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Choque do futuro |
Samuel Huntington -- Veja: Reflexões para o futuro -- 1993
A rota de colisão entre civilizações dominará a política mundial, sustenta o cientista político americano. Seu posto de observação é o Ocidente, que Huntington vê ameaçado num mundo em que governantes, nações-Estados e ideologias foram morrendo.
A política mundial está entrando em uma nova fase, e os intelectuais não hesitam em oferecer uma profusão de visões sobre como ela será - o fim da História, o retorno das tradicionais rivalidades entre nações-Estados, o declínio da nação-Estado decorrente do conflito entre tribalismo e globalismo, entre outras. Cada uma dessas visões capta apenas alguns aspectos da política global nos anos vindouros.
A fonte fundamental de conflito nesse novo mundo não será essencialmente ideológica nem econômica. As grandes divisões na humanidade e a fonte predominante de conflito serão de ordem cultural. As nações-Estados continuarão a ser os agentes mais poderosos nos acontecimentos globais, mas os principais conflitos ocorrerão entre nações e grupos de diferentes civilizações. O choque de civilizações dominará a política global. As linhas de cisão entre as civilizações serão as linhas de batalha do futuro.
O conflito entre civilizações caracterizará a mais recente fase da evolução dos conflitos no mundo moderno. Durante um século e meio após o aparecimento do moderno sistema internacional com a Paz de Vestefália, em 1648, os conflitos do mundo ocidental aconteceram em boa medida entre governantes - imperadores, monarcas absolutistas e monarcas constitucionais - que tentaram expandir seu corpo burocrático, Exército, poderio econômico mercantilista e, acima de tudo, o território sob seu domínio.
Nesse processo, criaram as nações-Estados, e a partir da Revolução Francesa as principais linhas de conflito situaram-se entre nações e não entre governantes. Essa tendência, que marcou todo o século XIX, perdurou até o fim da I Guerra Mundial. Foi então, como resultado da Revolução Russa e da reação contra ela, que o conflito de nações deu lugar ao conflito de ideologias, primeiro entre o comunismo, o nazi-fascismo e a democracia liberal e a seguir entre o comunismo e a democracia liberal, Durante a Guerra Fria, este último conflito incorporou-se à luta entre as duas superpotências; nenhuma delas constituía uma nação-Estado no sentido europeu clássico, e cada qual definia sua identidade em termos da ideologia que professava.
Esses conflitos entre governantes, nações-Estados e ideologias foram essencialmente conflitos ocorridos no seio da civilização ocidental, "guerras civis ocidentais". Com o fim do comunismo, a política internacional passa a ter como foco central a interação entre a civilização ocidental e as não-ocidentais e a interação destas últimas entre si.
Não faz mais sentido classificar os países como sendo do Primeiro, Segundo ou Terceiro Mundo. Mais significativo é agrupá-los não em termos de seus sistemas políticos ou econômicos ou do grau de desenvolvimento de sua economia, mas em função de sua cultura e civilização.
Civilização é o mais amplo agrupamento de pessoas e o mais abrangente nível de identidade cultural que se encontra entre seres humanos, excetuando-se aquele que distingue os homens das outras espécies. Obviamente existe a mescla e a superposição de civilizações, e estas podem ainda conter subcivilizações.
A civilização ocidental apresenta duas variantes principais, a européia e a americana, enquanto o Islã possui as subdivisões árabe, turca e malaia. No entanto, muito embora as linhas entre elas raramente estejam bem definidas, as civilizações são reais. Elas têm apogeu e declínio, dividem-se e fundem-se. E, como é do conhecimento de qualquer estudioso da História, as civilizações desaparecem.
Os ocidentais tendem a considerar as nações-Estados os principais agentes dos acontecimentos globais. Esse papel elas desempenharam por apenas alguns séculos. Os períodos mais abrangentes da História foram marcados pela História das civilizações. Em seu livro "Um Estudo da História", Arnold Toynbee identificou 21 civilizações de porte. Apenas seis delas ainda existem no mundo contemporâneo.
O futuro será moldado em grande medida pelas interações entre sete ou oito civilizações principais: ocidental, confuciana, japonesa, islâmica, hindu, eslava ortodoxa, latino-americana e possivelmente a africana. Os conflitos mais significativos e sangrentos ocorrerão ao longo das fronteiras que separam essas culturas.
