Hannah Arendt e a banalidade do mal

Dissertação de Mestrado - UFMG - Nádia Souki

Prefácio

Este livro trata do caminho de Hannah Arendt na direção do esclarecimento do fenômeno do mal. Tal como ocorreu com outros autores do nosso século, a reflexão da filósofa tem origem em uma experiência de espanto e de choque.

Em 1943, Hannah Arendt tomou conhecimento da existência dos campos de extermínio. Os anos seguintes, até a publicação de As Origens do Totalitarismo (1951), constituem o primeiro momento do seu empreendimento compreensivo. A obra, um clássico do pensamento político, descreve o macabro funcionamento da máquina totalitária e propõe aproximá-la do mal absoluto ou do mal radical, tal como Kant havia formulado.

O segundo passo deste percurso é o da publicação de Eichmann em Jerusalém – um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963). A novidade do livro reside em que o mal é visto não mais vinculado a algo de absoluto e com raízes profundas, mas, do ponto de vista do seu agente, em sua banalidade. Os crimes cometidos por Eichmann foram monstruosos, sua personalidade era apenas ordinária. Daí a idéia de que o mal nunca é radical, não possui profundidade nem dimensão demoníaca.

A terrível banalidade da figura de Eichmann manifestava-se ainda na total incapacidade de pensar. O pensamento é uma abertura pela qual o mundo se nos afigura e surpreende. Eichmann, ao contrário, recorria, para lidar com as situações, a comportamentos padronizados e se expressava usando clichês e frases feitas.

Foi isto que motivou Hannah Arendt a formular a pergunta que abre A Vida do Espírito, sua última obra, e que orienta o terceiro passo do percurso: "Será possível que o problema do bem e do mal esteja conectado com nossa faculdade de pensar?".

A resposta passa pela desconsideração de todo intelectualismo moral: o pensamento não produz nenhuma sabedoria prática. Mas é possível, adianta Hannah Arendt, localizar na própria estrutura dual do pensar implicações morais. 

Além disso, tomado em sua natureza estritamente crítica, o pensamento tem o poder de liberar o caminho para o juízo, a faculdade com a qual distinguimos o que é certo do que é errado. Neste ponto reside a importância maior deste livro — apontar para o fato de Hannah Arendt ter recolocado o problema central da relação entre teoria e prática.

 

Eduardo Jardim de Moraes

 

Introdução

 

O mal sempre constituiu um desafio à filosofia, chegando, muitas vezes, a ser considerado um enigma; por isso, tem correspondido a um convite a não ser pensado. Mas o fato de ignorá-lo, expurgá-lo do pensamento não o esconjura e nem o retira do universo dos problemas humanos. Por outro lado, é exatamente esse caráter enigmático do mal que pode representar urna provocação para que o pensemos melhor ou de forma diferente.

Para Ricoeur, o que fornece o caráter enigmático ao mal, pelo menos na tradição judaico-cristã do Ocidente, é a nossa tendência de colocar, numa primeira abordagem e num mesmo plano, fenômenos díspares como pecado, sofrimento e morte. De acordo com esse ponto de vista, a nossa proposta, neste trabalho, é dissociar a noção de mal da de pecado, de sofrimento e de morte. Tentaremos abordá-lo dentro da perspectiva da ação que nos conduz a uma abordagem da ética e da política, pois, sendo o mal, nessa perspectiva, sinônimo de violência, combatê-lo, por meio da ação ética e política, é diminuí-lo no mundo.

A experiência política do século XX revelou-nos o surgimento de uma nova modalidade de mal até então desconhecida. A emergência do fenômeno totalitário obrigou-nos a reavaliar a ação humana e a história, na medida em que esta revelou novas figurações do homem, inclusive em algumas de suas formas monstruosas. É, precisamente, no contexto da reflexão sobre a experiência das sociedades totalitárias do nosso século que Hannah Arendt retoma a questão do mal na filosofia.

Segundo a autora, quando tentamos compreender o fenômeno totalitário — que nos impõe essa realidade e que contraria todas as normas que conhecemos — não temos apoio na experiência da tradição. Para ela, essa falta de apoio se deve tanto ao fato de a emergência de tal fenômeno constituir algo novo, que não se ajusta às nossas categorias de pensamento, quanto à constatação de que toda tradição filosófica se recusa a conceber um mal radical.

