundário de má qualidade, deterioração da infra-estrutura social e decadência generalizada das áreas urbanas.

O segundo conjunto de problemas que se apresentam aos Estados Unidos gira em torno dos valores e da cultura da sociedade: uma classe abastada gananciosa que tende a opor-se a uma tributação progressiva; a obsessão parasítica dos americanos pelas questões judiciais, que não encontra rival em parte alguma do mundo; o problema racial e a pobreza que se agravam; a disseminação do crime e da violência; a difusão da cultura das drogas; da desesperança social; a propagação da licenciosidade sexual; a difusão em massa da corrupção moral pelos meios de comunicação visuais; o declínio da consciência cívica; a emergência de um multiculturalismo potencialmente causador de dissensões; o impasse no sistema político; e, por fim, a cada vez mais penetrante sensação de vazio espiritual.

Várias das fraquezas contidas na cornucópia permissiva representam a tendência que potencialmente define a atual cultura americana. Se não for feito um esforço deliberado no sentido de restabelecer a importância vital de alguns critérios morais para que, como um fim em si, seja exercido um autocontrole sobre o desejo de gratificação, a fase de preponderância americana pode não durar muito tempo, apesar da ausência de um substituto manifesto.

A dificuldade dos EUA em exercer uma autoridade global efetiva nesse processo poderia gerar uma intensificação da instabilidade global. No plano geopolítico, isso provavelmente se expressaria no acirramento dos conflitos regionais eurasianos decorrentes do colapso da União Soviética. A proliferação das armas de destruição em massa torna essa perspectiva mais ameaçadora. A crise no mundo pós-comunista, nesse ínterim, poderia agravar-se, arruinando o atrativo mais amplo da democracia e estimulando o reaparecimento da demagogia utopista. Os conflitos entre norte e sul poderiam, nesse caso, piorar também. Com isso, talvez se formasse uma nova coalização das nações mais pobres contra as ricas, liderada, quem sabe, pela China.

A interação entre a aceleração da História dos Estados Unidos, sua crescente capacidade para moldar o mundo, a rápida expansão de seus anseios materiais e a ambigüidade moral da nação está, assim, gerando uma dinâmica de mudança descontrolada, nunca antes experimentada. Os americanos disparam na corrida para o futuro, mas cada vez mais é o ritmo da mudança descontrolada, nunca antes experimentada. Os americanos disparam na corrida para o futuro, mas cada vez mais é o ritmo da mudança, e não sua vontade, que dá forma a esse futuro. O mundo lembra mais um avião com piloto automático cuja velocidade aumenta continuamente, mas que está sem destino definido.

Existem alguns sinais auspiciosos de que, na esteira do fim da Guerra Fria, a humanidade talvez esteja em uma posição melhor para empreender um esforço mais sério no sentido de se organizar como uma comunidade global. Mas permanece o fato de que a capacidade do ser humano de definir para si mesmo uma existência vê-se crescentemente ameaçada pela contradição entre as expectativas de cada um e as condições. Nessa potencial colisão está o perigo de que a política mundial possa escapar ao controle, acarretando grande desordem política e confusão filosófica.

Essa é a razão da necessidade de uma compreensão mais ampla, comum a todas as nações, do propósito da existência política, ou seja, a condição da interdependência humana. Um passo decisivo em direção a essa compreensão requer empenho para definir os limites adequados - em essência, de caráter moral - das aspirações internas e externas. Isso exigirá um esforço consciente para obter o equilíbrio entre a necessidade social e a gratificação pessoal, a pobreza global e a riqueza nacional, a alteração irresponsável do meio ambiente e até do ser humano e o interesse pela preservação do patrimônio natural e da autenticidade do homem.

Esse é o desafio histórico fundamental com que os Estados Unidos agora defrontam nesta era pós-utópica. O ponto de partida para uma resposta eficaz a esse desafio é o reconhecimento de que só a criação de uma sociedade orientada por algum critério comum de autocontrole poderá ajudar a moldar um mundo verdadeiramente detentor das rédeas de seu próprio destino. Apenas mediante esse reconhecimento os Estados Unidos poderão ter a certeza de que serão não as vítimas, mas os senhores da História no alvorecer do século XXI.

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