Por quê ? Em primeiro lugar porque civilizações diferentes têm concepções diferentes das relações entre Deus e os homens, os cidadãos e o Estado, pais e filhos, liberdade e autoridade, igualdade e hierarquia. Essas diferenças são produto de séculos. Não desaparecerão em pouco tempo. São muito mais elementares do que as diferenças entre ideologias e regimes políticos. Diferenças não significam necessariamente conflito, e o conflito não implica obrigatoriamente violência. Contudo, ao longo dos séculos, foram as diferenças entre civilizações que geraram os conflitos mais violentos e prolongados.
Em segundo lugar, o mundo está ficando menor e a consciência das diferenças entre povos de diferentes civilizações vem aumentando. Por exemplo, os americanos reagem muito mais negativamente a investimentos japoneses do que a investimentos mais vultosos feitos pelo Canadá e por países europeus.
Também as mudanças econômicas e sociais estão separando as pessoas das identidades locais formadas há muito tempo. Em boa parte do mundo, a religião tomou a si a tarefa de preencher esse hiato, com freqüência na forma de movimentos denominados fundamentalistas. Tais movimentos são encontrados no cristianismo ocidental, judaísmo, budismo, hinduísmo e islamismo. A "dessecularização" do mundo, nas palavras de George Weigel, "é um dos fatos sociais dominantes do final do século XX".
Ademais, no momento em que o Ocidente se encontra no auge do poder, ocorre um fenômeno de retorno às raízes entre as civilizações não-ocidentais - a "asianização" no Japão, o fim do legado de Nehru e a "hinduização" da Índia, o colapso das concepções ocidentais de socialismo e nacionalismo, trazendo a "reislamização" do Oriente Médio e, agora, o debate sobre aocidentalização versus "russianização" no país de Boris Ieltsin.
Mais relevante ainda é o fato de que os esforços do Ocidente para promover como valores universais os preceitos da democracia e liberalismo, manter a supremacia militar e impulsionar seus interesses econômicos estão produzindo reações de oposição em outras civilizações.
O eixo central da política mundial no futuro tende a ser o conflito entre "o Ocidente e o Resto" e a reação de civilizações não-ocidentais ao poderio e aos valores do Ocidente. Em um extremo, os Estados não-ocidentais podem, como fizeram a Birmânia e a Coréia do Norte, tentar seguir o caminho do isolamento, impedir em suas sociedades a penetração da "corrupção" ocidental e, na prática, renunciar à participação na comunidade global denominada Ocidente. Mas o custo dessa opção é alto e poucos Estados a adotaram de maneira exclusiva.
Uma segunda alternativa, equivalente ao "oportunismo" na teoria das relações internacionais, consiste em procurar juntar-se ao Ocidente, aceitando seus valores e instituições. A terceira é tentar "contrabalançar" o poderio ocidental mediante o desenvolvimento da economia e do potencial bélico e a cooperação com outras sociedades não-ocidentais contra o Ocidente, preservando simultaneamente os valores e instituições nativos - em suma, modernizar mas não ocidentalizar. O mais notável exemplo de cooperação anti-ocidente é a conexão entre Estados confucianos e islâmicos que estão desafiando os valores e o poderio ocidental.
Dado que as pessoas se diferenciam pela civilização, os países com um número elevado de habitantes de diferentes civilizações, como a antiga URSS e a Iugoslávia, são propensos ao desmembramento. Alguns outros países apresentam um grau considerável de homogeneidade cultural faltando-lhes concordância interna quanto a qual civilização pertence sua sociedade. São países divididos. Seus líderes em geral desejam adotar uma estratégia oportunista e transformar esses países em membros do Ocidente, mas a história, a cultura e as tradições do povo são não-ocidentais. O modelo mais notório de país dividido nesses moldes é a Turquia. No final do século XX os líderes turcos, seguindo a tradição do presidente Atatürk, definiram a Turquia como uma nação-Estado moderna, secular e ocidental. Aliaram-se ao Ocidente na Otan e na Guerra do Golfo, pleiteiam a candidatura da Turquia na Comunidade Européia.
Paralelamente, contudo, elementos da sociedade turca apóiam o revivescimento islâmico e sustentam que a Turquia é uma sociedade basicamente muçulmana e pertencente ao Oriente Médio. Assim, enquanto a elite turca proclama a Turquia uma sociedade ocidental, a elite do Ocidente se recusa a aceitá-la como tal.