Acrescenta que até mesmo Kant o recusou. Sobre ele, Hannah Arendt diz que foi "(...) o único filósofo que, pela denominação que lhe deu, ao menos deve ter suspeitado de que esse mal existia; embora logo o racionalizasse no conceito de uma 'perversidade do coração', que podia ser explicada por motivos compreensíveis".

Apesar dessa observação, Hannah Arendt passa a seguir a trilha aberta por Kant, apoiando-se no conceito de mal radical em sua investigação acerca do surgimento dessa nova forma de violência e do seu alastramento e plena realização enquanto realidade política. O fio condutor de seu pensamento é a indagação sobre o mal radical, sobretudo na sua dimensão ética e política. O pano de fundo é o totalitarismo, visto como um paradigma da destruição do político.

Sobre isso, Hannah Arendt diz:

Pode-se dizer que esse mal radical surgiu em relação a um sistema, no qual todos os homens se tornaram supérfluos. Os que manipulam esse sistema acreditam na própria superfluidade tanto quanto na de todos os outros, e os assassinos totalitários são os mais perigosos, porque não se importam se estão vivos ou mortos; se jamais viveram ou se nunca nasceram.

Na sua concepção, o surgimento dessa nova modalidade de mal tem, como meta, não o domínio despótico dos homens, mas sim, um sistema em que todos os homens sejam supérfluos. O primeiro passo essencial no caminho desse domínio total é a destruição da pessoa jurídica do homem. O passo seguinte é a anulação da individualidade e da espontaneidade, de forma que seja eliminada a capacidade humana de iniciar algo novo com seus próprios recursos. O objetivo dessa destruição é a transformação da pessoa humana em coisa.

Tendo em vista nossa preocupação com a atualidade da ocorrência desse tipo de mal, somos obrigados a admitir que este risco sobrevive à queda dos estados totalitários. Nas, sociedades burocráticas modernas, os acontecimentos políticos, sociais e econômicos de toda parte conspiram, silenciosamente, com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos.

Hannah Arendt mostra-nos que o modelo do "cidadão" das sociedades burocráticas modernas é o homem que atua sob ordens, que obedece cegamente e é incapaz de pensar por si mesmo, pois essa supremacia da obediência pressupõe a abolição da espontaneidade do pensamento. E nessa ausência de pensamento, nessa expressão humana opaca, nessa rarefação das consciências aparece a tragédia, batizada por Hannah Arendt de a "banalidade do mal".

O lugar da formulação do problema do qual pretendemos nos ocupar neste trabalho é o livro Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal (1963). A formulação do problema do mal, nessa obra de Hannah Arendt, pareceu-nos profundamente atual e pertinente, além de instigante e motivadora de pesquisas e de novas leituras. O núcleo da nossa investigação é o conceito de banalidade do mal, que pensamos estar revestido de grande importância no quadro da filosofia política, não apenas por sua atualidade, como se disse, mas também por estar ligado a uma preocupação ética.

É interessante observar no exame da obra de Hannah Arendt uma preocupação com o fenômeno do mal norteando toda uma indagação política, que se inicia em Origens do Totalitarismo, passa por Eichmann em Jerusalém para chegar, finalmente, em A Vida do Espírito. Esse fio condutor revela uma continuidade e uma coerência num pensamento que vai sendo ampliado, reformulado e acrescido, sem que se perca de vista o ponto eleito corno fundamental: a indagação sobre o mal no quadro político contemporâneo.

É importante lembrar que, apesar da clareza sobre o âmbito de seu pensamento, Hannah Arendt não se declarava filósofa, mas dizia: "Meu ofício (...) é a teoria política" (1964). Ao final de sua vida, no contexto do seu último trabalho, A Vida do Espírito, quando se volta para a vida contemplativa, Hannah Arendt admitiu seu retorno à filosofia.

Esse "retorno" ocorreu devido a dois fatores. Em primeiro lugar, é curioso observar que, ironicamente, o fenômeno do mal em sua manifestação na esfera política deve ter-lhe recordado os interesses metafísicos da sua juventude. Contudo, no momento em que usou na obra Eichmann em Jerusalém, o subtítulo "a banalidade do mal", ela não pretendeu se referir a nenhuma teoria filosófica.