O México, na década passada, assumiu uma postura que lembra um pouco a da Turquia, deixando de se definir em oposição aos Estados Unidos, procurando imitar seu vizinho americano e ligar-se a ele através da Associação de Livre Comércio da América do Norte. Os líderes mexicanos estão empenhados na grandiosa tarefa de redefinir a identidade mexicana; implementaram reformas econômicas de base que acabarão acarretando uma mudança política fundamental.
Em 1991, após ouvir os planos do governo de um dos mais chegados assessores do Presidente Carlos Salinas, observei: "Impressionante. Parece que vocês querem transformar o México de um país latino-americano em um país norte-americano". Surpreso, ele retrucou: "Exato. É precisamente o que queremos fazer, mas obviamente não podemos dizê-lo em público".
Características e diferenças de bases culturais são menos mutáveis e, portanto, mais difíceis de conciliar e resolver do que as de bases políticas e econômicas. Na ex-União Soviética, comunistas podem transformar-se em democratas, ricos em pobres e pobres em ricos, mas os russos não podem tornar-se estonianos. Uma pessoa pode ser metade francesa e metade árabe, e até mesmo cidadã de dois países, mas é muito mais difícil ser meio católica e meio muçulmana.
Finalmente, há o fato de que o regionalismo econômico está aumentando; com o seu sucesso, a percepção da civilização será intensificada. Por outro, o regionalismo econômico só pode ter êxito se estiver alicerçado em uma civilização comum. A Comunidade Européia fundamenta-se na base comum da cultura européia e do cristianismo ocidental. O Japão, em contraste, encontra dificuldades para criar uma entidade econômica equivalente na Ásia oriental porque constitui uma sociedade e uma civilização peculiar.
Com o desaparecimento da divisão ideológica na Europa, veio à tona a divisão cultural do continente entre cristianismo ocidental, cristianismo ortodoxo e islamismo. O conflito na linha de cisão entre as entre as civilizações ocidental e islâmica está em ebulição há 1300 anos e não é provável que chegue ao fim. Ele pode tornar-se mais virulento. A Guerra do Golfo gerou em alguns árabes um sentimento de orgulho pelo fato de Saddam Hussein ter atacado Israel e enfrentado o Ocidente e também deixou muitos ressentidos e humilhados com a presença militar de forças ocidentais no Golfo Pérsico, a avassaladora supremacia bélica do Ocidente e a patente incapacidade de seus povos de moldar o próprio destino.
Vários países árabes, além dos que são exportadores de petróleo, estão atingindo níveis de desenvolvimento econômico e social em que as formas autocráticas de governo se tornam inadequadas; com isso, aumenta o empenho pela introdução da democracia. Já surgiram algumas aberturas nos sistemas políticos árabes, das quais os principais beneficiários têm sido os movimentos islâmicos. Em resumo, a democracia ocidental robustece as forças políticas anti-Ocidente. Esse fenômeno pode ser passageiro, porém sem dúvida complica as relações entre os países islâmicos e o Ocidente.
Grupos ou Estados pertencentes a uma civilização que se envolve em uma guerra com outros de civilização diferente têm uma propensão natural a tentar angariar o apoio dos demais membros de sua própria civilização. Cada vez menos capazes de mobilizar ajuda e formar coalizões com base na ideologia, os governos e grupos procurarão, com freqüência sempre maior, consegui-lo mediante o apelo à religião e à civilização que compartilham com outros. A próxima guerra mundial, se houver será uma guerra entre civilizações.
Atualmente, o Ocidente desfruta um extraordinário poder em relação a outras civilizações. A superpotência inimiga desapareceu do mapa, é impensável um conflito militar entre Estados ocidentais, e o poder bélico do Ocidente não encontra paralelo. Excetuando o Japão, não existe desafio econômico para o Ocidente.
Este domina as instituições de política e segurança internacional e, junto com o Japão, as instituições econômicas internacionais. As questões de política e segurança global são efetivamente resolvidas por um diretório formado por Estados Unidos, Grã-Bretanha e França; as de economia mundial, por um conselho composto por Estados Unidos, Alemanha e Japão. Todos esses países mantêm relações notavelmente estreitas uns com os outros, deixando de lado países menos importantes e, em boa medida, não-ocidentais.
Quando o Conselho de Segurança da ONU ou o FMI tomam decisões que refletem os interesses ocidentais, elas são anunciadas ao mundo como resultado das aspirações de toda a comunidade mundial. A própria frase "comunidade mundial" passou a ser o coletivo eufemístico (em substituição a "mundo livre") usado para conferir legitimidade global a ações que promovem os interesses dos Estados Unidos e de outras potências ocidentais. Por intermédio do FMI e de outras instituições econômicas internacionais, o Ocidente defende seus interesses econômicos e impõe a outras nações as políticas econômicas que julga apropriadas.
Em qualquer pesquisa de opinião realizada entre povos não-ocidentais, o FMI sem a menor dúvida teria a aprovação dos ministros das Finanças e de um punhado de outras figuras, mas receberia uma esmagadora classificação negativa por praticamente todo o resto dos entrevistados, que concordariam com a caracterização dos executivos do FMI feita pelo ex-assessor de Mikhail Gorbachev, Georgy Arbatov, hoje assessor de Boris Ieltsin: "Neo-bolcheviques que adoram expropriar o dinheiro dos outros, impor regras não-democráticas e alienígenas de conduta econômica e política e tolher a liberdade econômica".
Em um nível superficial, boa parte da cultura ocidental de fato difundiu-se pelo resto do mundo. Contudo, em suas bases, os conceitos do Ocidente diferem fundamentalmente dos que prevalecem em outras civilizações. As idéias ocidentais de individualismo, liberalismo, constitucionalismo, direitos humanos, igualdade, liberdade, governo pela lei, democracia, livre mercado, separação de Igreja e Estado têm, com freqüência, pouca repercussão nas culturas islâmica, confuciana, japonesa, hindu, budista ou ortodoxa.
Os esforços do Ocidente para propagar essas idéias acabam produzindo uma reação contra o "imperialismo dos direitos humanos" e uma reafirmação dos valores nativos, como se pode ver no apoio que as gerações mais jovens dão ao fundamentalismo religioso em culturas não-ocidentais. A própria noção de que pode existir uma "civilização universal" é ocidental e destoa completamente do particularismo da maioria das sociedades asiáticas, que salientam as distinções entre os povos.
A serem plausíveis essas premissas, seria claramente vantajoso para o Ocidente, a curto prazo, promover maior cooperação e união em sua própria civilização, em especial entre seus componentes europeus e americanos; incorporar ao Ocidente as sociedades da Europa Oriental e da América Latina cujas culturas se aproximam da ocidental; manter relações estreitas com a Rússia e o Japão; dar apoio, em outras civilizações, a grupos que demonstram simpatia e interesse pelos valores ocidentais; fortalecer as instituições internacionais que refletem e conferem legitimidade aos interesses e valores do Ocidente.
É necessário ainda limitar a expansão do poder bélico de civilizações potencialmente hostis, sobretudo a confuciana e a islâmica, bem como explorar as diferenças e os conflitos entre os Estados dessas duas civilizações. Isso requer moderação na redução da capacidade militar ocidental e, em particular, a manutenção da superioridade militar americana no leste e sudoeste da Ásia.
A longo prazo, serão necessárias outras medidas. A civilização ocidental é moderna. As não-ocidentais têm procurado modernizar-se sem se tornar ocidentais. Até hoje, apenas o Japão foi plenamente bem-sucedido nesse objetivo. As civilizações não-ocidentais continuarão a tentar adquirir a riqueza, tecnologia, qualificações, equipamentos e armas que fazem parte dessa modernidade e procurarão conciliá-la com sua cultura e valores tradicionais. Seu poder econômico e bélico aumentará em relação ao do Ocidente.
Em conseqüência, cada vez mais o Ocidente terá de se adaptar a essas civilizações modernas não-ocidentais, que em poder se aproximam do Ocidente mas em valores e interesses diferem substancialmente. Será preciso, então, que o Ocidente desenvolva uma compreensão muito mais profunda dos pressupostos religiosos e filosóficos que formam o alicerce das outras civilizações, bem como das maneiras como as pessoas daquelas civilizações vêem seus próprios interesses. Será necessário, ainda, um esforço para identificar elementos comuns entre a civilização ocidental e as demais. No futuro próximo, não haverá uma civilização universal, mas um mundo de diferentes civilizações, e cada qual precisará aprender a coexistir com outras.