O conceito foi evocado pelo fato de perceber a extraordinária inabilidade de Eichmann em pensar. Assim, é ao superficial Eichmann, em primeira instância, que nós devemos o fato de Hannah Arendt ter resolvido, ao final da vida, explorar o lado invisível da vida activa, isto é, a vicia do pensamento. Em segundo lugar, está o fato de que, se, inicialmente, ela via uma incompatibilidade entre a filosofia e a política,' esse pensamento foi sendo reformulado ao longo de seu percurso e aparece resolvido, explicitamente, em seus últimos escritos.

No percurso de seu pensamento político, seus principais guias, conforme ela mesma declarou, foram Sócrates, Kant e Jaspers. Sócrates era, para ela, o modelo do puro pensador, talvez o "mais puro pensador do Ocidente".

Quanto a Kant, encantou-se pelo seu pensamento desde a adolescência. Em toda a sua vida, Kant serviu-lhe de mentor e, como dizia freqüentemente, ele parecia ficar atrás de seu ombro, em sua escrivaninha, inspirando-a e advertindo-a alternadamente, como um tipo de daimon socrático. Assim, seu "herói filosófico" foi Kant, e isso se deve principalmente ao fato de ele ter repudiado a doutrina platônico-aristotélica da supremacia do "sábio" sobre o "vulgar". Com isso, a filosofia passa a falar a língua da Cidade, e o problema da Cidade é um problema filosófico. Ao abandonar a hierarquia entre bios politikos e bios téorétikos, Kant faz desaparecer a contradição entre a filosofia e a política.

Karl Jaspers, "o único discípulo que Kant teve"," foi, para Hannah Arendt, o único, também, a perceber a dimensão)política da obra de seu mestre. Nesses dois filósofos, a atividade de pensar exigia a solidão, mas uma solidão que não excluía as demais, pois no centro das obras de Jaspers se encontram noções como as de comunidade, de amizade, de diálogo e de pluralidade.

Movida pela indagação sobre o mal radical, que aparece no final de Origens do Totalitarismo, e pelo desejo ardente de compreender o que, para ela, significava "(...) encarar a realidade sem preconceitos e atenção, e resistir a ela — qualquer que seja", Hannah Arendt quis ver de perto Eichmann, o mal encarnado no julgamento em Jerusalém. Até aí, então, sua expectativa era de se defrontar com um monstro, um perverso ou, no mínimo, um fanático político.

Mas, além de sua expectativa frustrar-se, esse confrontamento revelou um homem desprovido de qualquer grandeza maléfica ou qualquer característica peculiar que o diferenciasse dos demais, a não ser o que ela denominou de um "vazio de pensamento". É exatamente a partir dessa experiência de perplexidade e espanto que se dá o percurso do pensamento arendtiano, da formulação da idéia de banalidade do mal à de vazio de pensamento. É no bojo dessas reflexões que pretendemos acompanhar o pensamento de Hannah Arendt.

Portanto, o objeto deste livro é a indagação acerca do mal no percurso do pensamento político de Hannah Arendt, tendo como centro da questão a idéia de banalidade do mal.

No Capítulo I, intitulado "O Mal Radical como Ponto de partida", tomaremos o conceito kantiano para iniciarmos a reflexão. Inicialmente, pretendemos situar a doutrina do mal radical em seu contexto histórico, realçando a polêmica e a existência que esse conceito suscitou desde a época em que foi formulado até os nossos dias. A seguir, procuraremos fundamentar o conceito em seus pontos principais e tratar da possibilidade da conversão como restabelecimento da lei moral, ferida depois da ocorrência desse tipo de mal. Finalmente, tomaremos o mal radical em sua dimensão política na qual é considerado em sua dinâmica de expansão.

Ao tratarmos de sua expansão, situamos a questão do totalitarismo, da qual passaremos a tratar no Capítulo II, denominado "A Novidade Totalitária". Começaremos discutindo o conceito de novidade no pensamento arendtiano, para podermos tratar do fenômeno totalitário como uma novidade política contemporânea que rompe com um pensamento situado no quadro de referência dado pela tradição. Para ocuparmos dessa novidade, seguiremos a trilha traçada por Hannah Arendt na busca das origens desse fenômeno, que passa pelo anti-semitismo e pelo imperialismo. Finalmente, apoiaremos a reflexão sobre o totalitarismo nos dois pontos fundamentais que o caracterizam: a ideologia e o terror.

No Capítulo III, "A Banalidade do Mal - Uma Invenção Contemporânea", comentaremos, primeiramente, a polêmica e a repercussão suscitada por Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal, bem como o significado de tais reações. Depois, trataremos do "caso Eichmann" e as reflexões desencadeadas com base na forma como esse processo foi conduzido.

Em seguida, refletiremos sobre as teses que Hannah Arendt. rejeitou a propósito do "homem Eichmann" e do espanto que lhe provocou a observação desse homem "em carne e osso". Finalmente, trabalharemos, em seu contexto original, o conceito de "banalidade de mal", propriamente dito, tentando captar seu significado articulando-o com o conceito de mal radical em Kant, até chegarmos ao seu núcleo que aponta para o vazio de pensamento.

No Capítulo IV, "O Vazio de Pensamento", seguiremos os passos de Hannah Arendt em suas reflexões sobre a faculdade do pensar, em A Vida do Espírito. Partiremos da atividade do pensamento, que é cuidadosamente investigada por Hannah Arendt, dentro do universo filosófico, até chegarmos ao que ela denominou "vazio de pensamento", conceito pouco delimitado em si mesmo, mas o tempo todo associado à atividade de pensar.

Concluindo, tentaremos articular os três conceitos essenciais esse percurso de reflexão: o mal radical, a banalidade do mal e o vazio de pensamento. O objetivo dessa articulação final é tentar chegar, primeiramente, ao núcleo essencial de cada um desse conceitos, através de uma análise comparativa entre eles, e, por fim, a uma visão mais ampla do pensamento arendtiano sobre o mal, visão essa que possa nos apontar novas direções para a investigação sobre o mal na filosofia.

(....)

 

Conclusão

Mas ninguém deve cantar vitória antes do tempo: ainda está fecundo o ventre de onde surgiu a coisa imunda. B. Brecht

 

Ao final deste percurso, em que tentamos acompanhar o pensamento arendtiano em seus desdobramentos na investigação acerca da questão do mal na política, queremos destacar alguns pontos deste, antes de passarmos às conclusões específicas. É importante assinalar que a banalidade do mal foi eleita ponto de ancoragem do percurso. Nela nos apoiamos, permitindo-nos, simultaneamente, o deslocamento constante e a volta ao ponto de referência na exploração desse pensamento.

Impressiona a persistente preocupação de Hannah Arendt com o problema do mal no quadro político contemporâneo, desencadeada, ao que parece, já no prenúncio do fenômeno totalitário) A constância desse envolvimento é semelhante a um fio que a conduz e a orienta em sua obra, ao longo de vinte e quatro anos; a fidelidade a essa questão permitiu-lhe avaliar, reformular e ampliar seu pensamento, de forma que nunca perdesse a continuidade e a coerência.

A questão do mal foi explicitada pela primeira vez em 1951, no final de Origens do Totalitarismo, quando ela indagou a respeito do mal extremo que apareceu no final do terror totalitário e questionou a suficiência do conceito kantiano de mal radical, na explicação de tal fenômeno. Doze anos depois, em 1963, retomou o assunto em Eichmann em Jerusalém, quando lançou a idéia de banalidade do mal. Essa idéia, em sua fecundidade, vitalizou sua pergunta original sobre o problema do mal e, ao mesmo tempo, desencadeou uma série de novas e atualizadas colocações sobre a questão. Ao final da recolocação, formulou a idéia de um vazio de pensamento instalado no bojo do problema do fenômeno da banalidade do mal. Com isso, inaugurou uma outra abordagem sobre a questão que, assim situada, foi responsável pelo seu retorno à filosofia.

Nos anos que se seguiram ao julgamento de Eichmann, duas questões, derivadas da idéia de banalidade do mal, passaram a ocupar, obstinadamente, a sua atenção: as atividades de pensar e de julgar. A pergunta que motivou essa preocupação foi a seguinte: será que a atividade de pensar e a de julgar têm algum componente que possa impedir a prática do mal? Essa indagação, que é explorada na primeira parte de A Vida do Espírito, ao ser ampliada, exigiu, em sua continuidade, a investigação sobre o querer e o julgar, que marcou o seu trabalho até 1975, final de sua vida.

Quando Hannah Arendt escreveu Lições sobre a Filosofia de Kant, a idéia que norteou sua investigação foi essa vigorosa reflexão voltada para a elucidação das condições das possibilidades do juízo crítico. A discussão das implicações desse ato de julgar os eventos políticos perpassa e alinhava sua obra do começo ao fim, remetendo-nos ao próprio âmago de sua reflexão: a sua indagação sobre o mal.

Observamos, nitidamente, que o fio que costura o pensamento político de Hannah Arendt é o problema cio mal, recolocado e renovado o tempo todo, mas sempre dentro do contexto de uma preocupação ética e política. Pergunta-se: por que o mal?

Pensamos que o mal foi escolhido por Hannah Arendt porque ele sempre nos remete à referência oposta que é, em seu pensamento, a idéia de liberdade. Hannah Arendt sempre trabalhou, pari passu, o mal e a liberdade.

Para ela, a idéia de liberdade foi inspirada em Santo Agostinho, para quem o initium significa que, para cada homem, há um começo relativo, o nascimento. O conceito de natalidade e a importância do nascimento —fundamentais para Hannah Arendt — fazem com que a natalidade seja a categoria central da política, em contraposição à morte que é a categoria central da metafísica. São, em suma, a natalidade e o initium que permitem a liberdade de criação no inundo das aparências, das coisas novas.

Essa contraposição de idéias, aliás, parece ser uma característica do pensamento arendtiano e se faz notar em diversos momentos de sua obra: totalitarismo versus revolução; quebra da tradição versos brecha entre o passado e futuro; vazio de pensamento versus o pensar. Contudo, não é uma simples contraposição; ela sempre tentou dar uma consistência aos dois lados. No entanto, é nessa característica do pensamento arendtiano que podemos compreender o porquê de ela não chegar a tratar explicitamente de conceitos chaves como o de banalidade do mal ou do vazio de pensamento — as referências cio mal.

Observamos que os temas mais recorrentes em Hannah Arendt não são tratados em sua individualidade e especificidade; ao contrário, ela investiga o seu oposto. Por exemplo, o pensar e o julgar são abordados como os antídotos do mal, aquilo que evitaria a banalidade do mal. Ela inaugura, enuncia, aponta urna idéia, mas não a trabalha explicitamente, de forma a estabelecer seus contornos definidos; ela não as esgota.

No entanto, essa característica, longe de desvalorizar o pensamento arendtiano, confirma a coerência de quem tem, como preocupação primordial, a liberdade de começar, o novo e a experiência inicial do pensamento, que é o espanto, o thaumatzein reforçado na sua concepção de política.

Como sabemos, Hannah Arendt não deixou escola; deixou questões a serem trabalhadas, questões em aberto que permitem a continuidade de suas investigações e, ao mesmo tempo, a inovação, a criação de novas categorias de pensamento.

Foi consistente com essa valorização da inovação a forma como ela sempre recorreu à filosofia de Kant. No percurso do pensamento arendtiano, Kant foi a referência, porque sempre foi ele quem a guiou em sua concepção de política. Principalmente porque nele desaparece a contradição entre filosofia e política. Para Arendt, Kant não concebia a política a partir dos preconceitos tradicionais, pois, para ele, "o filósofo permanece um homem como vocês e eu, vivendo entre seus companheiros e não entre filósofos".

Essa idéia de uma "igualdade" fundamental entre os homens revelou em Kant um estilo de pensamento aberto às preocupações políticas. É por isso que Kant não dissocia suas preocupações filosóficas das questões e preocupações políticas. No entanto, constatamos que Hannah Arendt fez uma leitura muito particular de Kant, na medida em que sua interpretação autonomiza-se em relação ao texto kantiano, tomado por ela mais como ponto de partida para suas próprias reflexões.

Hannah Arendt não faz uma leitura de Kant ao pé da letra, pois não lê Kant em termos de história da filosofia, mas de reapropriação hermenêutica. Essa forma de leitura se justifica na crença arendtiana de que o gesto filosófico, com relação à tradição, não é o de revocar as velhas verdades para, ilusoriamente, solucionar os novos questionamentos, mas sim, de fazer um certo uso do pensamento fundado sobre uma idéia do contato do filósofo com a política. Aqui, é importante lembrar que uma interpretação vale pelo que ela sugere, não pelo que reproduz.

Passemos, então, às conclusões a que chegamos em nossa pesquisa, relativamente ao pensamento arendtiano sobre o mal em seus pontos fundamentais. Observamos que, no que concerne ao mal, há urna nítida aproximação entre o pensamento arendtiano e o kantiano. Além de não haver divergência entre banalidade do mal e mal radical, observam-se convergências importantes no que diz respeito às referências que esses dois pensadores utilizam para se pensar sobre esse problema.

O primeiro ponto de convergência é o da recusa da malignidade no homem. Em ambos, o mal não é abordado como um princípio original no homem, como algo que faz parte de sua natureza sensível. Se assim fosse, o mal seria necessário, e o homem, então, teria uma essência maligna. Ao contrário, o mal é considerado como urna possibilidade humana, uma contingência e, sendo assim, acha-se inscrito na sua liberdade. O bem e o mal são possibilidades humanas radicais, isto é, enraizadas na liberdade do homem, na liberdade radical que é o fundo de sua vida. Por essa razão, a abordagem que ambos fazem do mal não é ontológica, pois não se trata de perguntar sobre a sua essência. Mas o que lhes interessa são as contingências em que aparece o mal: por isso ele é objeto da ética e cia política.

O segundo ponto de convergência diz respeito à referência que se opõe ao mal: a dignidade humana. Em ambos, a dignidade humana é garantida quando o homem é livre, isto é, quando ele é considerado como um fim em si mesmo. Essa garantia é alcançada em Kant através da lei moral, e em Arendt, pela ação, notadamente a ação política. Nos dois pensadores, paralela à idéia de liberdade, encontra-se a de igualdade.

Em ambos, todo ser humano tem um apelo igual à dignidade humana, que se faz em Kant, pelo igualitarismo moral e é aperfeiçoada, em Arendt, pela cidadania isonômica. Liberdade e igualdade são, pois, os pontos de referência comuns para se pensar a dignidade humana. Contudo, em Kant, o homem é pensado, originalmente, em sua moralidade e, em Arendt, em sua ação política.

Finalmente, devemos considerar o ponto no qual divergem esses dois pensamentos. Vimos que Hannah Arendt elegeu o "vazio de pensamento" como sendo o núcleo do problema da "banalidade do mal", o que significa que ela toma, como referência, o vazio, a falta, enfim um negativo, para se pensar o mal. Em Kant, o mal não é apenas uma falta de determinação positiva, mas sobretudo uma afirmação de oposição ao bem, ou à lei moral. Entretanto, esse princípio positivo do qual o mal é portador não tem um estatuto originário, ele não representa uma qualidade de caráter do homem e, por isso, não põe em risco a lei moral.

Para concluir, podemos entender que Hannah Arendt distancia-se de Kant muito mais em razão de sua interpretação contemporânea do problema do mal do que em decorrência de diferenças estruturais entre o pensamento de ambos. Em Hannah Arendt, vimos o interesse pela aparência,' donde se pode inferir que ela faz uma política do fenômeno. Por isso, ao realçar o vazio, aponta para a presença dessa dimensão no mundo contemporâneo — a "era do vazio"6— que se caracteriza por marcas inconfundíveis: a dissolução do espaço político, a diminuição do senso comum (o senso do real), o esvaziamento da tradição e o vazio de pensamento.

Em meio à bruma dessa sociedade de massa esvaziada de valores, Hannah Arendt lança um foco de luz sobre a questão do mal contemporâneo, definindo-o como um tipo de esvaziamento que se produz na ação e no pensamento humanos. É aí, precisamente, que reside o caráter pontual de um pensamento que se preocupa em compreender e desvelar a novidade do nosso tempo.

Estes são os pontos fundamentais que se puderam, aqui, ser descritos. Nossa abordagem certamente não esgotou a questão sobre o mal na obra de Hannah Arendt. Se fomos capazes de identificar as direções que o pensamento arendtiano apontou e a fecundidade de seus caminhos, já atingimos o nosso objetivo, principalmente num momento em que o tema do mal e, sobretudo, o da "banalidade do mal" estão longe de serem questões superadas.

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